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Essa organização social coincide com as transformações oriundas das bases produtivas ocasionando as premissas do capital, que, por sua vez, alterou a condição de permanência do ser humano sobre o espaço, pois este passou a ser fonte direta de renda.

Para a dominação capitalista, apoderar-se do espaço geográfico significava domínio também sobre o homem, que não tinha as condições materiais de posse No entanto, ajustava- se às normativas impostas pelo modelo desse sistema econômico, o qual centrava seus interesses na acumulação de riquezas, com base nas forças produtivas configuradas pela mão- de-obra. Conforme esclarece Soares Júnior (2000, p.24):

Na sociedade capitalista ocorreu uma unidade entre o processo de produção (operários assalariados e meios de produção) e o processo de circulação, através de um movimento cíclico, no qual o capital assumiu formas variadas. O trabalho é assalariado e surge como mercadoria. No interior do processo produtivo, defrontam- se de um lado, os detentores dos meios de produção e do capital (o capitalista) que precisam de mão-de-obra para sustentar tal processo (divisão social do trabalho, os meios de produção e o objeto de trabalho) e de outro, os vendedores de sua força de trabalho (o proletário) – cuja produção é direcionada para atingir o máximo de produtividade, e consequentemente, de mais-valia.

O prenúncio da sociedade capitalista ou tecnológica indicia que o ser humano não vive mais num meio natural, e sim no meio técnico, que interpõe entre o homem e a natureza uma rede de máquinas e técnicas apuradas. O homem explora a natureza, domina-a e utiliza-a para seus fins.

No século XVIII, o horizonte geográfico se alargou ainda mais. Terras antes desconhecidas passaram a ser visitadas; grandes nomes se empenharam no estudo da Terra e, naquele período, a teoria heliocêntrica substituiu o geocentrismo. Para Tonine (2003, p. 23), “O final do século XVIII pode ser visto pelos estudiosos como divisor entre a Renascença e a Modernidade, porque é nesse momento que começam a ser dados os nós na trama da sistematização de um outro campo de conhecimento: a Geografia”.

Até então os estudos da Geografia apresentavam duas tendências: a primeira tendência confundia os estudos matemáticos a respeito da forma e as dimensões da Terra, com

a Cartografia e com a Astronomia; a segunda preocupava-se com a descrição de povos, seu modo de vida, suas atividades, seus costumes e as relações com os lugares onde viviam. A ênfase de Tonine (2003, p.23) enfoca esse pensamento:

As explicações sobre as coisas do mundo que, na Renascença vão interessar para a construção da Geografia trazem a marca da dualidade matemático-cartográfica, a qual tentava mostrar a imagem do mundo pela generalização da natureza, pelos mapas – a cosmografia – e da dualidade histórico-descritiva, que narrava a particularidade dos lugares – a corografia. Assim, o discurso geográfico que vai ser constituído traz na valorização da observação direta e na descrição detalhada dos fenômenos o seu método investigativo.

Os saberes do pensamento geográfico advinham do modo como a compreensão do homem decorria das descrições dos grupos humanos e da paisagem natural que estavam ao seu alcance. Esses saberes encontravam-se dispersos em outras ciências naturais.

Lidar com a natureza restringia-se a princípio para suprimento das necessidades básicas. A relação estabelecida com a natureza convinha para extração da matéria-prima para manutenção da vida comunal. As técnicas e instrumentos rudimentares condizentes com os saberes constituídos bastavam, justificavam o contexto social, e o pensamento geográfico era caracterizado como assistemático, ou seja, a sua concretude estava dispersa nas outras ciências e evidenciadas pelas necessidades expressas da sociedade.

O cenário para sistematização do conhecimento geográfico estava constituído a partir das contribuições das civilizações gregas, romanas, entre outras, que se enveredaram em busca de novos territórios para seu expansionismo e dominação destes. Outros povos se aproveitaram dos conhecimentos já produzidos. Esses fatos proporcionaram as possibilidades para que ocorressem, no âmbito do espaço social interesses de dominação, tendo na ciência geográfica a referência que justificava tal fato.

O espaço geográfico atendia às necessidades do capital. Os pressupostos contidos na ciência geográfica passam a ser incorporados aos currículos escolares e constituem-se em saberes a serem sistematicamente difundidos nas instâncias educativas. Ela, “A Geografia Tradicional é a geografia oficial, do sistema, é uma Geografia comprometida com a reprodução ampliada do capital, com a exploração econômica”. (SILVA, 1989, p.7).

Em decorrência da expansão dos recursos técnicos, a estrutura da sociedade tecnológica resulta muito mais complexa do que a da sociedade tradicional. No entanto, a mentalidade capitalista associa o progresso, à permanência de costumes e valores. A desmitificação do mundo pela racionalidade e ciência supõe uma profunda transformação da

ética e da moral tradicional, minando profundamente as crenças religiosas, num processo denominado secularização.

Os saberes produzidos sobre as abordagens geográficas são postos em evidência quando o modo de produção capitalista se estabelece de modo acirrado conforme postulados positivistas, em que os fenômenos são interpretados pela ótica natural, e não com base nas relações produtivas existentes.

A sociedade se organiza de acordo com as novas relações de produção, como detentora de uma objetividade para o conhecimento científico. Os fenômenos se apresentam numa conexão estreita e necessária e o conhecimento humano, ao se ocupar deles, deve conhecer melhor a ordem desse novo mundo, através de uma ciência que estudasse a vida física e orgânica da superfície terrestre inter-relacionada. A Geografia passa a desenvolver as novas diretrizes, inserindo-se no campo social, como expressa, de forma analítica, Tonine (2003, p.16): “A identidade produzida para a Geografia – a de descrever o mundo – foi fabricada por diversas engrenagens colocadas, adaptadas, ajustadas nos discursos que se foram configurando para traduzir as relações entre natureza e sociedade”.

Os saberes geográficos, no final do século XIX, passam a ser difundidos de forma ampla nos espaços educativos, através de conteúdos rígidos, sem as considerações de que a ação do homem sobre o espaço geográfico é caracterizado como referência de moradia e satisfação de suas necessidades. As relações estruturais existentes na sociedade capitalista abordam novas formas de estruturação do espaço, consistindo em um sistema de organização que, diante do processo de avanços tecnológicos acelerados, desconsidera as relações homem- natureza. Como destaca Moraes (2005, p.40):

O homem vai aparecer como um elemento a mais da paisagem, como um dado do lugar, como mais um fenômeno da superfície da Terra. Apesar de algumas vezes valorizado nas introduções dos estudos, no corpo do trabalho acaba reduzido a um fator, num conjunto de fatores.

Os saberes das abordagens geográficas configuram os pressupostos atrelados aos conteúdos escolares implícitos nas posturas pedagógicas dos professores no interior do espaço educativo, reiterando a lógica formal que caracterizou as expectativas do sistema econômico capitalista.

Encontramos em Bottomore (2003, p.162) o significado dado à Geografia, que condiz com as concepções que tentaremos constituir durante as produções que dizem respeito à disciplina citada:

O conhecimento geográfico trata da descrição e análise da distribuição espacial das condições (criadas pelo homem ou existentes na natureza) que formam a base material para a reprodução da vida social. Também procura compreender as relações entre essas condições e a qualidade de vida social sob um determinado modo de produção.

Em sua trajetória histórica, os conhecimentos geográficos sofreram várias mudanças em seus aspectos teórico-metodológicos. Tais conhecimentos foram se acumulando e se (re) organizando para possibilitar a elaboração científica das matrizes da produção do pensamento geográfico, com base no ideário do seu contexto histórico, ocasionando a produção de novos saberes.

A história do pensamento geográfico e seus métodos de interpretação da realidade ocupam atualmente um papel relevante nos enfoques discursivos da Geografia Escolar. A sua compreensão possibilita entendermos as razões que permeiam os saberes pedagógicos que se ancoram nas relações estabelecidas entre o homem e a natureza em cada contexto sociopolítico do mundo em que vivemos.

A premissa da abordagem geográfica tradicional fundamentada na lógica formal do método científico positivista ressalta a causa e o efeito dos fenômenos com base na visão empírica e naturalista da realidade concreta, e, conforme Moraes (2005, p.41), “[...] a unidade do pensamento geográfico tradicional adviria do fundamento comum tomado ao positivismo, manifesto numa postura geral, profundamente empirista e naturalista”.

Desse modo, as relações de produção sobre o espaço na visão positivista fundamentaram-se numa consideração estritamente empírica em que os elementos geográficos apenas restringiam-se a meras observações e descrições da paisagem, neutralizando o homem e a natureza implicados na produção do espaço, como destaca Moraes (2005, p.41):

Tal perspectiva naturalista aparece com clareza no fato de buscar esta disciplina a compreensão do relacionamento entre o homem e a natureza, sem se preocupar com a relação entre os homens. Desta forma, o especificamente humano, representado nas relações sociais, fica fora do seu âmbito de estudos.

A proposta teórico-metodológica da referida abordagem foi formalmente superada pelo pragmatismo do Pós-Guerra (1945), em decorrência do processo de renovação do pensamento geográfico, que introduziu uma nova visão da realidade concreta, com base em leituras abstratas com o uso de linguagens matemáticas e estatísticas, úteis à produção do planejamento estatal, fundamentada no ideário do neopositivismo. Tal método de análise surge com críticas teórico-metodológicas à Geografia de influência positivista, que se baseava essencialmente em fatos concretos observados.

A Nova Geografia introduziu novos conceitos e interpretações do espaço através de técnicas quantitativas que poderiam ser aplicadas aos problemas existentes oriundos da superação da Geografia Tradicional, procurando, com isso, o estabelecimento de leis gerais, constituindo suas teorias baseada nos princípios quantitativos diante do espaço geográfico.

No contexto do referido movimento de renovação, ressaltando o discurso da abordagem crítica fundamentado no materialismo histórico dialético (não consensualmente adotado), como também em outros métodos científicos para fazer oposição às segregações sociais e espaciais da sociedade capitalista como objeto central de estudo.

O discurso da abordagem humanística vem sendo ressaltado nos últimos anos e resulta da inconsensualidade da influência marxista diante das políticas neoliberais oriundas do advento da globalização. A característica ressaltada por esse discurso vem no sentido de expressar a relevância que permeia o espaço vivido e as representações dos grupos sociais, conforme as manifestações da cultura que os caracterizam nas relações, de um modo geral, como também no espaço natureza, no que diz respeito ao modo de produção condizente com as classes sociais que se sobrepõem à economia vigente. Assim, pensar o espaço e as relações ali existentes implica perceber o valor e o antropocentrismo da vida social.

A Geografia Cultural, como expressão da produção humana, traz na sua essência o embasamento das novas afirmações da diversidade dos grupos sociais. Como cita Tonine (2003, p.72-73):

[...] a abordagem cultural é retomada nos estudos geográficos a partir de 1960, na França, principalmente por Paul Claval. É resultante de um dos desdobramentos da Geografia Moderna. Entretanto o atual discurso da Geografia Cultural está matizado por um referencial teórico que permite diferenciá-la de sua primeira constituição nos anos 20 do século XX, nos Estados Unidos. [...] os estudos de Carlos Ortwin Sauer (1889-1975) que trouxeram o viés cultural, ancorado nos discursos de Ratzel e La Blache.

Na referida abordagem, a ressalva à cultura se dá a partir das considerações sobre as manifestações materiais de valores dadas pela Geografia.

Constituída com expectativas de visualização acerca das relações existentes nos grupos humanos, a abordagem humanística surge valorizando o modo de vida e a cultura estabelecida pelos grupos sociais, como destaca Gomes (2000, p.309- 310):

O caráter exemplar desta reapropriação inscreve na consciência humanista uma vocação de continuidade, que serve igualmente na definição de uma nova relação com o mundo e de uma nova dimensão do homem, considerando, sempre, que existe uma revolução contínua e sem rupturas. No entanto, este período também conheceu, através das grandes descobertas, sociedades diferentes. Neste sentido, o humanismo

redescobriu, por uma consciência renovada de si mesmo, o outro. Graças a estes contatos, a alteridade tornou-se um dos grandes valores do humanismo moderno.

Faz-se necessário a apreensão dos momentos sócio-históricos da produção dos discursos das abordagens geográficas mediante a compreensão das manifestações da evolução histórica das forças produtivas e relações sociais de produção na sociedade capitalista.