4. VERGİ UYUMU KAVRAMI VE BU KONUDA ELDE EDİLMİŞ BULGULAR . 39
4.3. Vergi Uyumu ile Alakalı Yapılmış Çalışmalar ve Elde Edilmiş Bulgular
No pós-30, o país ingressou em um padrão de acumulação urbano-industrial. O Estado reorientou seu modo de atuação, criando condições institucionais para a expansão do mercado interno, de forma centralizadora e autoritária. Passou a ser o organizador da acumulação industrial, unificando o mercado interno e promovendo a abertura de sucessivas fronteiras de acumulação, através de políticas de caráter nacional.
Se, por um lado, houve um estímulo à ampliação do mercado interno, presidido pela indústria, por outro aumentou a demanda por alimentos e estabeleceram-se vínculos com áreas de produção agropecuária. Toda esta dinâmica produziria significativas mudanças no Brasil, e particularmente em Goiás.
A estratégia política de Vargas, que procurava contrabalançar o peso da elite paulista e diversificar suas bases regionais de sustentação, bem como as ações que o governo federal empregava nessa intenção, acabava por beneficiar o Estado.
Quando foi eleito, em 1934, com vistas a não pôr em risco sua base de sustentação regional no campo, Vargas adotou uma política conservadora. Seu objetivo era acalmar setores alarmados com a política trabalhista.
Quando, em julho de 1934, Vargas foi eleito presidente pelo Congresso, a situação estava longe de estabilizar-se. As contendas regionais ainda prosseguiam, havia ameaças ao regime à esquerda e de certo modo à direita /.../. O Estado definira, porém, uma política conservadora e restaura a
confiança dos grupos dominantes. Concorria para isto a atitude do governo com relação ao proletariado e às massas rurais. Apesar de ter alarmado alguns setores, a política trabalhista de Vargas não punha em risco os interesses estabelecidos e o fato de mão se tocar sequer no problema do campo contribuiu para acalmar os setores oligárquicos de base rural. (FAUSTO, 1972, p. 63)
A “Marcha para o Oeste” foi explorada pelo caráter nacionalista do governo Vargas, a qual propunha a descoberta do interior do país e a urgência em ocupar as grandes áreas. Estas, além de despertar a cobiça de potências estrangeiras, poderiam ser um instrumento útil para a industrialização, devido à “riqueza de seu subsolo”, de onde se poderiam extrair minérios necessários ao processo industrial.
Podemos inferir que o desenvolvimento industrial seria a meta governamental, porém assumindo a forma de “centro-periferia”. A parte representada pelo “centro” seriam as cidades, e a outra, os sertões; cada parte estaria em uma etapa de desenvolvimento econômico: às cidades caberia o papel de “agente e sujeito da economia nacional, à outra, apenas objeto, servindo como mercado de consumo de manufaturas, em troca de matérias-primas e produtos extrativos” (FONSECA, 1989, p. 274).
Nesta perspectiva, a industrialização seria o caminho para a solução dos problemas nacionais, ainda que estivesse subentendido que este era um processo desigual. A pobreza das regiões “periféricas” somente seria equacionada com a sua industrialização ou incorporação ao processo capitalista.
Isto poderia ser usado como justificativa para a implementação de uma legislação social restrita às cidades e ao núcleo capitalista da economia. A população das outras regiões conheceria as vantagens da legislação trabalhista e iria auferir uma melhor qualidade de vida quando estas se industrializassem. Ficava, dessa forma, descartada qualquer outra medida para melhorar a qualidade de vida no campo, como a reforma agrária e a extensão da legislação social aos
trabalhadores do campo. A não implantação destes mecanismos poderia ser justificada através de um programa de fomento à industrialização e ao mercado interno.
De qualquer forma, a política adotada evidenciava a força dos setores agrários no bloco no poder. Ficavam, portanto, definidos os limites intervencionistas da política de Vargas: industrialização, ou melhor, desenvolvimento de forças produtivas materiais. O desenvolvimento social seria conseqüência da industrialização, não sendo, por este motivo, necessária uma política de distribuição de renda.
Em Goiás, a “Marcha para o Oeste” teve um marco histórico – a construção de Goiânia – como vimos, mais uma estratégia de consolidação de poder de Pedro Ludovico do que, propriamente, uma política desenvolvimentista planejada com vistas ao desenvolvimento estadual. Todavia, a “Marcha” não deixou de servir de modelo para a política interiorizante de Vargas e a ocupação do sertão brasileiro trouxe impactos decisivos para o desenvolvimento econômico e social – e também conflitos e revoltas.
Estes impactos começaram a surtir efeito já na fase da construção de Goiânia, a qual precisava de recursos, visto que o erário estadual não possuía os fundos necessários para sua construção. Isto foi em parte resolvido pela injeção pecuniária levada a cabo pelo governo federal e pela venda de lotes na futura capital. Os recursos conseguidos junto ao governo federal foram de 15.000 contos, ao longo dos primeiros cinco anos da década de 30; a venda de lotes forneceu, somente em 1934 e 1935, um total de 797 contos.
Assim que ficou pronto o plano de arruamento e loteamento da nova capital, foi criado um Departamento de Propaganda e Venda de Terrenos para efetivar a
venda de lotes (que mais tarde teria seu nome alterado para Departamento de Propaganda e Expansão Econômica do Estado). Em setembro de 1934, os preços dos lotes foram elaborados em uma tabela de acordo com a divisão em zona comercial, residencial, industrial e suburbana; já em outubro de 1935 os valores da tabela foram majorados em torno de 17%, em média.
Outra importante fonte de recursos foi a renda da terra. Tratou-se de uma conseqüência da construção da nova capital, já que de antemão era sabido por todos que os terrenos no entorno da capital se valorizariam (tanto que vários proprietários rurais doaram lotes ao município que estava para ser construído, com o intuito de verem valorizadas suas terras). A resultante foi uma explosão especulativa na área da nova capital.
Cabem aqui algumas observações sobre a renda da terra. Podemos estabelecer, no caso de uma explosão especulativa, estar havendo uma apropriação, por parte do capitalista, de uma renda bancada pelo conjunto da sociedade, através de impostos ou melhoramentos feitos pelo Estado, como foi o caso da nova capital.
No sistema capitalista, o capital se apropria do trabalho em vários níveis, de que a renda da terra é exemplo, em determinado plano. Esta ocorre não pelo preço da compra propriamente dita, mas pela renda que o terreno pode oferecer, seja através de produção de alimentos, seja pela especulação, seja, ainda, pelos benefícios que a sociedade disponibiliza (melhoria em infra-estrutura, aplicação de benefícios fiscais), o que implica uma transferência de renda do conjunto da sociedade para a classe fundiária.
Não é nosso interesse estabelecer uma discussão ampla sobre a renda da terra e, sim, destacar que ela pode ser obtida através de especulação e que quem,
na verdade, transfere renda para o especulador é o conjunto da sociedade. Este mesmo processo pôde ser constatado, no caso que estudamos, nas transferências de terras iniciadas tão logo começou a construção da nova capital goiana; os impostos sobre as transferências também foram úteis para o erário estadual11.
Uma analise pormenorizada sobre o parcelamento do solo em Goiânia foi feita por Pastore – com base na perspectiva marxista, da qual utilizou a teoria da renda fundiária – em seu entendimento a formação do espaço urbano na cidade ocorreu em três etapas. A primeira deu-se com a sua construção até o final do período do Estado Novo, em que a “propriedade da área urbana era do Estado, que detinha o monopólio do parcelamento e a mercantilização da terra” (PASTORE, 1984, p. 84).
Neste período, o Estado estava à frente na formação do espaço urbano da capital exercendo um controle rígido em atenção ao traçado original da cidade. Os preços dos lotes eram acessíveis às camadas populares.
A segunda etapa, conforme o autor, teria acontecido de 1947 a 1968, quando se iniciaram os conjuntos habitacionais. A data 1947 foi escolhida por ter sido o ano da aprovação de um código de edificações da cidade que suprimiu a obrigatoriedade da montagem de infra-estrutura nos loteamentos. Para o autor, “os padrões de parcelamento passam agora a obedecer outros critérios estabelecidos pela apropriação privada da renda fundiária pelos proprietários de terras” (PASTORE, 1984, p. 95).
Houve uma privatização do parcelamento do solo em Goiânia, Oliveira(2002) observou que este parcelamento deveu-se a uma composição sócio-política, em que se reuniram agentes sociais proprietários de terras e do capital imobiliário. Esta
11 Uma discussão dos valores cobrados pelo Estado para a transferência foge à nossa finalidade e necessitaria de uma pesquisa específica, com documentação da época, e também de comparações com os mesmos tributos cobrados por outros Estados.
aliança possibilitou influenciar diretamente as ações estatais, em seu benefício, inclusive relativo ao uso social da terra aos seus interesses.
A terceira etapa ocorreu após os anos 70 com a configuração do BNH – Banco Nacional de Habitação, que estabeleceu novas normativas para a construção civil e recorte do solo.
Voltando à construção de Goiânia, além dos problemas enfrentados para o financiamento da capital, existia outro: o dos construtores. A carência de força de trabalho, qualificada ou não, era muito grande na época e para supri-la foi importante o apoio do governo federal no aliciamento de trabalhadores para Goiás.
Foram tomadas algumas medidas para diminuir os custos com a reprodução da força de trabalho, como a redução do imposto de importação e a supressão de tributos interestaduais e intermunicipais. Tais procedimentos “por um lado beneficiavam os exportadores goianos, por outro lado, beneficiavam fundamentalmente o setor urbano industrial, na medida em que podiam funcionar para reduzir os preços dos produtos de consumo urbano” (SILVA, 1982, p. 173).
A nova capital, Goiânia, apresentava-se como um palco onde se processava a acumulação capitalista, via renda da terra e expropriação da força de trabalho, parte de uma estratégia de poder em âmbito estadual inserida em um projeto nacional-desenvolvimentista de Vargas.
Com alguns milhares de trabalhadores da construção civil em atividade e vivendo em condições precárias, “alojados em ranchos de capim e em casinhas de madeira, recebendo vales no fim do mês” (CHAUL, 1988, p. 77), cresceram conflitos típicos da disputa entre o capital e o trabalho, desembocando em movimentos grevistas nos anos de 1935-36.
Goiânia foi sendo, dessa forma, paulatinamente construída e ocupada: primeiro, a escolha do local, em 1933; depois, a mudança provisória dos governos estadual e federal, em 1935; finalmente, em 1942, com o Batismo Cultural, a cidade foi finalmente inaugurada.
A capital foi, de certa forma, produto de interesses complementares: por um lado, o fortalecimento e consolidação de poder estadual; por outro, um marco que servia de exemplo para o Estado Novo de Vargas:
fica claro que Pedro Ludovico e o Estado Novo tinham um forte ponto de convergência: Goiânia. Pelo lado de Pedro Ludovico, o regime servia como suporte de sua mais alta realização política – sua e dos grupos oligárquicos do Sul e Sudoeste; pelo lado do Estado Novo, Goiânia servia como concretização dos ideais do momento, como símbolo que encarnava, na prática, o nacionalismo apregoado pelo regime. Eles – Pedro Ludovico e o Estado Novo – se serviam, se completavam (CHAUL, 1984, p. 151).
Os investimentos para a construção de Goiânia acabaram por expandir as relações mercantis inter-regionais. Somada à valorização das terras goianas, fruto da construção da nova capital, trouxe impactos em sua estrutura social e econômica. Dentre eles, há que mencionar a forte migração, tanto para a construção como para o povoamento do Estado, resultado da conjunção de interesses estaduais e do projeto nacional-desenvolvimentista.