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As piores manifestações do capitalismo, no desenvolvimento urbano, surgiram quando se tornou dominante e exclusivo (MUMFORD, 1961/1998, p. 480).

Nas publicações entre o final da década de 1960 e meados de 1970, Lefébvre expôs com mais vigor as contradições do espaço urbano resultantes do processo de expansão do capitalismo. Em 1968, publica o livro “O Direito à Cidade”, referência dos estudos contemporâneos sobre o espaço urbano, que

é entendido como um direito inalienável à vida, possível por meio da construção da cidade mais voltada ao novo humanismo, mais próxima dos encontros, dos desencontros, dos desejos que se manifestam no espaço da urbanidade (LEFÉBVRE, 1968/1991b). Neste livro, é nítida a crítica acerca das forças que produzem a segregação nas cidades, por meio do próprio sistema que impõe sobre a sociedade. O autor insiste, conforme referenciado na subseção anterior desta tese, que o domínio do valor de troca e a consequente disseminação da mercadoria pela industrialização vêm destruindo a cidade, bem como a realidade urbana, subordinando o uso aos imperativos da lógica capitalista. Lefébvre exemplifica que essas forças contribuíram para a expansão do que denominou como “tecido urbano”, ou seja, o conjunto das manifestações relativo ao predomínio da cidade sobre o campo, tema explorado por outros autores, como Monte-Mór (2006).

Posteriormente, na tentativa de ampliar a compreensão dos efeitos do processo já referido, Lefébvre, no livro a “Revolução Urbana”, publicado em 1970, afirma que “o espaço e a política do espaço exprimem as relações sociais, mas reagem sobre elas” (LEFÉBVRE, 1970/1999a, p. 26-27, grifo do autor). Percebe-se nessa afirmativa a preocupação de Lefébvre em desvelar o conteúdo ideológico do espaço socialmente produzido e também as reações relativas a esse próprio conteúdo, ideias que irá desenvolver em suas próximas publicações. Tendo em vista o seu pensamento, entende-se que essas relações podem ser consideradas não só integrantes da base econômica, mas também do processo de produção espacial. É também o que considera a professora Rita Velloso, em sua tese de doutorado, sobre os pressupostos teóricos desenvolvidos por Lefébvre: “As relações sociais consistem em parte da base econômica, especialmente as ligadas às forças de produção que impõe uma forma ao solo e à terra” (VELLOSO, 2007, p. 47).

O pensamento de Lefébvre sobre o espaço e as relações sociais começa a ser mais fundamentado em outra publicação, “Espaço e Política”, de 1973. Afirma que, dentre diversas hipóteses, “o espaço social é um produto da sociedade, constatável e dependente, antes de tudo, da constatação, portanto, da descrição empírica antes de qualquer teorização” (LEFÉBVRE, 1973/2008, p.

43). O autor relaciona o espaço e a sua produção; e ele ressalta a necessidade de se apoiar em experiências vividas, na observação de coisas, e não somente em métodos científicos. “A produção do espaço não pode ser comparada à produção deste ou daquele objeto particular, desta ou daquela mercadoria” (LEFÉBVRE, 1973/2008, p. 62). Importante é que, ao ser produto, o espaço passa a incorporar a diversidade de objetos, tanto naturais quanto sociais. Estes “objetos” não são somente coisas, mas também relações, produtos da sociedade (LEFÉBVRE, 1973/2008).

A fim de ampliar a compreensão do espaço social, Velloso (2007, p. 172), baseada em Lefébvre, afirma que esse espaço é:

[...] produzido pelas forças e relações de produção e se apresenta de modo dual; tanto é um campo de ação – que oferece sua extensão para o desenvolvimento de projetos e intenções práticas – quanto uma base para a ação, uma plataforma de onde derivam e para onde retornam as energias.

Em 1974, Lefébvre, no livro “A Produção do Espaço”, declara que no espaço social estão contidas as relações sociais e esse espaço não pode ficar restrito à esfera física, à natureza; ele é, portanto, o espaço da vida social. A base desse espaço lefrebvriano é a natureza, a qual o homem transforma com seu trabalho. Observa-se, assim, a influência das ideias marxistas relativas à transformação da natureza pelo trabalho. Essa natureza não produz, ela cria e somente o homem é capaz de produzir através do trabalho. O autor avança sobre o pensamento de Marx ao revelar que o espaço social:

[...] 1) tem um papel a desempenhar entre as forças de produção, um papel originalmente interpretado pela natureza, que se deslocou e suplantou. 2) aparece como um produto de caráter singular, em que às vezes é simplesmente consumido [...] como uma grande mercadoria e, por vezes, em áreas metropolitanas, de forma produtiva, consumido [...] como um aparelho de sistema operacional com grande escala produtiva. 3) mostra-se politicamente instrumental, na medida em que facilita o controle da sociedade [...]. 4) sustenta a reprodução das relações de produção e da propriedade (ou seja, a propriedade da terra, do espaço; locais de forma hierárquica. 5) é equivalente, em termos práticos, a um conjunto de superestruturas institucionais e ideológicas. 6) contém potencialidades – de obras e de reapropriação – existentes para começar na esfera artística, mas acima de tudo, que respondam às exigências de um corpo ‘transportado’ fora de si no espaço, um corpo

que, colocando-se a resistência inaugura o projeto de um diferente espaço [...].(Lefébvre, 1974/1991c, p.349 – tradução do autor14)

Com relação ao conceito de espaço social, outros autores, por sua vez, avançam sobre as premissas lefebvrianas. Soja (1989/1993) afirma que o espaço social envolve tanto as relações sociais de reprodução - que compreendem as biológicas e as psicológicas entre pessoas e grupos -, quanto as relações de produção, que compreendem a divisão do trabalho e sua organização. Segundo a professora Heloísa Costa, o conceito de espaço social “[...] considera a ideia de ambiente construído para produção e consumo, mas ao mesmo tempo vai além dela, incorporando as práticas socioespaciais” (COSTA, 2005, p. 371).

Percebe-se que, social, concreto ou não, é o espaço da produção e reprodução das interações entre as relações sociais e a natureza. É nele que o homem estabelece o seu modo de produção, manipula e é manipulado, desenvolve suas necessidades, desejos e lutas.

Lefébvre (1974/1991c) afirma que, se cada modo de produção produz seu espaço característico e dele se apropria, cada momento histórico tem como correspondente a formação de um espaço novo, que se sobrepõe ao anterior e apresenta características novas. Tal espaço seria formado a partir de um código comum a uma dada realidade social e que correspondesse às práticas e às representações características dessa sociedade. Por exemplo, segundo Benevolo (1963/1994), em meados do século XIX, a burguesia inglesa procurava extrair o máximo de lucro do trabalho operário. Mesmo com alta capacidade produtiva, a jornada de trabalho levava o trabalhador à exaustão. O

14[5] 1) has a part to play among the forces of production, a role originally played by nature,

which it has displaced and supplanted; 2) appears as a product of singular character, in that it is sometimes simply consumed [5] as a vast commodity, and sometimes, in metropolitan areas, productively consumed [5], as a productive apparatus with grand scale; 3) shows itself to be politically instrumental in that it facilitates the control of society [5]; 4) underpins the reproduction of production relations and property relations (i.e. ownership of land, of space; hierarchical ordering locations [5]; 5) is equivalent, practically speaking, to a set of institutional and ideological superstructures [5]; 6) contains potentialities – of works and of reappropriation – existing to begin within the artistic sphere but responding above all to the demands of a body ‘transported’ outside itself in space, a body which by putting up resistance inaugurates the project of a different space [5].

ambiente da cidade era insalubre e o trabalho, perigoso e pesado. Nesse ambiente, conviviam homens, mulheres e crianças que, sem terem outra forma de sustento, acabavam por sujeitar a situação que lhes era imposta (BENEVOLO, 1963/1994). A Figura 6 apresenta outra pintura do artista francês Gustavo Doré, na qual retrata um bairro periférico de Londres, em 1872. A pintura mostra a fragilidade da sociedade daquele período e as péssimas condições físicas da cidade.

Figura 6 - Rua em bairro pobre de Londres, em 1872

Gravura de Gustave Doré

Fonte: Dudley, 2013.

Por outro lado, a burguesia, dispersa dos problemas da classe operária, convivia em outros espaços, como o das famosas Exposições Universais do século XIX, que procuravam introduzir no cenário urbano possibilidades de melhoria nas condições de vida, por meio das novas tecnologias. Porém, elas velavam uma das facetas do capitalismo, o estímulo ao consumo dos novos produtos (BENEVOLO, 1960/1998). A despeito do clima de exaltação da técnica e de todo o desenvolvimento propiciado por ela, as exposições deixaram evidente o flagrante fosso que separava as sociedades; aliás, como o próprio sistema capitalista, as exposições manifestavam essa constante contradição do mundo burguês, em que as diferenças sociais aumentavam progressivamente (FIG. 7).

Figura 7 – Exposição Universal, Londres, 1852

Além de apresentar a Europa e os Estados Unidos, os avanços proporcionados pelo capitalismo eram o ponto de encontro e ostentação da burguesia

Fonte: Exposição..., 2013.

Conforme subseção anterior desta tese, desde a revolução industrial, o espaço da cidade passou por grande processo de transformação. O espaço gerado por essa transformação, de acordo com as ideias de Lefébvre, exibe as práticas e as representações da nascente sociedade do século XIX, denominada como “sociedade burocrática do consumo dirigido” (LEFÉBVRE, 1968/1972). Essa sociedade foi, para Soja (1989/1993, p.64), “coreografada pelo Estado capitalista com um planejamento espacial instrumentalizado que penetrou cada vez mais nas práticas recorrentes da vida cotidiana”. Entende-se que a sociedade burocrática do consumo dirigido é a da ideologia do consumo, que Monte-Mór et al., em artigo denominado “Uma Leitura Lefebvriana de Terrorismo na Sociedade Urbana Contemporânea”, esclarecem que:

[...] em si sintetiza a tônica da análise de Lefébvre no que diz respeito à lógica de reprodução do capitalismo avançado no mundo moderno e à organização da vida cotidiana [...] O conceito de sociedade burocrática de consumo dirigido traduz, então, uma concepção específica da racionalidade e do papel do Estado na condução do processo de organização do capitalismo, dos aspectos ideológicos dessa condução do consumo, assim como do peso disto sobre o cotidiano, o que deixa no mundo moderno “de ser ‘sujeito’ (rico de subjetividade possível) para se tornar ‘objeto’ (objeto da organização social). (MONTE-MÓR, et al., 2003, p.12).

Na visão de autores como Jean Baudrillard (1929-2007), as forças produtivas capitalistas, apoiadas pelo Estado, desenvolveram formas de aliciamento engenhosas o suficiente para substituir o real pela realidade que se quer ter,

em nome do prazer de consumir e da necessidade de se continuar fazendo-o indefinidamente. Em sua obra “Sociedade de Consumo”, Baudrillard procede a uma análise profunda daquilo que constitui um dos fenômenos mais característicos da sociedade capitalista. Ele mostra de que forma as grandes corporações tecnocráticas suscitam desejos irreprimíveis, criando novas hierarquias sociais que substituíram as antigas diferenças de classes. O autor destaca as constituições progressivas da ideologia do consumo e da manipulação de valores (BAUDRILLARD, 1970/2008).

Os argumentos sobre o consumo de Baudrillard voltam-se mais para o simulacro e para a negatividade da mídia; enquanto Lefébvre desenvolve mais a perspectiva do consumo como uma etapa da produção avançada do capitalismo e da materialização das necessidades individuais. Por exemplo, o automóvel, para Baudrillard, é um objeto de desejo; já para Lefébvre, tem um lugar importante na sociedade como objeto para atender às necessidades do cotidiano.

Os estudos de Lefébvre (1970/1999a) e de Mumford (1961/1998) novamente se convergem, ao revelarem que foi necessário estabelecer um espaço para proporcionar sustentabilidade ao avanço do capital nas cidades. Esse espaço, para Mumford, eclode na cidade industrial. O espaço resultante do modo capitalista de produção, que corresponde às práticas e às representações da sociedade burocrática do consumo dirigido, foi denominado por Lefébvre como o espaço abstrato, “lugar e fonte de abstrações” (1974/1991c, p. 20, tradução do autor15). Nesse, o espaço social é transformado em uma mercadoria, onde o valor de troca e as relações de consumo subordinam-se às formas e aos conteúdos do valor de uso. Sob este registro, o das relações capitalistas, a produção social do espaço tornou-se a busca incessante das abstrações representadas pelo dinheiro e pela mercadoria (LEFÉBVRE, 1974/1991c).

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Como apresentado por Lefébvre (1974/1991c, p. 50 - tradução do autor16), “a abstração nada tem de simples: ela não é transparente e não se reduz nem a uma lógica, nem a uma estratégia”. Essa abstração apoia-se em conglomerados capitalistas, ou seja, grandes unidades de produção que espacializam suas ideologias. Porém, também se constituem em espaços das grandes construções e até em redes de informação. “Nesse espaço, a cidade, berço da acumulação, lugar da riqueza, sujeito da história, centro do espaço histórico, explodiu” (LEFÉBVRE, 1974/1991c, p. 53 - tradução do autor17).

O espaço abstrato, ao moldar as pessoas e os lugares à sua imagem, gera a homogeneização, eliminando, a um só tempo, de forma avassaladora, as diferenças e muitas das possibilidades de apropriação social. Situação que mantém as desigualdades socioespaciais e que se nutre de um desenvolvimento desigual. Segundo Lefébvre (1974/1991c, p. 49-50 - tradução do autor18):

O espaço abstrato funciona “objetivamente” como conjunto de coisas- signos, com suas relações formais: o vidro e a pedra, o cimento e o aço, os ângulos e as curvas, os cheios e os vazios. Esse espaço formal e quantificado nega as diferenças, as que provêm da natureza e do tempo (histórico), assim como as oriundas do corpo, idades, sexos, etnias. [...] Na prática espacial, a reprodução das relações sociais predomina. A representação do espaço, ligada ao saber como ao poder, reserva apenas um lugar mínimo aos espaços de representação, reduzidos às obras, às imagens, às lembranças, onde o conteúdo afastado (sensorial, sensual, sexual) aflora apenas o simbolismo.

O espaço abstrato da modernidade, a partir do momento em que as condições de salubridade das cidades atingem seu pronto crítico, passa a ser o resultado da ação combinada entre o mercado e o Estado. O objetivo do primeiro é

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It is not defined it being noticed. His abstraction is not simple: it is not transparent and not reducible neither logic nor a strategy.

17 Within this space the town – once the forcing-house of accumulation, fountainhead of wealth

and centre of historical space – has disintegrated.

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Abstract space functions ‘objectally’, as a set of things/signs and their formal relationships: glass and stone, concrete and steel, angles and curves, full and empty. Formal and quantitative, it erases distinctions, as much those which derive from nature and (historical) time as those witch originate in the body (age, sex, ethnicity). [5] In spatial practice, the reproduction of social relations is predominant. The representation of space, in thrall to both knowledge and power, leaves only the narrowest leeway to representational spaces, which are limited to works, images and memories whose content, whether sensory, sensual or sexual, is so far displaced that it barely achieves symbolic force.

primordialmente o lucro e o do segundo resulta na garantia do controle do solo, o que acaba por favorecer os objetivos do mercado. Diversos regulamentos, conforme já discutido na seção anterior desta tese, serão criados nas cidades dos séculos XIX e XX, visando a garantir esses objetivos (FIG. 8).

Figura 8 - Bairro inglês construído conforme os regulamentos londrinos de 1875

Fonte: Benevolo, 1963/1998, p. 577.

O objetivo de aproveitar ao máximo os limites regulamentares produz uma uniformidade obsessiva na produção da cidade. É um espaço, na visão lefebvriana, fragmentado, homogêneo e hierárquico, formado a partir de um conjunto de códigos comuns de uma dada realidade social e que corresponde às práticas e às representações características dessa sociedade (LEFÉBVRE, 1974/1991c).

O espaço é fragmentado devido à ação do processo de mercantilização do espaço, que cria verdadeiros mosaicos urbanos de morfologias dispersas, com espaços ocupados, outros vazios, áreas com grande oferta de infraestrutura, outras, não; é homogêneo pela dominação que exerce, ao regular a sua ocupação, ora para a proteção, ora para a produção em massa; e é hierarquizado devido à divisão espacial do trabalho, por exemplo, a construção de conjuntos separados, próximos ou distantes das fábricas, para os operários e demais funcionários, de acordo com os interesses da produção capitalista. Carlos (2007, p. 27) afirma que “homogênea e fragmentada, a cidade revela, ainda, a hierarquização dos lugares e pessoas como articulação entre morfologias espacial e social e esta estratificação revela as formas da

segregação urbana”. A fragmentação é uma das características mais evidente da organização espacial do mundo contemporâneo. Manifesta-se na quebra de espaço em unidades discretas que podem ser privatizadas e comercializadas como commodities e é reforçada pela fragmentação das ciências que esculpem o espaço de acordo com os interesses disciplinares (LEFÉBVRE, 1974/1991c).

A fragmentação do espaço abstrato é uma tendência aparentemente contraditória da homogeneização. À primeira vista, a vida moderna apresenta uma extraordinária diversidade de produtos e estilos de consumo. No entanto, como Lefébvre deixa claro: "espaço abstrato não é homogêneo, ele simplesmente tem homogeneidade como seu objetivo, a sua orientação, a sua lente'' (LEFÉBVRE, 1974/1991c, p. 287 – tradução do autor19). A abstração pode quebrar o espaço em fragmentos, mas também impõe uma lógica de locais e horários. A aplicação dos critérios de pura troca de espaço funciona como uma força homogeneizadora, que tem o poder para igualar as diversidades espaciais. A homogeneização refere-se à própria padronização da produção, não só de objetos, mas também de ideologias.

A união de espaços forçosamente fragmentados e homogeneizados revela a terceira tendência do espaço abstrato - a sua ordenação hierárquica como estratégia de uma classe, um poder tecnológico, administrativo e político. A posição de um espaço dentro da hierarquia é determinada pela sua posição na relação conflituosa entre centros e periferias, que se manifesta na distribuição de poder, riqueza, recursos e informações. Essa hierarquia entre centro e periferia não é o resultado aleatório. Mas, sim, segundo Lefébvre (1976/1978), é o produto de um processo de dominação. É nesse contexto que assume a importância o poder do Estado na construção do espaço abstrato.

O Estado intervém ativamente na produção do espaço, tratando-o como um instrumento político, através do qual a ordem social pode ser mantida. Através de seus papéis, como provedor de infraestrutura e gerente de recursos, juntamente com as suas políticas de subsidiação e regimes de ordenamento do

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Abstract space is not homogeneous; it simply has homogeneity as its goal, its orientation, its lens.

território, o Estado torna-se o grande responsável pelo modelo no qual o espaço abstrato é construído e consolidado. A produção do espaço e a ordenação dos seus usos dominantes exigem as proibições e sanções impostas pelo Estado, através do ordenamento jurídico. Lefébvre argumenta que a forma jurídica das relações de propriedade privada é inerentemente baseada em proibições espaciais que prescrevem os limites da vida cotidiana e servem como, "[...] o lado inverso da apropriação negativa do espaço sob o reinado da propriedade privada" (LEFÉBVRE, 1974/1991c, p. 319 – tradução do autor20).

O americano Marshall Berman (1940-2013), também inspirado no pensamento marxista como Lefébvre, exalta em seu livro clássico de 1982, outra característica do espaço abstrato, a efemeridade (BERMAN, 1982/1993). Essa, no sentido utilizado pelo autor, revela-se como uma constante renovação dos conhecimentos e dos produtos. Como tal, é fonte de alimentação do processo de produção capitalista e não anula a homogeneização.

O filósofo e antropólogo austríaco Karl Polanyi (1886-1964), em sua publicação denominada “A Grande Transformação: as origens de nossa época” argumenta que a dominação do espaço emana de estratégias socioespaciais empregadas por classes privilegiadas e poderosas, que moldam imagens e entendimentos de grupos sociais. O Estado é usado a serviço dessa estratégia. O autor discute que a revolução industrial do século XVIII trouxe progresso no sentido dos instrumentos de produção, mas uma desarticulação social, principalmente nas classes menos privilegiadas. O Estado, a serviço dos capitalistas, mobilizou-se para criar as condições para que a sociedade fosse submetida ao mercado. Isso gerou- um novo sistema social – “A Grande Transformação” – no qual todos os indivíduos tornaram-se dispensáveis, em uma engrenagem que era de fato uma máquina, a qual o homem passaria servir. O autor, em seu estudo, revela que o mercado capitalista, ao transformar a terra, o trabalho e o dinheiro em mercadorias fictícias, vai, pouco a pouco, corroendo a própria

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[…] the reverse side and the carapace of property, of the negative appropriation of space under the reign of private property.

sociedade que deu origem e condições de surgir e desenvolver, colocando-a a seu serviço (POLANYI, 1944/1985).

O espaço capitalista para Lefébvre (1970/1999a) passa a pertencer a estratégias de classes privilegiadas, que precisam do urbanismo para realizá- lo, submetendo todas as classes à Sociedade Burocrática de Consumo Dirigido e à ideologia que oculta, através do consumo, dos conflitos da produção e reprodução do espaço. Para o autor:

Com efeito, o espaço da sociedade capitalista pretende-se racional quando, na prática, é comercializado, despedaçado, vendido em