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Yüksek Yapı Kavramı ve Tanımı .1 Yüksek Yapı Tanımı

YÜKSEK BİNALARDA YANGIN GÜVENLİĞİ

2.1 Yüksek Yapı Kavramı ve Tanımı .1 Yüksek Yapı Tanımı

Como já apresentado neste capítulo, o protagonista do romance Duelo en el

Paraíso é Abel Sorzano, um menino de 12 anos, órfão, que vivia com avó e tios na

cidade de Barcelona. Com a morte de sua avó e percebendo as dificuldades por que passavam seus tios, Abel decide abandoná-los e ir em direção ao sítio “El paraíso” viver com sua tia-avó Estanislaa. Com a ajuda do militar republicano Martín Elósegui, Abel consegue chegar até o sítio e é recebido pela empregada que, após comunicar sua chegada à dona da casa, acomoda o menino em um quarto que havia sido de um de seus primos.

Logo no início da obra, Abel é um protagonista atípico, já que aparece morto nas primeiras páginas do livro. Pouco a pouco, pela recapitulação de episódios em que se revelam aspectos relevantes sobre sua personalidade e vida, vamos descobrindo quem era o personagem.

Uma das características essenciais no romance em relação ao protagonista é sua fascinação pela guerra. Ainda que seus pais e seu irmão (ainda no ventre de sua mãe) tenham morrido por causa das atrocidades ocorridas nos confrontos, Abel percebe a guerra como algo bom:

Abel había elegido al soldado [Martín Elósegui] por amigo y le hacía partícipe de sus planes. La radio hablaba de bombardeos, de ciudades en llamas y de luchas cuerpo a cuerpo. Cada uno de los bandos pretendía que la guerra iba a durar sólo unos meses y Abel temía que sus proyectos no llegarían a realizarse. Se imaginaba grumete, subido a lo alto de un buque de guerra; pilotando un avión en una calada difícil; oficial en el ejército de tierra (GOYTISOLO, 1971, p. 42).

Durante todo o romance, o menino fala sobre a guerra com todos os personagens com que tem contato. Desde o soldado Elósegui (como visto no fragmento supracitado) até a empregada Filomena, todos ouviam as conversas de Abel sobre a guerra e o desejo que ele tinha de ir ao front. A princípio não lhe importa o lado em que estará – já que pensa em ir à guerra para ser tradutor em ambos os lados ou talvez ser um espião infiltrado – o que importa a Abel é ir à guerra, como podemos observar no seguinte fragmento:

Los dos ejércitos contaban en sus filas con soldados extranjeros y él podría ir de un lado a otro haciendo de intérprete y disparando en los casos de apuro, vestido como indicaba el reglamento de Enlace y Telecomunicaciones (cuyo ejemplar en rústica había adquirido en la librería del pueblo): con su uniforme azul de campaña, las iniciales del Cuerpo y un pequeño casco de acero, especial contra las balas. En el último caso, podía ser empleado como espía. Nadie sospecharía de un niño de doce años, y el general podría tomarle de asistente (GOYTISOLO, 1971, p. 41).

Podemos perceber o pensamento de Abel em combater como comunicador, o que nos faz refletir sobre o tema. Ao desempenhar tal função, o menino se apresenta como conciliador entre as partes conflitantes, porém, ao demonstrar seu interesse por se infiltrar como espião em determinado grupo, ele explicita uma atuação desleal, característica não apresentada por um herói.

Com tal atribuição percebemos um confronto do herói com a representação de sua realidade. Novamente verificamos o personagem vinculado à figura do herói 111

nietzschiano, já que Abel vive plenamente e se apresenta como um ser que domina sua própria vida e está acima do bem e do mal. Na filosofia nietzschiana o homem está liberto de toda e qualquer convenção social, regras implantadas por um mundo baseado nos ideais cristãos. Em Assim falava Zaratustra Nietzsche apresenta sua descrição sobre o seu conceito de “super-homem”, como vemos em:

Será maior aquele que puder ser o mais solitário, o mais oculto, o mais divergente, o homem além do bem e do mal, o senhor de suas virtudes, o transbordante de vontade; precisamente a isto se chamará grandeza: pode ser tanto múltiplo como inteiro, tanto vasto como pleno (NIETZSCHE, 2002, p. 120).

O fragmento extraído da obra de Nietzsche explicita o caráter desse novo homem – “super-homem” – um ser que em sua grandeza está para além do bem e do mal, podendo ser senhor de suas virtudes e vontades. Ao relacionarmos Abel com o Zaratustra de Nietzsche percebemos em ambos esta atitude que dota o homem de ser responsável por sua existência.

O desejo do menino Sorzano em ir à guerra, entra em confronto com o fato de ter perdido seus pais durante a mesma, o que novamente apresenta-se como uma situação contraditória, dado o trauma ocasionado na vida de Abel devido aos combates. Há um conflito da realidade de Abel com seu ideal, já que ele se apresenta como algo oposto a sua realidade.

Outra contradição presente na obra registra-se no plano de Abel em atuar na luta armada: o personagem, porém, afasta-se para uma das cidades em que não se desenrola qualquer batalha da guerra. É um herói contraditório, que não se identifica com alguns dos modelos apresentados no capítulo 3, ou seja, a figura heróica representada no romance moderno – que idealiza e realiza sua vida –, no romance picaresco – que sobrevive através de pequenos enganos –, no romantismo –

personagem afastado de outros indivíduos e em crise com seu mundo –, ou no realismo – que se adequa a sociedade em que circula.

É importante ressaltar ainda um aspecto interessante com relação à caracterização de Abel: sua ingenuidade. O menino acredita que escrevendo uma carta ao governador militar da Catalunha, expressando sua vontade e seu preparo para ir à guerra, seria convocado para o combate, como podemos observar no seguinte fragmento em que se apresenta a referida mensagem:

Mi querido general:

Acabo de enterarme por la radio de lo necesitados que andan ustedes de soldados y he creído oportuno decirle que yo podría serlo, aunque sólo tengo catorce años, pero sé francés y esgrima y he seguido un curso técnico de enlace.

Sin más que decirle, y en espera de su atenta respuesta, se despide de usted s. m. d…

ABEL SORZANO (GOYTISOLO, 1971, p. 41).

O jovem Sorzano sonha ir ao front, comandar batalhões e inclusive ser consultado sobre estratégias militares de ataque. Por se apresentar de forma tão inocente, deixa-se enganar pelo menino Pablo Márquez, uma das crianças que viviam na residência-escola de refugiados, próximo ao sítio de Dona Estanislaa. A candura de Abel pode ser relacionada com a de Sancho Pança, já que ambos acreditam ingenuamente que vão alcançar algo que está além de sua realidade – Sancho, a ilha prometida por Dom Quixote, e Abel, ir à guerra e combater. Em ambos os casos os personagens seguem em busca de um sonho que, mesmo que se apresente de forma utópica, é o que estimula seus movimentos em suas trajetórias nos romances.

Um evento torna-se relevante no que diz respeito ao menino Sorzano: sua representação fastasmagórica. Evidências de tal ocorrência podem ser percebidas 113

nas “manos heladas” (GOYTISOLO, 1971, p. 36), no “rostro pálido y abatido” (GOYTISOLO, 1971, p. 46), em sua “cara sin color y avergonzada” (GOYTISOLO, 1971, p. 72), em sua “palidez” (GOYTISOLO, 1971, p. 74), etc. São inúmeras as passagens em que Abel se apresenta com uma aparência mortuária, o que denota uma forma de representação alegórica do aniquilamento do referido personagem.

A forma como Abel está representado na obra, como alguém dócil, frágil e que se engana facilmente, reúne características que o assemelham aos homens de sua família (primos, tio-avô). Tal característica produz indícios de que a figura de Abel não vingará como herói no romance, já que é um personagem que não prospera em seu intento.

A fragilidade dos homens da família de Abel é uma questão que requer especial atenção. Os filhos de Dona Estanislaa, David e Romano, logram o mesmo fim que seu sobrinho-neto, ainda que estes não tenham sido assassinados. Tal fato marca significativamente o romance, já que pode ser interpretado como alegoria da debilidade de uma burguesia que se encontra decadente em tempos de violência.

Em diversas passagens do livro denota-se a atonia dos homens da família de Abel. O primeiro filho de Dona Estanislaa, David, era fraco e desejava sempre estar com sua mãe para que ela o protegesse. O modo frágil como tal figura é apresentada se estabelece intensamente através do relato de sua morte (apresentada de forma burlesca e fatídica) por meio de uma bofetada recebida em um baile de carnaval em Cuba (GOYTISOLO, 1971, p. 111). Já o segundo filho de sua tia-avó, Romano, demonstra sua debilidade de variados modos, tanto no que concerne ao fato de querer estar sempre com sua mãe, como com relação a possuir bonecas de louça (GOYTISOLO, 1971, p. 113), ou até mesmo a tentativa de suicídio praticada por ele ao apurar que sua namorada Claude o abandona sem lhe dar

explicações (GOYTISOLO, 1971, p. 122). A debilidade desses personagens é minuciosamente exposta na obra, e seres assim, como relata a própria Estanislaa, são criados “para sus pocos años” (GOYTISOLO, 1971, p. 212). Assim como Abel, seus primos são descritos com características muito frágeis e delicadas, podendo ser uma representação da homossexualidade exposta na obra.

Outro personagem que expõe a vulnerabilidade dos homens da família do jovem encontra-se destacada na figura do marido de Estanislaa, Enrique, representado na obra de Juan Goytisolo como um ser fraco e inválido (por natureza) – já que não exerce nenhuma função laboral (GOYTISOLO, 1971, p. 114), vive de um passado glorioso, investe em eventos fadados ao fracasso e morre decrépito graças a um câncer (denotando a estética do tremendismo – seres apresentados com formas grotescas). Desde o início de sua apresentação, podemos perceber Enrique como um ser que está destinado à aniquilação.

O menino Sorzano, por sua vez, é também apresentado como um indivíduo fraco, já que não se opõe a que os refugiados o levem para o sacrifício. A perecibilidade manifestada pelos homens da família do protagonista pode estar relacionada no romance tanto ao enfraquecimento do bando republicano, quanto à temática da autobiografia. No que concerne ao grupo republicano, temos a derrota do mesmo pelos militares nacionalistas, já que estes se encontravam melhor preparados belicamente e gozavam de estabilidade no cerne do grupo. Com relação à questão autobiográfica, percebe-se a representação dos familiares masculinos do garoto Sorzano arrolada à definição dos homens da genealogia de Juan Goytisolo, tais como seu pai (descrito em Coto vedado como “un hombre senil, desvalido” [GOYTISOLO, 1985, p.72]).

A fragilidade e a relação de Abel com as mulheres do romance conferem ao personagem uma característica feminina. Tal fato se evidencia através da forte união do menino com sua tia Estanislaa – em inúmeras passagens em que ela lhe perfuma, ou, quando ao final do romance, esta o retrata como um “ser

extraordinariamente formado para sus pocos años” (GOYTISOLO, 1971, p. 212) , as

conversas com Filomena ou Águeda – as confissões feitas ao menino por ambas (Filomena de seus filhos mortos e abandonados [GOYTISOLO, 1971, p. 86]; de Águeda de sua solidão [GOYTISOLO, 1971, p. 78]) –, a profunda depressão em que ele incide com a fuga de Pablo – representada por seu retorno a “El Paraíso” como

“muerto” e pelo choro ouvido por Filomena em seu quarto (GOYTISOLO, 1971, p.

87) – e a forma como a empregada vestia Abel – com roupas feitas de “algunas

cortinas abandonadas” e “lleno de flores” (GOYTISOLO, 1971, p. 72). Tais indícios

podem ser analisados na obra como uma prévia da forma como seguirão as obras de Juan Goytisolo a partir da década de 1970 – período de rompimento com o debate sobre as questões sociais e de estabelecimento de uma literatura voltada para a crítica à cultura espanhola, para o registro autobiográfico e para a sexualidade.

É ressaltada na obra de Goytisolo a questão religiosa em correlação com a figura de Abel. O jovem órfão possui um nome que representa um personagem bíblico que morre por inveja de seu irmão (representação da estética do cainismo). Não é sem razão que o protagonista de Duelo en el Paraíso morre nas mãos de Arquero (uma das crianças da residência refugiados) que o inveja por considerar

Abel um burguês, um “faccioso”25 (nacionalista), como retratado no seguinte fragmento:

– Hemos matado a un faccioso y nos castigarán. Nos utilizarán como blanco en los ejercicios de tiro. Si no se deciden a colgarnos de cualquier rama. – Señaló el bosque con un amplio ademán. – Aquí no faltan (GOYTISOLO, 1971, p. 52).

Outro evento que se relaciona com a questão religiosa representada na obra é o fato de Abel fugir da casa de seus tios em Barcelona (traço autobiográfico, já que Juan Goytisolo também é proveniente dessa cidade) para viver com sua tia-avó no sítio “El Paraíso” – onde também irá morrer –, lugar sempre representado como monótono, calmo e sem combatividade. A filosofia cristã apresenta o Paraíso como um lugar para onde os bem-aventurados gozam da presença de Deus. Por tal motivo, no transcorrer do romance, Abel é representado como um menino bom, sendo inclusive comparado a “un ángel, un cordero” (GOYTISOLO, 1971, p. 63) pela empregada Filomena.

Abel também se relaciona com alguns personagens cujos nomes os remetem à temática religiosa, tais como seu primo David e seu amigo Martín.

A figura do jovem se concatena de diversas formas com distintas figuras femininas. Com a empregada Filomena, com a prima Águeda e com sua tia-avó Estanislaa, ele consolida um vínculo afetuoso. A intensidade dessas relações pode ser verificada no desespero de Filomena ao ser-lhe revelada sua morte:

Abel, Abel de mi alma y de mi corazón, mi Abel bienamado, tesoro y rey de la casa […]. Hacerle daño a él, que era un ángel, un cordero, mi pobre Abel, mi chato, mi rey, mi tesoro, mi joya, el niño más bueno y más guapo del mundo (GOYTISOLO, 1971, p. 63).

25

A palavra “faccioso” surge no transcorrer do referido romance de Juan Goytisolo sempre em alusão ao grupo nacionalista. No fragmento em que se insere o vocábulo, os meninos órfãos relacionam Abel a um representante do bando nacionalista, e imaginam que com a morte do menino Sorzano serão punidos severamente.

O personagem do pequeno Sorzano também estabelece contato com várias figuras que representam os valores republicanos, como o soldado Martín Elósegui, o mendigo Gallego e o garoto Pablo Márquez. Com eles, Abel constitui um vínculo de amizade que se rompe finalmente com a traição de Pablo.

No início do romance, Abel conhece Martín Elósegui, um soldado republicano que cuida da residência-escola de refugiados, com quem consolida uma grande amizade. Ao militar, o jovem conta todos os seus planos, como mencionado anteriormente neste capítulo. Por representar os valores políticos apreciados por Abel, Martín consegue constituir um estreito entendimento entre ambos.

Ao transcorrer da obra o sobrinho-neto de Estanislaa conhece Gallego, um ex-guerrilheiro que combateu na revolução cubana e que então vive como andarilho, perambulando pelas ruas de Gerona. A figura agrada Abel por tratá-lo como igual, como observamos em: “Usted me gustó desde un principio – Le había dicho

después -, porque a su lado no me sentía niño. Usted me trataba de igual, como Martín, y a mí esto me halagaba tanto…” (GOYTISOLO, 1971, p. 143).

Abel também conhece Pablo, na residência-escola de meninos refugiados, e com ele inicia uma grande amizade. O amigo de Abel mostra claramente sua posição política quando, em uma das passagens do romance, o sargento González, ao apanhá-lo, leva-o consigo, depois de descobrir que ele havia roubado sua carteira. Pablo se nega a cantar o hino dos nacionalistas e prefere “morir que

traicionar los ideales” (GOYTISOLO, 1971, p. 162).

Três personagens que representam os valores políticos admitidos por Abel atravessam sua vida, o que significa que o pensamento entre eles era comum.

Ademais, as referidas figuras se esvanecem com o transcorrer do romance, assim como o que ocorre a Abel.

Da mesma forma como ocorriam com “los rojos”26 a relação de Abel com seus amigos Elósegui, Gallego e Pablo é rompida. A fragilidade do grupo se assemelha à debilidade da amizade do jovem Sorzano com os demais personagens.

É a partir de sua relação com os meninos órfãos da residência-escola de refugiados que o romance torna-se mais interessante. Entre esses personagens o relacionamento se apresenta de modo falso, posto que para eles, Abel é um burguês, que não padeceu os horrores da guerra civil (fome, falta de roupas, perda da família etc.) assim como eles. A “questão social”,27 está claramente representada no estabelecimento da oposição de classes – burguesia (representada por Abel) e classe baixa (representada pelos órfãos da residência-escola). Tal aversão também podia ser percebida no grupo republicano – dada as várias dissidências existentes em tal coligação –, conduzindo-os a derrota em mãos nacionalistas28.

A oposição entre os meninos órfãos e Abel, entre burguesia e massa, torna- se irrelevante dada a situação crítica em que toda a Espanha se apresentava no período da guerra civil.

Em um lugar onde a luta por ideais republicanos já não faz sentido, a presença de um herói idealista (romântico) é escusada, e por isso Abel – assim como seus primos – morre. O novo contexto social em que se insere o personagem 26

Referência aos militares republicanos. 27

Como apresentado no capítulo 3 deste trabalho, a temática da guerra e seus percalços são apresentados neste modelo de romance que objetiva a crítica a sociedade espanhola do período dos confrontos armados.

28

Durante a guerra civil percebem-se várias subdivisões na aliança republicana – devido a disputas internas -, enquanto o grupo nacionalista – liderado pelo General Francisco Franco - permanecia unido em seu intento de estabelecer seu domínio sobre toda a Espanha. Neste sentido, os defensores da República são enfraquecidos, dada a superioridade militar das tropas nacionais, até sua eliminação.

impede que se destaque como centro da narrativa, já que este não pode exercer sua prática política.