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Vergi Bilinci ile Alakalı Yapılmış Çalışmalar ve Elde Edilmiş Bulgular

3. VERGİ BİLİNCİ KAVRAMI VE BU KONUDA ELDE EDİLMİŞ BULGULAR 29

3.3. Vergi Bilinci ile Alakalı Yapılmış Çalışmalar ve Elde Edilmiş Bulgular

O desenvolvimento capitalista goiano foi um resultado histórico regional particular do processo de desenvolvimento capitalista brasileiro, visto que “não se trata de um espaço isolado e sim da fração integrante e interdependente da sociedade nacional” (ESTEVAM, 1998, p. 24).

Para apontar as “particularidades” do processo de desenvolvimento capitalista goiano devemos ter em mente que na década de 20 a economia estadual era baseada na pecuária, então o setor mais dinâmico da economia, apesar de empregar menos pessoas que a agricultura6. O dinamismo vinha do fato de que o produto de exportação goiano era o gado, comercializado com outros estados vivo (o modo mais econômico e viável para remeter este produto para fora de Goiás, em face da precariedade das estradas de rodagem). Palacin e Moraes (1994) fizeram um levantamento sobre a arrecadação estadual e concluíram que, no período de 1920 a 1929, o gado vivo representou 27,69% da arrecadação total do Estado e quase a metade das exportações goianas. Em número de cabeças, foram 3.690.372 no período.

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De acordo com o censo de 1920, 110.220 pessoas trabalhavam na agricultura, enquanto 6.995 atuavam na pecuária.

O Estado, nessa época, era um imenso espaço geográfico com uma população muito pequena; “entre o campo e a cidade, o curral e o mercado, havia, porém, as cercas naturais de impedimento à prosperidade da pecuária” (CHAUL, 1997, p. 92).

As cidades possuíam uma população reduzida (como mostrado na Tabela 2), representando 35,45% da população total. Apesar de o Censo não ter feito distinção entre população urbana e rural podemos inferir, como vimos, que a grande maioria da população tinha origem no campo.

O gado, como vimos, representava a principal atividade econômica e os centros urbanos goianos não absorviam a totalidade da produção. O excedente era exportado para outros locais, principalmente São Paulo, via região do Triângulo Mineiro. Este processo de exportação era por demais complicado. A precariedade das estradas, aliada à falta de outros meios de transporte para o gado, fazia que a expansão dessa atividade fosse prejudicada.

Neste contexto, um fato começaria a mudar o perfil da classe dominante, mais particularmente da fração hegemônica no bloco do poder de então: o avanço da agricultura, influenciado pela construção da estrada de ferro na região Sudeste do Estado.

A ascensão da atividade agrícola não substituiu de imediato a importância da pecuária na economia goiana. Deficiências de toda ordem dificultavam a produção e a comercialização dos produtos agrícolas. O transporte, “deficiência secular”, era um deles. Mas pode-se afirmar que a inserção mais significativa de Goiás no mercado nacional adveio de dois fatores principais, apontados por Campos (1985): a ampliação da economia cafeeira e as modificações na divisão social do trabalho.

De fato, a expansão do capitalismo no período é associada à ampliação da economia cafeeira e às conseqüentes modificações na divisão social nacional do trabalho, bem como à difusão da rede ferroviária. Em Goiás, por volta de 1914 – início da Primeira Guerra Mundial –, o processo de expansão capitalista já era perceptível e a ferrovia se apresentava como seu desencadeador, uma vez que tornaria possível ao produto goiano chegar ao mercado (CAMPOS, 1985, p. 133).

O avanço da estrada de ferro foi apontado por Estevam (1998) como o início do tempo das transformações que começou a despontar em Goiás e que, acreditamos, veio fortalecer uma fração de classe que, tempos depois, lutou para tornar-se hegemônica no seio do bloco no poder.

A estrada de ferro passava pelo Triângulo Mineiro e atingia Goiás pelo Sul/Sudeste, na região da cidade de Catalão. Devemos atentar ao fato de que, na época da mineração, o Triângulo Mineiro pertenceu ao Estado de Goiás, sendo depois anexado a Minas Gerais. Isto teve importância significativa para o desenvolvimento do Sul/Sudeste/Sudoeste goiano, já que havia uma similaridade em termos produtivos, sociais e culturais entre os moradores dessas regiões.

O Triângulo Mineiro exerceu forte influência sobre uma região goiana que, à época, não detinha o poder político estadual, que como vimos, por exemplo na tabela 3, era exercido pela oligarquia dos Caiados. A emergência do Triângulo Mineiro como centro mercantil regional foi pautada por, no mínimo, três razões: I) a posição estratégica com relação ao centro dinâmico da economia nacional – São Paulo; II) a privilegiada base de recursos naturais; e III) a ausência de “resistências culturais” que pudessem obstar a expansão de relações comerciais (ESTEVAM, 1998).

Graças à maior freqüência nos negócios que se originou com a rapidez e facilidade propiciada pela proximidade dos trilhos da estrada de ferro, constituiu-se uma relação mercantil forte entre os negociantes do Triângulo Mineiro e os da região sulina goiana7, que passaram a financiar a atividade agropecuária.

O principal produto agrícola negociado entre a região sulina goiana e o Triângulo Mineiro era o arroz, que era beneficiado no Triângulo Mineiro e exportado daí para São Paulo, com grandes lucros para os comerciantes triangulinos.

Começava a haver, então, um “desconforto” no âmbito político. A principal atividade exportadora era, como vimos, a pecuária. Esta possuía uma cadeia produtiva longa (cria, engorda e abate), de que os produtores goianos participavam somente na primeira fase. A última, o abate, era feito no Estado de São Paulo, mais precisamente no frigorífico Anglo, em Barretos. Neste itinerário, os maiores lucros iam parar nas mãos dos comerciantes e fazendeiros da região do Triângulo Mineiro. Estevam afirma que:

Os ganhos substanciais, nesse esquema, dividiam-se entre intermediários-invernistas, centro de abate e comércio final. Neste esquema tradicional de comercialização, os goianos vendiam bezerros – produzidos em caráter extensivo – que eram engordados principalmente pelos invernistas do Triângulo Mineiro e, somente depois, negociados nos centros consumidores (ESTEVAM, 1998, p. 86).

Daí não fica difícil deduzir que a burguesia mercantil do Triângulo Mineiro obtinha ganhos cada vez maiores com a relação comercial mantida com Goiás. Em decorrência disso, o sistema financeiro evoluiu nessa região e várias casas bancárias se instalaram e passaram a financiar a burguesia comercial, fomentando ainda mais a influência do Triângulo Mineiro na região sulina goiana.

Se a estrada de ferro possibilitou um maior intercâmbio comercial da região Sudeste goiana com o Triângulo, a construção da ponte Afonso Penna sobre o Rio Paranaíba possibilitou o trânsito de mercadorias. Intercambiavam-se, de um lado, os produtos agropecuários advindos do Sudoeste de Goiás e, de outro, os produtos oriundos de São Paulo, via Triângulo Mineiro, para Goiás, devido à maior proximidade da cidade de Uberlândia com essa região.

A tabela abaixo mostra que as duas regiões – Sudoeste e Sul-Sudeste –, mesmo com 42,9% da população total do Estado de Goiás, apresentavam uma produção agrícola bem superior às demais – 63,7% –, bem como um número significativo de cabeças de gado (45,6% do total estadual).

Tabela 4: Goiás – População e produção agropecuária por regiões (1920)

Regiões População % Agricultura % Pecuária % Norte-Nordeste 163.422 31,9 38.452,2 13,5 1.098.128 36,3 Centro-Norte 49.624 9,7 36.097,7 8,4 233.690 7,7 Mato Grosso Goiano 78.863 15,4 62.004,4 14,3 304.187 10,0

Sudoeste 31.786 6,2 66.745,8 15,4 518.980 17,1

Sul-Sudeste 188.251 36,7 209.134,5 48,3 862.784 28,5 Fonte: IBGE (Censo de 1920).

Havia em Goiás, portanto, duas regiões que foram fortemente influenciadas pela atividade mercantil, tendo como financiadores a burguesia mercantil do Triângulo Mineiro. A região Sudeste, que era mais populosa, passou a conceber a terra em função do comércio, o que determinou um maior índice de transações de propriedades, não querendo isso dizer que houve um parcelamento no tamanho dessas propriedades.

O mesmo ocorreu na região Sudoeste, enquanto o centro e o Norte do Estado não foram beneficiários do grande dinamismo experimentado pelas outras duas

regiões, “ficando imunes à modificação nas formas sociais de propriedade fundiária” (ESTEVAM, 1998, p. 94), as quais se fracionavam basicamente por herança.

Não obstante, a preponderância política e o controle do aparelho estatal estavam nas mãos de grupos ligados ao setor da pecuária, que tinham grandes extensões de terras e o domínio de cargos e postos públicos através do que diversos autores chamam de “pacto coronelístico”, conforme já tivemos oportunidade de discutir. Os proprietários rurais da região sulina goiana, ligados à atividade mercantil do Triângulo Mineiro, tornaram-se uma nova fração de classe no seio do bloco no poder e passaram a ter um perfil econômico mais consistente que a fração hegemônica. Dessa forma, estabeleceu-se o cenário de um conflito que viria a ser definido na Revolução de 30, ou seja, uma luta pela hegemonia no interior da classe dominante.

De um lado temos, no interior desta classe, os proprietários rurais, pecuaristas, que detinham a hegemonia, satisfazendo prioritariamente seus interesses; de outro, também proprietários rurais, pecuaristas e agricultores ligados à burguesia mercantil mineira que beneficiavam os seus produtos agropecuários e supriam o mercado consumidor paulista, mas que não tinham uma representação política à altura de sua importância econômica, descontentes com sua situação política.

Como vimos, no plano econômico, a região sulina estava bastante fortalecida na década de 20, mas não possuía representatividade política condizente com o seu poderio econômico. Também não via satisfeitas, por parte do governo estadual, algumas demandas por obras e ações que pudessem melhorar suas atividades mercantis.

Um exemplo disso aconteceu quando da chegada do telégrafo à cidade de Rio Verde. O aparelho já era utilizado na capital desde 1891, mas sua instalação em Rio Verde somente foi liberada em 1918, entrando efetivamente em funcionamento apenas em 1924. Quando na solenidade de instalação do telégrafo, alguns oradores teceram críticas referentes à demora na implantação deste benefício na cidade. O representante da oligarquia, coronel Martins Borges, não defendeu o governo e foi repreendido por telegrama pelo coronel Antonio Caiado.

Contrariado, o coronel Martins Borges respondeu ao telegrama com a mesma veemência, o que precipitou sua decisão de partir para a oposição. Junto com ele foram seu genro Pedro Ludovico Teixeira, Ricardo Campos, Atanagildo França, Almeida Barros, Teódulo Emerich e outros, formando uma frente de oposição em Rio Verde.

As insatisfações terminaram por configurar uma cisão entre os grupos oligárquicos que tinham seus interesses ligados à capital e as frações mais relacionadas ao Sul e ao Sudoeste. Estes, além de uma participação política que correspondesse a seu poder econômico, queriam que o Estado acionasse mecanismos que permitissem uma maior mercantilização dos produtos goianos (SILVA, 1982, p. 138).

Dentro da lógica vigente entre os Caiados, não se poderia permitir a ascensão econômica de outra região, pois isso implicaria o fortalecimento de um novo grupo que, como conseqüência, poderia lhes fazer oposição, o que de fato ocorreu.

Além do plano econômico, havia divergências internas à agremiação dos Caiados, na qual muitos buscavam uma maior participação nas decisões políticas, o que acabava por limitar o desenvolvimento do Estado.

Os grupos descontentes passaram a fundar periódicos para combater a oligarquia estadual. Na capital do Estado, cidade de Goiás, foi fundado, em 1927, o jornal A Voz do Povo, por Mário Caiado, juiz de Direito da Primeira Vara da capital e parente de Antonio Caiado (mesmo assim seu opositor, devido a desdobramentos oriundos da “Questão Judiciária”8).

No Sudoeste, a oposição estava a cargo de Pedro Ludovico Teixeira, médico e, como vimos, genro do coronel Martins Borges, que fundou a gazeta O Sertão, posteriormente transformada em O Sudoeste. Na cidade de Ipameri, outro jornal também fazia oposição, O Ipameri. Todos criticavam o governo das mais diversas maneiras possíveis. Não havia, porém, uma articulação planejada entre a oposição. Faltava-lhes unicidade em torno de um projeto político, visto que, na estrutura coronelística, dificilmente o governo perderia as eleições.

Essa unicidade que tornou possível aglomerar as oposições em Goiás veio através de um movimento maior, no plano nacional, com a Aliança Liberal (AL), formada em virtude de uma cisão entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais. Tal divisão se deu após o apoio que o presidente Washington Luís conferiu a um candidato paulista, em vez de um mineiro. Aos dissidentes da política “café-com- leite” somaram-se os políticos do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraíba.

De acordo com Boris Fausto, “A Aliança era uma coligação de oligarquias dissidentes cujos nomes ilustres não visavam a outra coisa senão a pressionar a burguesia de São Paulo e obter concessões” (1978, p. 140). De fato, a AL serviu aos interesses dos descontentes, participantes da oligarquia no plano regional, que

8 A “Questão Judiciária” foi um conflito entre o Poder Executivo e o Judiciário, nascido de um litígio de terras que teve início quando Brasil Ramos Caiado, irmão de Antonio Caiado, concedeu títulos a este de aproximadamente 1.071.476 hectares às margens do Rio Araguaia. Tal ato exigiu uma modificação da Lei 725, de 11/8/1923, que obrigava o posseiro a realizar o pagamento das custas do processo e a demarcação da área. O Poder Judiciário não concordou e os Caiados – leia-se Antonio Caiado – alterou a configuração do Judiciário, aumentando o número de desembargadores e dividindo o Tribunal de Justiça em duas Comarcas, a civil e a criminal. Com o aumento, passou a dominar os dois poderes, o Executivo e o Judiciário.

somente estavam à busca de uma solução favorável pelo poder estadual, sem propostas no âmbito nacional: “lutavam apenas por uma rotatividade no poder” (CHAUL, 1984, p. 22).

Dessa forma, se fundou, em novembro de 1927, um novo partido político, forma de abrigar a oposição ao caiadismo: o Partido Republicano de Goiás (PRG)9. Este Partido aderiu rapidamente à AL, cujos contatos eram dados principalmente através de Minas Gerais, onde se articulava com Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraíba o movimento de oposição que culminaria na Revolução de 30.

1.6 A Revolução de 30 em Goiás

O interesse em abordar esse período da história goiana é, em um primeiro momento, buscar as raízes do poder político estadual e, através do tempo, em um segundo momento, verificar se houve mudanças significativas na classe dominante regional. Neste sentido, a Revolução de 30 em Goiás trouxe acontecimentos que influenciaram de forma decisiva o desenvolvimento e urbanização do Estado. O primeiro grande processo foi a construção da nova capital – Goiânia –, no bojo dos desdobramentos da Revolução de 30.

A Revolução de 30 foi o primeiro grande movimento nacional que trouxe importantes desdobramentos para o desenvolvimento econômico do Estado, visto que houve uma troca de fração hegemônica no interior do bloco no poder não implicando, muito embora, mudanças na formação social e muito menos na sua

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A composição inicial foi a seguinte: presidente: coronel Virgílio José de Barros (capital), Membros: coronel Samuel Sabino de Passos (capital), coronel Antonio Martins Borges (Rio Verde), coronel Orlando Borges (Santa Rita), Dr. Americano do Brasil (Santa Luzia), major Evaristo Machado (capital), major João Rocha Lima (capital), Dr. Olavo Baptista (Pirenópolis), major Augusto Berquó (capital), major Raul Coutinho (capital), Dr. Agnello Arlington Fleury Curado (capital), Dr. José Honorato da Silva e Souza (capital) e Dr. Claro Augusto de Godoy (capital).

configuração fundiária,. Na verdade, os vencedores faziam parte da oligarquia dominante que, não tendo satisfeitos prioritariamente seus interesses, passaram a lutar pela hegemonia de sua fração de classe. Conseguiram seu intento com a Revolução.

Este movimento, a Revolução de 30, teve suas origens na crise do sistema capitalista internacional na década de 20, com profundas repercussões no Brasil, já que a pauta de exportações brasileiras era baseada na exportação de produtos agrícolas, principalmente o café.

Isso, por um lado, possibilitou o crescimento industrial, já que o país, por faltas de divisas para importar, começou a desenvolver indústrias que pudessem compensar essa dificuldade. As indústrias seriam destinadas a substituir as importações.

Começava, dessa forma, a haver um crescimento das classes médias e do proletariado urbano, derivados desse desenvolvimento industrial e, com isso, criavam-se conflitos cada vez maiores entre a burguesia industrial emergente, as classes médias, o proletariado urbano e as frações oligárquicas excluídas do poder do Estado. Essas forças – “antagônicas na sua formação, mas unidas no interesse comum de derrubar a velha ordem oligárquica” (CHAUL, 1984, p. 25) – acreditavam que seus objetivos seriam conquistados sob o comando de Getúlio Vargas.

Boris Fausto (1991) entende que esse movimento estava longe de ser homogêneo. O agravamento dos conflitos no curso da década de 20, as peripécias das eleições de 1930 e a crise econômica propiciaram a criação de uma frente difusa que contou com o apoio do setor militar, os tenentes, além das classes médias e do proletariado urbano e, também, de setores da classe dominante regional.

O inimigo comum de todos era a velha ordem oligárquica controlada pela hegemonia mercantil-bancária, a grande derrotada na Revolução de 30.

Almeida (1995) mostra que a Revolução de 30 abriu caminho para mudanças institucionais importantes no Brasil, a partir daquele momento. O desenvolvimento do capitalismo no país passaria a se dar em novos termos.

A “revolução de 30” abriu caminho para a reestruturação do Estado nacional, tornando-o melhor aparelhado para o prosseguimento, em novos termos, do processo de desenvolvimento capitalista no Brasil. Criaram-se condições para a constituição de um espaço econômico mais integrado: centralizaram-se no âmbito do Estado nacional mecanismos de políticas econômicas setoriais que antes estavam sob o controle regional (...). Neste sentido, ocorreu, de fato, uma ruptura com a velha ordem oligárquica. (ALMEIDA, 1995, p. 90)

Décio Saes (1975) entende que na Primeira República não havia nenhum partido que representasse o interesse das classes médias e que a sua formação não era homogênea. Os setores mais altos e tradicionais da classe média se dividiram entre a fidelidade às situações oligárquicas e a militância ou apoio a partidos ou movimentos criados pelos descontentes na sua luta pelo poder.

Dessa forma, as classes médias, não tendo uma composição homogênea, não possuíam um projeto político capaz de dar conta dos seus componentes. Na visão de Décio Saes (1975), a Primeira República não testemunhou o nascimento de nenhum partido mais estritamente agregador das camadas médias urbanas e que, ao mesmo tempo, pudesse ser incorporado ao jogo político oligárquico.

A não incorporação de um novo partido político advinha do fato de, para o autor, a alta classe média estar mergulhada no universo da ideologia dominante, aceitando a dominação oligárquica. Tal subordinação era facilitada pela dependência familiar, social e econômica em que esse setor vivia em relação aos clãs aristocráticos rurais e, principalmente, a burguesia mercantil-bancária, o que

acabava por condicionar sua atuação política. Já a baixa classe média (comerciários, bancários, baixos funcionários públicos), ainda pouco numerosa no período em questão. Da mesma forma que a estudada por Saes (1975) em relação aos grandes centros urbanos, apresentava forte predisposição para exigir proteção da burocracia estatal, “orfandade” que a tornava disponível para apoiar movimentos que apontassem para políticas mais centralizadoras e intervencionistas de caráter mais diretamente social.

O que nos importa é saber quem ou qual classe ou fração participou desse processo em Goiás, se os participantes eram oriundos de uma “classe média” da burguesia rural, de um proletariado revolucionário ou de uma oligarquia dissidente. Vejamos.

A participação do proletariado revolucionário, em Goiás, está fora de questão. Como mostrado anteriormente, o processo de acumulação capitalista goiano se constituiu “pelo alto”, através da agricultura, que se fortaleceu na região sulina do Estado e, por conseguinte, não formou uma classe proletária, de formação industrial, e sim uma mudança no “estilo” de apropriação da renda da terra.

Quanto à “classe média” rural, podemos apontar para alguns eventos que podem até obscurecer o entendimento de sua natureza intrínseca. A maioria dos profissionais liberais (médicos, engenheiros, advogados, comerciantes, etc.) era, em sua grande maioria, também proprietários rurais e proporcionava um poderoso auxílio à dominação de classe.

Existem interpretações dando conta de que os jovens de famílias abastadas eram enviados aos grandes centros urbanos para formação profissional e que, em contato com o progresso desses locais, acabaram sendo portadores de uma visão “moderna” em relação ao “atraso” reinante em Goiás. Aderido ao movimento

revolucionário apoiado por oligarquias locais descontentes, formariam o novo governo. O interessante é notar que tanto uma consideração quanto a outra não deixam dúvidas de que o poder político estava vinculado à posse da terra e que, mesmo havendo uma classe média pouco numerosa, esta servia aos interesses dos proprietários, da oligarquia local ou estadual, atuando complementarmente para a dominação de classes.

Neste cenário, em nosso ponto de vista, é de que foi utilizado o discurso do “novo”, do “progresso”, do “moderno” para se posicionar diante da oligarquia dominante e colocá-la na posição de “velho”, “atrasado”, “arcaico”, como os opositores não tivessem vínculos com a classe dominantes nativa.

O líder da Revolução de 30 em Goiás, Pedro Ludovico Teixeira, era médico e representava o “moderno”, o “novo”. Entretanto, fazia parte de uma oligarquia local, baseada na cidade de Rio Verde, sendo genro do líder dessa oligarquia, coronel