O abandono e exclusão dos negros no que diz respeito à sua formação educacional são os maiores responsáveis pela desigualdade racial de renda. Uma vez que essa situação, como já discutido, tem origem longínqua em nossa história, suas repercussões são enormes, sendo que o negro é penalizado não apenas pela própria educação que recebeu, mas também sofre as conseqüências do ensino a que tiveram acesso seus pais e antepassados (Osório, 2008; Henriques, 2002, p.31).
Nos últimos anos, o sistema educacional público brasileiro expandiu-se. “Evidencia-se, entre outros, a elevação da escolaridade média da população, a redução na taxa de analfabetismo e o aumento do número de matrículas em todos os níveis de ensino” (Henriques, 2002, p. 33). Durante os anos 90, o acesso à educação primária foi praticamente universalizado. Entretanto, essa expansão ainda tem alcance limitado, pois persistem sérias falhas, como o problema da conclusão do ensino fundamental e o gargalo no sistema educacional imposto pelo acesso a escolas do ensino médio (Osório, 2008, p.11). Além disso, essa reforma “não necessariamente está associada aos componentes de qualidade e equidade requeridos por uma estrutura educacional moderna” (Henriques, 2002, p.33).
Quanto aos indicadores educacionais desagregados por raça, de certa forma eles refletem o avanço que houve no sistema público de ensino, pois seus diferenciais em termos proporcionais têm diminuído desde a década de 70 (Osório, 2008, pp. 11 e 12). Porém, ainda hoje as disparidades raciais no ensino são enormes. O analfabetismo, por exemplo, um importante indicador do grau de exclusão social, era de 16% entre os negros, e de 7% entre os brancos, em 2004. Neste mesmo ano, enquanto a proporção de jovens de 7 a 14 anos que freqüentavam a escola era de 98,1% para a população branca, e 96,3% para a negra, a proporção de jovens de 15 a 17 anos que freqüentavam o ensino médio era de 56,5% entre os brancos e de apenas 34,4% entre os negros. Mas é no ensino superior que os diferenciais educacionais são mais gritantes. Também em 2004, a proporção de jovens de 18 a 24 anos cursando este nível era de 16,4% dentre os brancos e de meros 5,1% dentre os negros (IPEA, “Educação”, 2006, pp.47-49). Segundo dados da PNAD de 2005, os brancos adultos - com 25 anos ou mais - tinham, em média, 7,4 anos de estudo, enquanto os negros tinham 5,4. Essa diferença de 2 anos é bastante significativa, considerando-se que a escolaridade média total dos adultos era de apenas 6,6 anos.
Além disso, os negros, por estarem mais concentrados nas camadas sociais mais baixas, são os que mais sofrem com a precária qualidade do ensino público no Brasil e com os determinantes extra-escolares do desempenho escolar. São vários esses fatores, como infra- estrutura física deficiente, professores mal-remunerados, baixo nível educacional dos pais e pouco ou nenhum acesso a meios de comunicação e veiculação de conhecimento e necessidade da criança conciliar trabalho com estudo (IPEA, "Educação”, 2006, p.46). Dados de 2001 mostram que a participação no mercado de trabalho das crianças negras
com idades de 10 a 15 anos chegava a ser 85% superior à dos brancos, o que inevitavelmente interfere no seu processo de aprendizagem (MPAS, 2003, p.3). Podemos também citar a dimensão regional e a situação dos domicílios (Hasenbalg & Silva, 2000).
A todas essas desvantagens soma-se a discriminação sofrida pelos negros no interior das escolas. Henriques (2002) mostra que, no âmbito educacional, as desigualdades raciais vão além das desigualdades de classe. Utilizando dados da PNAD de 1992 a 1999, o autor verificou que, em todos os segmentos de renda, são detectadas disparidades raciais no acesso, permanência na escola e desempenho. Esses achados seriam indícios da existência de discriminação racial nas escolas, uma vez que a discriminação surte sérios impactos psicológicos em sua vítima, dentre eles medo da rejeição e baixa auto-estima, os quais, inevitavelmente, afetam negativamente a capacidade de aprendizado. Citando Mudanga, Henriques explicita quais seriam alguns dos principais mecanismos e práticas dessa discriminação:
O preconceito incutido na cabeça do professor e sua incapacidade em lidar profissionalmente com a diversidade, somando-se ao conteúdo preconceituoso dos livros e materiais didáticos e às relações preconceituosas entre alunos de diferentes ascendências étnico-raciais, sociais e outras, desestimulam o aluno negro e prejudicam seu aprendizado (Henriques, 2002, p.94).
De fato, um número significativo de pesquisas tem identificado discriminação em livros didáticos, nos quais muitas vezes são atribuídos aspectos específicos a personagens negras, como ignorância, subordinação, desumanização (personagens associados a figuras de animais) e indiferenciação. Pesquisas qualitativas, de observação direta, têm comprovado que há discriminação nas salas de aula. Além da discriminação em si, alguns estudos apontaram a problemática reação de “silêncio” dos professores aos atos discriminatórios presenciados. Segundo esses estudos, é comum que o professor, ao presenciar um ato de discriminação racial entre alunos, se silencie ou desvie a questão, apoiando a criança negra, mas deixando de alertar a branca quanto ao ato discriminatório cometido (Silva Jr., 2002, pp.34-58).
Essa discriminação já foi também quantitativamente testada. Osório (2008) mostrou que ser negro afeta negativamente a probabilidade de o aluno estar cursando o nível educacional correto para a sua idade, mesmo controlando por idade, sexo, região, área, nível educacional do chefe do domicílio e renda familiar per capita. Hasenbalg (2005) citou vários outros exemplos de estudos cujos resultados indicaram que as crianças negras
completam menos anos de estudo que as brancas, mesmo quando se consideram apenas crianças de mesmo estrato de renda familiar per capita ou origem social.
De forma sucinta, portanto, podemos dizer que nas últimas décadas houve uma expansão quantitativa no ensino básico, a qual foi responsável por uma ligeira convergência educacional entre brancos e negros no período. Por outro lado, porém, houve aumento da pressão nos níveis mais elevados de ensino e persistem os problemas referentes à qualidade educacional. Os negros, além de serem os mais atingidos por essas mazelas no ensino, enfrentam maiores obstáculos extra-escolares e são vítimas de discriminação nas salas de aula, o que resulta em elevados diferenciais raciais na educação.