O artigo 45 da Constituição portuguesa de 1976, localizado no título relativo aos direitos, liberdades e garantias, consagra os direitos de reunião e de manifestação como direitos fundamentais:
Artigo 45°
(Direito de reunião e de manifestação)
1 – Os cidadãos têm o direito de reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização. 2 – A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação.
Maria Lídia de Oliveira Ramos noticia que nas discussões realizadas pela Assembleia Constituinte quando da preparação do texto da Constituição portuguesa de 1976 o problema do direito de manifestação deu azo à tomada de posições diversas. Tendo a comissão que elaborou a proposta apresentado, no capítulo sobre direitos e deveres fundamentais, uma formulação autônoma do direito de reunião e de manifestação, acabou por prevalecer outra opção, defendida por aqueles que entendiam que os dois direitos possuíam profunda afinidade, sendo o direito de manifestação apenas uma especificação do âmbito do direito de reunião317.
Prossegue a autora noticiando também que em sessão realizada em 2 de setembro de 1975, o deputado Freitas do Amaral defendeu a ideia de que “o direito de manifestação ou é uma pura modalidade do direito de reunião, ou é qualquer coisa muito próxima”. Por seu turno, o deputado Vital Moreira teria notado que “a manifestação é uma reunião qualificada”. Por último, concordando com essas considerações, o então deputado Jorge Miranda posicionou-se assegurando que, com essas propostas, o texto constitucional a respeito dos direitos de reunião e de manifestação seria substancialmente melhorado, entendendo ficar justificado especificar numa única disposição normativa a matéria relativa a esses dois direitos318.
317 RAMOS, Maria Lídia de Oliveira. O direito de manifestação. Revista de História. v.IX, p.351-391. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1989, p.359-360.
318 RAMOS, Maria Lídia de Oliveira. O direito de manifestação. Revista de História. v.IX, p.351-391. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1989, p.360.
Para Jorge Miranda, o direito de manifestação é uma reunião qualificada, não tanto pela forma, que pode se dar por meio de passeata, concentração, comício, desfile ou cortejo, mas pela sua função de expressão de ideias, crenças, opiniões, posições políticas ou sociais, permanentes ou conjunturais319.
Segundo o autor, o direito de reunião e de manifestação tem natureza de verdadeira e própria liberdade. Nesse sentido, podem ser interpretados sob três pontos de vista:
Liberdade de promoção, convocação e organização relevante sobretudo como direito de promoção e organização de manifestações; Liberdade de participação em reuniões e manifestações (liberdade positiva de reunião); Liberdade de não participação (liberdade negativa de reunião).320
Já Maria Lídia de Oliveira Ramos considera que o direito de manifestação é um direito que privilegia todas as pessoas e obedece a dois motivos essenciais:
Permitir aos indivíduos a expressão de opiniões e ideias, contribuindo para o acentuar das virtualidades da democracia; reconhecer a natureza social do homem, permitindo-lhe, em conjunto, a divulgação de suas ideias e a difusão de seus interesses.321
O direito de promover, convocar e organizar reuniões e manifestações “pode ser exercido por pessoas singulares, individualmente ou em grupo, como por pessoas coletivas ou por instituições não personalizadas”, mas o direito de decidir sobre participar ou não participar de uma reunião ou de uma manifestação é o exercício de um direito individual322. Assim entende Jorge Miranda.
Analisando os dispositivos da Constituição portuguesa sobre direito de reunião e de manifestação, António Francisco de Sousa reconhece a proteção não apenas de reuniões e manifestações previamente organizadas, mas também as reuniões e manifestações “espontâneas, imediatas, urgentes ou relâmpago”323.
Para o autor, o direito de reunião e de manifestação consiste
319 MIRANDA, Jorge. Manual de direito constitucional. t.IV. Direitos fundamentais. 2.ed. Coimbra: Limitada, 1993, p.427.
320 MIRANDA, Jorge. Manual de direito constitucional. t.IV. Direitos fundamentais. 2.ed. Coimbra: Limitada, 1993, p.427.
321 RAMOS, Maria Lídia de Oliveira. O direito de manifestação. Revista de História. v.IX, p.351-391. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1989, p.361-362.
322 MIRANDA, Jorge. Manual de direito constitucional. t.IV. Direitos fundamentais. 2.ed. Coimbra: Limitada, 1993, p.427.
323 SOUSA, António Francisco de. Reuniões e manifestações no Estado de Direito. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p.25.
[...] na faculdade que duas ou mais pessoas têm de se encontrar, de forma temporária, pacífica e sem armas, em determinado local, público ou aberto ao público, geralmente mediante convocatória prévia e com um mínimo de organização, para ouvir, debater e/ou manifestar ideias ou opiniões ou para perseguir outros interesses comuns lícitos.324
Ao traçar elementos distintivos do direito de manifestação em face do direito de reunião, António Francisco de Sousa destaca que as manifestações geralmente apresentam um caráter de reivindicação ou de pressão sobre os poderes públicos, de oposição ou de apoio político em favor de alguma medida governamental325. Além disso, as mensagens expressadas nas manifestações têm ainda o propósito de atingir a opinião pública, seja para angariar adesões, seja para repudiar apoio existente em outros setores sociais. Enquanto nas reuniões propriamente ditas as mensagens são trocadas entre os participantes, nas manifestações a mensagem é dirigida a terceiros326.
Analisando o caso português, António Francisco de Sousa informa ainda que
No Estado de Direito, a participação do cidadão no processo de formação da vontade política apresenta-se como um aspecto fundamental da realização da dignidade humana. A liberdade de reunião e de manifestação também visa combater o isolamento do particular e garantir o desenvolvimento em grupo da sua personalidade (o homem como ser eminentemente social). A integração social e a atividade conjunta com outros seres humanos constituem uma necessidade fundamental da pessoa humana, reconhecida expressamente na Constituição portuguesa.327
Na doutrina brasileira, tendo em vista que o direito à manifestação não foi expressamente previsto no texto constitucional, manifesta José Afonso da Silva,
Incluem-se no conceito de reunião as passeatas e manifestações nos logradouros públicos, as quais são ajuntamentos de pessoas que se produzem em certas circunstâncias, para exprimir uma vontade coletiva ou sentimentos comuns, como a celebração de uma festa, a comemoração de um acontecimento, a expressão de uma homenagem, de uma reivindicação ou de um protesto [...].328
324 SOUSA, António Francisco de. Reuniões e manifestações no Estado de Direito. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p.26.
325 SOUSA, António Francisco de. Reuniões e manifestações no Estado de Direito. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p.30.
326 RAMOS, Maria Lídia de Oliveira. O direito de manifestação. Revista de História. v.IX, p.351-391. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1989, p.367.
327 SOUSA, António Francisco de. Reuniões e manifestações no Estado de Direito. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p.26.
É nesse sentido também que o direito ao protesto vem sendo interpretado pelos organismos internacionais de proteção dos direitos humanos.
4.4.2 O direito ao protesto no âmbito da Organização das Nações Unidas e da