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4. Kıyıdaş Devletler ve Diğer Aktörler

4.1. Neden Akdeniz?

4.1.4. Yarı Kapalı (AK)Deniz

As pessoas que, nos sistemas terapêuticos ou na uni- versidade, se consideram simples depositárias ou canais de transmissão de um saber científico, só por isso já fizeram uma opção reacionária. Seja qual for sua inocência ou boa vontade, elas ocupam efetivamente uma posição de reforço dos sistemas de produção de subjetividade dominante. (Guattari; Rolnik, 1986, p.29)

No meu curso de psicologia, além dos estágios cur- riculares e extracurriculares, participei intensamente de atividades relacionadas ao movimento estudantil univer- sitário. Inicialmente, esse contato aconteceu por meio das reuniões do Centro Acadêmico de Psicologia (Capsia), que recentemente se instalou (1998) e posteriormente se consolidou na representação discente no Conselho de Curso e na própria gestão do CA e do Diretório Central dos Estudantes Helenira de Rezende, da Unesp/Fatec.

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No caso do campus de Assis,2 a ação do movimento

estudantil centrava-se na ocupação dos espaços institu- cionais de gestão da universidade (conselhos de curso, departamentos, comissões etc.), mesmo a despeito da desigual participação dos segmentos da universidade (não paridade), e na crítica à cooptação de partidos polí- ticos ao movimento estudantil universitário. Um debate constante do universo estudantil se dava em torno das formas de organização/atuação enquanto movimento social, tendo na figura do assembleísmo sua maior ex- pressão. O burocratismo, a monotonia e o estriamento excessivo dessa forma de organização/atuação implicava um afastamento contínuo de pessoas que por vezes tinham grande interesse nas discussões do movimento. Lembro- -me, por exemplo, das infindáveis assembleias de greves que, por vezes, tornavam-se espaços fascistas de ditadura da maioria, nas quais apenas se deliberava. Espaços em que as pessoas já vinham com uma opinião preconcebida e que eram indisponíveis a escuta do outro. O importante era ficar até o final da reunião para votar!

Não é intenção demonizar o espaço da assembleia, mas trazer algumas considerações que acredito serem interes- santes, sobretudo em um tempo de tantas liberdades, e observar como o estriamento desse espaço, supostamente potente em termos de organização coletiva, pode trazer efeitos perversos.

Voltando à problemática da Reforma Psiquiátrica e dos serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos (os Caps), têm-se, nas assembleias de funcionários e usuários, importantes espaços com vistas a horizontalizar as relações

2 Diferentemente das outras universidades estaduais – Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual de Campinas (Uni- camp) –, a Universidade Estadual de São Paulo “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) possui uma serie de campi espalhados pelo interior do Estado de São Paulo.

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e romper com o paradigma psiquiátrico fundamentado na relação médico-paciente. Essas assembleias possibi- litam a participação dos mais diversos atores na gestão do cotidiano do serviço, na criação de novas oficinas, projetos, viagens, configurando-se como potente espaço de produção de vida e como instrumento de resistência à perspectiva patológica da loucura. No entanto, destaca-se aqui o fato de isso nem sempre ocorrer dessa forma, como no caso da Assembleia realizada no dia 18 de janeiro de 2011. Nesse dia, não havia outros pontos de pauta além da discussão referente à continuidade ou não das sessões de cinemas (re)iniciadas na semana anterior em função desse trabalho de pesquisa. Como já mencionado, algu- mas produções de imagens já haviam sido realizadas na viagem à IV Feira de Saúde Mental e Economia Solidária, no município de São Paulo.

A ideia de meu comparecimento à assembleia era de compartilhar a experiência com os demais técnicos e usuários e avaliar o andamento das atividades do projeto de forma coletiva, tendo em vista a solicitação de alguns usuários, após o filme Bicho de sete cabeças, por novas sessões de filmes.

Durante a assembleia foi disponibilizada uma câmera ao grupo e foi justamente no encontro com o material produzido que me deparei com uma situação cuja qual, na hora, não havia me dado conta: como, por vezes sem perceber, por meio de nossos gestos, atitudes e falas, reproduzimos a mesma lógica que criticamos, no caso, corroborando uma produção de subjetividade do louco enquanto doente, incapaz etc.

Em certo momento de minha fala na assembleia fui interrompido por determinado usuário, que, a princípio, não conhecia, pois ainda não tinha passado pelo serviço na época em que trabalhara como psicólogo na instituição. Ele procurou participar, de alguma maneira, da conver-

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sa que se iniciou, mas não necessariamente abordou as questões em pauta acerca da continuidade das sessões de cinema. Na verdade, não é fácil compreender o que diz, seja pelo seu falar baixo – que dificulta a captação de som da câmera –, seja por abordar assuntos que não tem haver com a discussão levantada. Grosso modo, ele fala de São Paulo, sua família... O grupo ouve atentamente sem nenhuma intervenção e, quando reinicio minha fala, sou surpreendido novamente por sua intervenção, em um movimento que se repete uma vez mais. É nesse momento que outro usuário não aguenta e começa a rir da situação, que corroboro; essa situação, de certa maneira, inferioriza- -o como alguém que intervém onde não deveria, como o louco que fala onde não deve.

Acontece que, no anseio de dar seguimento à pesquisa “sobre” os loucos, cala-se o louco. Ao invés de aproveitar aquela abertura propiciada pela intervenção do usuário – e fazer a pesquisa “com” o louco a partir das brechas que se apresentam –, ironiza-o. Um exemplo de como por meio de nossas ações, gestos, falas, maneiras de olhar, muitas vezes judicializamos o outro, o estranho a nós, enquadrando-o e inferiorizando-o, reproduzindo, assim, uma lógica manicomial, para além dos muros dos hospitais, nas relações e, no caso, em nome de uma ciência em si.

Plano-fragmento: Saúde Mental