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Em 30 de novembro de 2006, uma grande vitória foi alcançada na luta contra o trabalho escravo contemporâneo. Por maioria dos votos, no Recurso Extraordinário n° 398.041-6177, o Supremo Tribunal Federal fixou a competência da justiça federal para o julgamento do crime de redução a condição análoga à de escravo.
A relevância dessa decisão consistiu em pacificar a controvérsia sobre o juízo responsável pelo processamento e punição do delito previsto no art. 149 do Código Penal.
No mérito do Recurso Extraordinário, prevaleceram os argumentos do relator Ministro Joaquim Barbosa, sendo vencidos os Ministros Cezar Peluso, Carlos Velloso e Marco Aurélio, que defenderam a competência do juízo estadual para o julgamento do crime em estudo.
As discussões tiveram como foco a interpretação do art. 109, VI, da Constituição de 1988, que assegura à justiça federal a competência para processar e julgar “os crimes contra a organização do trabalho e, nos casos determinados por lei, contra o sistema financeiro e a ordem econômico-financeira”.
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Conforme estabelece o art. 2° do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n° 8.069/90), “considera-se criança, para os efeitos desta lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade”. Luiz Regis Prado (2010, p. 250) acrescenta ainda que o ECA consigna dois tipos penais que derrogam a regra geral prevista no art. 149 do CP. São eles: arts. 238 e 239.
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STF. Recurso Extraordinário n° 398.041-6. Tribunal de Origem: TRF da 1ª Região. Relator: Ministro Joaquim Barbosa. Brasília, publicado no DJe n° 241, em 19.12.2008. O resultado dessa decisão encontra-se também disponível no Informativo n° 378 do STF.
Em seu voto, o Ministro Joaquim Barbosa sustentou que a expressão “crimes contra a organização do trabalho” deve ser interpretada para além de critérios estritamente orgânicos, não restringindo o termo à preservação de um sistema de órgãos e instituições voltados para a proteção coletiva dos trabalhadores.
Ao contrário, é a proteção do homem, na sua acepção mais ampla, a razão orientadora do dispositivo. Segundo o Ministro, qualquer conduta violadora do homem trabalhador, como a sua redução a condição análoga à de escravo, já é suficiente para garantir o enquadramento na categoria dos crimes contra a organização do trabalho, desde que praticada no contexto de relações de trabalho.
A Constituição de 1988 fornece substratos mais que suficientes para corroborar esse entendimento. Ao estabelecer no seu art. 1°, III, que a dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, e que a ordem econômica brasileira tem como finalidade assegurar a todos uma existência digna (art. 170 da CR/88), o legislador constitucional deixou clara a sua opção pela preservação da vida e pelo bem-estar de todos os indivíduos, independente de condições sócio-econômicas ou preferências pessoais.
Logo, se a própria carta constitucional confere proteção ampla ao ser humano, dotado de uma dignidade intrínseca, não haveria qualquer razão para limitar o alcance do dispositivo em análise. Muito embora o Código Penal tenha fixado Título específico para os crimes contra a organização do trabalho (Título IV, arts. 197 a 207 do CP), tal circunstância não impede que outros delitos apresentem a mesma classificação.
Indicou o Ministro Joaquim Barbosa que o entendimento doutrinário e jurisprudencial dominante é no sentido “de que não há uma correspondência taxativa entre os delitos capitulados no referido Código e aqueles indicados na Constituição, cabendo ao intérprete verificar em quais casos se está diante de crime contra a organização do trabalho”.
Arrematando o seu argumento, constatou ainda o relator que seria um contra- senso admitir um sistema de organização de trabalho que não leva em conta o seu ator principal que é o ser humano e, o pior, consentindo com a escravização de famílias inteiras em favor do enriquecimento criminoso de uma minoria.
Explica o juiz Flávio Dino de Castro e Costa (2003, p. 93) que a controvérsia supracitada teve origem em precedentes do extinto Tribunal Federal de Recursos que, no final da década de 1970, entendeu que competia à justiça federal o julgamento dos “crimes ofensivos à organização geral do trabalho ou dos direitos dos trabalhadores considerados coletivamente”.
Tal posicionamento, inclusive, foi sumulado nos seguintes termos:
Súmula nº 115 do TFR:
COMPETÊNCIA - PROCESSO E JULGAMENTO - CRIMES CONTRA A ORGANIZAÇÃO GERAL DO TRABALHO OU DIREITOS COLETIVOS DOS TRABALHADORES (DJ 09.06.1982)
Compete à Justiça Federal processar e julgar os crimes contra a organização do trabalho, quando tenham por objeto a organização geral do trabalho ou direitos dos
trabalhadores considerados coletivamente (grifo nosso).
Vale constatar que essa posição prevaleceu mesmo diante da redação genérica do art. 125, VI, da Constituição de 1967. O dispositivo, reproduzido no atual art. 109, VI, da CR/88, determinava ser da competência dos juízes federais o julgamento dos “crimes contra a organização do trabalho ou decorrentes de greve”.
Como se não bastasse, em 30.08.1979, no Recurso Extraordinário n° 90.042-0178, esse entendimento majoritário do Tribunal Federal de Recursos foi acolhido pelo STF, modificando sua jurisprudência anterior179, que mantinha na justiça federal os crimes contra a organização do trabalho.
Do que resultou na aplicação indiscriminada da Súmula n° 115 do extinto Tribunal Federal de Recursos, chancelada pelo então Recurso Extraordinário n° 90.042-0, de relatoria do Ministro Moreira Alves. Não demorou que tal orientação fosse também estendida aos casos de redução de trabalhadores a condição análoga à de escravo, instalando a controvérsia que se conhece hoje.
Particularmente sobre a competência para julgamento do crime do art. 149 do CP, aponta Flávio Dino de Castro (2003, p. 93) que a principal razão para a divergência foi a falta de uma análise mais aprofundada sobre as especificidades do delito. Segundo o autor, nenhum dos julgados, que levaram à edição da Súmula n° 115, teve como objeto o exame de casos sobre trabalho escravo.
As conseqüências desse “descuido” do Poder Judiciário são bem conhecidas. Em face de uma jurisprudência vacilante, os processos são anulados e a prescrição dos crimes,
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STF. Recurso Extraordinário n° 90.042-0. Tribunal de Origem: Tribunal Federal de Recursos. Relator: Ministro Moreira Alves. Brasília, publicado no DJ, em 05.10.1979.
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Observa Flávio Dino de Castro e Costa (2003, p. 93) que, antes do RE n° 90.042-0, para o Supremo Tribunal Federal, ainda que a vítima fosse uma única pessoa, tal circunstância não representaria empecilho para atrair a incidência do art. 125, VI, da Constituição de 1967. Cita o autor o Recurso em Habeas Corpus n° 48.037, de relatoria do Ministro Carlos Thompson Flores, no qual foi aplicada a competência da justiça federal para o julgamento do crime contra organização do trabalho, conjugado com o estelionato. No caso, a vítima era empregada de uma empresa paulista e, no momento de sua dispensa, teve uma série de direitos trabalhistas frustrados pelo empregador.
STF. Recurso em Habeas Corpus n° 48.037. Tribunal de Origem: Tribunal de Justiça de São Paulo. Relator: Ministro Carlos Thompson Flores. Brasília, publicado no DJ, em 21.08.1970.
quase sempre, é decretada. Como exemplo, indica Xavier Plassat (2008) o caso emblemático do fazendeiro maranhense Miguel Rezende.
Nos anos de 1996 e 1997, após fiscalizações sucessivas em duas de suas fazendas, os auditores fiscais libertaram 84 trabalhadores em condição de escravidão. Contudo, por conta da indefinição da competência para o julgamento, o proprietário não foi punido pelos crimes praticados.
A denúncia, apresentada na justiça federal, chegou ao Supremo Tribunal de Justiça que decidiu anular todos os atos realizados, declarando competente para processar e julgar o crime de redução a condição análoga à de escravo a justiça estadual. Em maio de 2005, o fazendeiro, com mais de 70 anos, teve a sua punibilidade extinta por conta da prescrição (PLASSAT, 2008, p. 82).
Do exposto, há quem pense que o problema da competência para julgamento do crime do art. 149 do Código Penal foi definitivamente resolvido com o Recurso Extraordinário n° 398.041-6. Até mesmo porque a maioria dos Ministros acompanhou o voto do relator, que fixou a competência da justiça federal para conhecer dos casos de exploração de mão-de-obra escrava.
Entretanto, contrariando todas as expectativas, o tema voltou a ser suscitado no Supremo Tribunal Federal180. Assim, o avanço alcançado em 2006 na luta contra o trabalho escravo no campo não passou de uma vitória amarga. Com o novo Recurso Extraordinário n° 459.510, distribuído em 25.05.2005, o relator Ministro Cezar Peluso propôs que o entendimento da Corte fosse revisto.
Cabe relembrar que o mesmo Ministro, no julgamento anterior (RE n° 389.041-6), teve seu voto vencido. Na época, o seu argumento principal era o de que a tipificação do crime do art. 149 se realiza ainda que não haja nenhuma relação laboral e, por isso, ficaria difícil comprovar a violação da organização geral do trabalho – principal argumento daqueles que defendem a competência da justiça federal.
No atual Recurso Extraordinário (RE n° 459.510), o relator Ministro Cezar Peluso manteve o seu posicionamento, apenas destacando que o art. 149 do Código Penal tem como foco “o ser humano em si mesmo, na sua liberdade imanente de sujeito de direito, cuja dignidade não tolera que seja reduzido à (sic) objeto”, o que afasta o interesse direto e específico da União, justificador da sua competência.
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A notícia completa, veiculada na internet no dia 04.02.2010, a respeito dessa nova controvérsia, encontra-se disponível no endereço eletrônico: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo= 119686&caixaBusca=N>. Acesso em: 28.05.2010.
Embora o Ministro Dias Toffolli tenha manifestado voto favorável à competência da justiça federal, a rediscussão da matéria pelo Supremo Tribunal Federal, inevitavelmente, enfraquece todos os esforços voltados para a erradicação do trabalho escravo no Brasil.
Depois de quase trinta anos de espera para a delimitação da competência pela instância máxima do Poder Judiciário, é absurdo pensar que a sociedade brasileira deverá aguardar outros tantos para que o processo novamente entre em pauta para julgamento no Plenário do Supremo. Mais do que a falta de sensibilidade dos Tribunais Superiores do país, o problema parece estar no absoluto descaso com a pessoa humana.
Se durante a década de 1970 – quando as primeiras denúncias de trabalho escravo no campo começaram a ganhar visibilidade – uma das fortes justificativas para a atuação ineficiente do Judiciário era a falta de conhecimento do problema, como explicar a sua atual situação diante dos vários estudos, campanhas nacionais e internacionais sobre a matéria?
Daí o porquê da necessidade de se buscar mecanismos alternativos de combate à degradação do trabalhador no campo. Enquanto o sonho da sociedade justa e fraterna continua distante, pelo menos é possível abrandar a fúria do poder econômico sobre o meio ambiente e, principalmente, sobre a vida humana, que hoje não passa de um item descartável.
V. CONFISCO DE TERRAS: MECANISMO ALTERNATIVO NO COMBATE AO