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BÖLÜM 1: KURAMSAL VE KAVRAMSAL ZEMİN

1.3. Apaçi Kavramı ve Tarihsel Kökeni

Embora algumas professoras afirmassem já trabalhar com música em sua atuação docente, verificamos um grande avanço quanto ao conhecimento e vivência com a música numa perspectiva em que ouvir e cantar quaisquer canções já não se mostrava suficiente. As professoras, de fato, aprenderam a escolher mais criteriosamente o repertório utilizado em sala de aula com base em objetivos preestabelecidos e não num “fazer por

fazer”. Além do mais, enriqueceram o trabalho com a música incorporando possibilidades de expressão corporal, criação e improvisação individual e coletiva.

Márcia – Eu costumo inventar musiquinhas...em cima de letras que eles conhecem...Faço isso sempre...eu tenho um caderninho de música...

Luciana – ... como a gente está trabalhando a Terra, a parte da hidrosfera e tal, eu trouxe a música do Guilherme Arantes, Planeta Água, eles ouviram, eles já sabiam, já conheciam...foi mais como ilustração mesmo do que a gente estava falando...mas não trabalhei nada de música com eles em outro sentido..

Conquanto mencionassem um trabalho com música em sala de aula, anterior à oficina, verificamos consciência de que algo mudou após as experiências vivenciadas nela. Márcia e Luciana revelaram que a música já ocupava espaço em suas salas de aulas, mas num sentido mais restrito de ilustrar e reforçar conteúdos, cabendo ressaltar o comentário de Luciana de que não havia trabalhado nada de música com os alunos “em outro sentido”. Isso possibilita verificarmos que a convivência dessas professoras na oficina permitiu a tomada de consciência sobre três aspectos, entre outros, muitos importantes: consciência sobre a música enquanto elemento capaz de auxiliar o desenvolvimentos dos alunos e não apenas uma ilustração para as aulas; consciência sobre a necessidade de um redirecionamento da prática pedagógica que possibilitasse uma nova postura diante do ensino musical e do processo de ensino-aprendizagem; consciência mais clara em relação às necessidades dos alunos. Sobre esse último aspecto, Schön (1992) afirma que o professor deve esforçar-se por ir ao encontro do aluno e entender o seu próprio processo de conhecimento, ajudando-o a articular o seu conhecimento-na-ação com o saber escolar. O autor ainda afirma que este tipo de ensino é uma forma de reflexão-na-ação que exige do professor uma capacidade de individualizar, isto é, de prestar atenção a um aluno, mesmo numa turma de trinta, tendo a noção do seu grau de compreensão e das suas dificuldades (Schön,1992:82).

Durante o convívio com as professoras, também observamos um grande desenvolvimento quanto à capacidade de adaptar e adequar as atividades musicais à realidade de cada sala de aula; quanto à proposição de novas possibilidades de atividades a partir das canções trabalhadas, bem como na sugestão de outras canções; quanto à proposição de integração das canções aos conteúdos já trabalhados em sala de aula; quanto à participação nas atividades práticas, leituras e reflexões e quanto à capacidade de desenvolver atividades musicais com as crianças. Se no início sobrava medo e receio, no

final sobrava disposição para continuar aprendendo e fazendo da escola um espaço musical. De fato, observamos esse redirecionamento da prática pedagógica:

Elsa – Uma coisa que eu achei interessante, não sei se a Inês percebeu isso...eu não tinha muita paciência com música e estou adorando...estou adorando...eu acho que a partir do momento que eu comecei ver que com ela eu consigo ....

Inês – É, mas eu já trabalhava um pouco...

Elsa – Sim, mas não do jeito que eu estou fazendo agora, vou falar a verdade para você...tinha mas não era... mais do cotidiano talvez...

(...)

Ana Maria – ...É que eu ainda não consigo...ainda não consegui...o difícil é chegar com a 1a série porque eu acostumei com a outra (se referindo a outras séries nas quais lecionou)...

Rose – E às vezes, às vezes eu penso assim, né, que nem você falou (se referindo à Ana Maria) “ainda não estou preparada, minha sala não está legal”...se arriscasse de repente e isso facilitasse toda sua...

Ana Maria – Então, agora quando ela deu o “Atirei o pau no gato”, eu já...já deu...eu posso fazer isso... Rose –... Porque às vezes através da própria música você vai atingir tudo que você quer...

Ana Maria – O “Atirei o pau no gato”...são tudo palavrinhas que eles conhecem...são palavrinhas que eu estou trabalhando com eles...já o Periquito Maracanã é difícil prá caramba porque....

Mesmo para a professora Ana Maria, para quem a adaptação à escola e à sala de aula foi difícil, é possível dizer que houve um notável avanço. No início, pouco participava dos diálogos, demorou a desenvolver alguma atividade musical com seus alunos, porque suas expectativas em relação às crianças não correspondiam ao que elas de fato podiam realizar. Acostumada a lidar com crianças maiores, afirmou não estar se adaptando à sua nova função.

Keila – Que você está achando da classe?

Ana Maria – A classe é excelente, eu é que tenho que me acomodar agora, né?

Essa foi a única intervenção da professora Ana Maria na primeira reunião da qual participou. Apesar de participar das atividade práticas, não se expressou verbalmente em nenhum outro momento. Também na segunda reunião em que esteve não encontramos nenhuma participação nos diálogos, apenas nas atividades práticas. Em reuniões posteriores verificamos uma maior atuação de sua parte, ainda que predominantemente para ressaltar suas dificuldades em se adaptar à classe.

Ana Maria – Então, o meu trabalho com eles, eu consigo fazer todo tipo de trabalho...mas eu não consigo é ....eles ficarem conversando e você acabar de explicar e eles “ah, o que é para fazer?”... Às vezes eu estou dando alguma explicação... então... um ou outro consegue perceber que eu mudei de tom porque estava conversando, então...mas tem meia dúzia que....aí já me perco toda...

Na mesma reunião em que ocorreu o diálogo acima destacado, Ana Maria começou a dar mais opiniões e sugestões nas atividades práticas.

Márcia – Eu pensei assim, que as crianças com as bexigas na mão fazendo essa atividade....nossa senhora.... alguns começariam a explodir a bexiga...outros já tentariam deitar no chão e jogá-la com o pé... Ana Maria – Eu fiz uma atividade com bexiga, mas com um cordãozinho no dedo deles para a bexiga não fugir...

Aos poucos, Ana Maria deixou de ressaltar seus receios e passou a destacar seus avanços:

Ana Maria - ....eles acham que eu não sei como fazer...a minha dificuldade com eles é eu ser calma e aceitar aquela lentidão, porque eu não estou acostumada com a lentidão! Eles ficam assim “você tem que fazer isso”....gente, isso aí eu faço, não é isso! A minha não-adaptação não é porque eu não sei ensinar, é eu aceitar e lentidão deles....é isso....por exemplo, eu ensinei hoje toda a lição, eu quero que amanhã, quando eu for fazer alguma coisa, eles ....entendeu? Porque eu ensinei, não ensinei? Então eles têm a obrigação de saber! ... Eu chego, daí eu volto tudo de novo...

(...)

Ana Maria – ...e outra, para mim está sendo bom porque eu sou muito agitada...eu já acalmei... eu sempre gostei de tudo para ontem e tudo bem feito.... Eles (se referindo aos alunos) já sabem, agora eu mudei minha tática, porque eu falava alto, então eu estou falando mais baixo...

(...)

Ana Maria – Eu fiz outro dia relaxamento com uma historinha .... Keila – E eles gostaram?

Ana Maria – Nossa! (...)

Ana Maria – Eu tenho dois aluninhos, que quando a Érika deixou comigo ela disse “não precisa perder tempo porque ele não fala”... “Mas ele não fala”? “Ele não fala”...foi depois da música que ....agora eu preciso “ô menino, pelo amor de Deus senta”... o menino não pára mais...lê para mim, porque ele não lia...

Os depoimentos de Ana Maria deixam bem clara uma mudança de postura principalmente em relação ao seu modo de encarar o processo de ensino-aprendizagem. Conquanto ela tenha passado a ver na música um recurso, um elemento capaz de tornar a sala de aula um ambiente mais agradável e de estimular os alunos a ler, escrever, socializar- se, expressar-se corporalmente, o fundamental na verdade foi sua consciência de que estava lidando com uma nova situação que solicitava uma nova postura de sua parte. Ana Maria era a única professora em final de carreira e trabalhava em mais de uma escola. Ela afirmava desanimar e impacientar-se com a “lentidão” das crianças. No entanto, quando mencionou o caso de seu aluno que não falava e com o auxílio da música passou a se expressar melhor e a ler, demonstrou que de fato ocorreram mudanças na sua postura perante os alunos, houve transformação em sua prática pedagógica, o que nos possibilita inferir que a oficina, propiciando trocas de experiências, leituras e reflexões a respeito do cotidiano escolar e o papel do professor, teve uma importante participação nesse sentido. Ana Maria passou a desfrutar das alegrias da música e, acima de tudo, obteve resultados em sua sala de aula a partir do redirecionamento de sua atuação docente. Conquanto as demais professoras participantes tenham demonstrado muitos avanços nesse sentido, em Ana Maria

isso pôde ser percebido com mais clareza. As demais professoras também revelaram mudanças em relação à prática pedagógica em suas atitudes e falas. Elsa, por exemplo, afirmou, em vários momentos, que seus alunos desenvolveram mais rapidamente na leitura e escrita após a inserção da música, na perspectiva proposta pela oficina, em sala de aula a ponto de dizer que só alfabetizaria com o auxílio da música. Foi possível observar que todas as professoras modificaram suas práticas de alguma forma. Passaram a valorizar o aspecto lúdico em sala de aula, resgataram a presença da música nela – o que, na sua opinião, é algo que vai se perdendo no decorrer das séries, ou seja, elas mesmas observam que na pré-escola a música é muito mais presente do que nas séries finais do ensino fundamental. Brincando com os alunos, possibilitaram uma troca de experiência maior com eles, maior conhecimento a seu respeito vice-versa; desenvolveram reflexões sobre o ensino-aprendizagem, o cotidiano escolar, a prática pedagógica apoiadas em suas novas aprendizagens, leituras, para posterior aplicação com os alunos; criaram e propuseram novas possibilidades de atividades a partir das vivenciadas na oficina e em sala de aula; expondo sugestões, participando de várias maneiras no grupo e assim, se colocando no lugar do aluno, desenvolvendo a capacidade de compreensão sobre a interação entre alunos, entre alunos e professoras, entre ambos e o espaço escolar.

4.1.6 ESTABELECENDO CONEXÕES ENTRE A LINGUAGEM MUSICAL E OS