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4. BÖLÜMÜN GENEL DEĞERLENDİRMESİ

5.7. DEMOKRATİK SOL PARTİ

5.2.2.1 Fundamento infraconstitucional

O acórdão partiu da premissa – firmada em julgados anteriores do Superior Tribunal de Justiça – de que o fornecimento de aplicações de Internet se sujeita às normas do Código de Defesa do Consumidor. Nos termos do voto da Ministra relatora Nancy Andrighi, a responsabilidade dos provedores de aplicações de compartilhamento de vídeos “deve ficar restrita à natureza da atividade por eles desenvolvida que, como visto linhas acima, corresponde à típica provedoria de conteúdo”. Tais provedores deveriam, nesse sentido, “garantir o sigilo, a segurança e a inviolabilidade dos dados cadastrais de seus usuários e das buscas por eles realizadas, bem como o bom funcionamento e manutenção do sistema”.

No que diz respeito “à verificação de ofício do conteúdo dos vídeos postados por cada usuário”, o acórdão indicou que “não se trata de atividade intrínseca ao serviço prestado, de modo que não se pode reputar defeituoso, nos termos do art. 14 do CDC, o

site que não exerce esse controle”. Além disso, não seria possível “falar em risco da atividade como meio transverso para a responsabilização do provedor de compartilhamento de vídeos por danos decorrentes do conteúdo dos arquivos postados por usuários”. Nesse sentido, concluiu-se “ser ilegítima a responsabilização dos provedores de compartilhamento de vídeo pelo conteúdo dos arquivos postados por seus usuários”.

5.2.2.2 Fundamento relacionado à arquitetura da Internet

A aplicação de exibição de conteúdo (não selecionado) objeto da demanda foi definida pela a relatora como

[...] oferta de ferramentas para que os usuários hospedem seus vídeos em formato digital, disponibilizando o seu conteúdo para os demais usuários, que podem acessá-los e indicá-los a terceiros, inclusive mediante links em redes sociais, correios eletrônicos, blogs e outros meios de comunicação virtual.

O voto deixou claro que tais aplicações “se limitam a disponibilizar os vídeos inseridos pelos usuários, sem nenhuma participação na criação ou na edição dos arquivos digitais”.

Ao analisar a possibilidade de se impor aos provedores em questão a obrigação de filtragem prévia do conteúdo postado em seus sites pelos respectivos usuários, o acórdão apontou o óbice de natureza técnica à avaliação automatizada da eventual ilicitude desse material, nos seguintes termos:

27. Quanto à obrigação de prévia filtragem, deve-se considerar, em primeiro lugar, que o atual estágio de avanço tecnológico na área da ciência da computação, notadamente no ramo da inteligência artificial, não permite que computadores detenham a capacidade de raciocínio e pensamento equivalente à do ser humano. Vale dizer, ainda não é possível que computadores reproduzam de forma efetiva faculdades humanas como a criatividade e a emoção. Em síntese, os computadores não conseguem desenvolver raciocínios subjetivos, próprios do ser pensante e a seu íntimo. Não obstante possuam notável capacidade de processamento, respondem apenas a comandos objetivos.

28. Sendo assim, não há como delegar a máquinas a incumbência de dizer se um determinado vídeo possui ou não conteúdo ilícito, muito menos se esse conteúdo é ofensivo a determinada pessoa.

No tocante à possibilidade de se impor aos provedores a obrigação de “remover imagens já inseridas nos seus sites, cuja potencial ofensividade lhes seja posteriormente comunicada”, o acórdão reconheceu que, “Se, por um lado, há notória impossibilidade prática de controle, pelo provedor de conteúdo, de toda a informação que transita em seu site; por outro lado, deve ele, ciente da existência de publicação de texto ou imagem ilícitos, removê-lo sem delongas”, estabelecendo que, “uma vez notificado de que

determinado texto ou imagem possui conteúdo ilícito, o provedor de compartilhamento de vídeos retire o material do ar no prazo de 24 (vinte e quatro) horas, sob pena de responder solidariamente com o autor direto do dano, em virtude da omissão praticada”.

A relatora acrescentou que, “Embora reconhecido o dever do Google de providenciar a exclusão de vídeos do YouTube a partir de simples notificação de usuários – portanto sem a necessidade de ordem judicial – o pedido de remoção deve ser certo e determinado, isto é, deve vir acompanhado de dados que permitam a identificação exata do vídeo”, mais especificamente “o respectivo URL (sigla que corresponde à expressão Universal Resource Locator, que em português significa localizador universal de recursos”, justificando tal entendimento da seguinte forma:

69. Isso porque, como visto, os títulos dos vídeos e as próprias imagens podem ser editadas e reincluídas no site, inclusive por mais de um usuário, impedindo sua identificação pelo sistema que, repise- se, possui limitada capacidade de raciocínio e processamento de informações subjetivas.

70. Sem os URL’s, o provedor de compartilhamento de vídeos não consegue excluir com eficiência uma determinada imagem do seu site, impedindo-o, por conseguinte, de dar pleno cumprimento ao pedido de remoção e assegurar a eficácia da medida ao longo do tempo, caracterizando uma obrigação impossível de ser cumprida, insuscetível de incidência da multa cominatória prevista nos arts. 461, § 5.º, do CPC, e 84, § 4.º, do CDC.

5.2.2.3 Fundamento constitucional

A questão constitucional da demanda foi apreciada pelo Superior Tribunal de Justiça em relação à possibilidade de se imporem “parâmetros objetivos para barrar a inserção de determinados conteúdos”, orientando o sistema “para que bloqueasse arquivos com certo nome ou contendo uma determinada expressão”. Após fazer referência à facilidade de terceiros burlarem tal restrição, inclusive “por intermédio da utilização de termos ou expressões semelhantes ou equivalentes”, a relatora manifestou- se nos seguintes termos:

33. Não bastasse isso, há de se ter em mente que essa forma de censura poderá resultar no bloqueio indevido de outros vídeos, com conteúdo totalmente lícito.

34. Determinadas palavras ou expressões podem ser utilizadas em sentidos ou contextos absolutamente diferentes. Ao impedir, por exemplo, a inclusão de vídeos cujo título contenha a palavra pedofilia, estar-se-á obstando não apenas a circulação de imagens ofensivas e ilegais, mas também de reportagens e entrevistas de cunho educativo e jornalístico.

35. No caso específico de nomes, haverá ainda o problema da homonímia. Não há como impedir a circulação de um vídeo sobre uma determinada pessoa se o seu nome, apelido ou alcunha for igual a de terceiro. Tomando novamente como exemplo a hipótese dos autos, há entre os pedidos a retirada de quaisquer vídeos cujo título remeta ao “Padre Robson”, que certamente não é o único sacerdote com esse nome.

36. A verdade é que não se pode, sob o pretexto de dificultar a propagação de conteúdo ilícito ou ofensivo na web, reprimir o direito da coletividade à informação e à livre manifestação do pensamento. 37. Sopesados os direitos envolvidos e o risco potencial de violação de cada um deles, o fiel da balança deve pender para a garantia da liberdade de criação, expressão e informação, assegurada pelos arts. 5.º, IV e XI, e 220 da CF/88, sobretudo considerando que a Internet representa, hoje, importante veículo de comunicação social de massa.

O voto da Ministra relatora Nancy Andrighi deixou claro que eventual bloqueio, pelo provedor de aplicação de exibição de conteúdo, de todos os arquivos identificados por determinado nome ou expressão resultaria no óbice da inserção de material legal e até de interesse público, reprimindo o direito da coletividade à informação e à livre manifestação do pensamento, em ofensa aos artigos 5.º, incisos IV e IX, e 220 da Constituição. Foi afastada, assim, a possibilidade de obrigar os provedores de aplicações de exibição de conteúdo (especificamente vídeos) a bloquear a inserção em seus sites de material criado por seus usuários, com base em critério objetivo correspondente aos nomes dos arquivos.

5.2.2.4 Conclusão do voto da relatora

Além das questões anteriormente abordadas, a relatora entendeu que,

ao oferecer um serviço por meio do qual se possibilita que os usuários externem livremente sua opinião, deve o provedor ter o cuidado de propiciar meios para que se possa identificar cada um desses usuários, coibindo o anonimato e atribuindo a cada manifestação uma autoria certa e determinada, [sob pena de responder] subsidiariamente pelos danos causados a terceiros.

Como conclusão, a relatora consignou que os provedores de compartilhamento de vídeos (modalidade de aplicação de exibição de conteúdo):

(i) não respondem objetivamente pela inserção no site, por terceiros, de imagens ilícitas e/ou ofensivas; (ii) não podem ser obrigados a exercer um controle prévio do conteúdo dos vídeos postados no site por seus usuários; (iii) devem, assim que tiverem conhecimento inequívoco da existência de dados reputados ilegais e/ou ofensivos no site, removê-los preventivamente no prazo de 24 horas, até que tenham tempo hábil para apreciar a veracidade das alegações do denunciante, de modo a que, confirmando-as, exclua definitivamente o vídeo ou, tendo-as por infundadas, restabeleça o seu livre acesso, sob pena de responderem solidariamente com o autor direto do dano em virtude da omissão praticada; (iv) devem manter um sistema minimamente eficaz de identificação de seus usuários, cuja efetividade será avaliada caso a caso.

Logo, considerando que (i) Google Brasil Internet Ltda. cumprira a determinação judicial de exclusão do vídeo intitulado “a falsidade do reitor da basílica de trindade” do seu site YouTube; (ii) não havia “notícia acerca de recusa do Google em atender solicitação extrajudicial de remoção do vídeo, de demora no cumprimento da ordem judicial de exclusão, tampouco de pedido de indenização por possíveis danos suportados”; e (iii) a condenação da empresa a remover, em 24 horas, novas inclusões no YouTube das imagens contidas no referido vídeo “foi condicionada à prévia indicação, pelo recorrido, das respectivas URL’s, possibilitando a identificação exata das páginas a serem suprimidas”, o recurso especial teve provimento negado, por unanimidade de votos, confirmando-se a sentença proferida em primeira instância.