2.4.5 NESİLLERARASI BORÇ YÜKÜ BAKIMINDAN ETKİLERİ
2.6. DIŞ BORÇLANMANIN EKONOMİK ETKİLERİ
Ao compararmos cartas psicográficas com cartas típicas, é preciso destacar a existência de uma primeira coerção, de ordem pragmática, mas com desdobramentos de ordem cognitiva: a carta psicográfica não se insere em uma prática de troca epistolar. Não há troca, mas, unicamente, o envio da carta para um destinatário. Essa primeira coerção determina, portanto, uma reconfiguração em relação à forma típica do objeto carta, normalmente inserido nessa prática institucionalizada. A ausência da troca epistolar tem por consequência direta a ausência de alternância entre os simulacros de remetente e destinatário. Assim, o esquema de comunicação adotado é unidirecional: não há possibilidade de resposta, em nível pragmático. O que há são estímulos e respostas pressupostos. Em um nível discursivo, isso resulta em um efeito de sentido de “onisciência” por parte do remetente, que responde às perguntas que, supostamente, o seu destinatário elabora “em pensamento”.
Essa reconfiguração nos remete ao núcleo da prática: a cena epistolar psicográfica. Resultante da imbricação de três práticas – a de escrita, a mediúnica e a epistolar – a cena tem como prática geradora a psicografia (composta pela prática de escrita e pela prática mediúnica). É a partir dela, em seu entrecruzamento com a prática epistolar, que se pode entrever o estatuto semiótico-narrativo do médium psicógrafo, enquanto elemento distintivo, como veremos, mais detalhadamente, no item 1.3.
A legitimação do remetente, para o estabelecimento do contrato fiduciário, não se dá pela resposta do destinatário, mas, sim, pela alimentação de um esquema passional da espera. É preciso que a confiança e a “esperança” de receber uma nova carta se mantenham, e é nesse sentido que se pode considerar a existência de uma ação recíproca (ação e reação) entre remetente e destinatário, ainda que pressuposta.
Como resultado, é possível constatar coerções discursivas fundamentais, em torno das quais a carta psicográfica se estrutura. A disjunção entre os sujeitos, própria da comunicação epistolar, também existe na carta psicografada (tanto no nível pragmático como no cognitivo-passional), mas, é explicitada a todo momento, na alternância entre um “aqui” e um “lá”, ora representados pelo plano material, em que é possível a conjunção entre os sujeitos – por meio do “médium”, no espaço da carta – ora pelo plano espiritual, fronteira instransponível que impede os sujeitos de entrarem em conjunção.
Em termos passionais, a distância e a impossibilidade absoluta de um reencontro, a não ser pela transposição do limiar da morte, delineiam, em um plano discursivo, o éthos de enunciador e o páthos de um enunciatário, modalizados pela dor de uma separação (e, portanto, pela “saudade”); pela “angústia” de uma espera; pela “esperança” de um reencontro possível, unicamente, no espaço epistolar.
Com base na observação da psicografia de Chico Xavier28 (por meio de vídeos, fotos e narrativas), foi-nos possível fazer algumas considerações sobre
28
A observação de vídeos e fotografias de outros médiuns conhecidos, como Carlos Baccelli e Celso de Almeida Afonso, em sessões públicas de psicografia, nos revelou um procedimento “padrão” para a escrita de cartas familiares, o que nos permite caracterizar a prática da psicografia epistolar com maior pertinência.
as principais coerções materiais que determinam a organização topológica da carta psicográfica (figuras 1 e 2): a folha de papel; o lápis (instrumento de inscrição); a presença de um assistente e do público no ato da escrita.
Figura 1
A primeira e a última folha de uma carta psicografada por Francisco Cândido Xavier, em sessão pública realizada no Grupo Espírita da Prece, Uberaba (MG), na noite de 23 de Janeiro de 1981. As folhas foram numeradas ao serem anexadas a um processo judicial (DEUS, 1980), no ano de 1983.
Figura 2
A primeira e a última folha de uma carta atribuída ao espírito Jair Presente, psicografada em 25 de agosto de 1974, no Comunhão Espírita Cristã, Uberaba (MG).
A folha de papel é explorada, via de regra, de maneira parcial. A escrita ocupa metade da página, ou, no máximo, dois terços dela, devido, principalmente, à presença de um auxiliar durante a sessão pública de psicografia (Figura 3).
Figura 3
Fotografia de uma sessão pública de psicografia de cartas familiares. À esquerda, Chico Xavier, escrevendo durante o transe mediúnico. À direita, sra. Zilda Batista, auxiliar do médium. Foto de Leo Correa - Agência O Dia (CORREA, 2010).
Encarregado de retirar as folhas diante do médium, ordenando-as (ou de repô-las, quando necessário), é comum que o auxiliar as segure com as pontas dos dedos, de maneira a fornecer maior apoio à escrita, realizada, pelo psicógrafo, de olhos fechados e de modo consideravelmente veloz – a lápis29, na maioria das vezes. Por oferecer menor resistência (aspecto positivo à escrita mais rápida) e não apresentar falhas, como no caso das canetas, o lápis mostra-se como um instrumento de inscrição bastante conveniente à prática psicográfica. O mais comum é a colocação de vários lápis próximos às folhas, de maneira a permitir a sua rápida substituição no caso da quebra do grafite (ponta) ou mesmo do seu desgaste. A presença de uma audiência reflete-se, sobretudo, no caráter aberto da carta (o que pode ser confirmado, também, pela posterior publicação das cartas, evidenciando um interesse “coletivo” por seu conteúdo). Com o desfecho da cena psicográfica, há a leitura da carta, em voz alta, pelo próprio médium, a fim de que os presentes, familiares do “autor
29
No final da década de 1980, o uso do lápis por Chico Xavier foi interrompido, dando lugar à caneta. Severino (1992, p.22) esclarece: “Com o agravamento do estado de saúde do medianeiro, em decorrência da insuficiência cardíaca, as mensagens são recebidas, atualmente, com a utilização, não do lápis, mas de canetas esferográficas, a fim de que a letra fique mais firme”.
espiritual” e desconhecidos, tomem conhecimento do seu conteúdo, identificando o(s) destinatário(s).
A hierarquia canônica na composição da carta psicográfica é a mesma de uma carta típica, constituída de três níveis (abertura, corpo da carta e fechamento). Mas, como decorrência das coerções materiais, próprias das práticas implicadas na sua produção (práticas de escrita, mediúnica e epistolar), a carta psicográfica dispensa qualquer envelope ou mecanismo de identificação que especifique, com precisão, o seu destinatário. Sem qualquer endereço de destino, a carta chega àqueles que estão presentes na audiência, ou, então, aos ausentes por eles identificados.
Vale ressaltar que a identificação do remetente, se dá, principalmente, por meio de dados comuns entre ele e o destinatário (ou, ainda, entre ele e um terceiro sujeito / actante). Essa estratégia é útil tanto como forma básica de especificação do destinatário da carta quanto para o estabelecimento do contrato fiduciário. A ancoragem discursiva, isto é, a instauração de coordenadas espaço-temporais (topônimos e cronônimos) e antropônimos (nomes de família), as referências compartilhadas, as informações de caráter íntimo, a caligrafia30, etc., enquanto índices de identificação, são também comuns às cartas típicas, mas ocorrem, na carta psicografada, de forma bastante intensificada, em uma (re)afirmação contínua da identidade do remetente. A esse respeito, Schwartzmann (2009, p.19) esclarece que
Toda carta, e por extensão, toda correspondência, é fruto de ao menos uma identidade singular, de uma individualidade, que tem como objetivo manifestar e assegurar a existência de um sujeito. Ao evidenciar o sujeito que a escreve, ela permite [...] que o seu discurso seja aproximado do discurso do diário íntimo e mesmo da (auto)biografia, em que vemos processos de profunda concentração do sujeito sobre si mesmo, embora, na carta, o sujeito concentre-se menos e dirija-se também para fora de si, buscando o outro. É portanto a sua presença que instaura a própria comunicação epistolar, dando um primeiro passo na direção de outro(s) sujeito(s) – o que parece ser, então, a primeira característica intrínseca à carta.
30
Em muitas cartas escritas por Chico Xavier há a presença de caligrafia ou assinatura semelhantes à do “autor espiritual” (remetente). Esse recurso se mostra como um forte gerador de efeitos de sentido de “autenticidade”, tendo inspirado, inclusive, estudos a esse respeito, a exemplo do já referido A psicografia à luz da grafoscopia (PERANDRÉA, 1991).
Outro ponto de grande importância é a existência, nas cartas psicográficas, de uma orientação discursiva da doutrina espírita. Permeando tanto a prática de base quanto o seu produto/objeto, essa orientação pode ser apreendida nos diversos níveis de imanência – do texto à prática, das estratégias às formas de vida – sobre as quais exerce, inegavelmente, coerções de ordem pragmática e cognitivo-passional.
Por obedecerem à mesma hierarquia de níveis das cartas típicas, as cartas psicográficas não se diferenciam, formalmente, em relação ao “tipo textual”. Seu aspecto composicional permite que sejam imediatamente reconhecidas como cartas: constituem, da mesma maneira, um espaço de interlocução, simulando o diálogo e estabelecendo um campo de presença, engendrando, assim, sujeitos epistolares. Esses pontos comuns com as cartas típicas não deixam dúvidas sobre o estatuto das cartas psicográficas, enquanto gênero (isto é, como “tipo textual” e “tipo discursivo”, conforme propõe Fontanille). Por outro lado, é possível constatar, nestas últimas, um “padrão típico” que as caracteriza discursivamente e que nos permite tomá-las no interior de uma prática – dimensão mais ampla e, portanto, mais produtiva, para a sua análise enquanto semiótica-objeto: a prática psicográfica epistolar.