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Esta contradição se revela, por exemplo,
quando comparamos a definição de Turismo Cultural
com as intervenções urbanas realizadas no Centro Histórico de Salvador e no Bairro do Recife. O Turis- mo Cultural, de acordo com o Conselho Internacio- nal dos Museus (ICOM), apresentado na declaração
de Quebec (1976), deve promover o “conhecimento
de monumentos e sítios histórico-artístico” e impli- ca em “benefícios sócio-culturais e econômicos (...) para toda a população implicada” (AMARAL 2006, p. 59). Esta modalidade de turismo diz respeito ao atrativo exercido pela cultura humana (história, coti- diano, artesanato), com o intuito de:
(...) ver coisas novas; ampliar conhe- cimentos; observar particularidades e hábitos de outros povos; conhecer civilizações e culturas diferentes (...). (SANTOS, 2006, p. 100, 101)
No entanto, através dos estudos realizados, poderemos ver que nem todos estes aspectos são atendidos, sobretudo aqueles que dizem respeito a “toda população implicada”, uma vez que, embora seja o morador quem de fato cria vínculos com o lu- gar, valoriza-se mais o visitante. Tanto em Salvador quanto em Recife, locais em que as intervenções urbanas se pautaram no desenvolvimento da ativi- dade turística, é possível observar um processo de sobreposição das dinâmicas anteriormente estabe- lecidas, como aquelas vinculadas à habitação, por novas formas de interação com o território, emba- sadas, sobretudo, no ócio e entretenimento. Este desvirtuamento do Turismo Cultural, que pode ser
observado nestes casos, decorre das diretrizes de intervenção adotadas, que não privilegiaram a popu- lação local, historicamente estabelecida no território, e por isso detentora do vínculo com o local. Sobre- tudo em Salvador, em que a área de maior interesse turístico corresponde justamente à área de grande concentração populacional, estes aspectos podem ser observados.
Esta incongruência irá demonstrar, na ver- dade, não o Turismo Cultural e sim aquele que é
denominado turismo predatório. Este se configura a
partir do direcionamento para novos usos, vincula- dos a atividades de comércio e serviços para as clas- ses de média e alta renda. Privilegia, assim, grupos
específicos, direcionados ao consumo. Deste modo, compromete de forma significativa as identidades lo- cais anteriormente estabelecidas, que seriam o prin- cipal atrativo à atividade turística. Isso ocorre porque o Patrimônio Cultural, além do Patrimônio Arquitetô- nico, tem sua representatividade reconhecida atra- vés do Patrimônio Imaterial e das formas de vivência e vínculos estabelecidos entre a população e o lugar.
A medida em que o patrimônio construído é adaptado às novas demandas de uso, atreladas ao ócio e lazer, outros usos, como a habitação, são destituídos, comprometendo a manutenção da po- pulação anterior, à qual se vincula a constituição e conservação dos referenciais culturais locais. Nesta perspectiva, não apenas o Patrimônio Arquitetônico é apropriado por este processo de mercantilização da cultura, mas também o Patrimônio Imaterial, sin- tetizado para fazer parte do novo cenário instituído. Este aspecto reducionista dos atributos culturais
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pode ser observado tanto em Salvador quanto em Recife, em que as imagens da baiana e do frevo, respectivamente, foram incorporadas às interven- ções, desconsiderando-se, no entanto, as popula- ções por elas responsáveis.
Outro aspecto importante e que deve ser considerado, ainda que de difícil controle, diz res- peito ao próprio comportamento do turista. Segundo Camargo (2009a, p. 78), esta falta de compreensão do turista em relação ao local visitado se dá pelo fato do tempo do turista estar associado ao ócio, um mo- mento de “fuga da realidade”. Este aspecto é agra- vado, de acordo com Avila (2009, p. 117, 122), por faltar ao turista um amplo entendimento das carac- terísticas particulares do local visitado, o que pode gerar um estranhamento em relação ao local e, ao mesmo tempo:
(...) perda de identidade, teatraliza- ção, descaracterização e banalização da cultura e criação de cenários para agradar ao olhar do turista. (AVILA, 2009, p. 117)
Camargo (2009a, p. 82) lembra ainda que, devido ao contato do turista com a área e, portan- to, com a população local, ser extremamente super-
ficial, isso pode enfatizar preconceitos anteriores.
Esta visão estigmatizada das áreas históricas, como locais de “(...) prostitutas, vendedores e desocupa- dos”, lembra Coriolano (2006, p. 36), é utilizada para
justificar a retirada da população anteriormente ali
estabelecida, enaltecendo o turismo como atividade de grande impacto econômico. Este aspecto é bas-
tante pertinente quando analisamos o Centro Histó- rico de Salvador, área que carrega, desde os anos 1930, um estigma de área violenta e perigosa.
Desta forma, se faz pertinente, dada a im- portância atribuída à atividade turística dentro do contexto de promoção das cidades no mercado glo- bal, também aprofundar o entendimento de Turismo Cultural, temática esta, cada vez mais, alvo de es-
tudos específicos. Por fim, considerando-se que a
noção de Sustentabilidade tem sido cada vez mais associada tanto às políticas de intervenção quanto ao turismo, abordá-la se mostrou pertinente. A inten- ção aqui não é defender uma conceituação para o termo, até mesmo porque, esclarece Acselrad28, não se pode chamar Sustentabilidade de conceito, dada
a polifonia que envolve sua definição, hoje mais ca- racterizada como um conjunto de declarações utili- zadas para validar os mais diversos projetos.
O que se pretende é entender, nos casos analisados, como esta noção é utilizada para legiti- mar as ações de intervenção. Para tanto, buscou-se reunir a visão de diferentes autores sobre o tema, considerando o viés político, econômico, técnico, social e cultural. Além destes elementos, utilizados para caracterizar o discurso da Sustentabilidade, deve-se considerar aspectos como competitividade e possíveis processos de segregação socio-espa- cial, conseqüência prática de muitos discursos que alegam a manutenção da diversidade socio-cultural como premissa de um projeto de intervenção susten- tável, o que de fato não ocorre. Isso porque, quando
28. Palestra “Sustentabilidade no contexto do Planejamento Urbano”, proferida junto ao Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Ponti-
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nos debruçamos sobre as propostas de interven- ção, ao invés de observarmos os aspectos positivos que carregam os discursos do Turismo Cultural e da Sustentabilidade, encontramos um turismo predató- rio, que não atende ao discurso do desenvolvimento sustentável29 que alegam promover.
De acordo com Camargo (2009a, p. 76), os estudos sobre os impactos ambientais associados ao turismo tiveram início nos anos 1970, passando a abranger, a partir dos anos 80, problemas como o aquecimento global. Apenas a partir da década de 90 as questões foram ampliadas para o ecoturismo e o tema da Sustentabilidade. No entanto, a autora ressalta que esta preocupação se deve mais a:
(...) uma forma de promover certos destinos e criar novos produtos, sem qualquer interesse real por atender às necessidades do entorno ou da comu- nidade local. (CAMARGO, 2009a, p. 76)
Publicações mais recentes têm se debruça- do sobre as questões relativas ao Turismo Cultural propriamente, confrontando-se com a importância de se considerar a preservação do Patrimônio Cultu- ral e o papel da população local para o sucesso da atividade. A análise de trabalhos que se baseiam na crítica ao Turismo Cultural revela que estes são unâ-
29. O conceito de desenvolvimento sustentável foi definido em 1987,
a partir de discussões relativas às questões ambientais e diz respeito à capacidade de atendimento das “necessidades das gerações presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras para satisfazer aquelas que lhes serão próprias” (SCHLÜTER, 2009, p. 272), como consta no Relatório Bruntland. Entretanto, lembra Schlüter, este conceito
vem sendo redefinido e não é clara a forma de atuação.
nimes em apontar que o Patrimônio Cultural deve, em primeiro lugar, servir à comunidade local, para depois servir ao visitante. Até porque, como aponta
Camargo (2009b, p. 324), o turista é atraído para vi- sitar lugares singulares e que:
Algo que não convence uma comu- nidade pode ser aceito de forma mo- mentânea pelos turistas. Mas não se mantém e tal situação acelera seu de-
clive. (CAMARGO, 2009b, p. 324)
O Patrimônio Cultural é reconhecido pelo Turismo Cultural como um atributo que diferencia o lugar, guardando a história, arquitetura e tradições que lhes são próprias, tornando-o atrativo à visita- ção. Ao mesmo tempo, ao passar por um processo de síntese, com a eleição de aspectos do Patrimônio Cultural a serem preservados e incorporados à inter- venção, observa-se um processo de homogeneiza- ção que torna as áreas alvo de intervenção seme- lhantes a outros destinos turísticos. Ao contrário da preservação do Patrimônio Cultural como um todo, garantindo a manutenção da pluralidade dos diferen- tes grupos que dele participam, sobressaem aspec- tos da tematização da paisagem e da cultura local.
Daí resultam os conflitos tão questionados, como o deslocamento da população e a simplifica- ção de elementos. Nas palavras de Costa:
Nossa crítica é baseada no caráter preponderantemente estético da apro- priação do patrimônio via turismo cul- tural implantado no espaço social, em sua fetichização e “banalização pela cenarização progressiva” que envol-
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