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A configuração do espaço urbano brasileiro, notadamente marcado por expressivas desigualdades sócio-espaciais, foi (e ainda o é) caudatário da luta por inscrever na legislação brasileira instrumentos de viabilização do direito à cidade. O processo constituinte de 1988 refletiu este interesse, ainda que naquele momento o tema da questão urbana não tivesse adquirido ainda status de relevância suficiente para aglutinar a mobilização necessária de todos os setores presentes no interior das forças progressistas (SILVA, 2002). Em que pese esta dificuldade restritiva das possibilidades de evidenciar o debate da questão urbana na cena pública, durante a Constituinte:

[...] 130.000 eleitores subscrevem a Emenda Constitucional de Iniciativa Popular pela Reforma Urbana, e com isso conseguiram inserir na Constituição os artigos 182 e 183, que estabeleciam alguns instrumentos para o controle público da produção do espaço urbano e introduziam o princípio da chamada ‘função social da propriedade urbana’ [...] Porém, a regulamentação desses artigos só viria a ocorrer 11 anos depois, com a aprovação definitiva do capítulo da reforma urbana da nossa constituição, em uma tramitação que contou com a pressão constante do Fórum Nacional de Reforma Urbana, e que culminou com a aprovação da Lei 10. 257, o Estatuto da Cidade, em julho de 2001 (FERREIRA, 2005, p. 16).

Embora a Emenda Popular de Reforma Urbana, em sua totalidade, não tenha sido incorporada à Constituição, dada a correlação de forças estabelecida no

processo constituinte, não podemos negar a importância histórica do fato de pela primeira vez se constar na Constituição brasileira um capítulo específico sobre a Política Urbana. Do mesmo modo, o Estatuto da Cidade – projeto de lei cujo principal objetivo é regulamentar o capítulo de Política Urbana contido na Constituição – constitui um instrumento significativo para o desenrolar das lutas urbanas, por indicar que as cidades cumpram sua função social e promovam o bem- estar de seus habitantes.

Todavia, no Brasil contemporâneo, a questão urbana se entrelaça e necessariamente se relaciona com a tendência histórica que vem se apresentado desde os anos 1990, quando o Brasil adentrou num período marcado por uma nova ofensiva burguesa, em resposta à crise do capital iniciada nos anos 1970.

As transformações políticas e econômicas, em curso neste contexto direcionaram o Estado brasileiro a uma refuncionalização sintonizada com o contexto de um novo quadro do capitalismo mundial, provocando a hegemonia do projeto neoliberal12 no país, expresso, sobretudo na desresponsabilização do Estado, na desregulamentação do mercado de trabalho e no retrocesso no campo dos direitos e das políticas sociais, exaltando o individualismo e a liberdade econômica. Nesse processo, o projeto neoliberal se expande no Brasil, fortemente, ainda, ao impor orientações para uma contrarreforma do Estado13, dada a sua direção numa perspectiva antipopular e de adaptação passiva à lógica do capital, possibilitada no país por diversos fatores e elementos da realidade concreta.

Este cenário tem sido determinante para o uso espacial do território urbano, na medida em que acirra as expressões da questão social e limita avanços em relação ao direito à cidade. Isto não somente por incidir no modo de organização das cidades, mas também porque, em total coerência com os postulados neoliberais para a área social, a própria condição da política pública pensada para as cidades, neste contexto, e da legislação que a instrumentaliza é uma ilustração particular da contrarreforma do Estado brasileiro.

12 Para um estudo acerca das origens do neoliberalismo, do processo e dos mecanismos mobilizados

para a construção da sua hegemonia, indicamos a leitura de Sader e Gentili (1995) e Harvey (2008).

13 Em Behring (2003) encontramos algumas determinações relevantes e transformações de longo

prazo que permitem caracterizar quais razões socioeconômicas e políticas estão na base do processo de contrarreforma do Estado - tais como as mudanças no mundo da produção e a mundialização do capital - e como se deu o processo de implementação da contrarreforma, entendo-a como estratégia fundamental do ajuste neoliberal. A argumentação desenvolvida nesta obra caracteriza bem os processos em curso no âmbito do Estado brasileiro.

Apesar do reconhecido avanço que representou a inscrição da Política Urbana na Constituição Federal de 1988, os desdobramentos que se seguiram no plano econômico e político obstacularizaram a sua real efetivação, explicitando assim uma verdadeira tensão entre o marco legal e a decorrente abertura de um campo importante para a luta política em prol do direito à cidade e as condições postas à política pública pelo ideário neoliberal. Condições estas nas quais o que vem prevalecendo é a restrição e redução de direitos, com base no trinômio estruturante da ofensiva neoliberal: a privatização, a focalização/seletividade e a descentralização, face o processo de desresponsabilização do Estado para com a área social (BEHRING; BOSCHETTI, 2006).

No caso das políticas urbanas, é ilustrativo da lógica de privilégio do capital e do mercado o expressivo poder dos empreendedores e/ou das empreiteiras como orientadoras dos investimentos públicos urbanos. A visibilidade das obras consiste em um critério extremamente forte para as decisões sobre investimentos públicos (ou privados) nas cidades brasileiras. Ainda mais no que diz respeito às metrópoles. Dimensão esta sintomática também do quanto prevalece a lógica do uso dos fundos públicos como subsídio para a produção de novas localizações que possam contribuir e atender à finalidade de expansão do mercado imobiliário e de expansão do capital. Para Maricato (2011) outros fatores interferem na dinâmica de investimento público nas cidades brasileiras:

O capital imobiliário mantém profissionais para o acompanhamento do orçamento público e da legislação urbanística já que eles incidem nos preços das localizações e, portanto, na valorização ou desvalorização de terrenos. Mas as empresas de construção pesada também exercem forte influência nas decisões sobre as obras de infraestrutura urbana. A relação entre empreiteiras de construção, a visibilidade de grandes obras viárias (cujo prazo deve manter uma lógica em relação aos prazos eleitorais) e as doações para o financiamento de campanhas eleitorais parece ser uma chave que explica muito do investimento público nas cidades (p. 81).

Este representa, para a autora, um dos impasses14 postos à política urbana face às questões conjunturais e estruturais do capitalismo brasileiro, impactando fortemente no campo e na cidade, muito embora não se restrinja a este aspecto.

14 Ponderamos, entretanto, que tratar a dinâmica do investimento público nas cidades brasileiras

como um impasse pode soar falsamente, dando a impressão de que resolver esta questão bastaria para a ruptura com as desigualdades sócio-espaciais. Ledo engano. Lembremos que o caráter eminentemente desigual da vida nas cidades está inscrito no ordenamento capitalista e naturalizado em sua lógica.

Para além do poder das empreiteiras como orientadoras e definidoras dos investimentos públicos nas cidades, vale atentar para a tendência em curso no âmbito do Estado brasileiro no tocante à própria condição da política pública pensada para as cidades.

Com efeito, como tem discutido Raquel Rolnik (2002), é inegável a relação entre a estrutura profundamente excludente da cidade brasileira e a política urbana a ela, vinculada; Aliás, alerta a urbanista, parte importante do funcionamento das cidades é a própria política urbana que, no Brasil – não destoante da tendência geral – foi intensamente responsável pelos processos de exclusão e pela perpetuação de privilégios e desigualdades.

Em 2003, com a criação do Ministério das Cidades, por ocasião do primeiro mandato do presidente Lula, havia uma expectativa por parte de muitos movimentos sociais progressistas, lideranças sociais e profissionais de diversas áreas e origens, de efetivação de um órgão de caráter estatal que retomasse para a agenda política nacional a social e institucionalmente ignorada questão urbana. Naquela conjuntura até mesmo as políticas setoriais de habitação, saneamento e transporte haviam sido abandonadas ou minimizadas.

A expectativa era maior pelo fato da primeira equipe chamada à frente do Ministério das Cidades representar uma convergência de militantes sindicalistas, profissionais e acadêmicos com participação anterior em experiências de administração pública e atuação prestigiada no meio técnico e acadêmico, além de forte inserção nos movimentos sociais urbanos. Mais tarde, porém, o Ministério das Cidades teve sua composição sacrificada em nome da ampliação do apoio ao governo no Congresso Nacional (MARICATO, 2011).

Para Ermínia Maricato, urbanista e responsável pela formulação da proposta de criação do Ministério das Cidades, embora caiba reconhecer que o governo Lula retomou investimentos em habitação e saneamento após, aproximadamente, 25 (vinte e cinco) anos de descaminhos da administração federal em relação a essas áreas, a questão urbana ou metropolitana não está entre os avanços do governo Lula, inclusive porque a questão da terra, verdadeiro nó social no Brasil, não foi tocada, nem no campo nem na cidade.

Na realidade, seguindo seu caráter ambíguo, “[...] o Governo Lula respondeu, de certo modo, com o FNHIS15 para os movimentos sociais e com o PMCMV16 para os empresários [...]” (MARICATO, 2011, p.56). Uma avaliação geral do Programa Minha Casa Minha Vida tecida por Maricato (Op. Cit) indica: um impacto negativo sobre as cidades devido à localização inadequada de grandes conjuntos habitacionais e ao aumento do preço da terra e dos imóveis; a maior parte da localização das novas moradias é definida por agentes do mercado imobiliário, sem obedecer a uma orientação pública e sim à lógica do mercado.

Além disso, ao atender as demandas dos empresários do setor, incluindo as faixas de renda entre 07 (sete) e 10 (dez) salários mínimos, o PMCMV pode repetir aspectos negativos de programas habitacionais antigos, privilegiando a classe média em detrimento das rendas mais baixas. É provável (hipótese que se baseia na observação empírica da autora) que a localização das moradias não se dê nas regiões que concentram o déficit habitacional do país; o PMCMV , enfim, retoma a política habitacional com interesse apenas na quantidade de moradias, e não na sua fundamental condição urbana.

Face às contradições explicitadas na realidade, importa ressaltar que, enquanto ator político, a cidade – longe de ser um ator unificado em consensos – é, na verdade, território plural de luta entre diferentes sujeitos e projetos políticos, espaço de disputas e tensionamentos, expressão do defronto entre classes sociais, ponto de partida para a articulação de diversos movimentos urbanos reivindicando melhores condições de vida nas cidades.

A realidade urbana brasileira é, assim, permeada por complexas contradições, conflitos, lutas, em que estão presentes diferentes sujeitos que se mobilizam e agem na defesa de propostas para enfrentar uma série de problemas vivenciados no cotidiano da vida social. Nessa perspectiva, os movimentos sociais constituem-se importantes vias de ação político-coletiva que se organizam para reivindicar determinados interesses.

Nos anos 1960, em um contexto marcado por grandes lutas, estes se tornam objeto de estudo acadêmico, nas mais diversas abordagens teórico-metodológicas.

15 Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social. Sendo gerido por um conselho que tem a

participação de representantes da sociedade, maneja recursos bem menos significativos que o PMCMV.

16 Programa Minha Casa Minha Vida, lançado em 2009, desenhado por uma parceria entre o governo

Isto indica, a nosso ver, que a realidade define, em grande medida, a agenda de pesquisa da universidade, mas segue as escolhas políticas e teórico-metodológicas dos sujeitos pesquisadores.

Chamamos especial atenção para as teorizações de maior influência na produção teórica brasileira acerca dos movimentos atuais, também designados “novos” movimentos sociais, a exemplo do paradigma europeu, com destaque para três principais vertentes: a abordagem culturalista-acionalista, o pensamento pós- moderno e o paradigma marxista.

A teoria culturalista-acionalista tem por horizonte a construção de um modelo teórico baseado na cultura. Daí, a ênfase dispensada por este paradigma às dimensões de cultura, identidade e solidariedade entre as pessoas de determinado movimento social. Segundo esta perspectiva, os movimentos contemporâneos apresentam interesses difusos e não classistas. Por isso mesmo, há um redirecionamento do eixo central das demandas postas na esfera pública, as quais são deslocadas do campo da economia para o campo da cultura. Nesta abordagem, a ênfase está no papel dos indivíduos e não da classe social e, na mesma lógica, os movimentos são vistos muito mais como agentes de pressão do que de transformação societária (Cf. TOURAINE, 1989; EVERS, 1984). Trata-se, portanto, de uma teoria que procura explicar a ação coletiva em uma perspectiva subjetivista dos fenômenos.

No campo teórico e prático, ampliam-se ainda as interferências do pensamento pós-moderno e neoconservador, a exemplo do que ocorre com a perspectiva acionalista. Aqui também, os “novos movimentos sociais” são analisados como distantes e apartados da contradição capital-trabalho. Tal vertente pós- moderna não apenas afirma a perda da centralidade dos conflitos de classe no processo de organização e de ação política dos movimentos sociais, como assegura mesmo a inexistência de tais conflitos na contemporaneidade (LACLAU e MOUFFE, 1988).

Dentre os elementos que constituem a base de sustentação da leitura pós- moderna dos movimentos sociais destacamos a descrença em qualquer perspectiva de contraponto aos interesses do capital e de emancipação do trabalho, em uma total negação das bases teóricas clássicas do marxismo.

Boaventura de Sousa Santos (1999; 2005), expoente da intelectualidade pós- moderna, talvez seja a melhor tradução que poderíamos encontrar neste momento

para ilustrar o descrédito tão amplamente difundido quanto às possibilidades de transformação societária radical. Na expressão deste autor:

[...] a primazia explicativa das classes é muito mais defensável que a primazia transformadora. Quanto a esta última, a prova histórica parece ser por demais concludente quanto à sua indefensabilidade. Dando de barato que é fácil definir e delimitar a classe operária, é muito duvidoso que ela tenha interesse no tipo de transformação socialista que lhe foi atribuído pelo marxismo e, mesmo admitindo que tenha esse interesse, é ainda mais duvidoso que ela tenha capacidade para o concretizar. Essa indicação que parece hoje indiscutível tem levado muitos a concluir pela impossibilidade ou pela indesejabilidade de uma alternativa socialista (SANTOS, 1999, p. 41).

Afirmamos peremptoriamente: o fim de qualquer possibilidade de construção de alternativas a esta sociabilidade está longe de constituir indicação indiscutível, dado o caráter histórico e criador da práxis humana. Reproduzir o discurso generalizado de impossibilidade de transformação societária significa contribuir para a produção de uma cultura de passividades e conformismos, diretamente incidente no cotidiano da classe trabalhadora, resultando em um evidente reforço da alienação, em detrimento de projetos de natureza coletiva.

Atualmente, defrontamo-nos, portanto, com duas grandes tendências teóricas que vêm incitando a batalha das ideias: uma vinculada ao conservadorismo - inspirada nas tendências pós-modernas – a compreender a realidade social como um campo de fragmentos e os movimentos contemporâneos como espaços de interesses difusos e não classistas; outra, vinculada à tradição marxista, a entender a realidade a partir de uma perspectiva histórico-ontológica, buscando abranger as determinações objetivas e subjetivas dos processos sociais17.

Nesse sentido, ainda que tal abordagem questione e nivele os referenciais marxista e positivista, não temos nenhuma dúvida de que o principal embate empreendido mesmo é contra a teoria social de Marx, cuja novidade na literatura contemporânea é a introdução dos recortes de gênero, etnia e geração, sem abandonar a perspectiva de classe. Afinal, sob a ótica do marxismo, as novas manifestações e expressões das lutas sociais na cena política contemporânea não representam absolutamente qualquer negação da contradição capital-trabalho como

17 Afirmamos tratarem-se de duas grandes tendências teóricas porque, especialmente, no que se

refere ao debate acerca dos movimentos sociais no Brasil, concordamos com a análise de Duriguetto e Montaño (2010), segundo a qual as vertentes acionalista e pós-moderna parecem hoje estar fundidas num verdadeiro “rearranjo culturalista”.

sendo fundante desta lógica societária, mas, ao contrário, reafirmam tal contradição (LOJKINE, 1981) e confirmam a centralidade da luta de classes.

Consideramos de suma importância a análise das linhas gerais que fundamentam o universo teórico e político das diferentes abordagens explicativas adotadas nos estudos dos movimentos sociais18. Todavia, dado os limites do presente trabalho, privilegiamos a abordagem marxista por a tomarmos como referência para a compreensão desta sociedade.

Esta abordagem, cuja matriz situa-se no conflito capital-trabalho, privilegia o processo de luta histórica das classes subalternas. Isto não significa limitar-se à análise do movimento operário, relegando a um segundo plano outros movimentos políticos; tampouco implica em trabalhar com determinações exclusivamente econômicas, pois a opressão-dominação capitalista perpassa as mais diversas dimensões da existência social. O grande diferencial do paradigma marxista na análise dos movimentos sociais consiste em possibilitar apreender, para além dos aspectos imediatos, a essência dos fenômenos e a contraditória relação entre essência e aparência. Nesta teoria, há também a preocupação frequente em subsidiar a ação política destes movimentos e, assim, contribuir para a práxis revolucionária. Resulta daí o fato de tal paradigma ter provocado e impulsionado, ao longo da história, não somente o desenvolvimento de um amplo universo teórico e analítico em torno do processo revolucionário e das estratégias de transição socialista, como também suscitado e fundamentado a construção de diversos instrumentos político-organizativos da classe trabalhadora.

Fundamentalmente, como destaca Gohn “[...] as teorias marxistas sobre os movimentos sociais não abandonaram a problemática das classes sociais. Ela [a problemática das classes] é utilizada para refletir sobre a origem dos participantes,

18 Para um estudo comparativo entre estas teorias, pondo em evidência diferenças e semelhanças, a

fim de explicitar os termos do debate estabelecido entre as principais abordagens, indicamos a leitura de Touraine (1989) e Evers (1984) como expoentes da teoria acionalista; Laclau e Mouffe (1988) e Santos (1999; 2005) como um dos representantes da abordagem pós-moderna; Manuel Castells (1974) e Jean Lojkine (1981) como autores que figuram dentre os primeiros estudiosos a empreender esforço teórico na análise dos movimentos sociais atuais, em uma perspectiva marxista. Uma sistematização acerca do conjunto destas teorias pode ser encontrada nas obras de Gohn (2007) e Scheren-Warren (1987). Entretanto, contrariamente à análise de Gonh (Op. Cit), consideramos que o nominado “Paradigma dos Novos Movimentos Sociais” (NMS) não pode ser reputado como exclusivamente pós-moderno ou acionalista. Na verdade, há autores marxistas, a exemplo de Lefebvre (1968) e Birh (1998), que também utilizam a mesma denominação - NMS - para se referir a alguns movimentos sociais, sem necessariamente despi-los do caráter classista. Contudo, reconhecemos que, a partir dos anos 1990, há crescente influência pós-moderna na concepção dos “novos” movimentos sociais.

os interesses do movimento, assim como o programa ideológico que fundamenta suas ações” (2007, p. 173).

No caso dos movimentos sociais urbanos, a tese de que estes movimentos são incapazes de ultrapassar o imediato das reivindicações urbanas tem sido sustentada por autores como Antônio Ivo de Carvalho (1978), devido especialmente dois aspectos: o caráter policlassista destes movimentos e o fato de se desenvolverem “a margem da produção”. Isto porque, na sua concepção, as contradições urbanas são de caráter conjuntural e, portanto, solúveis nos marcos do sistema capitalista.

Com efeito, somente ao compreendermos a categoria classe social, um dos temas fundantes e polêmicos da teoria de Marx, é que se torna possível aprofundarmos nossa compreensão acerca do papel dos(as) movimentos urbanos organizados, no interior da luta de classes.

Iasi (2007a) chama atenção para o fato de que diferentes determinações particulares constituem a definição de classe, para além da posição no interior das relações sociais de produção, apesar deste aspecto ter praticamente se generalizado como se fosse o único conceito para classe social.

A análise do conjunto da obra de Marx aponta que a definição de classe envolve: a posição diante da propriedade ou não propriedade dos meios de produção; a consciência que se associa ou distancia de uma posição de classe e a ação dessa classe nas lutas concretas no interior de uma formação social. Ilustrativo dessa afirmação é que:

Quando pegamos um estudo concreto como o 18 brumário, por exemplo, Marx chega a definir os diferentes grupos atuantes naquela intrigante conjuntura muito mais decisivamente pela ação que desempenham e pelas concepções de mundo que representam, do que mesmo pela sua posição no interior das relações sociais ou diante da propriedade. Não que essa dimensão tenha deixado de atuar, mas que, limitando-se a essa determinação, seria impossível desvendar a trama dos acontecimentos. Isso significa dizer que para Marx a forma com que as classes atuam no campo concreto da história, a consciência que representam em cada momento, são fatores determinadores de seu caráter (IASI, 2007b, p. 108).

Nessa perspectiva, apenas a posição dos(as) sujeitos no interior das relações sociais é insuficiente para definirmos a classe a que estão vinculados. Para além disso, devemos considerar especialmente como se conforma e se posiciona a sua fração organizada, no caso os movimentos urbanos e organizações populares.