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Marília Abero Sá de Barros1, Daniel Marques Almeida Pessoa1 & Ana Maria Rui2

1Laboratório de Ecologia Sensorial, Departamento de Fisiologia, Centro de Biociências,

Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Campus Universitário Lagoa Nova s/nº, 59.078-970 Natal (RN), Brasil

2Departamento de Zoologia e Genética, Instituto de Biologia, Universidade Federal de

Pelotas, Campus Universitário Capão do Leão s/nº, CP 354, 96.001-970 Pelotas (RS), Brasil

Título curto: Atividade de morcegos no Pampa Brasileiro

Corresponding author: Marília Abero Sá de Barros

Rua Adolfo Ramires, 2077, Capim Macio CEP. 59078-460, Natal-RN, Brasil Tel. +84 99085539

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Este trabalho foi escrito de acordo com o formato do periódico Journal of Zoology, ao qual será submetido.

RESUMO

Morcegos insetívoros apresentam preferências marcantes por determinados tipos de hábitat, principalmente bordas de vegetação arbórea e corpos d´água, e picos de atividade nos períodos mais quentes do ano, associados ao ciclo de vida anual das espécies e à influência de fatores abióticos, como temperatura, umidade e velocidade do vento. Este estudo apresenta a primeira avaliação de padrões espaciais e sazonais na atividade de quirópteros insetívoros realizada no Brasil, estado do Rio Grande do Sul, extremo sul do Brasil. Foram testadas as hipóteses de que a atividade de morcegos é heterogênea entre diferentes tipos de hábitat e estações do ano, e é influenciada por fatores abióticos. Quatro transectos fixos de 1500 metros de extensão foram monitorados mensalmente de abril de 2009 a março de 2010, e contemplaram os cinco tipos de hábitat predominantes na região. Em cada amostragem, foram obtidos o número de registros de atividade com um aparelho detector de ultrassons Pettersson D230, e parâmetros abióticos. No total, foram obtidos 1183 registros de atividade, sendo que os maiores níveis de atividade de quirópteros foram observados ao longo de um capão de eucaliptos e de um canal. Em segundo lugar, a borda de uma mata ciliar e a margem de um banhado apresentaram níveis equivalentes de atividade de quirópteros. A área de campo foi significativamente menos utilizada. A atividade de quirópteros não apresentou correlação com temperatura, velocidade do vento e umidade relativa do ar. Porém, foi significativamente menor na estação mais fria, o inverno, e apresentou valores similares no outono, primavera e verão. Nossos dados indicam que na área de estudo quirópteros insetívoros estão ativos em todos os períodos do ano, e apresentam preferências marcantes por hábitats com presença de cursos d´água e vegetação arbórea de grande porte. Estas zonas devem ser consideradas prioritárias para a conservação da assembleia de quirópteros insetívoros no extremo sul do Brasil.

Palavras-Chave: Bioma Pampa; Detector de morcegos; Fatores abióticos; Monitoramento

acústico; Molossidae; Rio Grande do Sul; Vespertilionidae.

INTRODUÇÃO

Os morcegos insetívoros correspondem a 70% das espécies de quirópteros (Nowak, 1994), são amplamente distribuídos (Simmons, 2005) e desempenham importante papel ecológico na transferência de nutrientes em ecossistemas naturais (Pierson, 1998) e no controle de populações de insetos, inclusive de pragas agrícolas (Cleveland et al., 2006; Boyles et al., 2011). Estes morcegos ocupam altos níveis tróficos e são bioindicadores de qualidade de hábitat (Jones et al., 2009), podendo sofrer declínios populacionais em resposta a distúrbios (Tuttle, 1979; Gerell & Lundberg, 1993; Racey, 1998; O’Donnell, 2000).

Alterações ambientais capazes de afetar morcegos insetívoros incluem, particularmente, fragmentação de hábitat (Law et al., 1999; Estrada-Villegas et al., 2010), poluição da água e do ar (Vaughan et al., 1996; O’Shea & Johnson, 2009), atividades agrícolas (Stebbings, 1988; Wickramasinghe et al., 2003) e práticas de silvicultura e manejo de florestas (Guldin et al., 2007; Hayes & Loeb, 2007). Informações sobre uso de hábitat por quirópteros e sobre a influência de atividades humanas na disponibilidade de recursos podem ser aplicadas à conservação de morcegos (Fenton, 1997) e, consequentemente, dos processos ecológicos a eles associados.

Quirópteros insetívoros apresentam preferências marcantes por determinados tipos de hábitat, influenciadas, de forma geral, pela presença de vegetação arbórea e de corpos d´água (Walsh & Harris, 1996a; Racey, 1998; Russ & Montgomery, 2002). Altos números de registros de atividade de quirópteros são reportados para florestas e fragmentos arbóreos em zonas rurais (Erickson & West, 2003; Lumsden & Bennett, 2005), especialmente em linhas e bordas de vegetação (Russ et al., 2003; Kofoky et al., 2007; Morris et al., 2010), assim como

para rios, lagos e lagoas (Vaughan et al., 1997; Russo & Jones, 2003; Brooks, 2009), inclusive em áreas urbanas (Bartoniča & Zukal, 2003; Rhodes & Catterall, 2008). A distribuição espacial de quirópteros insetívoros pode ser altamente influenciada pela disponibilidade de presas (DeJong & Ahlén, 1991), e estes tipos de hábitat são selecionados, principalmente, devido à alta abundância de insetos em ambientes aquáticos e bordas de vegetação (Lewis, 1970; Barclay, 1991; Celuch & Kropil, 2008).

Padrões sazonais na atividade de quirópteros são menos documentados, uma vez que em grande parte dos estudos as amostragens foram restritas aos meses mais quentes do ano (e.g. Kunz, 1973; Bartonicka & Zukal, 2003; Russ et al., 2003; Brooks, 2009), com poucos trabalhos abrangendo todo o período anual (Ciechanowski et al., 2010; Johnson et al., 2011). Estes estudos associam padrões sazonais de atividade ao ciclo anual de reprodução, hibernação e migração das espécies, em resposta a variações na demanda energética e nas condições climáticas ao longo do ano, que influenciam a disponibilidade de alimento. Alguns estudos reportam a influência de fatores abióticos sobre a atividade de quirópteros, como temperatura (Maier, 1992; Hayes, 1997; Russ et al., 2003), velocidade do vento (Avery, 1985; Rydell, 1991; Johnson et al., 2011) e umidade relativa do ar (Lacki, 1984; Adam et al., 1994). Padrões de uso de hábitat e de atividade de quirópteros insetívoros são influenciados por flutuações na disponibilidade de insetos ao longo do ano (Akasaka et al., 2009; Wang et al., 2010).

Padrões sazonais e espaciais de atividade de quirópteros insetívoros variam de acordo com a espécie (Brooks & Ford, 2005; Francl et al., 2008; Russ et al., 2003). Apesar disso, a realização de estudos levando em consideração a assembleia de morcegos tem se mostrado útil na identificação de tendências gerais no uso de hábitat e de áreas prioritárias para a conservação de quirópteros (Thomas, 1988; Krusic et al., 1996; Walsh & Harris, 1996a;

Walsh & Harris, 1996b), e de como diferentes fatores podem influenciar padrões temporais de atividade (Hayes, 1997).

No Brasil, não há estudos específicos sobre uso de hábitat por quirópteros insetívoros. Uma das principais lacunas de informação sobre quirópteros brasileiros corresponde aos Pampas Sul-americanos do Rio Grande do Sul, na metade sul do estado (Bernard et al., 2011). O bioma Pampa corresponde à porção brasileira dos Pampas Sul-americanos, que estende-se pelos territórios do Uruguai e da Argentina, e caracteriza-se por apresentar relevo plano coberto por fitofisionomias campestres (IBGE, 2004). No Brasil, formações não florestais como o Pampa tem sido historicamente negligenciadas como área prioritária para a conservação, apesar da alta biodiversidade e dos elevados índices de endemismo (Pillar et al., 2009). O Pampa encontra-se em terceiro lugar em relação ao número de espécies da fauna ameaçadas de extinção, na frente da Amazônia, Caatinga e Pantanal (Paglia et al., 2008), apesar de ocupar apenas 2,1% do território (IBGE, 2004). As principais ameaças para a fauna do Pampa são a expansão das atividades agrícolas, silvicultura envolvendo espécies de Pinus e Eucalyptus e do cultivo de pastagens exóticas, responsáveis por perdas consideráveis de área de campos naturais nas últimas três décadas (Pillar et al., 2009).

No presente estudo, nós avaliamos o uso de diferentes hábitats e a variação na atividade sazonal de quirópteros insetívoros (famílias Molossidae e Vespertilionidae) no bioma Pampa, extremo sul do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Os objetivos específicos foram: 1. testar a hipótese de que os principais hábitats característicos da região diferem quanto à atividade de morcegos; 2. verificar se a atividade de quirópteros insetívoros apresenta variações sazonais; 3. verificar se a atividade de quirópteros está relacionada à temperatura, velocidade do vento e umidade relativa do ar.