A priori, ao partir da concepção de que a realidade vivenciada pelos sujeitos e pela pesquisadora está em constante construção, e de que não é possível compreendê-la em sua imediaticidade37, mas inserida numa ótica de totalidade e historicamente determinada, a pesquisa pretendeu refletir acerca de questionamentos propostos a partir de uma linha teórico- metodológica crítica, embasada na perspectiva histórica e dialética da realidade social.
Assim, no presente estudo, o trajeto metodológico foi orientado por esses princípios, o que levará a examinar os dados qualitativos, pois a abordagem qualitativa [...] trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações dos processos, e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização das variáveis (MINAYO, 2005, p.21).
Buscou-se compreender a natureza do trabalho socioeducativo em função de suas características, pois pode se constituir em estratégias de políticas sociais embasadas nos princípios universais de cidadania ou se manter no terreno das políticas residuais e compensatórias. Sua análise procurou articular o aspecto conjuntural e estrutural, situando os de natureza política, econômica e social.
Vale ressaltar que a pesquisa classifica-se do ponto de vista da natureza como básica, pois se destina a originar conhecimentos atualizados e relevantes, bem como se caracteriza no que diz respeito aos objetivos como descritiva, uma vez que o interesse da pesquisa concentra-se no registro e análises sobre a efetivação do trabalho socioeducativo no âmbito da assistência social (MARCONI; LAKATOS, 1990).
37 “A aproximação dialética no conhecimento da singularidade não pode ocorrer separadamente das suas múltiplas relações com a particularidade e com a universalidade. Estas já estão contidas no dado imediatamente sensível de cada singular, e a realidade e a essência deste só pode ser compreendida quando estas mediações (as relativas particularidades e universalidades) ocultas na imediaticidade são postas à luz” (LUKÁCS, 1978, p. 106, apud PONTES, 1999, p. 17).
A respeito dos procedimentos técnicos, utilizou como metodologia a História Oral, e como técnica para coleta de dados, a entrevista, a partir de um roteiro, o qual se constituiu em eixos norteadores da análise (Apêndice I).
A escolha pela História Oral se deu no sentido que Portelli (2001, p. 80) atribui:
Abordando a história como um processo construído pelos próprios homens, de maneira compartilhada, complexa, ambígua e contraditória, o sujeito histórico não é pensado como uma abstração, ou como um conceito, mas como pessoas vivas, que se fazem histórica e culturalmente, num processo em que as dimensões individuais e sociais são e estão intrinsecamente imbricadas.
Desta forma, “a História Oral é um trabalho de pesquisa, que tem por base um projeto e que se baseia em fontes orais, coletadas em uma situação de entrevistas. [...] A História Oral registra experiências de um indivíduo ou de vários indivíduos de uma mesma coletividade” (LANG, 1996, p. 34).
Assim, “a história oral diz respeito à análise da fonte, isto é, do discurso e da performance dos entrevistados. [...] O que é falado numa típica entrevista de história oral, usualmente, nunca foi contado dessa forma antes” (PORTELLI, 2001 pp. 10-11).
Segundo Lang (1996, p. 35), “qualquer que seja a forma assumida pela fonte oral, baseia-se ela na memória e a memória é sempre uma reconstrução, evocando um passado visto pela perspectiva do presente e marcado pelo social, presente a questão da memória individual e da memória coletiva.”
No entanto, o importante é entender a memória como um processo acionado de criação e de significados e não apenas como depositário inerte de fatos (PORTELLI, 1981, p. 33), pois
[...] a utilidade específica das fontes orais para o historiador repousa não tanto em suas habilidades de preservar o passado quanto nas muitas mudanças forjadas pela memória. Estas modificações revelam o esforço dos narradores em buscar sentido no passado e dar forma às suas vidas, e colocar a entrevista e a narração em seu contexto histórico.
Outro fator que motivou a escolha da metodologia da História Oral é que esta se preocupa com a reflexão/análise em todo o processo, considerando as contínuas modificações38.
38
É valido ressaltar que é no indivíduo que a história oral tem sua fonte de dados, porém este ao relatar sua história não constitui o objeto de estudo, mas é a sua narrativa que se torna a matéria-prima para o conhecimento, que visa alcançar por meio do indivíduo e de sua realidade apreender as relações sociais em que se insere em sua dinâmica (LANG, 1996, p. 36).
Lang (1996, p. 37) afirma:
A análise se realiza ao longo da pesquisa consistindo em construir progressivamente uma “representação” do objeto sociológico. Nela se investe um máximo de reflexão sociológica e um mínimo de procedimentos técnicos. É na escolha dos informantes, na transformação do questionamento de um informante a outro (ao contrário dos questionários padrão), no hábito de descobrir indícios de processos até então não percebidos e de organizar os elementos de informação em uma representação coerente, que se mostra a qualidade da análise .
Nesta perspectiva, pode-se alegar que
Aceitar que as reflexões acompanham todo o processo de pesquisa, desde as primeiras fases, é aceitar que estas esclarecem dúvidas, reafirmam certezas, colocam em dúvida algumas certezas, suscitam novas dúvidas em um movimento que se configura como dialético e que faria parte da metodologia da História Oral (LANG, 1996, p. 45).
Contudo, pode-se concluir que diversas características levariam à escolha da História Oral, todavia cinco delas destacam-se: - tem por base um projeto de pesquisa; - utiliza-se de fontes orais em um processo de interação pesquisador-pesquisado; - trabalha com o resgate da memória; - a reflexão e a análise acompanham todo processo; - cria documentos através das fontes orais coletadas.