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BÖLÜM 2. KENTSEL SİSTEMLER / ŞEHİRSEL AĞ

2.2 Kentsel Sistem, Şehirsel Ağ ve Kentler Sistemi (urban system city-systems /

2.2.2 Ağ Kuramı

A Domesticação do Próprio Homem / A Grande-Mãe / A Dialética das Hierofanias / O Lugar Sagrado: o

Topos / A Esfera Celeste Sagrada: O Ouranos / A Ausência das Hierofanias Animais: o Zôon / As

Hierofanias das Árvores ou Phytón / As Hierofanias Aquáticas e o Inapreensível Posídon / O Período Mesolítico Como um Momento de Atualização da Esfera Mítica.

Nessa perspectiva da construção do significado e ordenação do mundo a partir dessa esfera metafísica, as hierofanias, apesar de não constituírem-se segundo registros materiais seguros, operam como que a ponte entre o período antecedente, o Paleolítico, e o período posterior, o Neolítico. Sem o preenchimento dessa lacuna como poderia ter ocorrido a transição de um período nômade por excelência a outro onde as primeiras fazendas se organizam? De outro modo: como aqueles homens subitamente ascendem de uma forma de associação dispersa a outra mais complexa e mais ordenada?

Eis a perspectiva aberta pelas antigas hierofanias do período Mesolítico. Se o homem mesolítico possuía todos os elementos necessários à sua permanência nas cidades, lá, vindouras ainda pelo Neolítico, faltava- lhes ainda as condições organizacionais suficientes e necessárias presentes somente na expressão das incipientes formas de organização míticas, ou as hierofanias. MUNFORD (1986), ao referir-se ao mesmo

período indica que paralelamente à domesticação dos animais ocorreu a “domesticação do próprio

homem”.124

123

Historia de las Religiones - Volume 2 - Las Religiones Antiguas Vol. II, op. cit., pgs. 213 e 214.

124“Esse processo de colonização, domesticação, regularidade alimentar, veio introduzir uma segunda fase, possivelmente há dez

ou doze mil anos. Com ele, iniciou-se a reunião sistemática e o plantio de sementes de certas gramíneas, a domesticação de outras plantas dotadas de sementes, como as abóboras e os feijões, e a utilização de animais em rebanhos, o boi, o carneiro, e, afinal, o jumento e o cavalo. Graças a uma ou outra dessas criaturas, os alimentos, a capacidade de tração e a mobilidade coletiva foram aumentados. Com toda probabilidade, nenhuma fase dessa revolução agrícola poderia ter ocorrido entre nômades crônicos: ela exigia algo como a ocupação permanente de uma área, prolongada por um período suficiente para se seguir todo o ciclo de desenvolvimento, induzindo os povos primitivos a ter a primeira visão dos processos naturais e a reproduzi-los mais

sistematicamente, em todos esses acontecimentos, o mais importante talvez tenha sido a domesticação do próprio homem, que constitui em si mesma uma prova de crescente interesse pela sexualidade e reprodução.” A Cidade na História - Suas Origens,

O interesse pela “domesticação do próprio homem” propiciado pela permanência numa certa região

encontra-se em perfeita sintonia com outros achados arqueológicos: as estatuetas que representam a Grande- Mãe. Ali naquela temporalidade essas estatuetas significam um nível de representação que denunciam a existência de ritos, ou praxis metodicamente elaboradas que se não autorizam a dizer de uma religião ordenada, conforme se entende na atualidade, ao menos indicam algum nível de relação com o mundo que já não é somente o natural, mas que se encontra permeado por relações às quais se deve proceder de modo a obter objetivamente algo: uma boa colheita por exemplo. Significa ainda que determinados preceitos deveriam ser seguidos o que implica necessariamente numa conduta a ser apreendida e exercida em conformidade com aqueles rituais encerrando assim um aprendizado ou uma educação. Assim como se pode supor, a primeira educação daqueles homens esteve sob a tutela ou ordenação dessas divindades originais e dos seus rituais.

Na temporalidade fronteiriça entre o Mesolítico e o Neolítico, é então possível passar de um estatuto de prova material a outro tipo: da materialidade circular do espaço construído emerge a materialidade dos ídolos manufaturados. São as inúmeras estatuetas de pedra, terracota 125 ou faiança,126 encontradas principalmente nas tumbas, denominadas Grandes-Mães, Deusa-Mãe, Terra-Mãe, ou simplesmente Mães, representantes das divindades telúricas. Essas divindades significam a reificação de crenças e rituais que organizam a fecundidade e a fertilidade de então, são símbolos dos quais se depreendem certas ordens específicas, certos ritos definidos. Como forma primeira de relacionarem-se com o mundo esses símbolos evidenciam os primórdios dos futuros hábitos e costumes, ou das regularidades do mundo dos homens.

As figuras 24 127, 25 128, 26 129 e 27 130 na próxima página, mostram quatro versões dessas estatuetas que representam esses mitos femininos. As duas primeiras são provenientes de Çatal Hüyük e as outras duas provenientes do período Neolítico da ilha de Creta e representam a Deusa da Serpente cretense, ou uma evolução ctônica da Deusa-Mãe ou Grande Mãe.

Conforme ELIADE (1993), e de uma maneira geral, todas essas Mães possuem uma origem comum nas cosmogonias que é a Terra. Ao referir-se especificamente às hierofanias gregas o autor expõe que:

“O par divino Céu-Terra, que Hesíodo tinha evocado, é um dos motivos de fundo da mitologia universal.

Em muitas mitologias em que o Céu desempenhou o papel de divindade suprema, a Terra é representada como a sua companheira e, como já vimos, na vida religiosa primitiva encontra-se o Céu por toda a

parte.” 131

Posteriormente e, em quase todas as culturas, esse casamento original é desfeito pelos filhos, que conspiram contra o pai e usurpam o seu poder. Nesse enredo, o casal cósmico encontrará destinos distintos entre as hierofanias. A Terra, por sua capacidade de ser geradora e de frutificar, compreenderá o princípio Transformações e Perspectivas, op. cit., pgs. 17 e 18.

125 “Terracota. Argila manufaturada e cozida ao forno mas em revestimento vítreo.” Dicionário de Belas Artes - Termos Técnicos e

Afins, op. cit., pg. 482.

126“Faiança. Antiga e preciosa maiólica italiana originária da cidade de Faenza. Posteriormente assim foram chamados todos os

produtos de pasta porosa e corada, recobertos com esmalte opaco, estanífero, sobre o qual, ainda cru, é feita uma decoração.” Dicionário de Belas Artes - Termos Técnicos e Afins, op. cit., pg. 231.

127 Legenda da figura 24: “Pequenas estatuetas femininas de terracota, com ênfase nas características sexuais, são produtos típicos

dos primitivos vilarejos agrícolas. Esta pequena estatueta de culto, com 16,5 cm de altura, foi achada em Çatal Hüyük, Turquia.” Atlas da História do Mundo, op. cit., pg. 40.

128

A figura 25 mostra uma estatueta de argila cozida encontrada em Çatal Hüyük e datada na primeira metade do sexto milênio a.C.. Trata-se de uma deusa sentada à semelhança das hierofanias da Grande mãe. Fonte da figura e informações: Museu das Civilizações Anatólias de Istambul, Turquia, cartão postal.

129 Legenda da figura 26: “A arte minóica não conhece a escultura monumental, mas excelência como nessa estatueta em cerâmica

esmaltada. A deusa da Serpente, do Museu de Iraklion, altura 29,5 cm, é uma hipóstase da Deusa-Mãe, protetora da fecundidade e da maternidade. O felídeo posicionada sobre sua cabeça indica que essa é a senhora das feras; as serpentes revelam que o seu poder se estende ao mundo subterrâneo.” I Palazzi di Creta, op. cit., pg. 51.

130 Legenda da figura 27: “Os ídolos cretenses, que surgem durante o Neolítico, são de um tipo particular. Portam uma veste em

forma de cônica que deixa os seios descobertos; os braços ao invés de estarem cruzados sob os seios, estão levantados em gest o de adoração. Sem dúvida se tratam de ex-votos representando os adoradores; contudo, contrariamente ao que se observa no restante do Egeu, aparecem mais freqüentemente nos santuários do que nos cemitérios.” Figura retirada de El Toro de Minos, op. cit., lâmina 20. Texto retirado de: Historia de las Religiones - Las Religiones Antiguas Vol. II, op. cit., pg. 208.

131

feminino.132 Já o princípio masculino do pai é sempre mais abstrato. No cenário grego a figura central paterna e masculina é a de Zeus.133

É por essas delicadas considerações ou sutis acepções acerca dos homens e das coisas que as hierofanias vão-se construindo e, ao serem organizadas, estendem-se virtualmente sobre as relações com o mundo e sobre o seu entendimento. O mundo passa então a ser coberto de sentidos os mais diversos assim como, simultaneamente,

preenchido de sentidos

cada vez mais

contextualizados.

Nessa mesma perspectiva valorativa dos seres surgem suas relações

imiscuídas no diáfano véu divino. São as primeiras cadeias ordenadoras do mundo, as primeiras normatividades.

Posteriormente, e nessa mesma perspectiva das hierofanias, as cosmogonias vão construindo suas histórias e elegendo os seus deuses, seus mitos e suas ações exemplares, desdobrando-se em significados cada vez mais complexos, tecendo a teia dos rituais entrecortados por normas, interditos, prescrições, sanções, enfim, por todos os padrões comportamentais regulados e preestabelecidos.

É uma primeira forma articulada de estruturação não só do comportamento individual como também do entendimento de si próprio. No caso especificamente grego, a mitologia, comporta por sua estruturação endógena, um logos, uma fração de racionalidade que a tudo penetra e que se estende desde a poesia épica, a tragédia e a comédia. Penetram igualmente na música, arquitetura e outras formas de arte. Desdobra-se desde os antigos deuses-lares à agricultura, ultrapassa os limites da aldeia na direção da construção da idéia das cidades-estados, enfim, encantoa-se em qualquer espectro da organização social grega. Além de prescreverem as ações, atitudes, rituais, celebrações, organizam tudo aquilo que é inexplicável, dando-lhe forma e conteúdo. Assim constrói-se um sistema explicativo para tudo o que se coloca no âmbito da esfera humana assim como tudo aquilo que lhe é alheio.

132

Conforme ELIADE: “Uma das primeiras teofanias da Terra, enquanto tal, enquanto sobretudo camada telúrica e profundidade

ctônica, foi a „maternidade‟, a sua inesgotável capacidade de dar frutos. Antes de ser considerada Deusa-Mãe, divindade da

fertilidade, a Terra impôs-se diretamente como Mãe, Tellus Mater. A evolução posterior dos cultos agrícolas, esclarecendo com precisão cada vez mais acentuada a figura de uma Grande Deusa da vegetação e da colheita, acabou por apagar os traços da Terra-Mãe. Na Grécia, Démeter substituiu Gê. No entanto, restos do culto antiquíssimo da Terra-Mãe transparecem nos

documentos arcaicos e etnográficos.” Tratado de História das Religiões, op. cit., pg. 199.

133

Eis como ELIADE (1993) situa a figura paterna ou masculina: “O pai não é o pai dos seus filhos senão no sentido biológico do termo. Os homens não estão ligados entre si senão pelas mães, e mesmo assim essa ligação é precária. Mas os homens estão ligados ao meio cósmico envolvente de maneira infinitamente mais estreita do que o possa supor uma mentalidade moderna, profana. Eles

são, no sentido concreto e não no sentido alegórico da palavra, „gente da terra‟.” Tratado de História das Religiões, op. cit., pg.

197.

Figura 24 Figura 25

Conforme o exposto anteriormente, as hierofanias são manifestações do sagrado. Contudo elas ocorrem segundo uma relação dialética 134 a partir da qual o objeto hierofânico é especificado em oposição aos objetos mundanos. Essa relação dialética que perpassa todas as hierofanias é de fundamental importância, pois elas estruturarão os espaços construídos desse período segundo pares de opostos co-ordenadores do todo construído.

Assim é que o antigo sentido de mundo, diferentemente daqueles Australopitecíneos e dos homens de Neanderthal e do Cro-Magnon, vai sendo lentamente estruturado, possibilitando os desdobramentos da antiga coercitividade instintiva. Esse movimento deve-se, conforme o já exposto, pela lenta hipertrofia do cérebro, pela intuição das regularidades cada vez mais aguçada e, sobretudo, pela possibilidade de permanência relativamente morna e confortável aberta pela elevação climática do globo.

Por mais estranho que possa parecer ao homem moderno, tudo, absolutamente tudo, já esteve em conformidade com alguma hierofania, tudo já esteve regrado originalmente pelo espectro do divino, do que transcende, do que se coloca para além do mundo imediato. ELIADE (1993), afirma que:

“... é certo que tudo quanto o homem manejou, sentiu, encontrou ou amou pode tornar-se uma

hierofania. Sabemos, por exemplo, que no seu conjunto os gestos, as danças, as brincadeiras de criança, os brinquedos têm uma origem religiosa: foram no tempo, gestos ou objetos cultuais. Sabemos, do mesmo modo, que os instrumentos de música, a arquitetura, os meios de transporte (animais, [135] carros,

barcos, etc.) começaram por ser objetos ou atividades sagradas, podemos pensar que não existe nenhuma animal ou planta importante que não tenha participado da sacralidade no decurso da história. Sabemos da mesma maneira que todos os ofícios, artes, indústrias, técnicas têm origem sagrada ou se revestiram, no curso dos tempos, de valores cultuais. Esta lista poderia continuar com os gestos cotidianos (o levantar-se depois da noite dormida, o caminhar, o correr), pelos diferentes trabalhos (caça, pesca, agricultura), por todos os atos fisiológicos (alimentação, vida sexual), provavelmente também pelas palavras essenciais da língua, e assim por diante.” 136

O historiador Will Durant vai mais longe e estende as primeiras hierofanias às ciências e as artes.

“Na opinião de Herbert Spencer, ... a ciência, como as letras, teve início com os sacerdotes; organizou-

se como observação astronômica, como economia dos festivais religiosos, e foi preservada nos templos e transmitida através das gerações como parte da herança sacerdotal. Não podemos afirmar que fosse assim; podemos apenas supor. Talvez a ciência, do mesmo modo que a civilização em geral, começasse com a agricultura; a geometria, como o nome está indicando, era a medição do solo; e o cálculo das colheitas e estações impunha a observação das estrelas e a organização de um calendário - o que pode ter gerado a astronomia. A navegação fez progredir a astronomia, o tráfico desenvolveu a matemática e

as artes industriais lançaram os alicerces da física e da química.” 137

Assim é que essa fundamental estabilidade climática propiciou a permanência em um mesmo lugar, sob o mesmo céu, ouranos, pela criação dos mesmos animais, zôon, pelo cultivo das mesmas plantas, phytón, pela navegação nos mesmos oceanos, okeanós. O sentido de permanência ganha relevância já que a estadia prolongada numa mesma região possibilita diferentes níveis de experiência num espaço de tempo contínuo

134

Eis como ELIADE (1993) situa a dialética hierofânica: “A dialética da hierofania pressupõe uma escolha uma escolha mais ou

menos manifesta, em que incorpora (isto é, revela) algo para além de si mesmo. Por ora não interessa muito que este „algo para além‟ se deva muito simplesmente à sua forma singular, à sua eficiência ou à sua „força‟ - ou que se deduza a partir da „participação‟ do objeto em qualquer simbolismo, que seja atribuído por um rito de consagração ou adquirido pela inserção,

voluntária ou involuntária, do objeto numa região saturada de sacralidade (uma zona sagrada, um tempo sagrado, um „acidente‟ qualquer - a queda de um raio, um crime, um sacrilégio, etc.). O que acabamos de pôr em evidência é que uma hierofania pressupõe uma escolha, uma nítida separação do objeto hierofânico relativamente ao mundo restante que o rodeia. Este mundo restante existe

sempre, até por exemplo, o Céu, ou o conjunto do „ambiente‟ familiar, ou assume a „pátria‟. Em qualquer caso, a separação do

objeto hierofânico faz-se pelo menos perante ele mesmo, pois só se torna uma hierofania no momento em que deixou de ser um

simples objeto profano, em que adquiriu uma nova dimensão: a da sacralidade.” Tratado de História das Religiões, op. cit., pgs. 19

e 20.

135 Apenas a título de curiosidade: “O cão, que, como o homem, deve ter-se ressentido com o desaparecimento das suas presas, é o

primeiro animal doméstico do Mesolítico.” Atlas da História Antiga, op. cit., nota no

03, pg. 22.

136

Tratado de História das Religiões, op. cit., pg. 18.

137

ou ininterrupto. Essa permanência no tempo é necessária para que cada elemento colhido seja comparado a outro, seja equiparado ou diferenciado de outros. Essa mesma permanência numa região geograficamente definida propicia o acúmulo e a aquisição de conhecimentos empíricos,138 de observações colhidas ou apreendidas sobre o lugar, seus seres e suas inter-relações.

Não se trata aqui da construção do empirismo 139 no sentido moderno do termo, mas sim da abertura do mundo à ordenação pelo mito. Funda-se a partir da permanência numa mesma região um novo olhar sobre o mundo que é transposto à esfera do das hierofanias. O mundo se abre à perspectiva mítica, o mundo se ordena pelo que é transcendental.

O mundo transfigura-se por esse novo olhar. O topos, o lugar passa a ter significações como jamais havia sido possível. Como quer ELIADE (1993):

“Toda cratofania e toda a hierofania, sem distinção alguma, transfigura o lugar que lhes serviu de

teatro: de espaço profano que era até então, tal lugar ascende à categoria de espaço sagrado. Assim,

para os canaques da Nova Caledônia, „no mato, grandes quantidades de rochedos, de pedras furadas

têm um sentido particular: tal concavidade é propícia à chuva, outra é habitat [140] de um totem; certo

lugar é freqüentado pelo espírito de um homem assassinado. Toda a paisagem está, desse modo, animada, os seus mais pequenos detalhes têm uma significação, a natureza está carregada de história

humana‟. Dir-se-ia mais exatamente que, devido às cratofanias e às hierofanias, a natureza sofre uma transfiguração de que sai carregada de mito.” 141

O autor prossegue argumentando para a eleição desse lugar sagrado acorrem as justaposições de heróis mitológicos, plantas, animais, pedras, etc. Assim, aos lugares sagrados sempre se associam seres e significados os mais variados. Nesses lugares habitam esses seres imaginários, povoando a imaginação e os sentidos mais profundos da vida de modo que, eqüivale à periodicidade das visitas a transformação dos ritos, ou a sua atualização suprassumida, o que implica numa igual transformação do conhecimento da própria alma.

Eis a função dos rituais: transformar e transformar-se de modo a obter algo, apreender algo, explicar algo, dirimir uma angústia. Os lugares sagrados são eleitos e concebidos de modo que a sua eficácia seja mantida e preservada por determinados procedimentos ritualísticos. Conforme mais uma vez ELIADE (1993), a feição desses lugares sagrados é concebida de modo a distinguir a localidade imantada por seu próprio caráter sacro assegurando que as experiências originais sejam ali repetidas.

“De fato, a noção de espaço sagrado implica a idéia da repetição da hierofania primordial que

consagrou este espaço transfigurando-o, singularizando-o, em resumo, isolando-o do espaço profano à

sua volta.” 142

Mais do que isso, os muros externos que circundavam os lugares sagrados denunciam o perigo que tais rituais encerram. Conforme ELIADE (1993):

“O muro ou o círculo de pedras que encerram o espaço sagrado contam-se entre as mais antigas

estruturas arquitetônicas conhecidas no domínio dos santuários. Aparecem já nas civilizações proto-

138 “Empírico. „baseado apenas na experiência e não no estudo‟. Do gr. empeirikós.” Do termo original grego, funda-se uma escola,

que no campo da Teoria do Conhecimento é conhecida como Empirismo. Dicionário Etimológico Nova Fronteira, op. cit., pg. 293. Complementando: “Empírico. [Do gr. empeirikós.] 2. Baseado apenas na experiência e, pois, sem caráter científico. 3. Diz-se de conhecimento que provém, sob perspectivas diversas, da experiência.” Novo Dicionário da Língua Portuguesa, op. cit., pg. 514. Ver na próxima nota uma definição de empirismo.

139 “Empirismo. Hist. Filos. Doutrina ou atitude que admita, quanto à origem do conhecimento, que este provenha unicamente da

experiência, seja negando a existência de princípios puramente racionais, seja negando que tais princípios, existentes embora, possam, independentemente da experiência, levar ao conhecimento da verdade.” Novo Dicionário da Língua Portuguesa, op. cit., pg. 514.

140 “Habitat. Eco. 1. Lugar de vida de um organismo. 2. Total de características ecológicas do lugar específico habitado por um

organismo ou população.” Novo Dicionário da Língua Portuguesa, op. cit., pg. 717.

141

Tratado de História das Religiões, op. cit., pg. 295.

142

indianas e egéias. O muro de vedação não implica e não significa apenas a presença contínua de uma cratofania ou de uma hierofania no interior do recinto; ele tem, além disso, por objetivo preservar o profano do perigo a que se exporia se ali penetrasse sem os devidos cuidados. O sagrado é sempre

perigoso para quem entra em contato com ele sem estar preparado, sem ter passado pelos „movimentos

de aproximação‟ que qualquer ato de religião requer.” 143