4. TARIM KESİMİNİN VERGİLENDİRİLMESİNDE MEVCUT DURUM (4369
4.1. Zirai Kazançların Gerçek Usulde Vergilendirilmesi
Nos anos 50, com o estímulo advindo da construção da rodovia Belém- Brasília, um significativo deslocamento de migrantes vinha ocorrendo em direção a Goiás, mais precisamente ao Norte, junto à fronteira com o Estado do Maranhão, região conhecida como Bico do Papagaio.
Este processo de migração estava inserido na lógica da expansão capitalista implementada pelo Estado, cujo objetivo era o de promover a ocupação dos vazios demográficos. Esse movimento teria pontos convergentes com a “necessidade de posse da terra para os pequenos lavradores e a possibilidade de dirigir as correntes migratórias” (DAYRELL, 1975, p. 69).
O movimento migratório contribuiu para que Goiás tivesse altas taxas de crescimento demográfico entre as décadas de 40 a 60. Nos anos de 40/50, a migração interna foi de 91.836 habitantes, o que representou 11,15% da população; na década seguinte, foi de 259.310 habitantes, equivalentes a 21,34%. Em termos populacionais, Goiás tinha, em 1940, 826.414 habitantes e esse número atingiu, em 1960, 1.954.862 habitantes, um crescimento de 236,54% em 20 anos.
Uma pesquisa realizada pelo Ministério do Interior (apud GUIMARÃES, 1982) aponta que, até a década de 50, cerca de 52% de todo o fluxo migratório brasileiro dirigia-se ao eixo Rio-São Paulo. Mas o perfil da migração se alterou com a expansão da fronteira agrícola em direção ao Centro-Oeste e também ao Sul, notadamente para o Estado do Paraná.
Com o processo migratório, ocorreu uma mudança no perfil fundiário de Goiás. Sua estrutura se modificou nos anos 50, havendo um crescimento das pequenas propriedades superior ao das grandes, movimento que recrudesceu na década seguinte.
Os estabelecimentos de menos de 100 hectares duplicaram não só em número, mas também em área, isto é, passaram de quase 34 mil em 1950, com área de 1,2 mil hectares, para cerca de 70 mil em 1960, englobando 24.000 hectares. As propriedades com área superior a 100 hectares também cresceram na década de 50, embora a taxas inferiores às dos estabelecimentos menores (GUIMARÃES, 1982, p. 25).
O estudo ainda mostrou que a ocupação da terra era feita por indivíduos na condição de posseiros, proprietários e alguns parceiros autônomos. Mais especificamente no extremo Norte, a maioria das propriedades tinha menos de 50 hectares e tomava a forma de posse de terras públicas ou particulares. Eram mais de 80.000 alqueires goianos de terras devolutas que, com o rompimento de seu isolamento, através da rodovia, passaram a ser alvo de “grileiros”, levando ao crescimento substancial dos conflitos entre estes e os posseiros. A grilagem avançava mais rápido que a construção de estradas, porque havia uma tentativa de se antecipar à valorização das terras. A partir do momento em que se acreditou na construção da estrada e, depois, na mudança da capital federal, forjar ou falsificar
documentos de terras públicas e vendê-las no Sul do Estado ou do país passou a ser “negócio da China”. (Guimarães,1973)
Começava, dessa forma, a haver uma mudança das terras devolutas e ocupadas por posseiros para propriedades privadas, tudo feito para ter um aspecto legal, dentro dos preceitos que as regulam nas sociedades capitalistas.
As formas de grilagem eram as mais diversas. Por exemplo, eram forjados documentos de sesmarias em nome de uma pessoa ou empresa, comprava-se do “herdeiro” a terra e se registrava a propriedade no cartório em seu nome, tudo em conluio com o juiz, o cartório e o advogado, transformando a terra em mercadoria. Guimarães (1982) explica minuciosamente o “trabalho” realizado pelo grileiro. Em primeiro lugar, se o documento de sesmaria fosse verdadeiro, achava-se alguém com o mesmo sobrenome; se acaso não se encontrasse ninguém, registrava-se no cartório alguém com aquele sobrenome para fazer o documento de “compra” dos direitos do herdeiro e registrar a terra.
Havia também o problema de existirem herdeiros de fato; neste caso, o “trabalho” do grileiro era o de mudar as divisas das terras, através de artifícios como a alteração dos nomes dos rios, troca de localizações geográficas, como montanhas, e até mesmo dos rumos magnéticos.
Outro “problema” encontrado pelos grileiros era quando não havia documento nenhum. A “solução” seria forjar um documento de sesmaria, utilizando-se papéis antigos que eram encontrados em cartórios ou envelhecendo-se papéis por meio de técnicas sofisticadas; tintas antigas e selos eram confeccionados para dar “autenticidade” ao documento.
Se nada disso fosse possível, fazia-se uma certidão falsa constando livro, comarca, número da transcrição de um determinado cartório, tudo falso, chegando-
se até mesmo ao extremo de fazer o “desaparecimento do documento original mediante a queima de todo o cartório onde ele deveria ficar: foi o que ocorreu com o cartório do 2° Ofício de Nerópolis e com um em Tocantins” (GUIMARÃES, 1982, p. 34).
O fato é que, para o grilo ser bem-sucedido, a participação de um juiz de direito era importante, já que as ações deveriam ser julgadas por este. Na região de Trombas e Rio Formoso, no município de Uruaçu, “os grileiros eram sócios do meritíssimo juiz de direito que, em função dessa sociedade, deu magistrais sentenças, expulsando, despejando e mandando prender os posseiros das terras que estavam sendo ‘griladas’” (GUIMARÃES, 1982, p. 35).
Começava o conflito, que colocava o posseiro no centro das lutas camponesas, oriundas da imposição capitalista de transformação da terra em propriedade (via supressão das formas espontâneas de ocupação da terra). Neste processo, muitas vezes eram utilizados métodos violentos para persuadir os posseiros a abandonar suas terras, procedendo-se à queimada de colheitas e casas e, também, a assassinatos.
Neste contexto, partidos políticos e a Igreja exerceram um papel importante, incorporaram as tensões sociais e reivindicações dos posseiros e disputaram a organização desses trabalhadores, como veremos a seguir.