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Apesar da regulamentação no Estado de São Paulo ter sido definida nas primeiras décadas do século XX, o trabalho carcerário já era utilizado há muitos anos no Brasil, desde o Período Colonial. Porém, naquela época, a finalidade se diferenciava substancialmente dos objetivos atuais do trabalho carcerário, que se definem na profissionalização da população prisional trabalhadora, conforme a Lei de Execução Penal. Esse significado ‘moderno’ do trabalho carcerário surgiu apenas recentemente, trazendo à tona a questão da remuneração e jornada de trabalho, como direitos adquiridos pelo preso trabalhador. Conforme Alvim (1991), é recente a compreensão do trabalho como componente ressocializador da pena, visto que, durante séculos, o trabalho era apenas tido como uma das formas de suplício utilizadas.

Até fins do século passado (XIX), a proposição do trabalho penitenciário resumia-se a ângulos externos a proteção do preso trabalhador. Propunha-se o trabalho penitenciário visando à proteção social ou sob marca da vingança pública: ou para reincetar o condenado ao padrão de homem útil ou como adendo endurecedor da pena reclusiva. (ALVIM, 1991: 26).

Vigoraram, em quase todo Período Colonial, as Ordenações Filipinas5, que possuíam, em seu Livro V, especificações sobre crimes e respectivas punições. O trabalho dos condenados foi continuamente utilizado pelas Ordenações do Reino, sem ser dessa forma denominado e nem entendido como um direito do preso, e sim apenas como um dever e uma das formas de punição utilizadas. Assim, o Livro V previa a pena de degredo para galés, pena

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As Ordenações Filipininas foram a terceira legislação do país durante o Período Colonial, foram decretadas em 1643 e abolidas em 1824 com a promulgação da primeira Constituição brasileira.Antes das Ordenações Filipininas, o Brasil possuiu as Ordenações Afonsinas, que vigoraram da época do Descobrimento até 1521, e as Ordenações Manuelinas. (ver: SOARES,

que “segundo as Ordenações, consistia no envio do condenado para embarcações (galés), onde era obrigado a remar. Depois, tal pena foi comutada em serviço a ser realizado em obras públicas” (SALLA, 1999: 34).

O trabalho do preso durante o Período Colonial, e também posteriormente, até a primeira década do século XX, tinha apenas a finalidade de castigo e justamente por esse motivo não pressupunha remuneração. Dessa forma, o trabalho carcerário era, resumidamente, um aproveitamento da mão-de-obra da população prisional para tarefas pesadas o que dispensava qualquer profissionalização dos presos. O contratante da mão-de-obra carcerária era o próprio Estado que se beneficiava com a economia na contratação de trabalhadores assalariados. Segundo Salla (1999), esse foi um procedimento muito comum durante todo o século XIX até a promulgação do Código Criminal de 1830, já no Império.

Uma prática que se desenvolveu muito no início do século XIX foi a de utilizar os presos da Cadeia para a realização de serviços, principalmente públicos(...). Até o trabalho de retirada das formigas começou a ser feito por presos acorrentados da Cadeia. A utilização das galés, como eram conhecidos os presos que realizavam serviços públicos, torna-se mais usual na medida em que a cidade preocupava- se com a higiene e a limpeza, com zelo até então desconhecido. Ao mesmo tempo, recorrer ao trabalho dos condenados era uma forma barata de contornar a eterna escassez de recursos do erário público. (SALLA, 1999: 40).

Durante o Primeiro Reinado, com a promulgação da Constituição de 1824, houve a necessidade da criação de um código criminal específico que substituísse o Livro V das Ordenações Filipinas. Assim foi criado o Código Penal de 1830, que tinha como grande novidade a pena de prisão, que até então não existia no país6. Esse Texto foi claramente inspirado pelo Iluminismo que trouxe

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As penas utilizadas anteriormente ao Código de 1830 eram “a pena de morte, nas suas diversas concepções, segundo a legislação portuguesa; previa a pena de degredo para galés e degredo para outros lugares (Índia, África, Brasil, uma outra vila, termo ou bispado); estipulava também penas

uma nova visão sobre punição na Europa, disseminando nas Américas as recentes idéias do encarceramento como a solução mais justa para a punição em detrimento das penas corporais como a tortura e a pena de morte (BECCARIA, 1997).

Assim, a pena de prisão estabelecida pelo Código de 1830 foi um grande avanço. Porém, mesmo com tais modificações algumas penas continuaram no Texto, era o caso das penas de “morte, galés, banimento, degredo, desterro, multa e as de prisão simples e prisão com trabalho” (SALLA, 1999: 45). Essa perpetuação da antiga estrutura penal evidenciava a estrutura escravista que caracterizava a sociedade brasileira e que a reforma penal europeizada queria esconder. Na realidade, a aparente modernização que ocorria no Brasil naquele momento, influência da Inglaterra e França, suscitou no país uma série de “mudanças de hábitos”, mostrando uma falsa idéia de civilização e modernidade “para inglês ver”. (SOUZA, 2001: 213).

A pena de prisão com trabalho era também garantida pelo novo Código, mas em nenhum de seus artigos existia alguma regulamentação ou menção a remuneração:

Art.46 – A pena de prisão com trabalho obrigará aos réos a occuparem-se diariamente no trabalho que lhes fôr destinado dentro do recinto das prisões, na conformidade das sentenças e dos regulamentos policiaes das mesmas prisões” (SALLA, 1999: 45).

Esse tipo de pena de prisão com trabalho utilizado pelo Código Penal de 1830 se assemelhava com o modelo de Auburn7, pois como nesse

corporais como os açoites, a mutilação de mãos, da língua, etc., queimaduras com tenazes. O confisco de bens e as multas eram igualmente utilizados como pena. E havia um conjunto de penas que se destinava a expor ao ridículo ou á condenação pública os infratores (...). Embora fosse variado o leque de penas, as Ordenações não estipulavam para nenhum crime ou circunstância a pena de prisão isoladamente” (SALLA, 1999: 33-34).

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O Sistema de Auburn surgiu em 1821 em Nova Iorque (EUA), e sua a grande característica desse modelo prisional era o fato de “permitir o trabalho e as refeições em comum, com proibição de

Sistema, o trabalho prisional não era caracterizado por qualquer função qualificativa, mas apenas pela dureza das tarefas e submissão do “corpo do condenado ao exercício diário e contínuo” (SALLA, 1999:111). Segundo Salla, o fato do Brasil, naquele momento, ainda ser um país com grande número de escravos também colaborou com a assimilação do Sistema Auburniano, visto que a escravidão mantinha grande parte da população “à margem dos direitos garantidos aos demais indivíduos e alvos de uma legislação punitiva discriminatória” (SALLA, 1999: 111).

Dessa forma, o trabalho dos condenados durante o século XIX era caracterizado pela exploração e opressão. Os presos eram utilizados geralmente em serviços públicos. Além disso, os detentos da época também eram obrigados a servirem como soldados na linha de frente das tropas do Exército e Marinha. Também era comum a intervenção do “poder privado”, senhores de escravos, tornando as celas extensão das senzalas (KOERNER, 1999).

Com o surgimento da Casa de Correção da Corte, em 1852, na cidade de São Paulo, os trabalhos existentes para os prisioneiros eram marcados pelo silêncio total. Isso ocorreu devido ao modelo pelo qual se baseava a Casa de Correção, que seguia o arquétipo panóptico, “com uma torre central e longos corredores, com celas individuais nas quais os prisioneiros deveriam manter completo silêncio” (KOERNER, 2001).

Porém, devido a todos os problemas em que se encontravam as Casas de Correção, como a dificuldade da concretização da proposta inicial de isolamento, a falta de saneamento, enfermaria e água encanada, elevando o número de mortalidade entre os detentos, a crise não tardou em ocorrer. Na

década de 70 do século XIX, houve a necessidade de uma reforma no sistema penitenciário brasileiro que priorizasse uma recuperação do condenado.

Dever-se-iam abandonar os princípios baseados no isolamento, para adotar o sistema irlandês ou da classificação progressiva das penas durante a execução, defendidos no Congresso de Londres de 1872. O fim da pena era melhorar o criminoso, e sua execução devia consistir em despertar e alimentar a esperança no ‘coração do preso’, para que este se tornasse o agente de seu próprio melhoramento; sem excluir a força física, preferiam-se as forças morais: respeito e dignidade pessoal do preso; educação, religião e trabalho. (KOERNER, 1999:42).

Com o advento da República, o Código Criminal do Império, dá lugar ao Código Penal. As principais novidades que trazia o Código Penal de 1890 eram a abolição da pena de morte e a instituição da prisão com o fim de correção do delinqüente.

Mas o Código Penal de 1890 era mal sistematizado, o que fez com que diversas leis fossem decretadas a fim de corrigir os erros nele encontrados. Todas essas leis, formuladas pós-1890, foram reunidas na Consolidação de Leis Penais, por meio do Decreto n° 22.213/32.

Quanto ao trabalho carcerário, o Código Penal de 1890, afirmava em seu Artigo 56, que “Ao condenado será dado, nos estabelecimentos onde tiver de cumprir pena, trabalho adaptado às suas habilitações e precedentes ocupações”. Estabelecendo, dessa forma, a pena de prisão com trabalho obrigatório.

Em 1940, foi promulgado o novo Código Penal, por meio do Decreto-lei nº 2.848/1940, entrando em vigor em 1942. O momento político que marcou a criação do Código Penal de 1940 foi o aparecimento do Estado Novo comandado por Getúlio Vargas, em plena II Grande Guerra. Esse fato histórico contribuiu para que influências européias, como o Código Penal Italiano de 1930 e o Código Suíço de 1937, se incorporassem ao Código brasileiro.

O Código Penal de 1940 aboliu a pena de prisão com trabalho, restringindo o Código a três tipos de penas: reclusão, detenção e multa. O trabalho dos condenados é previsto nos regimes fechado e semi-aberto. Quanto ao regime fechado, o Código especifica em que o trabalho deverá ocorrer no período diurno (§ 1º), sendo realizado dentro do estabelecimento, “na conformidade das aptidões ou ocupações anteriores do condenado, desde que compatíveis com a execução da pena” (§ 2º). Quanto às regras do regime semi-aberto, definidas no Artigo 35 e 36, o Código especifica que o trabalho será externo, baseado na autodisciplina e senso de responsabilidade do condenado. É também a partir do Código Penal de 1940 que o trabalho dos presos passa a ser remunerado, conforme Artigo 39.