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O tipo de obra dos tempos antigos até, pelo menos, a época do Renascimento, foi um trabalho inteligente, ao passo que o nosso trabalho é pouco inteligente, ou o trabalho de escravos. Certamente,

isso é suficiente para dar conta do desaparecimento da arte popular, da civilização. (MORRIS, 1883 - tradução do autor 57).

Ao contrário do modelo progressista, o culturalismo não surgiu de uma visão revolucionária de mudança da sociedade, mas da crítica da cidade do século XIX. Seria uma nova forma de nostalgia e utopia despertada com o desenvolvimento dos estudos históricos, no final do século XVIII, e com a aplicação de uma perspectiva histórica para o estudo da arte e da cultura. A professsora Choay (1965/1998) destaca a importância para o pré-urbanismo culturalista dos textos dos escritores, desenhistas e críticos de arte ingleses, John Ruskin e William Morris. Benevolo (1960/1998) não classifica esses autores como o faz Choay, entretanto, considera que a incapacidade dos teóricos do século XIX em resolver as contradições da cidade industrial permitiu que, no caso Ruskin e Morris, estimulassem uma linha de pensamento precedente das utopias urbanas, baseada na revisão cultural das artes.

Ruskin (1849/1944). apoia-se em uma tradição de pensamento que, desde o começo do século, analisou e criticou as realizações da civilização industrial, ao compará-las às do passado. O seu pensamento sobre a estética enfatiza a importância da sensibilidade, em contraponto com a razão, apresentando-a como uma reação ao Classicismo e com admiração ao período medieval. As ideias de Ruskin adquiriram maior repercussão no ano de 1849, através do lançamento do livro “The Seven Lamps of Architecture”. Nessa publicação, desenvolveu parte de seu pensamento sobre a estética, que se tornou referência para outros estudiosos culturalistas e o próprio estudo da arte. Nele, o autor (1849/1944, p. 55 - tradução do autor58) afirma:

[...] As mentiras arquitetônicas podem ser distribuídas em três categorias: 1. A insinuação de um tipo de estrutura, ou de suporte que não é verdade; medalhões comuns de telhados gótico tardio; 2.

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The kind of the handiwork of former times down to at least the time of the Renaissance was intelligent work, whereas ours is unintelligent work, or the work of slaves; surely this is enough to account for the disappearance of popular art from civilization.

58 [...] las mentiras arquitectónicas se pueden distribuir en tres categorías: 1. La insinuación de

un tipo de estructura o soporte que no es el verdadero; comoen los medallones de las techumbres del gótico tardío; 2. Pintar superficies para representar un material que no es el que en realidad hay (como la marmoración de la madera), o la representación engañosa de ornamentos esculpidos sobre ellas; 3. El empleo de ornamentos de cualquier tipo, hecho a máquina o moldeados [...].

Pintar superfícies para representar um material que não está realmente lá (como o marmoreio de madeira), ou a representação enganosa de ornamentos esculpidos neles; 3. O uso de ornamentos de qualquer espécie, máquina feita ou moldado [...] .

Considera-se que Ruskin, junto com seu discípulo Morris, foi protagonista de movimentos intelectuais, como o Arts and Crafts, movimento estético e social inglês, da segunda metade do século XIX, que buscava valorizar o trabalho manual e recuperar a qualidade estética dos objetos produzidos industrialmente, como alternativa à mecanização e à produção em massa.

Choay classifica os teóricos Ruskin e Morris como pré-culturalistas e avalia que “o ponto capital ideológico desse modelo não é mais o conceito de progresso, mas o da cultura” (CHOAY, 1965/1998, p.12). Segundo Ruskin, manter vivo o testemunho cultural do passado no cotidiano da cidade possibilita que, nos espaços urbanos e nos monumentos históricos, os indivíduos identifiquem marcos referenciais. Para ele “É preciso possuir, não só o que os homens pensavam e sentiam, mas também o que suas mãos manejavam, o que sua força executou, o que seus olhos viram todos os dias de sua vida.” (RUSKIN, 1849/1944, p. 212 - tradução do autor59).

Ruskin (1849/1944) defendia a utilização da história das construções do passado, fruto da cultura de um determinado momento, como o veículo de comunicação dos processos de desenvolvimento cultural e para entendimento do mundo. O autor entendia, que a conservação da arquitetura do passado, como expressão de arte e cultura, permitiria entender a história dessas construções como veículo de comunicação dos processos de desenvolvimento cultural. Morris, inspirado no pensamento de Ruskin, afirma:

Não quero com isto dizer que esta cidade tenha alguma vez existido, porque na antiguidade e na época medieval as cidades eram fortalezas, cercadas por muralhas. Mas o que nos impede de ver

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Es preciso poseer, no sólo lo que los hombres han pensado y sentido, sino lo que sus manos han manejado, lo que su fuerza ha ejecutado, lo que sus ojos han contemplado todos los días de su vida.

nesta cidade o modelo para os agregados habitacionais do futuro? (MORRIS, 1883

A importância de Ruskin para o pensamento culturalista de desagrado às contradições da cidade do século XIX é revelada por Morris: “Foi através de Ruskin que aprendi a dar forma ao meu descontentamento. Além do desejo de produzir coisas belas, a paixão que conduz a minha vida tem sido o ódio da civilização moderna” (MORRIS, 1883 - tradução do autor61). Ao superar essa influência, Morris passava a assumir, após meados do século XIX, um papel ativo na ala esquerda do socialismo inglês, inclusive publicou diversos ensaios políticos e sociais, que exaltavam o uso cada vez maior das máquinas por determinado grupo social. Segundo o autor:

[...] o estado atual da sociedade é de suportar; ela comprou esses ganhos em um preço muito alto na perda do prazer no trabalho diário que outrora certamente consolo a massa de homens para seus medos e opressões: a morte de arte era um preço muito alto a pagar pela prosperidade material das classes médias (MORRIS, 1884

Morris, com uma visão socialista próxima à dos utópicos, não era contra a utilização da máquina, símbolo do moderno, porém entendia que ela, ao invés de aumentar a divisão do trabalho alienado, poderia auxiliar a emancipação dos trabalhadores. Por isso, criticava a máquina que explorava o trabalho humano, ao dizer que o homem deveria dominá-la, ao invés de ser dominado por ela. Assim, diferente de Ruskin, Morris almejava um mundo sem classes em uma organização socialista (MORRIS, 2003).

Para Ruskin e Morris, a recuperação da ordem urbana do passado representava uma maneira de recuperar os valores espirituais da sociedade do século XIX (CHOAY, 1980/1985). “Não é fácil imaginar a beleza de uma cidade de todos, cujas casas são bonitas, pelo menos, a não ser que você já viu

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I do not want to say that this city has ever existed, because in ancient and medieval cities were fortresses surrounded by walls. But what prevents us from seeing this city the model for the residential households of the future?

61 It was through Ruskin that I learned to give form to my discontent. Apart from the desire to

produce beautiful things, the leading passion of my life has been and is hatred of modern civilization.

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[5] the present state of Society is to endure, she has bought these gains at too high a price in the loss of the pleasure in daily work which once did certainly solace the mass of men for their fears and oppressions: the death of Art was too high a price to pay for the material prosperity of the middle classes.

(digamos) Rouen ou Oxford, 30 anos atrás” (MORRIS, 1883 - tradução do autor63).

O modelo de cidade dos pré-culturalistas, assim, segue as características das cidades medievais, que tinham dimensões modestas, bem circunscritas no interior de limites precisos (determinados pelas antigas muralhas). As cidades ideais culturalistas são, assim, pequenas e concentradas. Na Figura a seguir, observa-se uma pintura que retrata a cidade de Oxford, Inglaterra, em 1850. Paisagem esta que era idolatrada por Morris (FIG. 24).

Figura 24 - Pintura de Oxford, Inglaterra, em 1850

Fonte: Oxford England, 2013.

No paradgmático texto “As Artes Menores e Outros Ensaios”64, no qual se tenta mobilizar o público para o combate ao que se chamou de exclusivismo artítisco e a recuperação das artes e dos ofícios decorativos, Morris, ao referir-se à cidade industrial, afirma que, “[...] o tamanho das cidades por si só torna-as forçosamente ingovernáveis” (MORRIS, 1878 65).

Avançando ainda mais pelo pensamento de Morris, para ele, dentro do tecido urbano, a variedade, a irregularidade e a assimetria devem prevalecer sobre a padronização preconizada pelos progressistas Owen e Fourier (MORRIS,

63

It is not easy to imagine the beauty of a town all of whose houses are beautiful, at least unless you have seen (say) Rouen or Oxford thirty years ago.

64 Titúlo no original: The Decorative Arts: Their Relation to Modern Life and Progress. 65

1878). Nesse contexto, Choay revela que “o escândalo histórico de que falam os partidários do modelo culturalista é o desaparecimento da antiga unidade orgânica da cidade, sob a pressão desintegradora da industrialização.” (1890/1998, p.12). Por isso, preconizam a irregularidade e a assimetria, que são de uma organicidade formal.

Em matéria de construção, Morris (1883) entendia que cada edificação deve ser diferente das outras para que, assim, exprimisse sua especificidade e estivesse mais adequada às características tradicionais do local. A Figura 25 mostra a casa do autor, que representa a visão do autor a respeito da arquitetura.

Figura 25 - Casa onde morou Morris

Com tijolos e telhas vermelhas fabricadas artesanalmente, seguindo os ideais de Morris, em 1959. Foi projetada por Philip Webb com a colaboração de Morris

Fonte: Red House, 2013.

Morris, sobre a descaracterização da arquitetura tradicional de Londres como resultado do processo de industrialização, alerta :

[...] nestes dias em que, se um homem deixa a Inglaterra por alguns anos, encontra, quando volta, tijolos e argamassas adicionados para Londres. Podem os maiores otimistas dizer que o estilo de construção tem melhorado? Não é verdade, pelo contrário, continua cada vez pior, se isso é possível? (MORRIS, 1888).

66[] in these days, if a man leaves England for a few years, he finds when he comes

Considerando a nostalgia expressa de Ruskin e Morris pela cidade medieval, percebe-se que para ambos a arquitetura para a cidade ideal, a pré-culturalista, deriva parte de seu significado da variedade de fachadas e empenas, cujas aberturas nunca são identicamente projetadas, e formam o contraste entre os edifícios privados e os edifícios públicos que são maiores, mais suntuosos. Neste modelo, a beleza orgânica, fruto da obra paciente do homem, assume a importância atribuída à higiene no modelo progressista. Embora Morris defenda em sua novela utópica “News from Nowhere” a diversidade, a exaltação ao diferencial como forma dominante, ele acaba por diminuir a autonomia dos habitantes, como fazem também os progressistas, ao impor uma ordem fixada em formas pertencentes ao passado (MORRIS, 1890/2003).

Percebe-se a influência do pensamento nostálgico de Ruskin e Morris no livro “A Cultura das Cidades”, de Mumford (1961/1998). Nele, o autor defende a premissa de fazer do presente parte do passado, ou seja, a retomada das tradições seria o caminho para a regeneração da sociedade industrial e capitalista. Entende-se que o ideário culturalista de Ruskin, Morris e Mumford opõe-se ao progressista, por seu clima menos urbano. O ponto de partida crítico desses autores não é mais a situação de precariedade do indivíduo, do trabalhador diante das condições da cidade, mas, sim, a situação do agrupamento humano e da sua cultura. O objetivo de Morris, por exemplo, é o desenvolvimento de uma cultura popular.

Os ideais desenvolvidos pelos pensadores do pré-urbanismo culturalista, diferentemente dos progressistas Owen e Fourier, ficaram apenas no plano teórico. Porém, diferente dos pensadores do pré-urbanismo sem modelos, os culturalistas apresentaram modelos como contrapartidas para minimizar as condições da cidade que criticavam. Apesar de os tratados do pré-urbanismo progressista e culturalista provocarem um número pequeno de realizações concretas no século XIX, eles constituiram em um grande viveiro de ideias para

say that the style of building in that half county has improved meanwhile? Is it not true, on the contrary that it goes on getting worse if that be possible?

as experiências do século XX. Segundo Choay (1965/1998, p. 15), “o pré- urbanismo anuncia o próprio método do urbanismo, cujas propostas seguirão no século XX, um movimento análogo. Assim, a autora complementa, ao revelar que as versões do pré-urbanismo progressista e culturalista “são modelos dos modelos” (CHOAY (1965/1998, p. 15, grifo do autor).

Tal argumento será discutido na próxima subseção, na qual serão analisados os modelos do urbanismo moderno.