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4. DESTİNASYON PAZARLAMASI VE MARKALAŞMASI

4.2. Destinasyon Pazarlama Olgusu

Luis Dolhnikoff, já o mencionamos aqui, vê, em seu texto de apresentação a Musa paradisiaca como ―verdadeira razão de ser – e o verdadeiro caráter – da página de cultura‘‘ (p.13) a militância política.

Entretanto, faz com isso referência justamente ao que digo, por outro viés, ser a tônica e o modo de ser da Musa: um palco, uma arena, em que o diálogo, o dispositivo tradutório, tem lugar privilegiado. A manobra pela qual Dolhnikoff entende a iniciativa de Josely e Faria como militante é etimológica: o poeta parte da oposição entre o termo idiotés que, em grego, significa privado, particular e o termo politikós (de pólis, isto é, a cidade) lembrando que, para os gregos ―só era possível haver vida inteligente na vida política, na vida pública, ou seja, na participação dos negócios da pólis‖ (p.13), para afirmar, assim, que a arte ―é política ao conseguir comunicar-se com a cultura a que pertence – o que portanto não tem a ver com arte engajada‖ (p.13).

Situa então a década de 90, e a Musa nesse contexto, como um período de intensa atividade politikós no meio artístico, descrevendo uma movimentação que, como vimos, se prolonga e se intensifica ao longo desta primeira década do novo milênio:

Revistas especializadas, centros de estudo, encontros de discussão – ainda que não páginas de jornalismo cultural autoral – proliferaram mais ou menos distantes do foco da grande mídia. Tratava-se, em suma, da tentativa de os artistas deixarem de ser fornecedores de matéria- prima, seja midiática ou museológica, para voltarem a exercer eles próprios, diretamente, a dimensão politikós de sua arte. A diferença com os movimentos artísticos que marcaram o século XX até os anos 80 (exclusive), é que essa retomada, nos anos 90, não se constituiu num movimento, numa escola, nem se deu ruidosamente. Pois tratava-se, fundamentalmente, de uma reação pragmática...(p. 14).

De, portanto, uma militância programática migra-se então para uma militância pragmática, ou, talvez, melhor dizendo, recorta-se naquela o que efetivamente tem de prático e válido como forma de ação no presente. Fato é que tal fórmula é inegavelmente precisa para descrever aquilo que, já no caso de Ana Cristina Cesar, apontávamos como o reverso de sua recusa à militância concretista: a militância, visível também no caso de todos os demais tradutores da amostra, como atuação cultural fundada no diálogo.

Como exercício de uma militância pragmática, o modo de atuação da geração contemporânea obviamente não professa um programa, mas não deixa, por isso, de exercer uma certa defesa de princípios. É o que as páginas da Musa e o movimento, nelas, de Josely Vianna Baptista me parecem sutilmente revelar.

Primeiro, porque, em suas perguntas, Josely nunca abandona a ideia, pelo contrário, dissemina-a entre seus entrevistados, de que o fazer do poeta, sua poiesis, em quaisquer domínios que se exerça, deva ser essencialmente gesto de resistência, não contra grupos ou ideologias estéticas, mas no seio mesmo da linguagem. Veja-se, nesse sentido, como exemplo, as questões que dirige respectivamente a Carlos Ávila e ao cubano Antonio José Ponte:

JVB – ... Que movimento [...] poderia comover as águas

plácidas da palavra poética nessa época em que há uma invasão massiva da linguagem em sua função comunicativa, uma base trocadilhesca de linguagem de propaganda? Quem sabe buscar atalhos que escondem surpresas, faíscas de sentidos ocultos na cantilena dos jargões e clichês? (p.

164)

JVB – Você concorda com a visão de que a poesia guarda uma

capacidade de resistência ética aos escolhos do cotidiano, é uma espécie,

neste fim de milênio, de “reserva ecológica”, como dizia Paulo Leminski?

(p. 482)

Ou ainda, esta, dirigida ao uruguaio Roberto Appratto que assim ecoa, em sua resposta, o ponto de vista de Josely:

JVB – “Para ser poeta é preciso ser mais que poeta”, já dizia o

Leminski. Para você, o que seria esse “algo mais”, essa “outra cosa” que

pode transfigurar a realidade e a linguagem comum e alcançar a fronteira do poético?

RA – [...] penso nos poemas que escrevi e concluo que ser mais

que poeta é alcançar um lugar na cultura que nenhum bom ―desempenho‖

pode realizar, ou seja: saber que ser poeta é uma etapa que deve ser transgredida para poder cumprir-se. Se não for assim, ficamos aí, na média do consumo cultural. [...] ( p. 395-396)

Mas é no referido ensaio que se inclui na matéria sobre Joan Brossa, o ―A poética resistência de uma língua na Catalunya‖ que vejo enunciar-se o primeiro dos dois princípios que considero definidores do modo específico pelo qual a geração contemporânea exerce, com sua práxis, sua militância cultural. É que esse ensaio, a despeito de concentrar-se majoritariamente na história da língua catalã e da literatura nela produzida, me parece o fazer sobretudo por considerar essa história exemplar num momento em que a globalização, acenando com o risco de uma homogeneização em todos os sentidos e mais especificamente no campo da língua e da cultura, parecia ser capaz de minar justamente esse exercício da linguagem como gesto de resistência. É o que se percebe logo na abertura do texto:

Com a crescente tendência funcionalista ao uso de um código lingüístico de variabilidade mínima, o problema dos dialetos ou das línguas minoritárias se agrava. A globalização arrasta sua motoniveladora também em direção aos idiomas, que têm de resistir bravamente para não desaparecer. (p. 471)

É portanto em defesa da diversidade, cultural e linguística, que se coloca Josely Vianna Baptista, manifestando aí, embora de modo indireto, subliminar, um dos princípios- base do dispositivo tradutório pelo qual, como venho afirmando, se exerce a intervenção cultural da musa contemporânea.

Já o segundo dos dois princípios é dedutível principalmente de certas declarações que se colhem na Musa quanto ao neobarroco. Respondendo a uma questão de Josely sobre o tema, Roberto Echavarren afirma:

As vanguardas, com ou sem manifesto, recorrem, geralmente, a um modo de experimentação único, regrado: recursos tipográficos, escritura automática, agramaticalidade, ou supressão da sintaxe etc. Como exemplos, basta considerar a poesia vanguardista de Huidobro ou a poesia concreta no Brasil. As poéticas neobarrocas, no meu entender, potencializam ou adensam o conjunto de recursos da língua, da aliteração até uma rica sintaxe. O poema pode incorporar o tom e mesmo os materiais do ensaio, e pode passar da exaltação mística à ironia e ao humor. Se as vanguardas são puristas, procuram isolar um recurso ou uma impressão, o poema neobarroco assume que contamina e mescla: aquilo que você, na pergunta anterior, chama de

―traço híbrido, mestiço‖. (p. 69)

Em direção similar vai este depoimento do cubano José Kozer, em seu diagnóstico da ―literatura contemporânea dos trópicos‖, tal como o solicita em sua pergunta Josely:

Não somos clássicos, não somos centristas. Reconhecemos que há muitos centros, que há centros em toda parte, que o corpo geográfico [...] está feito de centros numerosos, que, justamente por isso, tornam-se menos despóticos, estão menos inflados. [...] A presença de numerosos centros

implica na presença de muitos modos de expressão, muitos modos de buscar [...] o conhecimento, o reconhecimento de si e do outro, do outro em si mesmo e da diferença do si mesmo do outro nos demais. Um jogo entremesclado, liminar, dialético... (p. 347)

Creio que a mescla tal como aí a ela se referem os dois autores quanto ao caso específico das práticas poéticas ditas ―neobarrocas‖, pode ser tomada, por extrapolação, justamente como o segundo princípio defendido pela militância pragmática exercida pela geração contemporânea. Por tudo que vimos até aqui, quer se filie ou não à vertente neobarroca, cada um dos poetas contemporâneos estudados, mesmo que em graus diferentes e de maneiras diferentes, assumem, justamente por serem também tradutores, na linguagem do poema e na relação com a cultura, a mistura e a dialética entre o eu e o outro como formas de ação.

São, portanto, os princípios, relacionados em entre si, da mescla e da defesa da diversidade, ambos base do dispositivo tradutório, que me parecem definir a diferença essencial entre a militância programática vanguardista e a militância pragmática contemporânea.