B) BİR İLETİŞİM BİÇİMİ OLARAK PROPAGANDA
2) Propagandanın Tarihsel Gelişimi
Conforme visto, não é concebível a existência de uma sociedade sem uma ordem estabelecida e toda organização social coexiste com um ordenamento jurídico, que pode se manifestar da forma mais simples até as formas mais complexas. Diante da diversidade de teorias sobre a relação entre Estado e direito relatada no item anterior, é concebível que o ordenamento estatal se sobreponha aos demais ordenamentos, já que é no Estado que o direito adquire plena positividade para, dentre outras finalidades, proporcionar uma situação maior de ordem e segurança para a coletividade.
O direito constitui, portanto, a garantia de uma ordem social e tal finalidade só é atingida por meio da certeza e da segurança que o direito oferece nas relações constituídas em sociedade. A ordem e a segurança fazem parte da própria natureza do homem, especialmente no convívio em sociedade. O mundo externo é mutável, sofre influências homem que não só encontra-se inserido na natureza como a modifica conforme suas
124 CAVALCANTI FILHO, Theophilo. O problema da segurança no direito. São Paulo: Revista dos
necessidades e seus desejos. Entretanto, não é só a natureza que sofre alterações, mas as próprias relações humanas são objeto de mudanças.
A complexidade das relações intersubjetivas demanda a certeza dos comportamentos que os sujeitos devem praticar ou omitir perante outros indivíduos, pois sem a certeza das condutas que serão exercidas, não existirá ordem ou segurança. A vida em sociedade necessita de uma ordem capaz de garantir a certeza da atuação dos indivíduos e esse papel é desempenhado pelo direito por meio das normas jurídicas. O direito atua sobre o plano da convivência humana para tipificar fatos e relações, porém não são quaisquer fatos e relações, mas tão-somente aqueles considerados valiosos para a sociedade.
Por ser um objeto cultural, o direito não prescinde do valor justiça, pois a compreensão e a realização da ordem jurídica relaciona-se à idéia do justo. Aliás, o próprio conceito de direito é constantemente confundido com o conceito de justiça, numa tendência ideológica de identificar a idéia do justo com o direito positivo, especialmente nos contextos puramente políticos ou na linguagem comum. Mas, será que a motivação essencial do direito é atingir a justiça? A justiça pode ser classificada como um valor-fim no ordenamento jurídico?
A justiça é um valor, assim como a certeza e a segurança. De acordo com o princípio de solidariedade axiológica, todos os valores se implicam pelo menos de forma mediata, ou seja, todos os valores se correlacionam. Entretanto, há valores cuja forma de implicação é imediata, como é o caso da certeza e da segurança. Além desses valores, há outros que também se implicam imediatamente, como é o caso da justiça e da ordem125.
Há quem entenda que não existe graduação hierárquica dos valores, já que todos valeriam da mesma forma, porém este trabalho parte da premissa que os valores se organizam de forma hierárquica, ou seja, há valores mais altos e mais baixos. Ressalte-se que a preferência de um valor em detrimento de outros é relativa, pois é determinada a partir das necessidades histórico-culturais de uma sociedade. Ou seja, a organização dos valores em uma graduação hierárquica não é objetiva nem absoluta, pois o homem e os
valores fazem parte de um processo cultural, no qual o que é valioso nos dias de hoje pode não ser mais em outro momento histórico. Assim, a ordenação hierárquica dos valores depende também do contexto histórico-cultural tomado como referência.
Desse modo é que a historicidade também é da essência do valor. O valor é na verdade o produto de uma construção histórica. Não existe valor sem a referência do homem e como o homem é um ser histórico, inserido no domínio da cultura, sua visão sobre o mundo não é imutável. O homem atribui valor a um determinado objeto mediante suas experiências, sua concepção histórica e é importante destacar ainda que o valor é, portanto, mutável no tempo. Ora, se a história é transitória, os valores também o são.
Conforme visto, o valor justiça complementa o valor ordem, ou seja, esses valores se implicam de forma imediata, não podendo ser reduzidos um ao outro. Se a justiça pode ser pensada de forma objetiva como uma ordem justa, esta não seria possível sem a subjetividade da virtude de justiça126.
Diante da pluralidade de perspectivas históricas, a díade “justiça-ordem” pode ocupar a posição de valor-fim em relação à díade “certeza-segurança”, que a partir desse ponto de vista, seria um valor-meio. Entretanto, a classificação de um valor como valor- fim ou valor-meio não é estática e definitiva, tendo em vista o caráter dialético da realidade histórica, já que não só as relações humanas se modificam, mas também os juízos de valoração. Assim, um valor-meio relativamente a um valor-fim pode ser considerado, em relação a outros valores secundários, um valor-fim.
Além disso, embora todos valores se impliquem no mínimo de forma mediata, é possível destacar dentro de um mesmo sistema de referência de tempo e lugar, valores mais altos e mais baixos. O juízo de valor que classifica o valor mais alto num dado momento histórico-cultural é subjetivo. No contexto do ordenamento jurídico atual, o valor segurança jurídica é considerado o valor mais alto, o que não implica uma antinomia entre a segurança jurídica e a justiça, ao contrário, pois conforme visto, esses valores se complementam.
Não se pode compreender a realidade jurídica prescindindo um desses valores, pois a justiça não se estabelece sem uma ordem de segurança e uma das formas de garantia da segurança jurídica é a realização da justiça. Assim, embora sejam valores diversos, não há antinomia ou conflito entre a segurança jurídica e a justiça, pois são valores considerados fundamentais em um Estado Democrático de Direito (a compreensão dos valores depende do momento histórico e do contexto sócio-político).
Embora a idéia de justiça seja muitas vezes confundida com a idéia do direito positivo, a justiça não é o único princípio constitutivo do conceito de direito, pois, como relatado, o conceito de direito é associado também à idéia de segurança jurídica, de ordem e de certeza. Partindo da idéia de que o direito é um conceito cultural e, portanto, uma realidade referida a valores, RADBRUCH salienta que o direito é a realidade cujo sentido é servir à justiça. Ao definir a equidade como a justiça do caso singular, RADBRUCH127 salienta que
“a justiça vê o caso singular do ponto de vista da norma geral; a equidade busca no caso singular a sua própria lei que, por fim mas também, precisa se deixar converter em uma lei geral – pois, tal qual a justiça, a equidade é, em última instância, de natureza generalizada”.
A par das associações possíveis à idéia de direito e por ser um objeto cultural, a compreensão e a realização do direito têm referibilidade à idéia do justo, porém o corte epistemológico fixado nesta dissertação é que a motivação fundamental do direito é a segurança jurídica, ou seja, a idéia de justiça complementa a idéia de segurança, porém a justiça é classificada como valor-meio para atingir o valor-fim: a segurança jurídica128.
5.5. A concepção de Hans Kelsen sobre a justiça
127 RADBRUCH, Gustav. Filosofia do direito. Trad. de Marlene Holzhausen. São Paulo: Martins Fontes,
2004, p. 51.
128 REALE salienta que os valores-meio fundamentais são meios apenas relativamente ao valor-fim, mas são
fins de outros valores secundários. Nesse sentido, este autor considera a paz, a segurança, a liberdade como valores-meio para realização de uma ordem justa. Fundamentos do direito. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998, p. 312-313.