4. DESTİNASYON PAZARLAMASI VE MARKALAŞMASI
4.3. Destinasyon Markalaşması ve İlgili Araştırmalar
4.3.1. Destinasyon Markalaşması İle İlgili Yurtdışı Araştırmaları
Uma das manifestações mais claras da ascendência da musa haroldiana sobre a musa de Josely é sem dúvida a assimilação, pela autora, de certas referências, termos e expressões caros a seu antecessor. É o caso, por exemplo, da designação ―pós-utópico‖, à qual Josely, na Musa, adere incondicionalmente para se referir ao momento contemporâneo.
O mesmo se dá com o termo ―paideuma‖, empregado por ela, por exemplo, quando assim se dirige a Maurício Arruda Mendonça – ―E a poesia de Delmore Schwartz? [...] Por que você o incluiu em seu paideuma, por assim dizer, poético/tradutório?‖ (p. 301). – num uso da palavra quase como que equivalente ao de ―lista de escolhas pessoais‖, mas que não deixa de pressupor aquilo que, depois, virá na resposta do entrevistado. Arruda, que em suas declarações anteriores já havia feito certa crítica a Pound e negado, numa postura semelhante à de alguns dos poetas de nossa amostra, como Júlio Castanõn e Ronald Polito, uma conexão direta entre sua prática tradutória e sua prática poética81, rejeita o emprego do
81
Refiro-me à questão anterior da mesma entrevista, na qual Josely pergunta: “...para você tradução é
também um caso de afinidades eletivas? Época de traduções = época pobre de poesia, como dizia Pound?‖ ao que responde Maurício Arruda Mendonça: ―Vejo a tradução mais como escolha do que
termo por Josely, fazendo menção, em sua resposta, a outra nuance do conceito poundiano – a dimensão pedagógica: ―Bom, eu não traduzo visando constituir um paideuma, isto é, um elenco de poetas que sirvam para a formação dos mais jovens. De fato, sou cético com relação a receitas para se escrever boa poesia‖ (p. 301).
O fato é que a intervenção da geração concretista certamente promoveu e naturalizou, entre nós, a referência ao célebre conceito poundiano, sobretudo na versão particular que a ele deram Augusto e Haroldo de Campos82
, e, por isso mesmo, é difícil entabular qualquer diálogo sobre a prática de poetas-tradutores desde então sem que Pound seja referido na discussão. Portanto, o que o exemplo acima exibe é, antes de mais nada, o efeito dessa intervenção, além, é claro, de constatar que a noção de paideuma pode mesmo ser tomada em mais de uma dimensão e encarada de mais de uma forma.
Mas, entre a adesão ao termo por Josely e rejeição a ele por Arruda ficam algumas perguntas: até que ponto, a noção de paideuma se prestaria a uma descrição do modo pelo qual geração contemporânea agencia sua relação com a tradição? Sob que condições e com que formas de apropriação, os contemporâneos re-atualizariam, com sua prática, tal conceito?
Se partirmos do princípio de que o conceito de Pound envolve pelo menos três dimensões articuladas entre si, a histórica, a militante e a pedagógica, creio que podemos vislumbrar uma resposta para tais questões a partir de um contraste entre o modo como cada uma dessas dimensões é exercida na atuação da geração concretista e o modo como elas se exercem (ou não), entre os contemporâneos.
Pound, em ―For a new paideuma‖, afirma, como já mencionamos aqui, que o paideuma faz história, ressaltando o caráter ―ativo‖ do conceito. Em literatura, é consenso, ou se ―faz história‖ alterando, com uma nova práxis, o cânone, ou se integrando a ele ou, ainda, construindo uma narrativa que redunde na sua fixação e constituição. Augusto e Haroldo de Campos fizeram todas essas coisas. Orientados por uma concepção de linguagem poética que se definiu a partir de uma oposição clara à de outra tendência vigente – a da Geração de 45 –,
de Kerouac, as imagens de Rimbaud e o trânsito entre poesia e música de Patti Smith. Mas minha poesia não tem muito a ver com esses poetas. De qualquer forma, ocorre sempre um aprendizado, e isso é o que importa. Quanto a Pound, é preciso lembrar que ele era um polemista habilidoso. Ele acreditava que a polêmica era importante para produzir debates e mudanças na poesia de sua época. Contudo, não concordo com ele. A meu ver, todo acréscimo de informação sobre poesia é sempre bem-vindo. [...] A tradução não trava o poeta criativo, ela o estimula‖. (p.300-301)
82
Veja-se, quanto a isso, a opinião de Régis Bonvicino, dada numa de suas entrevistas publicadas na
Musa. Segundo ele, os poetas concretistas ―haviam rompido com tudo por meio de instrumentos com
o paideuma, que, na verdade, foi um conjunto de normas, que, num dado momento, revitalizou a discussão, para, depois, se transformar numa espécie de ‗código de letras‘... Ezra Pound, o inventor do conceito de paideuma, nunca o aplicou a seus contemporâneos.‖ (p.41)
exerceram uma prática (poética e tradutória) renovadora. Ao mesmo tempo, confrontaram, também com apoio nessa concepção de linguagem, o modelo de historiografia da Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Cândido, opondo a ele outra narrativa da história literária brasileira. Ao contrário, porém, de essa narrativa se fazer, como de praxe, na forma retilínea de um longo e mesmo texto, tomou a forma constelar viabilizada pela prática da antologia83. A antologia, seja aquela organizada no interior dos diversos volumes de tradução e de criação de Haroldo e Augusto, seja aquela que, por mosaico, se forma pelo conjunto deles é que constitui o seu cânone. A dimensão histórica, portanto, da noção de paideuma, redunda, no caso deles, numa dimensão canônica que se realiza por uma dimensão antológica. Porém, o paideuma não faz apenas história retrospectiva. Engloba, como diz Pound, ―o complexo de idéias que é, num dado momento, germinal, que alcança a época seguinte, mas condicionando todo o pensamento e a ação de seu próprio tempo‖ (1973, citado por PERRONE-MOISÉS, 1998, p.65) e por isso estabelece também um vetor prospectivo, que orienta tanto a relação do passado com o presente, como a do presente com o futuro. É aí que a dimensão histórica ativa as outras duas, a pedagógica e a militante, do conceito. No passado busca-se aquilo com efetivo potencial de ―germinar‖, de fertilizar o futuro que, por sua vez, delineia-se pela ação no presente, que também o fertiliza. Isso demanda, pois, o esforço pedagógico em duas direções: o passado ensina – daí o exercício da tradução como forma de aprendizado dos instrumentos poéticos, e o desenho de uma relação não angustiada, mas até reverencial com a tradição, ou, pelo menos, com uma certa tradição (e fica claro, portanto, a dimensão pedagógica solicita também a visada crítica, requer a opção, a escolha que promova o recorte adequado do passado) – e é preciso ensinar para o futuro, criar, ―guiando-o‖, o leitor potencial para aquilo que ora se faz. Disso deriva, então, a dimensão militante do conceito, a atuação programada e programática, ou, para usar a expressão de Pound, ―condicionada‖, em ―pensamento e ação‖, pelas demandas da época e pela intenção de se fazer capaz de atingir o futuro.
Como essa lógica se realiza no caso dos irmãos Campos já expusemos aqui mais de uma vez e de diferentes formas. Resta, então, refletir sobre a viabilidade de sua aplicação ao caso contemporâneo. E, já que falávamos, pouco atrás, em pesos e levezas, talvez seja um bom ponto de partida considerar, nesse aspecto, mais um contraste entre duas formas de emprego do termo paideuma. O já aqui referido ensaio em que Josely apresenta sua
83
É claro que temos que ressalvar aí certos ensaios nos quais Haroldo, em ordem cronológica, indica obras e autores que, na trajetória da literatura brasileira, entende ser, dentro de sua perspectiva, antológicos. É o caso, por exemplo, de ―Poética sincrônica‖ (1967), incluído em a Arte no horizonte
―bitradução simultânea‖, com Paulo Leminski, de um poema de Walter Savage Landor, passa, antes de tudo, por Pound, que foi quem, como ali informa a autora, o relacionou em seu paideuma ―como um dos mais rigorosos artífices verbais da Inglaterra de seu tempo‖ (p. 119). É no contexto desse ensaio que surge esta passagem:
O ABC da Literatura, escrito para estudantes, traz a relação mínima dos autores e obras que, segundo ele [Pound], todo amante e amador de poesia deveria ler. É o famoso paideuma poundiano, o kit básico para penetrar, sem
se perder, lembrando Valéry, na ―floresta encantada da linguagem‖... (p.
119)
Impossível não sentir o contraste entre a leveza com que aí se enuncia o conceito poundiano e o peso, a gravidade, com que se o faz nesta outra, já nossa conhecida, incluída na introdução ao Entreversos de Augusto: ―É, em outros termos, o que Pound formulou com seu ‗the Age demanded‘ – a idade exigia – ou aquilo que ele chamou de ‗paideuma‘: o elenco das idéias e obras básicas, prioritárias para sua época‖ (CAMPOS, A., 2009a, p.10).
Entre o ―kit básico‖ de Josely as ―prioridades da época‖ de Augusto a distinção não é outra senão a de enfoque. Num caso, o conceito é evocado quase que somente em sua dimensão antológica, como ―relação miníma de autores e obras‖, embora não esteja de todo aí descartada também a dimensão pedagógica, já que sutilmente se alude ao fato de que essa lista teria o propósito de guiar o leitor, impedir que ele se perca (o que, é claro, não deixa de incluir, em alguma medida, também a dimensão militante) na ―floresta encantada da linguagem‖. No caso de Augusto, porém, o reforço vai todo, como já exaustivamente comentado aqui, para a dimensão pedagógica, para o condicionamento, a subordinação programática das ações do poeta, às demandas da época.
Considerada essa diferença, me parecem extremamente significativas duas observações quanto à Musa paradisiaca enquanto livro: primeiro que ela seja, e se proponha, como uma antologia e, segundo, que essa antologia, na organização em livro, privilegie, como se lê na ―Nota dos editores‖, como regra, que idealmente cada capítulo seja dedicado a um autor (p.7), critério que, diga-se de passagem só se quebra em raros casos, a maioria dos quais para dar destaque justamente a outras iniciativas de antologização84. Assim, o que se vislumbra no sumário de Musa paradisiaca é justamente a ―relação mínima de autores e obras‖ da musa contemporânea (ou uma das versões possíveis dela).
84
É o caso das matérias referentes à revista Serta – Poesía e Pensiamiento Poético, de 1997 (p. 311- 319) e à antologia Norte y Sur de la Poesía Iberoamericana (p. 399-415), nas quais, além de comentar as iniciativas e os perfis das publicações, Josely oferece ainda aos seus leitores um recorte, uma pequena antologia, traduzida, das antologias em questão.
Essa lista guarda, porém, em sua constituição, algumas diferenças sensíveis em relação àquela que se depreende do mosaico concretista, muito embora também reedite nominalmente alguns ou vários de seus integrantes. A diferença essencial, pois dela decorrem todas as outras, me parece estar no fato de inexistir, no caso contemporâneo, um núcleo que oriente num só sentido a formação da lista. Esse núcleo, o sabemos, é, no caso concretista, uma concepção de linguagem poética – a de Augusto e Haroldo –, focada na priorização de certos recursos de escrita. Na Musa, ao contrário, se podemos falar em núcleos, esses serão vários e dispersos. Por isso mesmo, enquanto a lista concretista se molda pela marca do mesmo, ainda que sendo extensa e aparentemente plural, a dos contemporâneos é efetivamente plural e diversificada, quanto à linguagem poética e aos recursos de escrita que contempla. Na primeira, só vale o consenso, e o dissenso nunca é admitido se não for doutrinado pela regra consensual (vide o caso de Byron); na segunda, ao contrário, o dissenso é, senão a regra, um traço bem vindo e essencial.
Decorrente dessa, temos então outra diferença notável. A de que, enquanto a lista concretista se constrói inegavelmente pela motivação de ―fazer história‖, retrospectiva e prospectiva, a contemporânea não parece ter isso como prioridade, o que não se configura obstáculo para que seus integrantes, no plano individual, busquem formas próprias de alterar, com suas práxis, o cânone, e de se integrar a ele. É justamente aí que se vislumbra uma das diferenças entre a tática do confronto, adotada pela geração concretista, e a tática, a que aqui me referi como ―oblíqua‖, da geração contemporânea.
Na prática, o resultado da preocupação histórica dos concretos é uma lista que vai, no domínio ―nacional‖, de Gregório e Anchieta para desembocar neles mesmos e que, no domínio estrangeiro, remonta a Homero, recupera tradições ancestrais do oriente, para desaguar, como não poderia mesmo deixar de ser, em seus ―pares‖ vanguardistas, como Octavio Paz, por exemplo. Configuram-se assim linhas que, combinadas e permutadas, formam aquela ―irmandade‖ a que se referia Augusto. É uma lista, portanto, que, se opera com o dispositivo sincrônico, não o faz senão por sob uma base diacrônica. Já a lista dos contemporâneos é, nesse sentido, mais ainda sincrônica, pois opta visivelmente pela simultaneidade. Basta considerar que o que se vê no sumário da Musa são prioritariamente nomes de contemporâneos ou, no máximo, de autores atuantes ao longo século XX, o que, em termos gerais, não destoa daquilo que pudemos apurar, no capítulo anterior, levando em conta as escolhas tradutórias dos poetas de nossa amostra. Há, na lista da Musa, como de resto também as há no painel daquelas escolhas tradutórias, exceções, como os artigos sobre Bashô e sobre Walter Savage Landor, mas que, na antologia de Josely, são exceções aparentes. É
que, em ambos os casos, os autores que emprestam seus nomes aos títulos das matérias figuram no interior dos ensaios mais como pretextos para que se abordem certos diálogos tradutórios, como os de Josely e Leminski no caso de Landor e, no caso de Bashô, os dos mesmos Leminski e Josely, nomes aos quais se somam os de Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Julio Plaza e Octavio Paz, todos orbitando em torno da tradução de um mesmo haicai do poeta japonês.
Também no aspecto geográfico a lista da Musa paradisiaca confirma a tendência sinalizada pela lista que se depreende das escolhas tradutórias dos autores da amostra. Há uma nítida prevalência, em ambas, de escolhas nos domínios latino-americano e norte-americano, coisa que, se já não estava ausente do paideuma concretista, certamente acentua-se no caso contemporâneo.
Para melhor refletir sobre isso, no entanto, é bom considerar, e aí chegamos à dimensão pedagógica da lista da Musa, que se a função do ―kit básico‖ é, como afirma Josely, evitar que o leitor se perca ―na floresta encantada da linguagem‖, é preciso guiá-lo. E a Musa de fato o faz, embora, ao contrário do que se dava entre os concretos, de modo sutil. Para além, é claro, da dimensão pedagógica do próprio ato tradutório, que no exercício individual de cada poeta nunca deixa de ser reconhecido como fonte de aprendizado, em Musa paradisiaca, o conjunto dos ensaios e entrevistas parece mesmo todo ele empenhado em dar a conhecer ao leitor a diversidade das opções contemporâneas, prepará-lo, divulgando autores e obras, para o percurso pela ―floresta encantada da linguagem‖. Isso, porém, só se faz possível de posse de alguma bússola, de algum critério que permita exercer a seleção crítica. Então é inevitável que a Musa seja também militante, nalguma medida. E, como vimos páginas atrás, a Musa de Josely de fato o é. Milita, pragmaticamente, em prol da diversidade e da mescla, além de, é claro, defender uma concepção da linguagem poética como gesto de resistência, sem contudo privilegiar um ou um conjunto de recursos pelos quais essa resistência se opere.
Poder-se-ia argumentar, nesse ponto, que tais critérios, a diversidade e a mescla, também não estavam ausentes do programa concretista, e isso não deixa de ser, em parte, verdade. Meu entendimento, porém, é que eles são mais um efeito do trânsito temporal vivenciado pelos irmãos Campos e uma decorrência do uso do operador tradutório em sua poética, do que o núcleo mesmo, programático, da militância que os move, núcleo que, em
minha visão, não é outro senão a concepção ―concreta‖85
da linguagem. A lógica da ação pragmática dos contemporâneos é, ao contrário, instituída totalmente dentro do novo paradigma e o uso do dispositivo tradutório entre eles, mesmo se dando de forma tributária ao de Haroldo e Augusto, ganha nuances diferenciadas, como o capítulo anterior se encarregou de demonstrar. Então, creio que o máximo que se pode dizer quanto a isso, reeditando uma fórmula aqui empregada mais de uma vez, é que os critérios que orientam a militância pragmática dos contemporâneos derivam sim de uma matriz concretista, mas expurgando dela aquilo que lhe imprime teor programático.
O fato é que, militando pela diversidade e pela mescla, a geração contemporânea não teria como não ampliar e alterar o leque das escolhas concretistas, embora seja inegável, como vimos anteriormente, que este movimento de ampliação também se dê entre os próprios irmãos Campos. Do ponto de vista geográfico, porém, vejo duas grandes diferenças entre a lista da Musa, imagem-ícone do possível paideuma contemporâneo, e o paideuma concretista (mesmo ampliado).
A primeira delas diz respeito justamente ao deslocamento de eixo a que me referi há pouco. É certo que o mosaico concretista é abrangente: espraia-se por um considerável conjunto de línguas e culturas. Contudo, talvez por sua preocupação com a dimensão histórica, planta raízes profundas no chamado ―patrimônio cultural ocidental‖ e penso nisso, por exemplo, ao considerar o papel de Mallarmé, representante inegável desse patrimônio, na arquitetura da poética concretista. Mas certamente não faltam outros exemplos disso no mosaico dos irmãos Campos. Então, aquilo que, no caso contemporâneo poderia ser lido como um estreitamento, já que assinalamos aqui a preferência desta geração pelos diálogos com a própria América, me parece ser antes de tudo um descentramento, até porque, vimos isso, essa preferência, embora nítida no caso deles, não é em absoluto exclusiva. Na verdade, percorrendo o repertório da Musa ou mesmo tomando contato com o mosaico dos poetas da amostra, a sensação que se tem é que, dispensados de fazer história, no sentido geral, enquanto proposta de geração, as escolhas contemporâneas promovem mesmo um certo desenraizamento, ou, para usar uma imagem da própria Josely, têm ―raízes aéreas‖.
Isso nos leva à segunda das duas diferenças que quero frisar. O paideuma ou cânone dos irmãos Campos deve ser tomado, sem dúvida, como o resultado da permuta e
85
Refiro então ao que Haroldo diz transcender o ‗ismo‖ do movimento e persistir inclusive no
momento aqui tomado como contemporâneo, tal como nessa passagem de uma de suas entrevistas publicadas na Musa: ―O ‗concreto‘, nesse novo quadro, não designará mais o termo extremo da prática ocidental de vanguarda, mas, em sentido lato, referir-se-á à ‗concretude sígnica‘, à ‗materialidade da
combinação das linhas nacional e estrangeira a que me referi pouco atrás e forma mesmo, como penso, no mosaico, um desenho único. Contudo, apesar dessa combinação e permuta, cada uma das duas linhas guarda um contorno distinto em cada caso e nítido em si mesmo. E, creio, é a natureza da militância concretista que explica e justifica isso. Preocupados ainda com os confrontos que viam ser necessários se dar no âmbito nacional, os irmãos Campos, mesmo manipulando um operador, a tradução, que por suas qualidades intrínsecas complexifica as relações entre o local e o global, ainda permitem que sua ação se oriente pela questão da nacionalidade, tão marcante na trajetória da cultura brasileira, movimentando-se no sentido de oferecer a resposta de sua geração ao problema.
O mais consequente ensaio em que Haroldo discute o tema, o ―Da razão antropofágica: diálogo e diferença na cultura brasileira‖86
, de 1980, é nesse aspecto exemplar, porque se de um lado revela toda a potencialidade do dispositivo tradutório como instrumento de efetivação dos diálogos culturais e de valorização da diferença, aspecto a que a militância contemporânea dá realce, por outro, é todo ele fundado na lógica do confronto que está na base da ―razão antropofágica‖. É visível que ao escrevê-lo Haroldo tinha em mira fundamentar a oposição concretista à concepção de história literária de Antonio Cândido, insurgindo-se contra seu critério fundamental, a distinção da literatura brasileira pelo critério do nacional87.
Confesso que quando releio, hoje, esse texto que sempre admirei, não deixo de experimentar, justo por isso, um certo incômodo, porque reconheço ali um Haroldo já bastante lúcido quanto às limitações desse critério (coisa que, creio, sua prática, mais que seu