Como o nosso objeto de investigação são as sentenças do grau comparativo extraídas dos livros didáticos e das gramáticas delimitados neste trabalho, dividimos essas sentenças classificando-as, na fase inicial da pesquisa, em lineares – quando as representações comparadas apresentam uma base determinante da mesma natureza; e em complexas – quando as representações comparadas apresentam bases determinantes de naturezas diferentes.
Além do segundo capítulo, que trata especificamente da comparação, consideramos relevante pontuar aqui as definições de comparar e de comparação, assim como a amostra de alguns exemplos fictícios que possam apresentar de modo mais esclarecedor o que pretendemos fazer analiticamente, no percurso da significação.
Vejamos, pois, as definições de comparar e comparação no dicionário Houaiss (2001, p. 773):
comparar – transitivo direto e bitransitivo.1 relacionar (coisas animadas ou
inanimadas, concretas ou abstratas, da mesma natureza ou que apresentem similitudes) para procurar as relações de semelhança ou de disparidade que entre elas existam; cotejar.
Ex.: <c. Epicteto e Marco Aurélio> <c. os homens com os primatas> <c. a melancolia à saudade> transitivo direto e bitransitivo 2 Uso formal:.aproximar dois ou mais itens de espécie ou de natureza diferente, mostrando entre eles um ponto de analogia ou semelhança. [...]
comparação – substantivo feminino. ato ou efeito de comparar 1 cotejo,
confronto 2 Rubrica: retórica, estilística. figura que consiste em aproximar e cotejar duas idéias ou coisas que tenham similitude total ou parcial, para criar uma tensão poética ou visando à clareza 3 Rubrica: gramática, linguística. paralelo feito entre dois termos de um enunciado com sentidos diferentes; é uma construção sintática em que um dos membros (o comparado) se define pelo que se sabe do outro [o comparante] (p. ex.: dirige como um louco; nossa partida, um drama, foi retardada pela greve). Obs.: cf. metáfora e símile.
Elegemos os conceitos de comparar, e o de comparação, do dicionário Houaiss, para problematizar o próprio conceito de comparação. Nesse sentido, encontramos em Almeida (1960, p. 135) que “um adjetivo está no grau comparativo quando exprime uma qualidade em relação a outras coisas que também a tenham em porção igual, menor ou maior”. A definição de Almeida enquadra nossas sentenças lineares, porém, as complexas são construídas numa relação de comparação em que o comparado passará a ser determinado pelo que se sabe do determinante, embora o determinado não apresente a base determinante, ou seja, a qualidade referida por Almeida (1960). A partir das análises, demonstramos que as gramáticas e os livros didáticos baseiam-se numa definição que não é problematizada.
Vejamos, então, as seguintes orações: Ana é bonita. Júlia é bonita. Se ambas são bonitas, podemos fazer comparações dada uma base de referência (predicação) comum às duas, construindo: a) Ana é tão bonita quanto Júlia. (igualdade); b) Ana é menos bonita do que Júlia. (inferioridade); e, c) Ana é mais bonita do que Júlia. (superioridade). Assim construímos comparações de enunciados lineares, nos quais alteramos apenas o grau de intensidade, conservando a mesma propriedade no comparante e no comparado.
Numa outra relação temos: Ana é bonita. Júlia não é bonita. (ou Júlia é feia).
O grau positivo ou normal da predicação é considerado suficiente para determinar Ana e Júlia, no entanto, as operações de língua(gem) nos permitem estabelecer uma relação comparativa entre elas pela determinação (qualidade) de natureza diferente (por que não dizer contrárias?). Podemos construir: Ana é mais bonita do que Júlia (que não é bonita ou que é feia). Assim, podemos comparar as duas pela presença da propriedade em Ana, e pela ausência dessa mesma propriedade em Júlia.
Há, ainda, relações de comparação, nas quais vamos percorrer outro trajeto para equilibrar a significação: Ana fez uma prova de matemática ruim o mês passado, porém, a que ela fez este mês está melhor. Neste exemplo empreendemos um trabalho diferente, quer dizer que a prova deste mês não está tão ruim quanto a do mês passado ou que ela está menos
ruim, sem ser ainda uma boa prova, contudo apresentando sinais de recuperação. Estes dois últimos exemplos ilustram os enunciados comparativos os quais denominamos de complexos, no início desta pesquisa, devido às operações de linguagem que precisam ser processadas para se estabilizar a significação dos mesmos. Por conta da positividade lógica que o enunciado apresenta evolutivamente, conseguimos associar o caminho percorrido por essa propriedade em direção à fronteira culioliana para encontrar nesse mesmo domínio nocional o seu complementar numa operação de negação. Isso nos mostra que a teoria culioliana não opera apenas sobre dois pontos, numa escala nocional, tipo grande x pequeno; bom x ruim ou feio x bonito, mas aciona gradientes que vão passando por outros pontos dessa noção até colocá-la num outro lugar desse domínio para estabilizar o sentido enunciativo.
Selecionamos quatro livros didáticos e quatro gramáticas, usados no ensino médio da escola regular de língua inglesa, como material-suporte das sentenças eleitas para nossas análises.
Os livros didáticos são: Globetrekker (COSTA, 2008); Touchstone 2: Teacher‟s Edition (MACCARTHY; MACCARTEN; SANDIFORD, 2005); Inglês: série novo ensino médio (MARQUES, 2002); Inglês Doorway: Ensino Médio (LIBERATO, 2004). E as gramáticas são: Grammar in use - Intermediate (MURPHY; SMALZER, 2000); Basic Grammar in Use: Reference and practice for english students (MURPHY; SMALZER, 1994); Focus on Grammar: A Basic Course for Reference and Practice. (SCHOENBERG, 1994); Grammarway 4: English Grammar Book (DOOLEY; EVANS, 1999).
Desse material separamos um grupo de sentenças marcadas por nós como lineares e um grupo de sentenças complexas, após várias leituras, na tentativa de recortá-las com a maior precisão possível visando a atender nossos questionamentos. Desses dois grupos selecionamos, pelo menos, duas sentenças: uma linear e uma complexa, em cada livro, para analisar e apresentar neste trabalho. As demais permanecem num banco de dados particular.
Apresentamos a seguir dezenove sentenças, retiradas do nosso corpus, as quais serão identificadas e analisadas neste capítulo, demarcando o domínio nocional em que cada uma se insere e a localização delas nesse domínio, no interior ou no exterior, para significar o que o enunciador pretende que elas signifiquem. Ao final de cada sentença a ser analisada identificamos as lineares com um (L) e as complexas com um (C). A última sentença analisada foi duplamente identificada com (C) e (L).