Como último ponto para a análise, este trabalho apresentará os relatos das mulheres acerca das dificuldades que elas enfrentam, referente à falta de amparo governamental em vários sentidos, principalmente, no aspecto financeiro.
A princípio, essa questão não iria ser tratada neste estudo, porém todas as mulheres empreendedoras acabaram levando a conversa para esse aspecto em um determinado tempo da entrevista. Portanto, fez-se necessário dar voz a elas – já que esse é um propósito do estudo – dessa forma, será abordado o ponto de vista delas acerca de decisões e políticas em âmbito governamental. O foco desse tópico é ilustrar a falta de amparo das autoridades e o próprio despreparo delas para lidarem com tudo que diz respeito ao negócio. Além do mais, é importante trazer o movimento empreendedor feminino para essa discussão, o que será feito logo abaixo.
Recursos financeiros
Todas as mulheres, sem distinção, apontaram a limitação de recursos como uma grande barreira e, já que elas não tinham dinheiro próprio suficiente para investir de forma a fazer o negócio crescer, foi questionado qual era uma possível saída.
“O acesso ao crédito é uma barreira grande para nós. É absolutamente inacessível” (EB5).
“Hoje em dia, a grande dificuldade que eu vejo e que eu sinto é a falta de financiamento para as pequenas empresas com taxas acessíveis e com um prazo de carência, seja para capital de giro, seja para investimento dentro da empresa. [...] Porque se a gente pega um empréstimo, é porque justamente a gente tem a necessidade e, então, você tem que começar a pagar daqui a 30 dias. Esse prazo não dá um grande fôlego para que você possa realmente capitalizar esse empréstimo e fazer com que ele dê frutos para que você comece a pagar ele. Precisaria de no mínimo de 6 meses de carência, pelo menos, para que a empresária tivesse um retorno do próprio
empréstimo que fez para pagar o empréstimo com uma segurança maior. Isso no Brasil é quase que impossível” (EB1).
“Taxas absurdas, taxas pesadas, um prazo de pagamento ridículo. A gente sempre precisa de altos valores para pagar em 24 meses no máximo, isso é muito curto e as prestações ficam super pesadas. É absurdo. É fora da nossa realidade. A gente aceita porque não tem o que fazer” (EB10).
Outro problema apontado por EB5 é que, além da dificuldade de acesso ao crédito, ainda é pedido uma série de garantias que quem é pequeno empreendedor não consegue ter.
“A maioria dos pequenos, principalmente lá da periferia onde a loja tá, não tem muitas garantias, não é proprietário de coisas pra dar garantia. Então é mais difícil pra gente” (EB5).
Algumas acreditam que a grande dificuldade se deve ao fato de serem pequenos, logo, isso complicaria ainda mais a possibilidade de conseguir um financiamento.
“Às vezes, você acaba tendo que correr contra o tempo, porque o dinheiro, ele é limitado, é escasso e você começa a entender que ele é caro, principalmente para você que é pequeno empreendedor” (EB7).
O sentimento de desamparo a âmbito de poder público é geral entre as mulheres e elas tentam, de alguma forma, suprirem essa carência de amparo correndo atrás de outras possibilidades.
EB4 também não tinha recursos para investir no negócio e, nem como ter acesso a financiamentos. Como ela trabalha com uma empresa de inovação inscreveu no processo de seleção para Startup Brasil que é um programa do governo em que é disponibilizado dinheiro para investimento no negócio. O que já mostra uma tentativa do governo de ajudar uma parcela dos empreendedores, mas ainda muito restrito. Para ela, o valor investido pelo governo ainda era pouco e não era suficiente para alavancar o seu negócio, por isso, ela acabou recorrendo a investidores anjos para angariar mais recursos para o negócio.
Tributação e burocracia
A complexidade do sistema é ainda maior quando observada a questão da tributação no país. Além dos impostos, a própria complexidade do governo para passar as informações importantes acaba atrapalhando ao invés de ajudar.
“Eu acho injusto tudo que a gente paga. É um absurdo. Você vê o governo, ele ganha mais do que a gente aqui, então todo o lucro da empresa vai para pagar impostos, só que você não vê o retorno disso” (EB6).
“A gente já recebe pouca coisa e quando vê, você recebe um boleto para pagar. Ou vem alguém pedindo que você apresente uma documentação que não foi apresentada e que você não sabia que deveria ter apresentado. [...] Porque eles publicam uma nota e você tem que saber que você está enquadrado naquilo” (EB5).
A junção do despreparo da empreendedora e a falta de recursos para contratar um profissional que possa lhe auxiliar como, um advogado, faz com que essas mulheres cometam algumas confusões, o que complica a situação financeira ainda maior, gerando um prejuízo, porque o engano cometido, às vezes, vem acompanhado de uma multa.
Exemplo desse despreparo foi relatado por EB5 de pessoas do seu bairro que tiveram problemas no enquadramento da empresa. Como o MEI (Micro empreendedor individual) não tem obrigatoriedade estipulada pelo governo de contratar um contador e deve estar enquadrado no faturamento anual de até R$ 60.000,00, muitos empreendedores, como afirmado por ela, nem sabem se estão dando lucro ou prejuízo e, muito menos, sabem o seu faturamento. Aconteceram com algumas pessoas que ela conhece que, após 2 anos inscritos no MEI, os empreendedores receberam uma carta da receita federal, informando que eles não se enquadravam como MEI e que, portanto, deveriam pagar todos os impostos retroativos enquanto micro empresa. Um dos seus vizinhos do negócio chegou a receber uma fatura de R$ 18.000,00 referente aos impostos que não foram recolhidos devidamente.
Para EB5, os benefícios que o governo oferece são equivocados, pois não adianta desobrigar o MEI de ter um contador, se, futuramente, vai ter que arcar com um valor enorme de um erro que ele cometeu sem saber. Ela disse que um dos seus vizinhos que recebeu a multa, faliu e, ele havia passado cerca de R$ 300,00 no faturamento mensal sem saber.
Soluções possíveis
As soluções que apresentadas pelas próprias empreendedoras foram trazidas por EB4 e EB5 e, ambas concordam com a mesma saída. Elas acreditam que o fortalecimento das redes de mulheres empreendedoras e, a expansão e popularização dos projetos de mentoria pelo país seriam uma boa forma das mulheres empreendedoras começarem a se organizarem.
O intuito de se organizarem é para que elas consigam mudar um pouco esse cenário desfavorável e, com um movimento grande e fortalecido, ter mais condições de serem ouvidas. Para elas, a união definitivamente faz a força.
“A gente tem que entender que faz parte também não adianta ficar da porta da empresa da gente para dentro, porque tem coisas que vem lá de cima e vão interferir diretamente no nosso negócio. [...] Eu acho que falta o pequeno se mobilizar mais. Mobilização a gente viu que dá em alguma coisa, não precisa ir para rua e fazer tanto alarde, mas eu acho que ainda os negócios pequenos no Brasil são a maioria, junta tudo isso e faz uma gritaria e vê se não dá em alguma coisa” (EB5).
A realidade da mulher empreendedora, a relação trabalho e família e as suas dificuldades serão discutidas no próximo capítulo em que será possível fazer o encontro das histórias de vida dessas mulheres com os estudos já realizados utilizados no referencial teórico deste trabalho.