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Barreto (2008) define a autoestima como um estado de crença em si mesmo e na capacidade de superação dos obstáculos. Para ele, a autoestima é a chave que possibilita qualquer pessoa sair de situações conflituosas e/ou aparentemente sem solução. Ela é a chave da felicidade, pois encoraja os pensamentos e os sentimentos positivos. O autor se ancora na teoria de Branden (1999) para explicar a autoestima, já que, na visão deste, ela está ligada às operações mentais das pessoas e não às circunstâncias externas bem-sucedidas ou não. Isso implica que associar a autoestima de alguém a fatores externos é propiciar o não crescimento. Este segundo autor postula, em face disso, seis grandes pilares de sustentação à autoestima, quais sejam: 1) viver conscientemente, 2) a autoaceitação, 3) a autorresponsabilização, 4) a autoafirmação, 5) a intencionalidade, e 6) a integridade pessoal.

Tecendo comentários mais aprofundados sobre tais pilares, Branden (1999) afirma que

viver conscientemente é ter a exata compreensão do ambiente e do mundo que nos circunda.

Tendo essa consciência, responsabilizamo-nos pelos nossos atos e deixamos de nos vitimar, tornando-nos com isso mais fortes, com uma maior capacidade de resistência e superação das

adversidades. Já no tocante à autoaceitação, esta se revela outro fator importante, porque a capacidade de mudança requer buscar uma maior compreensão de si mesmo, tornando-se inviável se não a partir do reconhecimento das próprias limitações e fragilidades. O terceiro pilar, por sua vez — o da autorresponsabilidade —, diz respeito a sermos responsáveis por nossas escolhas, por nossos atos e pela maneira como nos relacionamos com os outros. Com esse senso, jamais culparemos os outros por nossos próprios erros, nem procuraremos álibis para justificar nossos deslizes, ao passo que, se erramos, temos a capacidade de pedir perdão e de assumir as falhas, corrigindo-as. A autoafirmação, por seu turno, refere-se à atitude de consideramos importantes nossos pensamentos, sentimentos, ações e opiniões. Não devemos confundir isso com intransigência, no entanto, pois se trata de aceitar ser o que se é, com suas qualidades e defeitos, sem medo de julgamentos alheios. Em seguida, o quinto pilar citado é o da intencionalidade, remetendo à noção de que, se queremos vencer, precisamos estar atentos aos resultados de nossos atos. Não podemos perder de vista nossos objetivos e sonhos, nem nosso potencial, fazendo-se imprescindíveis, nesse sentido, a perseverança, a organização e a crença em si mesmo. A esse respeito, a autorreflexão é um fator importante para que as falhas sejam corrigidas a cada dia. Por fim, sexto pilar de Branden (1999) aponta para a integridade

pessoal, no sentido de que devemos honrar nossos compromissos, sendo autênticos, e de que

só devemos exigir do outro o que cobramos em nós mesmos, ou seja, é preciso ser justo com o outro. Isso implica que é fundamental que tenhamos uma vida dotada de valores, crenças e princípios morais, buscando ser coerentes com estes por quaisquer caminhos que decidamos seguir.

Ampliando as ideias de Branden (1999), Sbicigo, Bandeira e Dell’aglio (2010), bem como Felicissimo e colaboradores (2013), argumentam que a autoestima é como um conjunto de sentimentos e pensamentos que a pessoa tem sobre si, sobre sua competência e adequação ao meio, o qual se reflete em uma atitude positiva ou negativa em relação a si mesmo. Nesse sentido, Felicissimo e demais autores do artigo supramencionado lembram que uma das principais consequências negativas do sofrimento psíquico é a diminuição da autoestima, diretamente ou indiretamente.

De maneira direta, essa redução se associa à percepção de ser negativamente avaliado em seu grupo social, o que tem impacto sobre a pessoa estigmatizada. Esse processo, porém, pode se dar de uma maneira mais sutil, indireta, uma vez que ser rotulado como pertencente a uma dada condição estigmatizada resulta em expectativas de discriminação e desvalorização. Isso equivale a dizer que, ao se perceberem como pertencentes a uma categoria socialmente desvalorizada, as pessoas podem antecipar a desvalorização e a discriminação, sem que estas

tenham de fato ocorrido, aumentando o sentimento de vergonha e levando-as a reverem suas conceituações a respeito de si mesmos.

Martin Ross (2013) é outro autor que trabalha com as situações de baixa autoestima como eixo de discussão em sua obra. A esse respeito, sustenta que uma situação de abandono pode gerar uma extrema dependência emocional em que a pessoa não se sente digna de valor. O fato de viver depreciando a si mesma e condenar-se a uma vida de infelicidade são, de fato, traços de baixa autoestima. Isso implica que problemas correlacionados à autoestima podem geram medos extremos da sociedade que impedem soluções para os problemas cotidianos.

Para Barreto (2008), nesse sentido, a base da boa autoestima se subsidia nas relações intrafamiliares e se consolida por meio do estabelecimento de relações sociais saudáveis. Quando a educação se baseia no amor, no respeito, na valorização, na competência e bondade do indivíduo, fomenta-se um crescimento pessoal. Por outro lado, viver em recorrentes situações de humilhação, violência física e emocional faz com que a autoestima se atrofie, o que contribui para uma provável insatisfação e descontentamento com a vida.

Também nesse sentido, Felicissimo e colaboradores (2013) afirmam que a autoestima se forma com base em dois componentes: o cognitivo, que se refere aos pensamentos sobre determinado objeto, e o afetivo, que determina a atitude positiva ou negativa do indivíduo em relação ao objeto. A doença mental interfere nesses dois componentes, de modo que os sinais desse impacto podem ajudar a prever a adesão ao tratamento psicossocial. Até porque, na relação entre autoestima e ajustamento psicossocial, tem-se um importante indicador de saúde mental, de modo que a avaliação dessa característica vem sendo considerada uma ferramenta importante na identificação e na prevenção do sofrimento psíquico (SBICIGO; BANDEIRA; DELL’AGLIO; 2010).

Ademais, cumpre dizer que uma característica fundamental da autoestima é o aspecto valorativo, o que interfere diretamente na forma como o indivíduo traça suas metas, aceita a si mesmo, valoriza o outro e planeja seus projetos futuros de vida. Partindo-se dessa ideia, na desinstitucionalização como um vir a ser, a pessoa em situação de sofrimento psíquico, para assumir seu processo de melhora e reabilitação, precisa ter uma boa autoestima e confiança em si mesmo (SBICIGO; BANDEIRA; DELL’AGLIO; 2010; VENTURINI, 2010a). Assim, esses indivíduos descobrirão o valor da sua competência adquirida com a própria experiência, e a cura deverá se mostrar mais que uma tomada de consciência — ela deverá se revelar uma pesquisa fundada no exercício de um poder social que a pessoa reconhece e experimenta em seu cotidiano (VENTURINI, 2010a).

Nesse sentido, e visando ao reestabelecimento dessas pessoas no tocante à autoestima e ao resgate da autonomia, a TCI constitui uma importante ferramenta para o empoderamento de pessoas nos diversos contextos de vida. O que é consonante com a perspectiva sociológica que Santa-Bárbara (1999) apresenta, destacando que as ações grupais são muito importantes para elevação da autoestima, uma vez que conferem às pessoas um sentimento de utilidade e pertencimento. Durante as sessões grupais, é possível identificar nos participantes sentimentos de bem-estar, o poder da utilidade e a diminuição da apatia e da passividade. Para este autor, as associações e grupos formam estruturas sociais intermediárias que dão aos seus membros fortalecimento e participação em sua vida democrática.

Assim, podemos considerar que a autoestima é um fenômeno mais social e que sua construção e sua transformação estão diretamente associadas à qualidade das relações que as pessoas estabelecem no decorrer de suas vidas (FRANCO, 2009). A vinculação interpessoal, nesse sentido, também se torna uma ferramenta importante para a melhoria da autoestima, visto que estão todos, inegavelmente, interligados. Vínculo, nesse caso, significa união, como uma característica de ligação duradoura. Barreto (2008) define tais vínculos como sendo tudo o que conecta os homens entre si, e estes à terra, a suas crenças, a seus valores, ou seja, a tudo que lhes confere identidade, inclusão e pertencimento. Os vínculos se consolidam e atuam como promotores de vida em sociedade. São eles que protegem as pessoas contra quaisquer danos da vida em família e comunidade.

Numa compreensão mais ampliada de vínculos, Ferreira Filha e colaboradores (2009), por sua vez, destacam a importância de se considerar cada pessoa como tendo, na verdade, múltiplas origens ao longo de sua existência, na medida em que estabelece, em suas relações, novos vínculos originais — no sentido de que estes inscrevem na pessoa o que antes não fazia parte de sua personalidade, ou seja, eles a modificam, suplementam-na, fazem dela um outro sujeito não previsto em sua infância ou nos anos anteriores a essa nova experiência. Isso implica que a inserção em um grupo por si só já enseja a construção de vínculos, de forma que, por isso mesmo, configura-se como uma ferramenta terapêutica. Já a realização de seu potencial, por sua vez, constitui-se na medida em que as relações no interior do grupo em questão estimulem em seus participantes a constante produção de novos vínculos e pertenças — e, por conseguinte, a formulação de novos sujeitos.

Salientamos ainda que, do ponto de vista psicanalítico, Bion (1967) conceitua vínculo a partir das seguintes características: 1) são elos que unem duas ou mais pessoas; 2) tais elos são de natureza emocional; 3) eles são inatos, sendo sempre essenciais na vida de uma pessoa; 4) comportam-se como uma estrutura, em combinações variáreis; 5) permitem vários

significados; 6) comumente atingem níveis intra, inter e traspessoais; 7) um vínculo estável exige a condição de o sujeito poder pensar as experiências emocionais quando o outro estiver ausente; 8) os vínculos podem se transformar, e 9) devem ser compreendidos através do modelo da interrelação continente-conteúdo.

O citado autor elege três vínculos como fundamentais: o do amor, o do ódio e o do

conhecimento. A estes vínculos apontados por Bion, Zimerman (2010) decide acrescentar um

quarto: o do reconhecimento. Este segundo autor sustenta que os quatro interagem entre si, de uma forma sadia ou patológica. A seu ver, o vínculo do reconhecimento se apresenta, por seu turno, de acordo com quatro características analíticas: 1) o reconhecimento de si, em que a pessoa volta a conhecer aquilo que já preexiste dentro de si, como a ideia já pré-formada que o bebê tem de que o seio materno amamenta e alimenta; 2) o reconhecimento do outro como alguém diferente, um ser dotado de valores, crenças e condutas próprias e distintas; 3) ser

reconhecido aos outros, como expressão de gratidão, consideração ou reparação, o que está

relacionado à maior ou menor capacidade nesse sentido; 4) ser reconhecido pelos outros, isto é, a ansiedade e expectativa concernente a ser visto, nomeado, amado, diferenciado pelos demais.

Outro estudioso também da vertente psicanalítica que teoriza acerca dos vínculos é o Bowlby (2001). Estes sustenta que os vínculos se caracterizam quanto à sua a especificidade, visto que os criamos com pessoas de nossa preferência; quanto à duração e persistência do vínculo na maior parte da vida; quanto à ontogenia, referente ao desenvolvimento de vínculos nos primeiros meses do bebê; além de afirmar que os vínculos dependem do envolvimento

emocional, visto que a renovação ou rompimento vincular redundam em relações intensas

para as pessoas. Outras características seriam a aprendizagem, que possibilita as distinções do que seria estranho e familiar para a criança; a organização, que permeia a criação de vínculos partindo dos sistemas mais simples para os mais complexos; e a função biológica, na qual o vínculo teria apenas o valor de sobrevivência.

Barreto (2008), por sua vez, nomeia três tipos de vínculos. Há os saudáveis, que são os que conectam as pessoas de maneira positiva, deixando-as confiantes e felizes, e valorizam a identidade pessoal e cultural, consolidando a inclusão social e reforçando o sentimento de pertença ao grupo. Já os vínculos frágeis são os que deixam todos desconfortáveis, porque promovem uma relação cuja intensidade não é boa. Alguns exemplos de vínculos do tipo são: a insegurança no emprego, como o trabalho sem carteira assinada, ou um relacionamento instável. Esse tipo de vínculo evidencia uma relação fragilizada, tornada superficial, que faz com que, aos poucos, vá diminuindo a autoestima da pessoa. Por fim, há os vínculos de risco,

que são aqueles que pioram qualitativamente a vida das pessoas. Neste tipo, encontram-se, por exemplo, a separação em relação aos entes queridos, as intrigas e a ausência de diálogo. Essa vinculação prejudica a saúde dos que estão nesse contexto. Com relação aos vínculos frágeis, citados anteriormente, também são exemplos: o uso de drogas, a privação de suporte solidário quando se precisa da comunidade ante as dificuldades referentes à saúde, à busca de emprego ou em momentos de perdas (BARRETO, 2008).

Sabemos que, com a situação de sofrimento psíquico, geralmente se veem rupturas dos vínculos afetivos e sociais, e, para auxiliar na reconstrução dessa desvinculação, Ferreira Filha e colaboradores (2012) apontam a TCI como um instrumento apropriado, o qual favorece a mobilização social e a construção e o fortalecimento de vínculos solidários, no que promove ações de saúde e de prevenção de novas crises.

Isso significa que os objetivos de uma rede social e os objetivos da terapia comunitária se aproximam conceitualmente uma vez que essa terapia oportuniza um espaço para a reflexão, a troca de experiências e a busca de estratégias de enfrentamento para resoluções maduras dos problemas sociais, além de mobilizar pessoas, grupos e instituições para utilizarem recursos existentes na própria comunidade que habitam (BRASIL, 2006). Isso, por sua vez, condiz com o fato de que, com o advento da Reforma Psiquiátrica, as práticas no âmbito da saúde mental devem ser gradativamente modificadas, embora ainda observemos, no contexto atual, que muitas daquelas associadas à psiquiatria clássica continuam predominantes.

Em razão disso, o Ministério da Saúde estabelece que o que unifica a prática dos profissionais para o cuidado em saúde mental são o entendimento do território e a relação de vínculo da equipe de saúde com as pessoas em situação de sofrimento psíquico. Isso se deve ao entendimento de que tal aproximação com o usuário, seu território e a realidade em que está inserido pode auxiliar na constituição desse processo de cuidado que culmina em um fortalecimento de vínculo entre o trabalhador da área de saúde e o usuário (BRASIL, 2013).