A sincronização midiática-social no Japão ocorre por meio do aparato tecnológico, como atesta essa dissertação. Sendo assim, é natural imaginar que a radiodifusão nipônica acabe por se posicionar em um patamar diferenciado em relação aos demais veículos de comunicação do país.
Calcada conceitualmente em dois tipos de companhias, a que se viabiliza fundamentalmente por meio dos financiamentos públicos e as emissoras de capital privado, que têm na receita publicitária como sua principal fonte de renda, cf. tópicos
“Alta definição” e “Conteúdo televisivo”, sendo que a radiodifusão foi aliada de
primeira hora à sedimentação do acórdão2 que se desenhou após a Segunda Guerra
Mundial.
Para os órgãos oficiais do país (cf. http://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/
comunicacao.htm e http://web-japan.org), os efeitos dessa estrutura público- comercial das companhias de comunicação geraram uma competição benéfica, principalmente no que diz respeito à produção de conteúdo.
Portanto, de modo geral, a radiodifusão no Japão abrange dois tipos de organismos, isto é, a NHK e as emissoras privadas, que diferem no modo como obtêm sua receita financeira. Supõe-se que esta estrutura público- comercial gere uma competição benéfica e conduza a altos níveis de qualidade. Atualmente, ela desfruta de um índice de aprovação popular bastante elevado. A rivalidade entre a NHK e as empresas privadas é muito grande, com estas também competindo entre si (http://www.br.emb- japan.go.jp/cultura/comunicacao.htm).
Admitindo-se fraternalmente a visão oficial, que leva em consideração indicador baseado em popularidade, que é, de fato, elevada; essa rivalidade entre a NHK e suas concorrentes comerciais tende a aumentar constantemente e a produzir, em última análise, artigos culturais de massa de qualidade. Em grau último, é como afirmar que a concorrência no sistema capitalista gera sempre o aperfeiçoamento tanto de produtos como de serviços, entre muitos outros.
Porém, mesmo de posse dessa lógica discursiva capitalista-nipônica, é preciso, de antemão, avaliar se é possível estabelecer a simples relação entre níveis de audiência, programação e qualidade do produto. A essa dissertação, a adição de valor ao formato cultural de massa está sujeito ao arco subjetivo do indivíduo exposto aquele produto cultural. Sendo que, por sua vez, esse arco está a reboque
da capacidade analítica que se formata a partir dos conceitos apreendidos ao longo da vida pelo indivíduo.
Nessa seara, um conceito valioso à interpretação reside na mestiçagem,
ilustrada em “O Pensamento Mestiço” (2001) de Serge Gruzinski24, que busca
explicitar a linha do tempo da mestiçagem, tomando como base uma sociedade indígena, localizada no que hoje se denomina México.
O livro colabora no entendimento de alguns conceitos caros a essa dissertação, pois a análise se debruça detalhadamente nas mudanças sociais, culturais, políticas e econômicas que uma sociedade indígena foi alvo à luz do contato com outra civilização completamente exógena a ela (GRUZINSKI, 2001). É, nesse contato e na troca entre esses povos é que se pode apreender como se forma o arco subjetivo, mencionado anteriormente, e quão fundamental é à estruturação do discurso midiático praticado pela mídia nipônica.
Naturalmente, como toda companhia que atua em um setor da economia qualquer e inserida em uma lógica capitalista, faz-se necessário entender as aspirações do consumidor com determinado produto e, sem contar, que, também, é de bom tom delinear e correlacionar público e produto. Ou seja, compreender se o produto cultural detém as características que o fazem conectar com o público-alvo. A essa dissertação, são justamente essas características que fundamentam a formatação do arco subjetivo.
Desde o Renascimento, a expansão ocidental não parou de provocar mestiçagens nos quatro cantos do mundo e reações de rejeição. [...] As primeiras mestiçagens de projeção planetária aparecem, assim, estreitamente ligadas às premissas da globalização econômica iniciada na segunda metade do século XVI, [...], um século Ibérico (GRUZINSKI, 2001, p.18-19).
A pensata a respeito da miscigenação e sua consequente ampliação do arco cultural, fomentado por práticas expansionistas e tomando por cultural seu sentido mais amplo, dialoga com os conceitos de adesão, de hibridização e de dominação, também presentes nesse arco e caros a essa dissertação. E todos eles são fundamentais ao contexto de reconstrução nipônica, que perpassa também a estrutura midiática da companhia e consequentemente seus produtos culturais.
Trazida à luz da sociedade que foi reconstruída no Japão e mesmo ao modelo de Japão Corporação (CLARK, 1979), o pensamento auxilia no entendimento da
formatação dos grupos industriais no país, o que inclui as companhias de comunicação. A interdependência, tão mencionada no entrelaçamento das atividades econômicas do grande grupo com a pequena companhia no país, acabou por se hibridizar com o papel da família, da mulher, da escola e da sociedade de um modo geral. E empresa, família e indivíduo praticamente transformaram-se em algo indissociável, principalmente quando se olha o comportamento da sociedade no fim do século XX, cf. tópico “Província midiática”. Essa ligação, que será detalhada mais adiante, permite a essa dissertação estabelecer paralelo em direção à interdependência do setor de comunicação nipônico (cf. capítulo “Zaibatsu
midiático”).
Essa “independência dependente” que serviu à reconstrução econômica do país no período após a Segunda Guerra Mundial, acredita esta dissertação que estabelece diálogo com a mestiçagem (cf. GRUZINSKI, 2001), à medida que estabelece padrão idêntico ao visto nas mesclas. Uma vez que há adesão, absorção, subordinação, hibridização, deglutição, rejeição entre outras características, tal qual:
As imagens mestiças surgem em meio às incertezas e dificuldades de uma comunicação fragmentada, submetida aos efeitos do desarraigamento. Por último, elas correspondem às pressões miméticas veiculadas pela ocidentalização. Em outras palavras, nasceram num espaço histórico tolhido ao extremo, que as condicionou parcialmente e do qual guardam vestígios. Desnecessário lembrar que essas produções são políticas, e não simplesmente “culturais (GRUZINSKI, 2001, p.225).
Muito embora caiba amplitude no uso da palavra mestiço (GRUZINSKI, 2001), convém sublinhar que, quando aplicado ao contexto nipônico, naturalmente não se está estabelecendo conexão com a noção de miscigenação racial. Trata-se somente de ampliar a conceituação em direção ao movimento de enovelamento das instituições políticas, sociais, culturais e econômicas, tendo a mídia como fator de aderência no cotidiano do indivíduo nascido e residente no país. Uma vez que a rejeição também é evidente nesse processo, à medida que se coloca à margem toda e qualquer forma de integração do imigrante à sociedade, principalmente aquele cujo destino é o chão de fábrica nipônica.
A rigor, a aplicação da conceituação mestiçagem se ancora no comportamento de absorção e implementação, que hipnotizou a sociedade nipônica com o ideal de prosperidade, postura essa que também foi fomentada pelo colapso
de modelo, decorrente da derrota no conflito mundial, obrigando a nação a uma mudança postural (cf. CLARK, 1979 e GRAHAM, 2003). E essa alteração comportamental acabou por caminhar e se entrelaçar em direção às demais características que formatam a sociedade de um país qualquer.
Muito embora o ideal de prosperidade ainda seja um assunto de relevância nessa dissertação, há que se frisar esse indicador como um dos Totens nipônicos, outro conceito caro e alvo de melhor análise. E Totem, a essa dissertação, é usado como elemento hipnótico da atividade social, política, cultural e econômica.