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O caminho do João Romário foi representado por elementos que estão em seu cotidiano de estudos, como professor de astronomia: as ondas. No começo, ele se apresenta com um traço retilíneo em direção ao lado direito, composto por uma cor clara, onde ele identifica sua pré-adolescência cheia de timidez. A primeira espiral, de cor vermelha, representa a experiência com o teatro no Colégio Militar, onde ele começou a se socializar mais. A espiral de cor violeta representa o Arte em Cena. Segundo o próprio Romário, ela está em um sentido contrário à espiral do Colégio Militar, porque a proposta das experiências era diferente. Enquanto no Arte em Cena o teatro tinha um engajamento, seguia uma direção de formação do ser, no Colégio Militar, ele era constantemente estimulado a desenvolver sentimentos de vaidade e orgulho.

A espiral maior, também de cor vermelha, engloba uma diversidade de experiências com a arte – LEMA, Espírito de Arte, Faculdade, teatro no IBEU. Essa fase, na opinião dele, foi muito conturbada, o seu foco estava mais em ser conhecido e reconhecido, do que verdadeiramente merecer esse reconhecimento, ou seja, ele estava se preocupando mais com a imagem que teria diante dos outros, do que com o que ele verdadeiramente estava tentando transformar dentro de si. Até que o raio encontra uma luz amarela, que significa a imersão na Metodologia de Evangelização de Espíritos, realizada no período em que morou em Belo Horizonte, Minas Gerais. A partir desse contato com as ideias do educador Eurípedes Barsanulfo, o Romário deu uma nova direção para o seu caminho, representada pela grande onda azul, levando suas experiências artísticas para um âmbito mais ligado à formação e educação do espírito. (AMUI, 2007) Seu projeto de futuro caminha no sentido de se aprofundar cada vez mais nesse universo evangelizador da Arte Espírita.

Neste trabalho, nós nos limitamos a observar apenas a espiral que representa o Arte em Cena.

Antes do Arte em Cena

Como ele mesmo narrou na descrição do seu caminho, a arte já estava presente em sua vida antes do seu primeiro contato com o Arte em Cena. Porém, o teatro do Colégio Militar tinha um contexto e um propósito diferenciado.

Eu me lembro de que o teatro, pra mim, no colégio, onde eu já havia me iniciado nas atividades artísticas um ano antes, foi uma forma de me soltar mais, de ganhar confiança. Acho que eu tinha uma certa falta de autoestima. Eu não era um atleta, era meio gordinho até os 12 anos, era um cara tímido, e o teatro teve esse papel de estímulo para eu me soltar, ganhar mais confiança.

Durante o Arte em Cena

O Romário destaca, com bastante importância, que o Arte em Cena foi a primeira de todas as atividades que ele participou dentro de um centro espírita. E que isso, no início, foi decisivo para sua permanência.

Eu me lembro de que o meu primeiro dia na MEPE foi 24 de setembro de 1999. Fui a convite do Allan. Estávamos, num certo dia, eu, ele e o Ítalo na biblioteca do IBEU, conversando sobre a vida, até que o Allan começou a falar da visão espírita sobre temas como o surgimento do Universo, a vida, a morte, e eu achei muito interessante. Pedi alguma coisa pra ler e ele me deu o Livro dos Espíritos. Eu tinha 14 anos. Gostei do que li e, pouco depois, ele me perguntou se eu não queria ir ao centro espírita. Eu aceitei e, no dia 24 de setembro, lá estava eu. [...] Obviamente, como era a estrutura da MEPE na época, antes da mocidade, tinha o Arte em Cena, de forma que a primeira coisa que eu fiz num Centro Espírita na vida foi participar de uma oficina de teatro, antes de ir para mocidade, ESDE (Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita), AE (Atendimento Espiritual) ou qualquer coisa outra atividade tradicional.

Segundo ele próprio, uma das grandes contribuições do Arte em Cena para sua vida foi a oportunidade de começar seu contato com a Doutrina Espírita já através do trabalho. Esse sentimento de poder contribuir com o crescimento do outro e, com isso, crescer também é algo que surge da forma impulsionadora do jovem, ávido por transformações em prol de um mundo melhor (PAIS, 1993).

Pois bem, assim que eu cheguei à MEPE, fui me entrosar exatamente com o teatro e isso

certamente colaborou para que eu “ganhasse raiz” rapidamente, me fixando. Serviu para eu firmar base, em vez de ser aquele jovem que vai e fica só como participante, que não traz uma contribuição para o trabalho. No teatro, eu me sentia apto a contribuir de uma forma concreta. Graças ao Arte em Cena, já cheguei à juventude espírita como participante de um projeto dentro da casa. [...] se não fosse a arte, possivelmente eu não teria me fixado como me fixei na casa espírita, que eu percebo agora como uma frente de trabalho essencial dentro dos meus compromissos reencarnatórios. A arte foi um recurso que funcionou melhor do que qualquer outro poderia, porque, no Arte em Cena, eu tinha um compromisso. E eu gostei tanto de ter um compromisso, me fixando à casa espírita, que hoje eu não largo de jeito nenhum! Estou nele e entendi a importância de estar na casa espírita para a minha existência, para os meus propósitos aqui nessa vida. De forma que eu não tenho nenhuma pretensão de, em nenhum momento dessa encarnação, deixar isso de lado. Estou aqui como trabalhador espírita ativo em tudo o que eu consigo fazer. E a experiência de arte espírita na minha juventude foi muito importante para isso.

Depois do Arte em Cena

O que ficou mais claro no caminho e na biografia educativa do Romário é que o Arte em Cena foi uma experiência que lhe deu suporte para a visão de arte e de mundo que ele possui hoje. Uma visão que, de certa forma, se aproxima de uma “arte formativa” na medida em que não tem como finalidade a obra finalizada, mas a vivência do processo artístico e o que aquilo nos traz de sentimentos, sensações e aprendizados (DUARTE Jr., 1981).

Essa visão parte do princípio de que a Arte Espírita é um estímulo “que estrutura a base da motivação do Espírito, e é através da motivação que o Ser renova seus conteúdos, amplia seu arcabouço de conhecimento, expande o campo da inteligência e a sua cultura” (AMUI, 2007, p. 46). Assim, a partir dessa experiência, o Romário passa a ter uma perspectiva de vida mais voltada para a educação do seu próprio espírito através da Arte Espírita, de uma forma mais prática e dinâmica.

de edificação do Ser, que serve antes de tudo para me transformar, e não para exibir para os outros. É claro que o Arte em Cena fazia peças para serem apresentada s, mas o processo era muito mais significativo, mais interessante do que as apresentações em si, já que as peças eram, em geral, curtas. [...] O que eu tenho por certo é que, se não fosse a arte na minha juventude, eu teria sido um jovem muito mais introspectivo, talvez excessivamente intelectual e não muito prático... Afinal, o fazer artístico no Arte em Cena era algo muito intensivo, que me obrigava a estar sempre pronto, construindo, fazendo, compartilhando, o que me estimulava a um dinamismo que eu sinto que ainda demoraria muito a conquistar se não tivesse trilhado esse caminho.

4.1.3. A oficina do crescimento - Lucas Moura