BÖLÜM 1. İKTİDAR, GÜÇ VE İLGİLİ KAVRAMLAR
1.2. İktidara İlişkin Kuramlar: İktidar Nedir, Nasıl İşler
1.2.3. Althusser ve Devletin İdeolojik Aygıtları
O trabalho carcerário é alvo de críticas por muitos teóricos que se dedicaram a estudar o tema prisional. Tais críticas se concentram na utilidade e aproveitamento prático quanto à profissionalização. Para Maia Neto (1998), o trabalho dos presos desde o nascimento foi uma forma de exploração e utilização barata da mão-de-obra, sendo caracterizada pela sua inutilidade quanto à aplicação fora da prisão no mercado formal de trabalho. Pois, a atividade desenvolvida dentro dos cárceres “jamais chegou a ser útil, sempre transformou o preso em proletário do mais baixo nível salarial” (p. 72).
Campos (1952) também reconheceu o trabalho dos condenados como uma forma de opressão que objetivava o ganho e o lucro. O trabalho nas prisões seria uma “forma velada de escravidão, um monopólio da mão-de-obra, quase gratuito” (p. 58). Adorno (1991b) foi outro autor que qualificou o trabalho como “instrumento de opressão e punição”, sendo utilizado nesse sentido não apenas pelos funcionários das Instituições, como também pelos próprios presos responsáveis pela coordenação de outros nas oficinas de trabalho (p.74).
No mesmo sentido, a formação profissional revela-se quase inútil. Há que se ressaltar a exigüidade das oficinas nas prisões. (...) Os demais, para ocupar o tempo ocioso – muitos alegam que gostam de trabalhar ou que a existência de tempo ocioso estimula a imaginação delituosa, daí o atributo à prisão de “oficina do diabo” -, sujeitam-se ao trabalho contratado de pequenas e médias empresas, que não lhe remuneram segundo os preços e sequer lhes oferecem seguro previdenciário, costurando bolas, montando pregadores ou realizando outras atividades de baixa demanda no mercado formal de trabalho. Consistem, em geral, em ‘patronatos’, sistema no qual alguns presos – os ‘patrões’ – recrutam outros presos como mão-de-obra, ficando aqueles responsáveis pela produção e venda dos produtos, bem como remuneração dos trabalhadores. Não é preciso sublinhar que esse sistema constitui fonte de corrupção, a par da exploração e da férrea disciplina a que se encontram submetidos. (ADORNO, 1991: 74).
Outro teórico que concorda que o trabalho carcerário é inútil quanto a sua tentativa de profissionalização é Foucault (1987). Porém, o autor discorda com o fato de que o trabalho dos condenados serviria simplesmente para a apropriação da mão-de-obra barata. Para Foucault, o trabalho carcerário objetiva principalmente a efetuação de “relação de poder”, extremamente necessária para o equilíbrio prisional entre o corpo diretivo e a massa carcerária.
A utilidade do trabalho penal? Não é um lucro; nem mesmo a formação de uma habilidade útil; mas a constituição de uma relação de poder, de uma forma econômica vazia, de um esquema da submissão individual e de seu ajustamento a um aparelho de produção. (FOUCAULT,1987:217).
Ainda quanto à utilidade do trabalho, alguns críticos consideram que seu único intuito é o castigo e punição. Para Brant (1994), o “trabalho encarcerado não passa de uma reapropriação do tempo que a condenação colocou em suspenso”. Para o autor, o trabalho realizado dentro das prisões é uma mera espoliação que em nada difere do trabalho escravo, visto que é descaracterizado de aprendizagem ou qualquer conteúdo ressocializador. Brant define que o trabalho carcerário “não passa de trabalho forçado, poder-se-ia dizer escravo, irracional tanto do ponto de vista de sua utilidade como no de sua retribuição por um salário” (p. 139).
No que se refere aos salários recebidos pelos presos que trabalham, as críticas se levantam sobre o valor da remuneração. Alguns autores, como Fragoso (1980), ressaltam que tal valor é meramente simbólico e não acrescenta no indivíduo uma visão positiva sobre o significado do trabalho. Fragoso observa que o baixo salário evidencia o trabalho apenas como punição contrariamente do real caráter dele, que é a “dignidade pessoal” (p33). Para o autor, “(...)se o condenado é obrigado ao trabalho e se por ele recebe remuneração ínfima, que a
ele não corresponde, é óbvio que o trabalho é castigo e se integra no esquema punitivo (p. 31).
Quanto a motivação que leva os presos a trabalharem poderia se pensar em citar o salário como um dos maiores atrativos. Porém, a sua baixa remuneração o desqualifica nessa intenção, tornando evidente o seu caráter exploratório. Outro ponto que se agrega a essa discussão é o fato do trabalho carcerário ser altamente desestimulador, já que se resume em tarefas que não exigem profissionalização ou conhecimento prévio. Conforme Hassen (1999) constatou, tanto o salário como o trabalho em si não são fatores motivacionais para os presos:
Não sendo pelo salário, tampouco o trabalho prisional suscita ser movido pelo prazer de trabalhar. A maioria das atividades para as quais a mão-de-obra prisional é solicitada da perspectiva das empresas poderia fazer parte de qualquer relato histórico sobre o protocapitalismo. Não há qualquer razão biológica ou aptidão específica para respaldar o fato de presos serem contratados para costurar bolas, tecer redes de vôlei, colocar molas em pregadores de roupa, enfiar cordas em sapatinhos, etc. (HASSEN, 1999: 186).
Um ponto constantemente lembrado por todos que se dedicam ao estudo do trabalho carcerário brasileiro é a contradição nele existente de dever e direito. O trabalho carcerário é considerado um dever social do condenado, estabelecido pelo Artigo 28, da Lei de Execução Penal. Assim, todo indivíduo julgado e condenado pela Justiça tem a obrigação de trabalhar, dentro ou fora da prisão, conforme o regime estabelecido. Porém, da mesma forma, as Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos da Organização das Nações Unidas, que o Brasil reconhece e cumpre, em sua Parte Segunda, Artigo 71, parágrafo primeiro, estabelece que todo preso condenado também possui o direito de trabalhar. A questão sobre esse tópico é que essa dubiedade permite justamente a
Alvim (1991) observa que esse paradoxo de “sanção e privilégio” que conserva o trabalho carcerário assume “um caráter que juridicamente não lhe cabe” (p.30).
Nesse mesmo raciocínio, Chiés (2002) também critica a “ambivalência da natureza jurídica conferida ao trabalho do preso, uma bizarra mescla de direito e dever”. Para o autor, essa questão ainda é colaborada negativamente com a confrontação do trabalho das prisões com o trabalho livre, que levanta a problemática da crise, do desemprego e do papel das políticas penais diante da criação dos empregos para condenados.
São tais conteúdos, sobretudo naquilo que de ambíguo encerram quando confrontados com a realidade concreta do mundo do trabalho num sistema capitalista e (agora visivelmente) globalizante, que criam – mesmo que paradoxalmente em relação à perspectiva excludente do sistema – de forma inexorável a obrigação do Estado em viabilizar oportunidades laborais a todos os apenados, ou, na omissão fática dessa hipótese, preservar e garantir os direitos daqueles que por tal omissão sejam afetados. (CHIÉS, 2002).
A comparação do trabalho das prisões com o trabalho livre é outro objeto de críticas, seja na questão salarial, na forma de como esse trabalho é efetuado ou na diferenciação dos direitos e deveres existente entre eles. No caso brasileiro, o trabalho carcerário está caracterizado pelo Código Penal como um trabalho despido de direitos trabalhistas. Conforme o parágrafo segundo do Artigo 28, “o trabalho do preso não está sujeito ao regime da Consolidação das Leis do Trabalho”.
Para Alvim (1991), o trabalho carcerário não cumpre suas reais expectativas justamente porque não possui na prática a aplicação dos direitos garantidos pela CLT. Dessa forma, o preso não seria entendido como cidadão e, logo, a recuperação estaria dificultada devido a essa diferenciação.
Se o preso - como qualquer cidadão e porque o Estado adere à pena prisional o trabalho de reinserção social – tem direito ao trabalho, assomará inconcebível e incongruente que se lhe negue os
predicamentos derivados desta situação, discriminando-o, para não absorvê-lo nas conquistas sociais convertidas em preceitos legais e constitucionais. O Estado, pregando e disseminando o trabalho prisional como uma das principais passagens à ressocialização, não pode, ao mesmo tempo, estimular, na prática – pela negação das outorgas constitucionalmente postas -, a desvalorização deste trabalho. (...) Quem quer que o caminho ressocializante passe pelo trabalho há de querer que este trabalho seja dotado de meios – sua valorização dentro do mínimo legalmente estabelecido, respeitando a pessoa do preso enquanto trabalhador e, por isso mesmo, sujeito de direitos – condizentes àquela finalidade. (ALVIM, 1991: 31-32).
Alcure (2003) também ressalta que a inexistência dos direitos trabalhistas é um fator não apenas desestimulante para o preso, como um retrocesso para as conquistas trabalhistas e previdenciárias adquiridas no país, assim como é igualmente exploratória e conivente com os interesses dos empresários.
Ressalte-se, contudo, que o reconhecimento de um vinculo de emprego no caso é muito mais que um ato de conveniência, um imperativo derivado da Constituição Federal. Em face dos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana (art 1 º.,III) e da valorização do trabalho humano (art. 170, caput) - que constituem fundamento, respectivamente, da República Federativa do Brasil e da ordem econômica nacional - , não se pode admitir que o trabalho penitenciário desenvolvido nos moldes de uma relação de emprego permaneça sendo tratado sem o devido reconhecimento da dignidade do trabalhador e sem a correta valorização de seu labor. (ALCURE, 2003: 667).
A remição de pena pelo trabalho carcerário, que é a redução do tempo de prisão em três dias a cada dia trabalhado, também foi alvo das críticas de Alvim. Segundo o jurista, a remição não incentiva o trabalho carcerário como um complemento intrínseco à cidadania, pois acentua apenas o caráter do trabalho como prêmio.
Um discernimento crítico há de reparar que a defesa da remição da pena com o objetivo de formar e/ou aperfeiçoar profissionalmente o sentenciado, com vista à sua futura reinserção social, denota fatal incoerência: pretender que a ressocialização pelo trabalho se paute ligada a um fator extrínseco ao trabalho em si mesmo – a um prêmio, à remição – é simplesmente canonizá-la em mito, à medida que rejeita o trabalho como instrumento de ressocialização. Endossa-se a tese de que o trabalho prisional, como componente essencial à recuperação, é pura falácia, de vez que pressupõe que o trabalho não se basta para
trabalho porque se o supõe em vias de um processo ressocializante; mas, isto sim, realizá-lo-ia em virtude de, agora, com a remição, tal atividade diminuir-lhe o aprisionamento. (ALVIM, 1991: 80).
Algumas críticas existentes sobre o trabalho carcerário dizem respeito ao alcance de sua ressocialização, que pode ser dificultada devido à heterogeneidade do público prisional.
Ora, considerando a instabilidade da população prisional em decorrência de progressões, regressões, livramento condicional, fugas, saídas, indulto, etc., assim como a desqualificação profissional da esmagadora maioria, parece evidente por si só a inviabilidade de compatibilizar a oferta de trabalho economicamente produtivo com a capacidade intelectual de cada interno, seus diferentes interesses e aptidões físicas e mentais. (CASTILHO, 1990:41-42).
Segundo Castilho (1990), a ineficiência do trabalho carcerário está justamente na dificuldade da implantação de trabalhos que atinjam às expectativas de uma população tão diferenciada. A disparidade do perfil de presos trabalhadores ocasiona a dicotomia do resultado do trabalho carcerário: ou se dedica a produção ou ao tratamento laborterápico. Outra crítica realizada ao trabalho carcerário diz respeito também ao uso da iniciativa privada. Para Alcure (2003), a utilização do trabalho dos presos é uma forma de se evitar a aplicação real da solução do problema penitenciário, que seriam as penas alternativas26.
Mesmo assim, a proposta de parceria entre o poder público e a iniciativa privada na oferta de trabalho aos presidiários vem sendo apresentada como uma das melhores soluções disponíveis para a solução do problema prisional e de seus reflexos sociais. Em regra, aparece como alternativa aquela que defende o esvaziamento das prisões por meio de uma progressiva adoção de penas alternativas. (ALCURE, 2003: 665).
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