A educação em direitos é uma atividade indispensável para o cidadão e necessária à Defensoria Pública prevista no artigo 4º, inciso III, da Lei Complementar
235 SILVA. José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo.16.ed.rev.atual.São Paulo: Malheiros, 1999,
p.150.
236 CRUZ, Rafael Rocha Paiva. Educação em Direitos humanos: caminhos para a efetivação da democracia e dos
direitos humanos e o papel da Defensoria Pública. Tese de mestrado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/SP, São Paulo, 2014. p.74.
237 KIM, Richard Pae. O conteúdo da Cidadania na Constituição Federal do Brasil. In: Moraes, Alexandre de; KIM,
Richard Pae (Coord.)Cidadania: o novo conceito jurídico e a sua relação com os direitos fundamentais e individuais coletivos. São Paulo: Atlas,2013, p.38.
132/09 que prevê a promoção, difusão e conscientização dos direitos humanos, da cidadania e do ordenamento jurídico.238
Além disso, se a Defensoria Pública tem o papel de concretizar os objetivos da República Federativa do Brasil, previstos no artigo 3º da Constituição Federal de 1988, faz-se imprescindível que a população seja informada dos seus direitos, inclusive para que conscientes dos direitos possa buscar a implementação deles. 239
Isto porque a Educação em direitos decorre do artigo 6º da Constituição Federal que prevê o direito à educação como direito social fundamental. É uma modalidade de educação popular240 que visa, por meio de um movimento psicológico e social contribuir para o acesso à Justiça.
No mais, contribui para que as pessoas se sintam cidadãs, que sejam responsáveis pelas escolhas e pela sociedade, que atuem como um ser social, um ator de mudança na sociedade.
O artigo 6º da Constituição Federal que prevê o direito à educação como direito social fundamental. Por sua vez, o Art. 205 determina a responsabilidade compartilhada entre o Estado e a família no sentido de garantir o pleno exercício desse direito.
Além disso, de acordo com o texto constitucional, a Educação deve ser “promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando o pleno desenvolvimento
da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
238 Importante observar que a Lei Complementar Estadual 988/06 prevê no diploma estadual a atribuição da
educação em direitos, tal como ocorreu em outras leis estaduais que criaram a instituição, tal como os estados do Pará, Bahia e Piauí. Nota-se ainda que esta atribuição foi explicitada na Lei Complementar 132/09, ampliando a atribuição para todas as Defensorias Públicas. REIS, Gustavo Soares dos. Educação em Direitos e Defensoria Pública: reflexões a parti da Lei Complementar 132/09. Revista da Defensoria Pública, ano 4, n.2, p.111-142, jul/dez 2011.
239Observa-se que ainda que não haja obrigatoriedade, os Defensores Públicos deveriam realizá-la dentro do âmbito
de atuação, eis que se trata de instrumento concretizador de cidadania que deveria ser reconhecido como atividade ordinária do Defensor Público.
240 Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe, Coord. Emir Sader e Ivana Jinkings, Boitempo. Rio
Pode-se afirmar, portanto, que a educação em direitos é uma modalidade de educação popular241 que visa, por meio de um movimento psicológico e social contribuir para o acesso à justiça e cidadania social.242
Nas palavras de Gustavo Reis “Na verdade a Defensoria Pública, por ser uma instituição nova no Brasil e na América Latina, talvez seja uma das pioneiras a consagrar normativamente a educação em direitos como uma atividade inerente ao ideal de justiça social”243.
Cumpre ainda mencionar que em 10 de Dezembro de 2006 foi anunciado o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, documento subscrito pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Ministério da Educação e Ministério da Justiça, que traça metas importantes em torno da importância da educação em direitos humanos para o Estado Democrático de Direito.
Isto porque, a educação em direitos representa muito mais do que a mera explicação das leis, mas ajudar as pessoas a entenderem a razão do legislador, quais foram os fundamentos e momento de criação da lei, da realidade, identificar as causas dos problemas, procurar modificar atitudes e valores, até para poder possibilitar a crítica e questionamento e mudar as situações de conflito.
Educar para os direitos humanos visa tornar o homem, a mulher, a criança, o adolescente, todos, o protagonista de um projeto que visa a construção de um mundo melhor e igualitário, com direitos assegurados para todos.
241 Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe, Coord. Emir Sader e Ivana Jinkings, Boitempo. Rio
de Janeiro: 2006, p.449.
242 Nos dizeres de Carolina Ugarte “ um dos componentes do direito à educação é o direito à Educação em Direitos
Humanos e esta, por sua vez, consolida seu sentido pleno ao afirmar a dignidade da pessoa humana” UGARTE, Carolina; NAVAL, Concepción. Propuestas metodológicas para la educación en derechos humanos en los textos de las Naciones Unidas y la UNESCO. Comunicación presentada al IV Congreso Internacional de Psicología y Educación, Almería, 2003, p.2.
243 REIS, Gustavo Augusto Soares dos. Educação em Direitos e Defensoria Pública: Reflexões a partir da Lei
De acordo com Guilherme de Almeida, o conceito de empoderamento legal inspira-se na idéia de “desenvolvimento como liberdade” de Amartya Sen:
“A proposta de Sen de desenvolvimento como liberdade é
virtualmente sinônima de empoderamento político, social e econômico de pessoas fundamentado em direitos humanos. Desenvolvimento assim entendido tanto como um imperativo moral quanto, de acordo com Sen, como a rota para a prosperidade e para a redução da pobreza”.244
Guilherme de Almeida ao citar Maurits Barendrecht e Maaike de Langen:
“A proteção das pessoas e das suas propriedades é o primeiro
passo para qualquer espécie de desenvolvimento, e por esse motivo o empoderamento legal começa com a proteção do que as pessoas possuem. Então o empoderamento legal foca no direito não somente como um meio de proteção, mas também como um meio de criar oportunidades. Acesso à justiça a partir dessa perspectiva implica igual acesso para remédios contra injustiças sofridas – proteção – mas também igual acesso à participação na sociedade e na economia – oportunidade” 245
É nesse processo de empoderamento246 que se constrói o conhecimento necessário para a transformação da realidade, eis que permitirá a construção de
244ALMEIDA, Guilherme de. Acesso à justiça, direitos humanos e novas esferas da justiça. Contemporânea in
Revista de Sociologia da UFSCar, v. 2, p. 83-102, 2012, p.91, disponível em http://www.contemporanea.ufscar.br/index.php/contemporanea/article/viewFile/61/34 último acesso em 02.12.2015.
245 BARENDRECHT, Maurits e DE LANGEN, Maaike. Legal empowerment of the Poor: Innovating Access to
Justice. In: JORRIT DE JONG and GOWHER RIZVI, The State Of Access. Success and Failure of Democracies to Create Equal Opportunities. Ash Institute For Democratic Governance and Innovation Harvard University/ Brookings Institution Press, Washington DC, 2008, pp.250 a 271, p. 263. É interessante a leitura de ALMEIDA, Guilherme de. Acesso à justiça, direitos humanos e novas esferas da justiça. Contemporânea in Revista de Sociologia da UFSCar, v. 2, p. 83-102, 2012, disponível em http://www.contemporanea.ufscar.br/index.php/contemporanea/article/viewFile/61/34 último acesso em 02.12.2015.
246 Um estudo desenvolvido no âmbito da ONU , qual seja o relatório elaborado pela Comissão do Empoderamento
Legal do Pobre intitulado “Fazendo a lei trabalhar para todos”, define o conceito de empoderamento legal do pobre da seguinte forma: “Empoderamento legal é o processo pelo qual o pobre torna-se protegido e é capaz de usar a lei para proteger seus direitos e seus interesses, tanto em relação ao Estado como em relação ao mercado. Ele inclui o pobre tornando expressos seus plenos direitos e consolidando as oportunidades que surgem a partir disso, por meio de apoio público e de seus próprios esforços, assim como de esforços de apoiadores e de redes mais amplas. Empoderamento legal é uma abordagem baseada no país e no contexto específico, que tem lugar tanto em níveis nacionais como locais.”.MAKING THE LAW WORK FOR EVERYONE, volume I. Report on the Comission on Legal Empowerment of the Poor and United Nations Development Program. New York, 2008, p.26. Disponível em http://www.unrol.org/files/Making_the_Law_Work_for_Everyone.pdf último acesso em 05.12.2015. Disponível na
uma sociedade mais livre justa e solidária, uma vez que promoverá a redução das desigualdades sociais e a redução da pobreza, propiciando a consolidação dos objetivos da República Federativa do Brasil, previstos no artigo 3º, inciso I e III da Constituição Federal de 1988.
Ademais, o empoderamento pode ser concretizado na gestão de ações preventivas de violações dos direitos humanos em diferentes espaços; de articulação política educacional, principalmente, pelos grupos vulneráveis; de difusão de conhecimentos que possibilitem o exercício da cidadania e da democracia; e, na vivência cotidiana de uma postura solidária com os outros247. Assim, deve ser coletivo, integrado ao meio onde acontece, e em sintonia com as necessidades de quem dele participa.248
O que a Defensoria Pública pretende com a educação em direitos, nela compreendida diversos projetos próprios de educação em direitos, é permitir que o cidadão não seja defendido apenas pela Defensoria Pública, mas que aprenda a se defender com (através da) Defensoria249.
Entre os diversos projetos desenvolvidos pela Defensoria Pública, destaca-se pela notoriedade, duração e continuidade, o Curso de Defensores Populares, desenvolvido pela instituição desde 2009, pela Defensoria Pública em parceria com a Escola da íntegra em http://www.unrol.org/files/Making_the_Law_Work_for_Everyone.pdf último acesso em 05.12.2015. A Comissão do Empoderamento Legal do Pobre é a primeira iniciativa global com foco na ligação existente entre exclusão, pobreza e direito. Patrocinada por um grupo de países desenvolvidos e em desenvolvimento, entre eles Canadá, Dinamarca, Egito, Finlândia, Guatemala, Noruega, Suécia, África do Sul, Tanzânia e Grã Bretanha,, foi sediada no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em Nova York. Maiores informações em ALMEIDA, Guilherme de. Acesso à justiça, direitos humanos e novas esferas da justiça Contemporânea in Revista de Sociologia da UFSCar, v. 2, p. 83-102, 2012, p.91, disponível em http://www.contemporanea.ufscar.br/index.php/contemporanea/article/viewFile/61/34 último acesso em 02.12.2015
247 Disponível em Brasil. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Educação em Direitos
Humanos: Diretrizes Nacionais – Brasília: Coordenação Geral de Educação em SDH/PR, Direitos Humanos, Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, 2013. in http://www2.uesb.br/pedh/wp- content/uploads/2014/06/Diretrizes-da Educa%C3%A7%C3%A3o-em-Direitos-Humanos.pdf último acesso em 18.04.15.
248 Disponível em Brasil. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Educação em Direitos
Humanos: Diretrizes Nacionais – Brasília: Coordenação Geral de Educação em SDH/PR, Direitos Humanos, Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, 2013. in http://www2.uesb.br/pedh/wp- content/uploads/2014/06/Diretrizes-da Educa%C3%A7%C3%A3o-em-Direitos-Humanos.pdf último acesso em 18.04.15.
249 REIS, Gustavo Augusto Soares dos. Educação em Direitos e Defensoria Pública: Reflexões a partir da Lei
Defensoria Pública, com a Defensoria Pública da União, o Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns da PUC/SP e a Associação Paulista dos Defensores Públicos, com apoio dos Movimentos de Moradia e do Centro Gaspar de Direitos Humanos.250
A educação em direitos apresenta algumas metas, partindo das lições da pedagoga Vera Candau251 é possível concluir pela:252
i) Formação de Sujeito de Direito: a maior parte dos cidadãos desconhecem e tem consciência dos direitos que lhe são conferidos. Acreditam ainda que os direitos são distintos para determinados políticos ou governos.
ii) Favorecer o processo de empoderamento: aqui o foco na educação em direitos busca fortalecer parte da sociedade que foi excluída e que tiveram menos poder de participação na sociedade.
iii) Processo de Transformação Necessários para construir uma nova sociedade, concretizar a democracia e os objetivos constitucionais de uma sociedade mais livre, justa e solidária. “Educar para o nunca mais”, romper com a impunidade, assegurar a todos os direitos.
No plano internacional253, podemos observar que em 23 de março de 2011, o Conselho de Direitos Humanos aprovou a Declaração das Nações Unidas sobre educação e formação em matéria de direitos humanos através da Resolução 16/1 e recomendou à
250 Para maiores informações sobre o curso de Defensores Populares realizado no ano de 2011, vale a leitura do
CARPANELLI, Fernanda Galhardo; SILVA, Mariana Lins de; ANTÃO, Renata Cristina do Nascimento. Cursos de Defensores populares: relato de uma experiência emancipatória. In: Rocha, Amélia. Defensoria Pública, Assessoria Jurídica Popular e Movimentos Sociais e Populares: novos caminhos traçados na concretização do direito de acesso à justiça. Fortaleza: Dedo de Moças Editora e Comunicação LTDA., 2013, p.717-737.
251 CANDAU, Vera. Educação em Direitos Humanos: questões pedagógicas, in: Educação e metodologia para os
direitos humanos. Coord. Eduardo Bittar, Quartier Latin: São Paulo, 2008, p. 289/290.
252 REIS, Gustavo Augusto Soares dos. Educação em Direitos e Defensoria Pública: Reflexões a partir da Lei
Complementar 132/09 in Boletim da Defensoria Pública, n.3 jul/dez 2011, p. 136.
253 No plano interamericano foi aprovada pelo Conselho Interamericano de Desenvolvimento Integral a Resolução
2119 (XXXV-o/5) que trata da promoção e fortalecimento da democracia a partir da Educação em Direitos, por meio do estabelecimento de diretrizes para elaboração de um programa interamericano sobre educação para os valores e práticas democráticas.
Assembleia Geral que adotasse a referida Declaração, o que ocorreu por meio da Resolução 66/137254 da Assembleia Geral das Nações Unidas em 19 de dezembro de 2011. Essa resolução disciplina sobre atividades educativas voltadas para a promoção dos direitos humanos, nela também compreendida também a educação popular.
O artigo 1º da referida Declaração bem sintetiza o espírito da Declaração ao estabelecer que toda pessoa tem o direito de obter, buscar e receber informação sobre todos os direitos humanos e liberdades fundamenta/is e de ter acesso à educação e formação em matéria de direitos humanos, pois são essenciais para a promoção do respeito universal e efetivo de todos os direitos humanos, em conformidade com os princípios da universalidade, indivisibilidade e interdependência.
A Declaração considera que educação e formação em matéria de direitos humanos significam o conjunto de atividades educativas, de formação, de informação, de sensibilização e de aprendizagem que têm por objetivo promover o respeito universal pelos direitos humanos e que engloba atividades de educação sobre os direitos humanos, educação através dos direitos humanos e educação para os direitos humanos (artigo 2º).
De acordo com a Declaração, a educação em direitos humanos pretende garantir empoderamento, desenvolvimento e permitir o exercício de todos, sem discriminação, a todos os direitos (artigo 5º).
A Declaração reconhece que diversos atores sociais, como as instituições educativas, os meios de comunicação social, as famílias, as comunidades locais, as instituições da sociedade civil, incluindo as organizações não-governamentais, os defensores dos direitos humanos e o sector privado podem contribuir, de maneira importante, para a promoção e disponibilização da educação e formação em matéria de direitos humanos, sendo que tais atores são encorajados a garantirem que seus funcionários recebam a educação e formação adequadas em matéria de direitos humanos (artigo 10º).
254 Disponível em http://daccess-dds ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/N11/467/07/PDF/N1146707.pdf?OpenElement
Por fim, em 2012, o Ministério da Educação aprovou as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos (DNEDH). As diretrizes estão em consonância com a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996).255
Assim, pode-se concluir que a educação em direitos provoca ações na sociedade e visa a transformação social, colaborando para a construção de uma sociedade mais justa e cidadã.
Nas palavras de Rafael Rocha Paiva Cruz:
“ a partir do desenvolvimento da autonomia, da emancipação e do
empoderamento, a educação em direitos humanos deve procurar desfazer a idéia de que alguns são mais capazes do que outros para governar, idéia arraigada na sociedade e por vezes naturalizada pelas escolas e instituições sociais.”256
A educação em direitos tem uma função pedagógica importante, eis que permite a inclusão dos cidadãos na compreensão dos direitos e dos meios e mecanismos de acesso.
A atuação extrajudicial da Defensoria Pública, por meio da educação em direitos, constrói alicerces significativos para o exercício da cidadania, razão pela qual o fortalecimento da Defensoria é importante para que ela consiga realizar o mandamento constitucional de facilitador do acesso e efetive o acesso participativo de todos.
Desse modo, se a Defensoria é uma manifestação da democracia, por muito mais razão deverá promover a educação em direito para fomentar o empoderamento da
255Disponível em Brasil. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Educação em Direitos
Humanos: Diretrizes Nacionais – Brasília: Coordenação Geral de Educação em SDH/PR, Direitos Humanos, Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, 2013. in http://www2.uesb.br/pedh/wp- content/uploads/2014/06/Diretrizes-da Educa%C3%A7%C3%A3o-em-Direitos-Humanos.pdf último acesso em 18.04.15.
256 CRUZ, Rafael Rocha Paiva. Educação em Direitos Humanos: caminhos para a efetivação da democracia e dos
direitos humanos e o papel da Defensoria Pública. Tese de Mestrado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/SP, PUC/SP, 2014, p. 167.
população, eis que o acesso à justiça precisa ser visto de forma ampla e como instrumento de acesso a outros direitos.