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TRABALHADOR

O direito de propriedade é um direito real, através do qual se atribui a seu titular o poder jurídico direto e imediato sobre a coisa, apresentando eficácia contra todos. O titular da propriedade privada, segundo previsão no art. 1.228 do Código Civil de 2002, “tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente o detenha”.

Contudo, a propriedade privada que outrora era considerada algo inerente à natureza humana, representando condição de existência e liberdade de todo o homem, sem a qual ele não poderia desenvolver plenamente as suas capacidades, não se manteve inflexível diante das injunções históricas.

Ao contrário, o seu estudo jurídico e a sua caracterização tiveram que se adaptar em face de novas exigências impostas pelo meio social, político e econômico, ganhando, desse modo, o lineamento que se conhece hoje. A principal mudança sentida foi quanto ao caráter absoluto e intangível da propriedade privada.

Tomando como referência os paradigmas constitucionais, a propriedade privada, no Estado Liberal141, era determinada pelo seu aspecto nitidamente individualista, dispondo “o proprietário de amplos poderes, com a possibilidade de fazer tudo àquilo (sic) que um mínimo de leis não proíbam” (CARVALHO NETO, 2001, p. 12). A propriedade era considerada como um direito natural do indivíduo em igualdade com as liberdades fundamentais.

Após a 1ª Guerra Mundial, verificou-se a insuficiência desse modelo liberal que causou conseqüências drásticas à sociedade, ou seja, o Estado mínimo que garantia a máxima liberdade aos indivíduos, não foi capaz de superar a enorme crise social e econômica do pós- guerra. Enfim, seria necessária a construção de um novo modelo de Estado, que segundo Menelick de Carvalho Neto (2001) deveria pautar-se:

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Como reflexo desse período, Maria Sylvia Zanella di Pietro (2004, p. 118) cita a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, que proclamava “ser a propriedade direito inviolável e sagrado”, e o Código de Napoleão (Código Civil Francês de 1804) que consagrou a limitação do Estado sobre a propriedade, ao definir o instituto, no art. 544, como “o direito de gozar e de dispor das coisas de modo absoluto, contanto que isso não se torne uso proibido pelas leis ou pelos regulamentos”.

Na idéia de uma igualdade tendencialmente material, através do reconhecimento na lei das diferenças materiais entre as pessoas e sempre a proteção do lado mais fraco das várias relações. É precisamente com essa mudança básica que os Direitos sociais e coletivos se importam. [...] É claro que vamos ter também aí a noção da propriedade condicionada a uma função social, não mais vista como Direito absoluto, mas condicionado (CARVALHO NETO, 2001, p. 15).

Trata-se, portanto, do Estado Social ou de Bem-Estar-Social que assume postura intervencionista, no qual os direitos individuais, entre eles a propriedade privada, devem ser exercidos sob a ótica coletiva, de atendimento às necessidades públicas, e não mais se restringir aos objetivos egoísticos do indivíduo.

O advento da Constituição de 1988 instaura o novo paradigma constitucional do Estado Democrático de Direito, apresentando a propriedade privada, nesse contexto, como direito fundamental assegurado pelo art. 5°, XXII, porém condicionado à sua função social142. Nesse sentido, afirma Cretella Júnior (1998) sobre a limitação da propriedade urbana e rural:

Desse modo, o direito de propriedade, outrora absoluto, está sujeito, em nossos dias, a numerosas restrições, fundamentadas no interesse público e também no próprio interesse privado, de tal sorte que o traço nitidamente individualista, de que se revestia, cedeu lugar a concepção bastante diversa, de conteúdo social, mas do âmbito do direito público (CRETELLA JÚNIOR, 1998, p. 10).

O direito de propriedade, “como direito subjetivo por excelência na ordem patrimonial” (GOMES, 2004, p. 123), passa a apresentar, desde a Constituição de 1934, um conteúdo teleológico, cujo exercício deve estar em consonância com as necessidades e com o bem-estar de toda a coletividade.

Ele supera a noção exclusivamente individual e coloca-se como um dos princípios da ordem econômica brasileira, junto com a sua função social, tendo por fim assegurar a todos uma existência digna conforme os ditames da justiça social (art. 170, II e III da CR/88).

É preciso destacar que a funcionalização da propriedade é tratada pela Constituição de 1988 de modo amplo, ao contrário das previsões constitucionais anteriores143, em que a matéria era abordada apenas pontualmente. O princípio não se confunde com os mecanismos de limitação ao exercício do direito do proprietário. É antes, nas lições de

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No Código Civil de 2002 é também possível perceber tal mudança. Embora com previsão mais restrita, quando comparada com o texto constitucional, estabelece o art. 1.228, §1°, que o “direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas”.

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O tratamento categórico da função social da propriedade privada já existia em cartas constitucionais anteriores. O princípio servia de fundamento para a modalidade de desapropriação por interesse social no art. 141, §16 da Constituição de 1946 e também como princípio informador da ordem econômica (art. 147). Entretanto, somente com o texto constitucional de 1967, em seu art. 157, III, que a função social da propriedade foi incluída de modo expresso na Constituição.

Orlando Gomes (2004, p. 128), uma concepção com eficácia autônoma, constituindo o fundamento e a justificação do próprio direito.

Os seguintes dispositivos constitucionais demonstram a amplitude desse princípio que abrange tanto a propriedade urbana quanto a rural. Merece especial atenção esta última, por guardar estreita relação com o tema dessa dissertação.

Conforme o art. 182 da CR/88, o uso do solo urbano deve se subordinar às diretrizes traçadas pelo Poder Público, em observância ao Estatuto da Cidade (Lei Federal n° 10.257/2001), às leis urbanísticas e ao Plano Diretor, com o fim de “ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes”144.

O uso da propriedade agrária, diferentemente, está submetido ao Estatuto da Terra (Lei Federal n° 4.504/64) e às leis complementares145 posteriores. De acordo com o art. 186 da carta constitucional de 1988, a função social da propriedade rural é cumprida quando contribui para o bem-estar de seus proprietários e trabalhadores, assegura o racional aproveitamento do solo e de seus recursos naturais e observa a regulamentação legal do trabalho.

Logo, a Constituição delineou o âmbito de aplicação do princípio da função social da propriedade que, na área urbana, traduz-se na obediência ao Plano Diretor do Município e, no campo, denota a idéia da econômica utilização do solo e de sua justa distribuição, porém sem esquecer-se de exigir do proprietário o tratamento digno aos trabalhadores que a exploram.