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BÖLÜM 3. 19.YÜZYILDA OSMANLI İMPARATORLUĞUNDA DEĞİŞİM ve YAPILANMA

3.2 Ekonomik Yapı

3.2.1 Uluslararası Ticaret

3.2.1.3 Yabancı Sermaye Yatırımları

A Grécia Minóica: O Sentido de Permanência

na Dimensão do Humano.

5.1. A Grécia Minóica. A Grécia Minóica / A Creta Imemorial de Homero / O Problema da Precedência

das Culturas / O Bom Senso de Durant: Uma Mesma Perspectiva Civilizatória / “O Primeiro Elo da Cadeia

Européia” / Os Sinais Cretenses do Bem Fazer Pelo Bem Comum / As Artes Minóicas: Um Novo Estilo de

Vida / Uma Ilha Urbana da Idade do Bronze / A Estética e o Conforto: A Centralidade do Humano /

Phrónesis: A Centralidade da Estética do Humano no Bem Fazer Comum.

5.2. “O Primeiro Elo da Cadeia Européia”. Uma Nova Perspectiva de Ser e Estar no Mundo / O Sujeito

Auto-Evidente: Os Tijolos e os Pictogramas / A Co-Evidência do Outro: A Diferença na Igualdade da Aldeia / O Todo Mítico: A Persistência do Perímetro Sagrado / As Três Dimensões do Humano e as Três Dimensões do Espaço Construído / A Aparição de um Novo Medium Cultural : A Intencionalidade do

Humano.

***

5.1. A Grécia Minóica.

5.1. A Grécia Minóica / A Creta Imemorial de Homero / O Problema da Precedência das Culturas / O Bom

Senso de Durant: Uma Mesma Perspectiva Civilizatória / “O Primeiro Elo da Cadeia Européia” / Os Sinais

Cretenses do Bem Fazer Pelo Bem Comum / As Artes Minóicas: Um Novo Estilo de Vida / Uma Ilha Urbana da Idade do Bronze / A Estética e o Conforto: A Centralidade do Humano / Phrónesis: A Centralidade da

Estética do Humano no Bem Fazer Comum.

Por Grécia Minóica entende-se a temporalidade na qual floresce essa sofisticada civilização que existiu na ilha de Creta. Essa ilha, que começa a ser colonizada durante o período Neolítico, por volta de 9.000 a.C., e que passa à Idade do Bronze por volta dos 3.400 a.C., tem seu apogeu por volta dos 1.500 a.C.. Contudo, essa civilização desaparece subitamente poucos séculos mais tarde. O termo minóico deriva do nome do poderoso rei Minos, e suas possessões indicam uma ampla influência sobre as demais cidades situadas tanto nas ilhas gregas como no continente. Nessa perspectiva, e aqui os registros são confiáveis, a civilização Minóica antecede e fomenta a civilização Micênica, ou a posterior civilização grega continental.

PUECH (1986), ao introduzir as questões sobre a religiosidade de Creta e seu período Minóico, apresenta a seguinte periodização dessa passagem do período Neolítico à sua entrada na Idade do Bronze:

“Antes de expor as grandes linhas da religião minóica e aquéia, é necessário dar algumas referências

cronológicas:

I. Período Neolítico: Do quinto milênio até a primeira metade do terceiro milênio. II. Minóico Antigo ou primeira idade de bronze: finais do terceiro milênio.

III. Minóico Médio: desde a fundação dos palácios correspondentes a Cnossos e Mália (por volta do ano

2.000) até 1.580 a.C., os cretenses utilizavam a escritura hieroglífica. Até 1.900 a.C., um novo povo se estabeleceu na Grécia Continental: segundo a opinião geral são os primeiros gregos indo-europeus, ainda que o inglês Palmer creia que se tratassem de Luvitas provenientes da Ásia Menor.

IV. Minóico Recente: de 1.580 a 1.150 a.C.. Se subdivide em:

- M. R. I. (1.580 - 1.450 a.C.) Apogeu da civilização minóica; Creta utilizava a escritura Linear A

(ainda não decifrada). Se estabelece em Micenas um feudalismo guerreiro que mantém numerosas relações com Creta.

- M. R. II. (1.450 - 1.400 a.C.) Os aqueus se apoderam de Cnossos, introduzindo o Linear B.

- M. R. III., ou período chamado micênico (1.400 - 1.150 a.C.). Depois da destruição do palácio de

Cnossos (1.400 aproximadamente), Micenas toma o relevo de Creta até as invasões dóricas (por volta de

1.150).” 234

Conforme ainda o ATLAS DA HISTÓRIA DO MUNDO (1995) 235 é recorrente a distinção contemporaneamente adotada entre duas antigas civilizações gregas ou, no contexto dessa dissertação, as duas sub-raças.

A primeira e mais antiga floresceu por volta de 2.000 a.C. na ilha de Creta e é conhecida como Minóica, já que tomou o seu nome do lendário Rei Minos. A partir dos levantamentos no sítio arqueológico constatou-se que as cidadelas de Cnossos, Mallia, Festo e Zakro, foram reconstruídos várias vezes provavelmente devido aos sucessivos terremotos que atingiram a ilha. Essa é a fase insular dessa cultura mediterrânea.

A segunda civilização amplia sua magnitude por volta de 1.600 a.C. e é conhecida como Micênica pois toma o seu nome da cidadela de Micenas. Seus territórios situavam-se na península do Peloponeso onde floresceram suas principais cidadelas: Micenas, Tirinto, Argos, Dendra e Korakou. Todas essas cidadelas eram fortificadas, pois foram sociedades voltadas para a guerra. Trata-se da fase continental dessa mesma civilização.

Ao que tudo indica as primeiras ocupações da ilha de Creta ocorreram durante o período Neolítico. Conforme DURANT (1966):

“Evans calculou que a Idade Neolítica em Creta tenha durado pelo menos 4.500 anos antes de começar

a era dos metais - aproximadamente de 8.000 até 3.400.” 236

Arthur Evans, o legendário descobridor do também legendário palácio de Cnossos, verificou a existência de vários estratos arqueológicos distribuídos ao longo de 15 m. de profundidade. Curiosamente, nada do que foi encontrado se referia ao período Paleolítico, contudo muito do que havia sido descoberto pertencia já ao período Neolítico. Aparentemente até hoje persiste um hiato de registros arqueológicos que corresponde exatamente ao período Mesolítico naquela ilha.

A técnica utilizada por seu descobridor para proceder às datações constituía-se de um método heterodoxo e foi largamente criticado na época. Consistia em comparar os restos neolíticos lá encontrados - cerâmica feita à mão com desenhos bastante simplificados, rocas de fiar, ídolos de argila e instrumentos e armas de pedra polida - com outros achados das culturas circunvizinhas. Além dessa estratégia, diante de um grande número de peças encontradas e que eram provenientes do Egito, civilização com a qual Creta mantinha estreitos laços comerciais, muitas datações foram possíveis já que existiam registros precisos sobre as produções artesanais das antigas dinastias egípcias. Surpreendentemente, foi a partir desse método que Evans pode também comprovar que a civilização minóica havia influenciado grandemente toda a porção continental grega. COTTRELL (1992) sugere do mesmo modo a influente expansão dessa cultura:

“Porque à medida que avançavam os trabalhos de investigação, os arqueólogos comprovaram que esta

civilização, que segundo Evans teria tido a sua origem em Creta, havia se estendido a outras ilhas do Egeu e inclusive mais longe, para as costas da ilha de Chipre e da Ásia Menor, e em direção norte até o continente da Grécia. Em todas essas regiões as cerâmicas encontradas eram similares, ainda que não

idênticas às achadas em Creta.” 237

Assim, a real influência dessa civilização parece ter sido maior do que os restos neolíticos são capazes de demonstrar. A mais contundente prova de sua importância e potência naquele cenário mediterrâneo encontra- se expressa nas palavras de DURANT (1966), que resvalam no caráter mítico atribuído àqueles tempos:

234

Historia de las Religiones - Las Religiones Antíguas. II - Volume 2, op. cit., pg. 206.

235 Fonte das informações: Atlas da História do Mundo, op. cit., pg. 66. 236

A História da Civilização - Tomo II - Nossa Herança Clássica, op. cit., pg. 6.

237

“ „Há uma terra de nome Creta, no meio do mar sombrio - terra formosa, rica e rodeada de águas, com inumeráveis gentes e noventa cidades.‟ Quando Homero cantou estas linhas, talvez no século IX a.C., a

Grécia já havia esquecido que a ilha, cujas riquezas ainda impressionavam o poeta, tinham sido muito mais opulenta tempos atrás; que ela havia dominado o Egeu com uma poderosa esquadra e também parte do continente; e que lá se havia desenvolvido, mil anos antes do cerco de Tróia, uma das mais artísticas civilizações do mundo. Provavelmente é essa cultura egéia - tão antiga para ele como o é para nós - que Homero relembra quando fala da Idade do Ouro, na qual os homens haviam sido mais

civilizados e a vida mais requintada do que nos tempos de desordem em que ele vivia.” 238

Com esse texto situado entre a realidade e a lenda, Will Durant inicia a sua apresentação da Ilha de Creta, seu rei Minos e o que ele identifica como a primeira organização do evento civilizatório europeu, e assim, ocidental. Ali, quando se inicia a Idade do Bronze, calorosas discussões no meio arqueológico se debruçam sobre a ordem de precedência das civilizações que envolviam o Mar Mediterrâneo.

Esse problema central é colocado em Creta por duas razões. Primeiramente porque Creta constitui-se como que o ponto focal do nascimento da civilização ocidental no âmbito da história antiga. Em segundo lugar porque causa espanto a ausência de restos paleolíticos e mesolíticos na ilha, o que torna quase impossível a tarefa de explicar a procedência daquela avançada civilização. É por essas duas razões que os debates se estendem nessa esfera do conhecimento na tentativa de demonstrar que tal civilização precedeu aquela em determinado invento, a qual, por sua vez, emprestou determinado conteúdo àquela outra, e assim, indefinidamente.

Contudo essas discussões se mostram tão infrutíferas quanto inócuas dado o quadro dispersivo das aldeias mesolíticas e da grande mobilidade dos grupos nômades que então circulavam por todas as regiões do Mediterrâneo, motivados, na maioria das vezes, pelas fáceis aquisições provenientes dos constantes saques e roubos. Outra abordagem não muito digna desses constantes movimentos é descrita por PESCHANSKI (1993), que cita Tucídides quando esse lembra dos antigos hábitos que aproximavam a índole grega dos povos ditos bárbaros: a pirataria:

“ „Os gregos de outrora (to palai) assim como os bárbaros instalados na orla do continente ou nas ilhas

... dedicavam-se à pirataria ... Exerciam a rapina e tiravam daí o principal de sua subsistência.‟ A pirataria é acompanhada do hábito de portar armas constantemente e nisso também os gregos não diferenciavam dos bárbaros. Dois traços que, assim como sugere Tucídides, remetem a uma semelhança

de costumes bem mais vasta.‟ ” 239

Outra perspectiva, mais generosa e equilibrada e que parece ser perseguida pela grande maioria dos pesquisadores, advoga a troca dessa visão menos inflamada e parcial por outra mais ampla, segundo a qual todos os elementos existentes contribuíram em graus diferentes para as expressões culturais e civilizatórias. Nessa perspectiva é possível estabelecer com maior clareza a perspectiva segunda a qual se dá a gênese da matriz civilizatória ocidental como um todo e sem que se atribua valores excessivos a determinados povos. É DURANT (1966) quem continua a apresentação dessa importante civilização demonstrando muito mais sensatez e clareza do que os especialistas de então:

“Não o seguiremos [Durant refere-se às argumentações da precedência dos elementos e matrizes civilizatórias de Creta que tanto poderiam ter como berço a Ásia ou o Egito] , pois não nos levaria, em

nossa busca da continuidade da civilização, a encontrar a individualidade dos pares. A superioridade cretense é indiscutível; nenhum outro povo da antigüidade a ele rivalizou-se no sabor do minucioso requinte, nessa concentrada elegância de vida e de arte. Acreditamos antes que, em suas origens raciais, a cultura cretense foi asiática, e foram egípcias muitas de suas artes; na essência e conjunto ela permanece única. Talvez pertencesse a um complexo de civilização comum a todo o Mediterrâneo Oriental. Neste caso cada nação herdava, duma mesma cultura neolítica inicial, artes, crenças e costumes afins. Em sua mocidade Creta foi encaminhada por essa civilização comum; na maturidade para ela muito contribuiu. Seu governo impôs ordem às ilhas e seus mercadores tinham entrada em todos

238

A História da Civilização - Tomo II - Nossa Herança Clássica, op. cit., pg. 4.

239

os portos. Foi então que sua cerâmica e suas artes ultrapassaram as Cíclades, transpuseram o Chipre, chegaram à Cária e à Palestina, rumaram ao norte, através da Ásia Menor e suas ilhas, até Tróia, ao oeste, e alcançaram a Espanha através da Itália e da Sicília, penetraram no continente grego, até mesmo na Tessália, e transformaram-se, por intermédio de Micenas e Tirinto, na herança da Grécia. Na história da

civilização, Creta foi o primeiro elo da cadeia européia.” 240

Conforme se lê, tão logo a civilização cretense floresce e coloca ordem às ilhas, as suas manufaturas sofisticam-se inigualavelmente e passam a ser apreciados por outros povos. A comprovação cabal desse fato recai nos levantamentos arqueológicos realizados por Evans durante o seu esforço de datação dessa cultura, que os encontram dispersos por quase todo o Mediterrâneo atestando a sua grande significação e apreço entre os povos circunvizinhos. DURANT (1966) descreve assim essa cerâmica:

“Na cerâmica os cretenses experimentara muitas formas e

destacaram-se em quase todas. Fabricavam vasos, pratos, taças, cálices, lâmpadas, jarras, animais e deuses. A princípio, no Primeiro Período Minoano, contentam-se em dar forma aos vasos com as mãos, de acordo com a tradição herdada da Era Neolítica, em pintá-los com esmalte marrom ou preto e em deixar que o fogo dê às tintas uma matriz causal. Mas no Período Minoano Médio aprendem a servir-se do torno e alcançam o apogeu da técnica. Fabricam um esmalte semelhante na consistência e na delicadeza à porcelana; empregam o preto e o marrom, a branco e o vermelho, o

alaranjado e o amarelo, o escarlate e o vermelhão, e sabem misturá-los de modo feliz, obtendo novas tonalidades; manejam o barro com tão confiante habilidade que em seu mais perfeito produto - a

graciosa louça „casca de ovo‟, vivamente colorida, encontrada na caverna de Kamares, nas encostas do

Monte Ida - ousam afinar-lhes as paredes até a insignificante espessura de um milímetro, ornando-as com grande riqueza de imaginação. O apogeu do oleiro cretense durou de 2.100 a 1.950; seus produtos são assinados e procurados por todo o Mediterrâneo. No Último Período Minoano desenvolveu-se inteiramente a técnica da faiança, e surgem placas decorativas, vasos de azul-turquesa, deusas policromas e relevos marinhos tão realísticos que Evans chegou a tomar um caranguejo de esmalte por

um fóssil.” 241

As figuras 50 242 e 51 243 acima, e figura 52 244, à frente, mostram respectivamente as qualidades artesanais

240

A História da Civilização - Tomo II - Nossa Herança Clássica, op. cit., pgs. 16 e 17.

241 História da Civilização - Tomo II - Nossa Herança Clássica, op. cit., pg. 13. Talvez Durant não soubesse que Evans era bastante

míope e assim talvez tivesse contido o seu entusiasmo para com o destemido arqueólogo. “É certo que era baixo de estatura e míope e que, em Harrow nunca se interessou por jogos, ...” El Toro de Minos, op. cit., pg. 123.

242 Legenda da figura 50: “De Hágia Tríade vieram três vasos em esteatita negra, decorados em relevo, que se colocam entre as

melhores realizações da arte minóica; são datados entre 1.700 e 1.450 a.C., estão agora no Museu Arqueológico de Iráklion. O denominado „Vaso dos Ceifeiros‟, ... representa provavelmente uma rústica procissão em ocasião da semana outonal: os camponeses, que caminham levando sobre os ombros seus instrumentos do seu precioso trabalho, são conduzidos por um sacerdote e por um grupo de cantores cuja melodia è ritmada por um instrumento análogo ao sistro egípcio [instrumento de percussão]. Dessa multidão compacta e ordenada, levantam-se duas pessoas: o sacerdote, mais alto que os outros e com os chapéus longos, que, sabedores da própria importância, sorriem, e o chefe do coro, que marca o tempo e canta com voz em spiccato. A parte inferior do vaso, que tem a altura de 13 cm., foi perdida, pelo que resulta a aparência do corte na altura das pernas.” I Palazzi di Creta, op. cit., figura: pg. 70; texto: pg. 71.

243

Legenda da figura 51: O maior dos vasos é o rhytón [vaso sacrificial], com a altura de 47 cm., historiado com cenas de pugilismo e da taurocathapsía distribuídas sobre as quatro faixas superpostas.” Fonte da texto: I Palazzi di Creta, op. cit., pg. 71.

244 Legenda da figura 52: “Rhytón, em esteatita negra, em forma de cabeça de touro, encontrado no Pequeno Palácio de Cnossos e

conservado no Museu Arqueológico e Iráklion. O rhytón, recipiente usado nas libações sacras durante as cerimônias religiosas em louvor aos deuses, possui uma fissura da qual saem o líquido sacrificial, geralmente óleo ou vinho. Os dois grandes cornos que coroam a imponente cabeça foram reconstituídos: provavelmente eram de madeira pintada e funcionavam como asas. Dos olhos

Figura 50

daquele povo. A primeira trata-se de um vaso de esteatita negra e ilustra provavelmente uma procissão. A segunda trata-se de um rhytón, ou vaso sacrificial, esculpido no mesmo material. Suas qualidades artísticas assim como o perfeito acabamento técnico são indiscutíveis. Tamanho talento não poderia florescer em quaisquer condições.

É exatamente pela qualidade expressa desses e outros achados que

essa civilização ganha o status do “primeiro elo da cadeia

européia”. Diferentemente de outras culturas, os achados cretenses

revelam uma superioridade ainda não encontrada entre outros povos ocidentais. Se entre os outros povos as hierofanias se expressavam cruamente e sem requinte, o mesmo não ocorre em Creta. Para além de seu sentido sagrado as hierofanias ganham um tratamento diferenciado e sofisticado. Os seus símbolos são representados

segundo uma outra ordem de necessidades que não se atêm apenas à sua significação mítica ou religiosa. Ultrapassam em muito a mera reprodução de uma idéia e encontram outra significação que vai de encontro à beleza.

Tudo leva a crer que, por sua condição insular, Creta esteve naturalmente protegida contra os constantes ataques que ocorriam nas porções continentais gregas. Decorrente dessa condição havia mais tempo disponível para a confecção daqueles objetos, já que as competências técnicas podiam cuidar exclusivamente dos artefatos que não fossem destinados à guerra. Nesse caso tudo podia ser devidamente proporcionado e bem-acabado. Assim, a finalidade última dos objetos cretenses parece ser outra diferente daquelas culturas originárias; subentende-se neles algo de contemplativo ou outro prazer que ainda não havia encontrado o seu lugar na história ocidental.

É nessa perspectiva que sua abordagem ganha significação no contexto dessa dissertação. Pode-se perceber claramente pelas descrições daqueles restos arqueológicos, uma discreta, leve e vivaz sofisticação, expressa não só em seus palácios, mas também em seus produtos manufaturados. Paira no ar uma sofisticação inexistente ou jamais encontrada em qualquer outra cultura circunvizinha. Para além dos atributos funcionais dos objetos ou construções, para além de seu valor simbólico, a concepção cretense da vida ultrapassa em muito a mera sobrevivência de outros povos contemporâneos. A partir de sua produção manufatureira vê-se claramente outra dimensão da vida, muito mais afeita às benesses e à sofisticação do que qualquer outra cultura de então. Sequer a grandiloqüência e a imobilidade egípcias alcançaram tamanha precisão e requinte em suas artes ou manufaturas ou se as alcançaram o resultado era restrito apenas à uma casta sacerdotal. É certo que o desenvolvimento das artes cretenses, foi, inumeráveis vezes, influenciada pelos egípcios já que, conforme atesta o ATLAS DA HISTORIA DO MUNDO (1995), as trocas entre Creta e o Egito eram intensas:

“Esse foi um período de comércio próspero [o texto refere-se ao período palaciano, algo que se estende dos 2.000 a.C. a 1.500 a.C.]. Vasos de pedra egípcios, sinetes em forma de escaravelho e peças de marfim

lavrado chegaram à Creta e lá foram imitados. Peças de cerâmica de Creta finamente decoradas foram levadas ao Egito. Algumas foram recuperadas da cidade de Kahum, erguida para abrigar operários empenhados na construção de uma pirâmide para o faraó Senworset II (c. 1.906 - 1.888 a.C.), da 12 a Dinastia. Creta pode ter importado linho egípcio, trocando-o por madeira e tecidos de lã de desenhos coloridos, como retratado em representações das roupas usadas pelos cretenses. Já a pintura dos tetos de túmulos egípcios da 12a Dinastia em diante reflete a influência dos tecidos importados por Creta.” 245

Nesse cenário de constantes trocas, seria esperado que as influências artísticas se misturassem indistintamente e, como resultado, todas as manufaturas encontrariam um certo equilíbrio estético comum. Contudo o sentido autóctone da ilha parece ter prevalecido. Assim, à revelia dessas intensas e constantes suspeita-se, em cristal de rocha ou madrepérola, expressam um sentido de potência e grandiosidade. O touro, animal sacro

relacionado com o mito do Minotauro e símbolo do princípio fecundante, aparece freqüentemente na arte cretense.” I Palazzi di Creta, op. cit.; figura: pg. 54; texto: pg. 55.