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No campo dos estudos literários, segundo Pino, em Espaço e textualidade: qua- tro estudos quase-semióticos (1988), constata-se um número reduzido de estudos sobre o espaço. Tradicionalmente, ele tem sido objeto de pesquisa da física e da matemá- tica (geometria), resultando certo desinteresse desse assunto para a literatura. Essa falta de estudos sistematizados talvez decorra da primazia dos estudos sobre o tempo, que veladamente se referem ao espaço, uma vez que, no campo dos estudos literários, o espaço e o tempo normalmente se confundem.

O primeiro a pensar no espaço como uma categoria foi Bergson, afirmando que, por detrás de toda linguagem não havia tempo, mas espaço. Foucault, toman- do como referência os pressupostos de Bergson, elabora a teoria da linguagem co- mo espaço, aprofundando as considerações de Bergson. Por sua vez, Pino, entre outras considerações, afirma que “o espaço na linguagem não constituirá motivo para que se pretenda substituir o estudo do tempo pelo espaço” (1998, p. 83). Res- salta, ainda, a inadequação dos estudos lingüísticos e literários que trabalham com as noções de tempo e espaço separadamente.

Bakhtin foi o primeiro a incorporar a noção de espaço-tempo no conceito de dialogismo. Esse, por sua vez, constitui a base dos estudos sobre linguagem. Bakhtin comenta sobre a importância dessa noção associada a um ponto de vista, formu-

lando a linguagem como um processo dialógico que se estabelece num espaço- tempo. Acentuando a íntima correlação entre o posicionamento ou a localização do sujeito e o processo enunciativo, Machado afirma que “somente o posicionamento permite falar em determinação e relatividade na enunciação discursiva. Todas as visões são relativizadas e determinadas pelo posicionamento: um indivíduo sempre vê o que está fora do campo de visão de um outro” (MACHADO, apud PINO, 1998, p. 82).

Por isso, a pessoa pode se comportar ou ver diferentemente de uma outra o mesmo fato, ainda que as relações dialógicas entre elas estejam muito ou pouco hierarquizadas no mesmo espaço-tempo. Embora ele seja o mesmo, isso não garan- te pontos de vista iguais da parte das pessoas. Por sua vez, a produção de sentido depende da noção de espaço-tempo.

O exame da estrutura do texto possibilita identificar três níveis, num proces- so que se estabelece do exterior para o interior: o espaço textual, o discursivo e o representativo. O texto é formulado como um objeto empírico. Para ter existência como forma simbólica, precisa de uma forma material. Cada um dos espaços possui seus próprios limites, contendo elementos pré-constituídos que são operacionaliza- dos pelo leitor: o espaço textual é externo, formado por elementos físicos; o espaço discursivo é psicofísico, ou seja, em parte é físico, tendo como elementos a morfos- sintaxe, e em parte é psicológico, instaurado pelo ato da leitura; o espaço representativo, é formado pelo engendramento dos elementos do discurso no plano simbólico.

Reis, embora não use a terminologia de Pino, considera que o espaço textual interfere no sentido, “na medida em que a cultura do autor e do leitor, as coorde- nadas ideológicas que as regem, os cenários sociais em que se movem, etc., acabam necessariamente por se projetar, de forma mais ou menos visível, na mensagem literária enunciada” (REIS apud PINO, 1998, p. 137).

Pino atribui ao espaço textual uma dupla função: atua como moldura (supor- te do texto) e como limiar, ou seja, “lugar de passagem para que o leitor ingresse no território discursivo” (PINO, 1998, p. 84). O espaço discursivo separa a extratextu- alidade da intratextualidade. A moldura e o limiar “aparecem em outras formas de expressão artística, as quais administram, cada uma a seu modo, o espaço em que se inserem suas formas, de modo a sobrecarregá-las de significado” (Idem, 1998, p. 84).

O espaço textual, por sua dimensão de concretude, assume concomitante- mente uma função de limite, o qual estabelece dois campos: a extratextualidade e a intratextualidade. Já a função de limiar é caracterizada por dois vetores que intera- gem nas relações extra e intratextuais: pelo vetor aferente os elementos da extra- textualidade cultural são introduzidos na intratextualidade; pelo deferente, projeta- se a matéria intratextual para o macroespaço semiocultural, onde o sentido se pré- constitui para o leitor.

O espaço discursivo é constituído pela cadeia significante, mas a ativação do sentido, que aí se pré-constitui, só se dá pelo ato da leitura, ou seja, o discurso somente se efetiva quando o leitor, após realizar o trânsito visual pelas linhas do texto, vem a compreendê-lo.

O espaço representativo para Pino “é o contínuo em que se situam e se constituem entidades de ordem psíquica, ou seja, elementos e relações envolvendo conceitos, imagens, afetividade, estados de espírito, sentimentos, etc.” (PINO, 1998, p. 93). É o último e mais profundo nível espacial do texto. Prosseguindo na abordagem do espaço representativo, constata-se a presença dos efeitos de sentido, que estão vinculados diretamente ao espaço-tempo. Os efeitos são os seguintes: de fusão, de continuidade, de proximidade, de distância e de transferência. Esses rela- cionam-se com a noção de liminaridade ou limiar, que consiste em

lugar de trânsito ou de passagem, intervalos, interstícios, vazios ou hiatos, e quaisquer formas de descontinuidade, ontológicas ou funcionais mais ou menos duradouras, mas que se manifestam sempre por alterações no plano espacial e por tensão entre direções opostas (PINO, 1998, p.97).

Outra noção que está implícita na noção de limiar é a de movimento. O au- tor recorre a Ducrot e Todorov para afirmar que o sentido não está contido numa palavra, como se estivesse num cofre, portanto visto como uma entidade pronta e estática. Entretanto, ele se atualiza como resultado de um movimento de pensa- mento, e assim é constituído num processo dinâmico, com inúmeras variantes.

O conceito de limiar e suas implicações metodológicas, segundo Pino, tendo como base a noção de fronteira semiótica de Lotman, possibilita romper com uma a- bordagem estática do objeto de estudo, ou seja, com a visão positivista, unívoca, em que o texto é visto através de um ponto de vista único, de maneira distante e objetiva.

Em outras palavras, o limiar consiste no intervalo, na fronteira ou lugar de passagem caracterizado por um duplo vetor. Ainda se faz necessária a distinção en- tre limiar e limite. Pino entende por limite uma barreira intransponível. Está vincu- lada à idéia de muro ou muralha de defesa.

Alargando a compreensão de limiar, Pino o considera como um limite flexí- vel, móvel, em que a comunicação entre as partes é possível e se estabelece, com ou sem conflito, dependendo do macroespaço semiocultural. Pode-se estabelecer uma analogia com a membrana de uma célula, através da qual é possível efetivar a co- municação entre interior e exterior. Metaforicamente, sugere o estabelecimento de relações para o aproveitamento das diferenças, visando à produção de sentido. Su- gere receptividade, aceitação, o que não significa abdicar das diferenças. Caracteri- za-se, também, o limiar pela duplicidade direcional (duplo vetor) e pelo caráter rela-

cional, entendendo-se por duplicidade direcional a capacidade de ser duplamente orientado e, por isso, também portador de sentido. Quanto ao caráter relacional, refere-se tanto ao espaço quanto ao espaço-tempo. Em suma, segundo Pino, o li- miar,

[...] é capaz de assumir estatuto ontológico ou meramente funcional, assim como é possível de se configurar na realidade concreta e na abstrata, envolvendo sempre caráter relacional ou duplicidade relacional (PINO, 1998, p. 98).

A abordagem existencial-lírica sobre Trevisan possibilitou uma pequena vi- são da sua produção poética, assim como situou-o em seu tempo histórico-cultural. Percebem-se, pelos poemas, diversas inquietações relacionadas com as transforma- ções do mundo a partir da segunda metade do século XX e as relativas às novas tecnologias. Essas aparecem sutilmente nos seus livros a partir de A dança do fogo. Por sua vez, a trajetória poética de Trevisan está fundamentada em conceitos que permeiam toda poesia do século XX, a partir dos formalistas russos. Trata-se de um poeta culto e consciente do seu fazer poético, inclusive com dois livros sobre teoria poética. Os estudos de Bachelard sobre a fenomenologia poética possibilitaram uma compreensão do próprio ato de ler como elemento de alargamento do imagi- nário e também da consciência do homem num mundo conturbado. Seus conceitos de topoanálise, juntamente com o de devaneio, sugerem uma metodologia constitu- ída em três planos, que se completa pela metodologia elaborada por Pino. Embora os teóricos Iser e Jauss não sejam citados aqui diretamente, seus conceitos permei- am todas as considerações teóricas e de análise, seja dos poemas, seja dos quadros apresentadas neste trabalho.

Para concluir este primeiro capítulo, parece oportuno lembrar o que Fer- nando Pessoa ensina sobre as cinco qualidades ou condições, sem as quais as ima- gens poéticas são mortas para o leitor.

A primeira condição é a simpatia. O leitor (ou intérprete, como lhe chama Pessoa) tem “que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar. A atitude cauta, a irônica, a deslocada – todas elas privam o intérprete da primeira condição para poder interpretar...”.

A segunda condição é a intuição. Esta palavra significa “aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja”.

A terceira condição é a inteligência. Esta “analisa, decompõe, reconstrói nou- tro nível o símbolo: tem porém, que fazê-lo depois que se usou da simpatia e da intuição. A inteligência, de discursiva que era, se torna analógica”.

A quarta condição é a compreensão. Entende-se por esta palavra “o conhe- cimento de outras matérias, que permitem que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mes- mo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem diria cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim cer- tos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes”.

A quinta é menos definível. “direi talvez, falando a uns, que é a graça, falan- do a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Co- nhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma, da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo” (Nota Preliminar. In: Obra poética, 1995. p. 69).