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FALANDAN FİLANA MEKTUP

Conforme observa José Eduardo Faria, a partir da distensão política ocorrida no Brasil, na década de 1980, e da abertura comercial e econômica, nos anos seguintes, o pensamento jurídico brasileiro vivenciou uma abertura epistemológica, metodológica e doutrinária, buscando em outras ciências respostas para problemas relacionados ao Direito, encontrando em outras áreas do conhecimento, como na sociologia, elementos para compreender as lutas populares, a mobilização de minorias e os movimentos sociais351.

Nesse sentido, tomando de empréstimo os estudos realizados no campo da sociologia, para o desenvolvimento deste e do próximo item do presente trabalho,

351 FARIA, José Eduardo. Prefácio. In: CAMPILONGO, Celso Fernandes. Interpretação do direito e

utilizaremos como referência especialmente as obras de Maria da Glória Gohn, destacada pesquisadora sobre movimentos sociais.

Cabe mencionar, inicialmente, que em razão da diversidade de movimentos sociais existentes, das diferenças verificadas em suas formas de organização, composição, formas de atuação pública, ideários, aspirações, propostas ou reivindicações sociais, culturais e políticas e da multiplicidade de enfoques e de teorias desenvolvidas a seu respeito, apontam-se dificuldades para caracterizar e definir com precisão o que são movimentos sociais352.

De acordo com Maria da Glória Gohn, as dificuldades para interpretar e definir o que é um movimento social na atualidade decorrem de três fatores principais, relacionados, em primeiro lugar, às mudanças nas ações coletivas da sociedade civil, quanto ao seu conteúdo, suas práticas, formas de organização e bases sociais; em segundo lugar, quanto à mudança de paradigmas de análises empreendidas pelos pesquisadores e, por último, quanto às mudanças na estrutura econômica e nas políticas estatais353.

Ademais desses componentes que dificultam a conceituação dos movimentos sociais, com base em largo estudo sobre as teorias desenvolvidas, Maria da Glória Gohn apresenta alguns elementos que os definem. No entendimento da autora,

Um movimento social é sempre expressão de uma ação coletiva e decorre de uma luta sociopolítica, econômica ou cultural. Usualmente ele tem os seguintes elementos constituintes: demandas que configuram a sua identidade; adversários e aliados; bases, lideranças e assessorias – que se organizam em articuladores e articulações e formam redes de mobilizações – práticas comunicativas diversas que vão da oralidade direta aos modernos recursos tecnológicos; projetos ou visões de mundo que dão suporte a suas demandas; e culturas próprias nas formas como sustentam e encaminham suas reivindicações354.

Além desses elementos, Maria da Glória Gohn aponta que os movimentos sociais são criados e se desenvolvem a partir de grupos da sociedade civil e têm nos

352 CAMPILONGO, Celso Fernandes. Interpretação do direito e movimentos sociais. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p.18; GOHN, Maria da Glória. Teorias dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. 11.ed. São Paulo: Loyola, 2014, p.329. Para uma ampla caracterização das teorias dos movimentos sociais, ver também: GOHN, Maria da Glória. Novas teorias dos movimentos sociais. 5.ed. São Paulo: Loyola, 2014; GOHN, Maria da Glória (Org.). Movimentos sociais no início do século XXI: antigos e novos atores. 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

353 GOHN, Maria da Glória. Teorias dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. 11.ed. São Paulo, p.243.

direitos, em suas múltiplas dimensões, a fonte de inspiração para construir sua identidade355.

Nesse sentido, sobre a relação que os movimentos sociais estabelecem com o direito, mostra-se relevante a elaboração de Celso Fernandes Campilongo, que aponta sobre a existência de uma confiança dos movimentos sociais no direito, o que pode aflorar de três modos: contra o direito, pelo direito e após o direito. Para o autor,

‘Contra o direito’ significa, na essência, luta pela sua revogação, substituição ou por nova interpretação do direito vigente. No fundo, identifica-se um obstáculo construído pelo direito e procura-se removê-lo também através do direito. Não se trata, na verdade, de transgressão ou afronta ao direito, mas de modificação do direito. ‘Pelo direito’ representa a luta pelo reconhecimento e afirmação de direitos ainda não estabelecidos: conquista de novos direitos na lei ou na Justiça. ‘Após o direito’ consiste na busca por eficácia: adoção de políticas, reorganização da jurisprudência em conformidade com os avanços legislativos, mudança de comportamento. Os movimentos sociais podem se valer – e, frequentemente, se valem – de todas essas frentes. Confiam na força simbólica do direito.356

Tendo em vista essa perspectiva de atuação dos movimentos sociais visando a transformação do direito, seja para modificá-lo, reinterpretá-lo, dar-lhe eficácia, ou instituir novos direitos, pode-se afirmar que esses atores sociais possuem a característica de serem protagonistas do aperfeiçoamento, consolidação e evolução da sociedade e dos Estados. A esse respeito, de acordo com Maria da Glória Gohn,

Os movimentos sociais geram uma série de inovações nas esferas pública (estatal e não estatal) e privada; participam direta ou indiretamente da luta política de um país, e contribuem para o desenvolvimento e a transformação da sociedade civil e política. Essas contribuições são observadas quando se realizam análises de períodos de média ou longa duração histórica, nos quais se observam os ciclos de protestos delineados.357

Não sendo objeto do presente estudo adentrar na análise específica sobre as diversas teorias sociológicas a respeito dos movimentos sociais, para delimitar o objeto de análise aqui empreendida, cumpre destacar uma diferenciação fundamental: movimentos sociais não se confundem com os meios empregados para realização de atos de protesto. Nem sempre atos de protesto são protagonizados por movimentos sociais, mas movimentos sociais organizados em

355 GOHN, Maria da Glória. Novas teorias dos movimentos sociais. 5.ed. São Paulo: Loyola, 2014, p.14-15. 356 CAMPILONGO, Celso Fernandes. Interpretação do direito e movimentos sociais. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p.34.

357 GOHN, Maria da Glória. Teorias dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. 11.ed. São Paulo: Loyola, 2014, p.251.

torno de determinados objetivos em geral são protagonistas, organizadores ou participantes de atos de protesto.

Conforme explica Maria da Glória Gohn, os modos de ação coletiva empreendidos pelos movimentos sociais não são propriamente movimentos sociais. Os protestos, pacíficos ou não, “são modos de estruturação de ações coletivas; poderão ser estratégias de ação de um movimento social, mas sozinhos não são movimentos sociais”358.

Buscando diferenciar movimentos sociais históricos e organizados de manifestações públicas conjunturais, Ilse Scherer-Warren caracteriza aqueles em razão da circunstância de possuírem

Um arranjo institucional que vise sua continuidade temporal, principais objetivos políticos definidos ou em construção pelos militantes e um projeto ou utopia de mudança social, política ou cultural. Usam periodicamente o recurso das manifestações públicas para reivindicações e protestos específicos de suas lutas e para obter visibilidade política na esfera pública.359

Os protestos empreendidos tanto por movimentos sociais como por iniciativas conjunturais da sociedade civil podem dar-se por meio de manifestações públicas nas ruas e praças, por meio de marchas em espaços públicos (ruas, avenidas, rodovias), apresentações com viés cultural, ocupações de espaços públicos ou privados, dentre outros. Nesses contextos de manifestações, pode também ocorrer o fenômeno de aderirem ao protesto organizado por movimentos sociais não apenas seus integrantes, mas outros indivíduos.

Como destacado por Ilse Scherer-Warren, as manifestações podem expressar

o momento ‘multidão’ dos movimentos, o que pode sugerir erroneamente um sentido de unidade, a qual pode ser uma unidade no ato de manifesto, ou de protesto, ou de direito à voz pública, mas não necessariamente uma unidade na política ou na utopia para a transformação.360

Enquanto os movimentos sociais possuem uma continuidade e uma identidade de propósitos políticos, reivindicatórios, críticos etc. para além do

358 GOHN, Maria da Glória. 500 anos de lutas sociais no Brasil: movimentos sociais, ONGs e Terceiro Setor.

Revista Mediações v.5, nº1, p.11-40, jan.-jun.2000. Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 2000, p.12.

359 SCHERER-WARRER, Ilse. Dos movimentos sociais às manifestações de rua: o ativismo brasileiro no século XXI. Revista Política e Sociedade. v.13, nº28, set.-dez.2014. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2014, p.14.

360 SCHERER-WARRER, Ilse. Dos movimentos sociais às manifestações de rua: o ativismo brasileiro no século XXI. Revista Política e Sociedade. v.13, nº28, set.-dez.2014. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2014, p.17.

momento de mobilização específica para um ato de protesto, os protestos públicos podem se caracterizar também por se constituírem numa reação coletiva imediata e desorganizada a situações ou fatos políticos indesejáveis, conquistando a adesão de outros cidadãos. Porém, justamente por faltar a esses eventos o elemento organizativo e temporal, não se caracterizam como movimentos sociais. Geralmente, são atividades efêmeras que tendem a se extinguir com o exaurimento do fato histórico desencadeador do protesto, se não forem incorporadas ao discurso de movimentos sociais já existentes361 ou se desse fato não forem articulados novos

movimentos sociais.

5.2 Movimentos sociais, protestos e a expansão da democracia no Brasil