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Antes mesmo de tratar especificamente sobre os princípios da anterioridade e da irretroatividade é preciso fixar alguns conceitos importantes a respeito da validade, vigência e eficácia da norma tributária, já que esses princípios, como normas jurídicas que
184 CARVALHO, Paulo de Barros. Mesa de debates - Princípio da legalidade e da igualdade. Revista de
são, qualificam fatos de acordo com certos dados temporais. Ressalte-se que não é objetivo deste trabalho esgotar o estudo sobre a validade, vigência e eficácia da norma, mas tão- somente definir o sentido desses termos com vistas a evitar ambigüidades.
A validade não é uma propriedade da norma jurídica como são a vigência e a eficácia. A validade é uma relação de pertinência entre a norma e o sistema, de modo que afirmar que uma norma N é válida significa dizer que a norma N pertence a um certo sistema de direito positivo. Para pertencer a determinado sistema é preciso que a norma seja inserida conforme as regras de validade do próprio sistema. No caso do ordenamento jurídico brasileiro, para que a norma seja válida é preciso que tenha sido criada pelo órgão competente e através do procedimento regular, conforme previsão constitucional (auto- referência).
Já a vigência é um atributo da norma jurídica, pois é a “força” que a norma tem de produzir efeitos jurídicos, ou seja, de regulamentar condutas. Dizer que uma norma é vigente significa que a norma tem a aptidão de incidir na realidade social para juridicizar os comportamentos humanos. Para uma norma ser vigente é preciso antes que ela seja válida, ou seja, que ela pertença a um determinado sistema de direito positivo, porém uma norma pode ser válida, mas não ser vigente, como é o caso, por exemplo, da norma no período de vacatio legis185.
A eficácia também é um atributo da norma e de acordo com BARROS CARVALHO, a partir das idéias de FERRAZ JR., a eficácia pode ser classificada em jurídica, técnica e social186. A eficácia jurídica é o atributo do fato jurídico de produzir os efeitos que lhe são próprios, ou seja, uma vez ocorrido o fato jurídico deve ser a conseqüência prevista na norma. A estrutura lógica da norma jurídica é um fato ligado pelo functor da implicação a uma conseqüência, logo, toda vez que se realizar o fato, infalivelmente ocorrerá a conseqüência. É a causalidade jurídica, resultado da imputação deôntica que faz a ligação do fato à conseqüência.
185 O período da vacatio legis compreende desde a publicação da norma até o termo inicial de sua vigência.
Durante o período da vacatio, a norma é válida, pois pertence ao sistema de direito positivo, mas não é vigente, pois ainda não está apta a incidir na realidade social para regular as condutas intersubjetivas.
A eficácia técnica é aquela que descreve fatos de possível ocorrência e que por não existir impedimentos materiais atua sobre esses fatos efetivamente realizados. Um exemplo de ineficácia técnica é a da norma que foi declarada inconstitucional em controle difuso e com a Resolução do Senado, passa a existir um impedimento material para que essa norma atue. Assim, a norma nesse sentido é válida, pois só deixará de pertencer ao sistema quando for revogada por outra norma, mas não possui eficácia técnica (os fatos previstos na hipótese normativa continuam a acontecer na realidade social, mas não sofrem incidência187 da norma).
A eficácia social consiste no cumprimento da norma pelos seus destinatários, ou quando a norma é reiteradamente observada pela sociedade como um todo. Como o direito se esgota na aplicação das normas jurídicas, o fato de a norma ser observada ou não pelos seus destinatários não é objeto de estudo da Ciência do Direito, mas de outra ciência, a Sociologia Jurídica.
A Constituição Federal proíbe expressamente a cobrança de tributos “no mesmo exercício financeiro em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou”, conforme artigo 150, inciso III, “b”, que prevê o princípio da anterioridade lato sensu. A lei tributária, portanto, para surtir eficácia, tem de ser anterior ao exercício financeiro188 em que o Estado passa a exigir o pagamento do tributo.
Entretanto, de acordo com a interpretação sistemática, o artigo 150, inciso III, “b”, que prevê o princípio da anterioridade lato sensu deve ser interpretado conjuntamente com a anterioridade nonagesimal, prevista no artigo 150, inciso III, “c” (Emenda Constitucional n. 42, de 19/12/2003) que prescreve que é vedada a cobrança de tributo “antes de decorridos noventa dias da data em que haja sido publicada a lei que o instituiu ou aumentou”. Isto significa que o tributo só pode ser cobrado no exercício seguinte ao da
187 A incidência é uma fenomenologia universal, pois não se aplica somente às normas tributárias, mas a toda
e qualquer norma jurídica, já que é a soma da subsunção e imputação. A subsunção é uma operação lógica de inclusão de classes (inclusão de classes ou subclasse). Já a imputação é o “dever ser”, ou seja, é o ato de vontade do legislador de ligar uma conseqüência a uma hipótese. Assim, para que ocorra a incidência é preciso que ocorra a inclusão da classe do fato à classe da norma, além de uma descrição normativa ligando o fato a uma conseqüência (princípio da imputação). Assim, só haverá incidência se concorrer os pressupostos da subsunção e da imputação (se A é, então deve ser B).
188 No Brasil, o exercício financeiro começa no dia 1º de janeiro e termina no dia 31 de dezembro, portanto,
publicação da lei que o instituiu ou aumentou, além de respeitado o prazo nonagesimal, ou seja, a lei só poderá incidir noventa dias após sua publicação.
A interpretação sistemática desses dispositivos garante a segurança dos cidadãos de não serem surpreendidos com a exigência de tributo apenas com a observância da anterioridade geral, já que somente com esse dispositivo, o tributo que foi criado ou aumentado por uma lei publicada no dia 31 de dezembro, poderia, salvo disposição em contrário, ser cobrado no dia 1º de janeiro, que é o exercício financeiro seguinte. Entretanto, com a anterioridade prevista no artigo 150, inciso III, “c”, a lei só poderá ter eficácia desde que publicada noventa dias antes do término do exercício financeiro da ocorrência do fato imponível.
A Constituição Federal prevê ainda mais uma anterioridade, contida no artigo 195, § 6º, aplicável apenas às contribuições sociais que financiarão a seguridade social que “só poderão ser exigidas após decorridos noventa dias da data da publicação da lei que as houver instituído ou modificado, não se lhes aplicando o disposto no art. 150, III, b”.
O princípio da anterioridade traduz a idéia de que é proibido o elemento surpresa na tributação, ou seja, esse princípio garante aos contribuintes a segurança de que não serão surpreendidos com a exigência de pagamento de tributo novo ou majorado sobre fatos ocorridos no mesmo exercício financeiro em que publicada a lei que os instituiu ou aumentou.
Pelo princípio da anterioridade, não pode ser considerado como fato imponível aquele ocorrido no mesmo exercício financeiro em que entrou em vigência a lei que instituiu ou aumentou tributo, mesmo que sua cobrança pela Administração ocorra no exercício seguinte. Ou seja, para ser respeitado o princípio da anterioridade é necessário que só sejam considerados como imponíveis os fatos ocorridos no exercício financeiro seguinte ao da publicação da lei que instituiu ou aumentou tributo189.
189 ROQUE CARRAZZA exemplifica: “se, no mês de agosto do corrente ano fiscal, for finalmente instituído
o imposto sobre grandes fortunas, o fato de uma pessoa, neste exercício, exibir vultoso patrimônio continuará a ser um fato tributariamente irrelevante; apenas no próximo exercício tal episódio passará a ser o fato imponível do novel tributo”. Curso de direito constitucional tributário. 23. ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 190.
De outro lado, a Constituição Federal prevê exceções à anterioridade, conforme artigo 150, § 1º. Assim, não estão submetidos à anterioridade, os impostos de importação; exportação; sobre produtos industrializados; sobre operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários; impostos extraordinários por motivo de guerra e os empréstimos compulsórios para atender a despesas extraordinárias decorrentes de calamidade pública, de guerra externa ou sua iminência. Segundo o artigo 177, § 4º, inciso I, “b” da Constituição, também não está sujeita à anterioridade a alteração de alíquotas da CIDE Combustíveis pelo Poder Executivo190.
Contudo, as exceções constitucionalmente previstas não representam uma afronta à segurança jurídica, ao contrário, pois são indispensáveis para proporcionar recursos para defesa contra situações extremas, como os casos de guerra externa ou sua iminência, calamidade pública etc. No caso de uma calamidade pública, por exemplo, caso a instituição do empréstimo compulsório tivesse que, segundo o princípio da anterioridade, aguardar o exercício financeiro seguinte para ter eficácia, provavelmente não teria mais utilidade pública.
Em relação ao imposto sobre produtos industrializados; ao imposto sobre operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários e aos impostos de importação e exportação, o artigo 150, § 1º da Constituição Federal é considerado um dispositivo meramente didático, já que esses tributos, desde que respeitados os parâmetros legais, podem ter suas alíquotas alteradas por meio de decreto pelo Poder Executivo (artigo 153, § 1º), portanto, não se sujeitam ao princípio da anterioridade, por uma questão lógica.
Assim, os tributos que representam exceções ao princípio da anterioridade podem ser exigidos no mesmo exercício financeiro em que publicada a lei que os instituiu ou aumentou, com vistas a tutelar o princípio da segurança jurídica, já que tal medida
190 De acordo com o artigo 149 da Constituição, a União tem competência para instituir contribuições
especiais como instrumento de atuação em determinado setor da economia. Essas contribuições são denominadas “contribuições de intervenção no domínio econômico” (CIDE) e são criadas com vistas a captar recursos junto a um determinado segmento econômico da iniciativa privada, que será objeto de regulamentação, intervenção e fomento pelo poder público. A intervenção estatal objetiva defender a ordem econômica nacional e regular o mercado em benefício dos agentes econômicos e também da população como um todo.
objetiva resguardar fins específicos, como obter recursos para custear despesas extraordinárias com calamidade pública, ou ainda, no caso dos impostos alfandegários, proteger o mercado interno contra exportações ou importações abusivas.