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Em seu caminho, Marina dá um destaque especial para o Arte em Cena. Segundo ela própria, essa experiência foi um divisor de águas em sua vida, ou como Josso (2010) costuma chamar um “momento-charneira”45

. Ela coloca o Arte em Cena como um paradigma, após sair de uma infância tímida e iniciar uma pré-adolescência um pouco conturbada, ela encontra no grupo um caminho para descobrir e construir o mundo que possui hoje.

A partir desse momento, deixei de frequentar a infância, pois uma gama de possibilidades e novas experiência s estavam na minha frente me convidando para vivenciar a fundo. Agora, eu era uma pré-adolescente que frequentava a juventude e a oficina de teatro de uma casa espírita, uma total mudança de paradigma.

O projeto de futuro da Marina, começa a partir dos livros desenhados. Segundo ela, esse é um projeto que envolve conhecimento, aprendizado e prática, em que ela está, no momento, buscando novas formas de ver o mundo, novos saberes, para que, uma vez acumulados, ela possa, de alguma forma, contribuir para o crescimento de si e dos outros. Essa consciência surgiu não só da vivência da Doutrina Espírita, mas da prática dentro do Arte em Cena.

Antes do Arte em Cena

A Marina, antes de ter qualquer contato com a arte, dizia-se uma pessoa extremamente tímida. Ela mal conseguia se relacionar com as outras pessoas. Isso, segundo ela mesma, atrapalhava sua desenvoltura em todos os campos da vida. Esse problema a seguiu durante toda sua infância, e só na pré-adolescência, ela resolveu que iria mudar, e o Arte em Cena surgiu como essa oportunidade.

O Allan era animado, extrovertido, tudo que eu tinha vontade de ser, mas não tinha conseguido encontrar um caminho. Talvez, por isso, tenha surgido uma admiração por sua

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Momentos ou acontecimentos-charneira são aqueles que representam uma passagem entre duas etapas da vida, um “divisor de águas", poderíamos dizer. Charneira é uma dobradiça, algo que, portanto, faz o papel de uma articulação. Esse termo é utilizado tanto nas obras francesas quanto portuguesas sobre as histórias de vida, para designar os acontecimentos que separam, dividem e articulam as etapas da vida (JOSSO, 2010, p. 90).

figura logo de início. Nesse mesmo ano, o Allan divulgou que ha veria uma oficina de teatro para a infância durante as férias de julho. Não sei de onde eu tirei forças, mas fui e fiz a oficina. Nem pensei muito a respeito, se não eu poderia desistir. Nesta oportunidade, conheci o Romário e a Natália, outros futuros companheiros que também se torna riam inspirações para mim.

A admiração e o exemplo são forças impulsionadoras de transformação e educação do espírito, principalmente no processo de evangelização. O evangelizador46 precisa cultivar uma conduta que materialize os princípios e valores em que ele acredita, para que o evangelizando possa observar e decidir por ele mesmo que caminho quer tomar. Para isso, é necessário que o indivíduo aprenda a “dinamizar o pensamento e a percepção pela observação constante, lógica e dedutiva, promovendo a ação experimentadora dos acontecimentos palpáveis da vida, levando a compreender os fatos subjetivos que se desenrolam na intimidade do Ser” (AMUI, 2007, p. 21).

Durante o Arte em Cena

No Arte em Cena, Marina foi conquistando uma autonomia dentro e fora do palco que era como um despertar para a vida. Era como se a arte estivesse aguçando seus sentidos para que ela enxergasse um mundo novo e empolgante. Era uma experiência que gerava uma consciência de si e do outro diferente da que ela já possuía (DUARTE Jr., 2001).

No Arte em Cena, eu entrei quase que de paraquedas [...]. Não sabia exatamente o que estava fazendo ali, mas eu estava ali e ia me esforçar para permanecer. E o teatro foi me envolvendo de corpo e alma, tomando forma e formando a minha vida. [...] Recordo-me que as mensagens, inúmera s vezes, foram recebidas de coração aberto por aqueles que assistiam às

apresentações. Por exemplo, em uma encenação da peça intitulada “Juízo Final”, em uma

empresa de coleta de lixo, ao final, nos surpreendemos com os funcionários chorando copiosamente. A peça tinha uma simples mensagem de amor e perdão que tocou o coração das pessoas. Quão gratificante era a sensação de fazer parte disto!

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O evangelizador, nesse contexto, é um educador do espírito, ou seja, um educador que vê os educandos, não como alunos, mas como espíritos em processo de evolução, que trazem experiências e vivências dessa e de outras vidas e que estão aqui não só para aprender, mas para ensinar também.

Além dos momentos bons, as dificuldades e os problemas enfrentados dentro do Arte em Cena, foram fundamentais no crescimento do grupo e de cada membro. Dentre eles os mais comuns eram: a falta de apoio dos centros espíritas às iniciativas dos jovens e a própria dificuldade de convivência em grupo. Em alguns casos, a pouca atenção disponibilizada à juventude nas casas espíritas, aqui em Fortaleza, é um reflexo da visão de que juventude é uma categoria que carrega consigo vários estigmas sociais e ideias preconcebidas, muitas vezes equivocadas. Ainda existem aqueles que acreditam que o jovem é um indivíduo desprovido de responsabilidade e capacidade para tomar decisões sábias. Aos poucos essa visão está sendo modificada e o jovem está caminhando para assumir papéis na sociedade que antes não lhe eram atribuídos (GROPPO, 2000). O próprio Arte em Cena pode ser tomado como um exemplo desse protagonismo juvenil.

As dificuldades de conviver em grupo se dão pelos conflitos intersubjetivos que a maioria dos conjuntos de pessoas enfrenta. Relacionar-se com o outro é, muitas vezes, complicado. Na maioria dos casos, é necessário que haja um sentimento ou um objetivo muito forte, em comum, para que duas ou mais pessoas consigam colocar suas diferenças de lado e trabalhar juntas em prol de algo. Transpor essas barreiras e construir alguma coisa coletivamente, através dessa união, para Marina, se configura como um grande aprendizado.

O dinamismo das nossas atividades também foi muito importante para que aprendêssemos a reagir a situações de dificuldades rapidamente, tanto quando em cena quanto nos obstáculos que tínhamos para desenvolver e concretizar nosso trabalho. Algumas vezes fomos surpreendidos com dificuldades burocráticas ou falta de apoio da casa espírita que quase culminaram no encerramento de nossas atividades, oportunidade em que tivemos que, em grupo, enfrentar e solucionar tais problemas.

A arte, então, chegou à vida da Marina, não apenas como uma forma de fazê-la perder a timidez, mas também como uma maneira sublime de entrar em contato com aquilo que ela considera divino. Seria uma forma de se conectar com Deus, com a espiritualidade e com ela mesma, conforme elaborações de Tolstoi (2002).

Outra consequência desta experiência foi o surgimento de uma necessidade constante de

“fazer arte” na minha vida. Durante o meu crescimento, nunca fui estimulada para desenvolver qualquer lado artístico pelos meus pais, haja vista que a minha mãe, vinda do interior, e o meu pai, não tiveram, por sua vez, estes estímulos. Antes de conhecer a arte, ou um pouco dela, não sentia sua falta, pois fazia parte de uma realidade muito distante da minha. No entanto, depois de ter contato, descobri que é uma das formas mais belas de comunhão com Deus, ou o universo, como preferir. [...] O teatro talvez tenha se consagrado na minha mente como um instrumento de comunicação espiritual, embora não signifique que não possa ter outras tantas funções sociais igualmente importantes.

Depois do Arte em Cena

Mesmo depois de sair do Arte em Cena, Marina não conseguiu se desvencilhar completamente da Arte e foi na dança que ela se encontrou. Para ela, a dança é o momento que ela encontra-se consigo mesma, com a verdadeira Marina.

A arte encena a vida, a minha vida, desde que obtive a experiência transformadora de vivenciar a oficina de teatro arte em cena da mocidade espírita do Grupo Paulo e Estevão (GEPE). [...] Talvez, por isso, após deixar o arte em cena, sempre procurei fazer algo que envolva arte, e me entreguei pra dança de corpo e alma.

A experiência de parar e refletir sobre os aprendizados construídos a partir dessa vivência foi, para a Marina, uma forma de identificar as manifestações desses aprendizados refletidos ainda hoje em sua vida, contribuindo inclusive para embasar e fortalecer seus projetos futuros.

Já havia parado para refletir sobre como os meus anos desta experiência tinham sido enriquecedores para as minhas escolhas da juventude, contudo não parado para pensar sobre os reflexos que teriam na minha vida após a minha saída destas atividades.

4.1.2. A Arte que me colocou no Caminho - João Romário