No conjunto documental produzido por meio da História oral, as representações de Vargas são de natureza controvertida. Algumas narrativas obscurecem os impasses da condição autoritária do regime, cristalizando o discurso estadonovista acerca do líder, embora a força da contemporaneidade, inerente a qualquer pronunciamento, oriente os julgamentos. A exposição de trechos do depoimento de A. R. O. permitirá uma melhor reflexão:
Sou contra qualquer ditadura. Prefiro a pior democracia que a melhor ditadura (...)
(...) Eu vejo que Vargas foi um grande presidente. (...) Prova é que ele veio como um ditador. Permaneceu no governo, depois deu aquele golpe de 10 de novembro de 1937 e fixou-se no governo. (...) Mas acontece que depois de todo aquele problema ele teve que sair do governo, foi para São Borja. E estava lá em São Borja, quieto e calado... Deitado na rede, balançando e fumando charuto. Por que o povo brasileiro foi buscá-lo? Será que se busca
alguém, para vir para cá, chefiar a nação sem gostar dele?... Todo mundo voltou com o retrato dele.
(...) Getúlio era um fazendeiro, homem rico, político, advogado, muito inteligente, falava muito bem e foi o homem que criou as maiores coisas para o operariado, todos devem a Getúlio. A carteira de trabalho profissional, as leis trabalhistas foram no Estado Novo.
(...) Considero um grande homem, não teve sede de poder, teve sede de fazer algo pelo Brasil e pelo povo. E fez. (...)
A representação de Getúlio Vargas como um grande presidente, como o principal protagonista de um regime voltado para o bem comum, coincide com sua imagem oficial veiculada nas publicações oficiais. Embora Getúlio Vargas fosse um ditador, fato reprovado pelo depoente, prevalece a imagem do “grande presidente” e do “grande homem”.
Esse depoimento reflete a natureza complexa das lembranças. As representações das pessoas acerca do vivido têm uma dimensão evocativa, ou seja, é uma atitude ativa de interrogação do passado, o qual só adquire efetiva existência a partir dessa interrogação que ocorre no presente. Portanto, recordar e narrar o passado é um trabalho realizado no presente, é esse ato que presentifica o passado, reatualizado-o diante das vicissitudes do presente74. Nesse sentido, ao julgar o regime varguista como uma ditadura, o depoente A. R. O. fez um trabalho de reatualização do passado. Embora condene na atualidade um regime ditatorial, avalia que Getúlio Vargas foi um bom presidente, pois permaneceu no poder, foi reeleito e foi o grande protagonista de inovações sociais.
Outro aspecto não menos importante a considerar acerca do teor desse depoimento refere-se à forma com que a memória nacional reteve a experiência estadonovista. É oportuno ressaltar que, mesmo considerando inúmeros exames realizados ao longo do tempo, o processo de construção da memória nacional acerca da Era Vargas acabou projetando mais aspectos positivos que negativos. As singularidades sobre a memória varguista assentam-se sobre elementos que conjugam dimensões simbólicas e materiais. Ao longo de quase 20 anos de governo, as políticas públicas inovadoras, sobretudo no campo social e cultural, receberam sofisticado investimento político, e, posteriormente, interesses ligados a conjunturas específicas engendraram constantes apropriações do mito e da herança varguista. Sobre o processo de construção da memória social, Ecléa Bosi assevera que:
74 Sobre as potencialidades do trabalho com a História oral, bem como os seus problemas e impasses,
ver: ALBERTI, Verena. Manual de história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004; MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de história oral, 5 ed. São Paulo: Loyola, 2005.
Quando um grupo trabalha intensamente em conjunto, há uma tendência de criar esquemas coerentes de narração e de interpretação dos fatos, verdadeiros “universos de discurso”, “universos de significado”, que dão ao material de base uma forma histórica própria, uma versão consagrada dos acontecimentos. O ponto de vista do grupo constrói e procura fixar a sua imagem para a história75.
Não pairam dúvidas acerca do esforço deliberado do regime estadonovista para construir o mito Vargas. Os meios de comunicação de massa deram outra qualidade à produção das imagens políticas sobre o presidente, produzindo efeitos que suscitavam e exaltavam a conformidade diante da representação de um “homem simples e bom”, que conquistou todos com o seu sorriso contagiante. O sorriso do presidente foi tematizado de muitas formas e em diferentes suportes, inclusive em um livro apologético encomendado pelo DIP para a distribuição nas escolas, O sorriso do presidente, de Paulo Roberto76. O cotejamento dessa obra com a caricatura que circulou no suplemento infantil Malazarte do jornal Estado de Minas, na mesma época, permite depreender as representações recorrentes acerca de Vargas (Fig. 11).
Fig. 11 – Getúlio Vargas – caricatura de Antônio da Silva Nery, Caeté Fonte: Jornal Estado de Minas, Belo Horizonte, 2 abr. 1939. Suplemento infantil
Malazarte, p.4.
O detalhe escolhido pelo autor para acentuar pelo traço foi o sorriso do presidente. Esse traço caricaturado revela a força da representação de Vargas como o “presidente
75 BOSI, Eléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994,
p.66-67.
sorriso”, pois a compreensão da caricatura supõe o conhecimento do aspecto parodiado77. Nesse processo a representação é enfatizada e o seu sentido, reforçado.
Embora em hipótese alguma seja possível desconsiderar os seus efeitos, a propaganda política não encobriu o caráter ambíguo e complexo da experiência autoritária do Estado Novo. A. D. L, quando inquirido sobre a audiência à Hora do Brasil78, responde:
Ninguém ouvia. Só no tempo de Getúlio que não podia desligar o rádio. Soldados ficavam na rua pra lá e pra cá. Não podia desligar o rádio. Tinha que ficar ouvindo. Mas quando não tinha soldados, não ouvíamos.
A natureza coercitiva do regime é aventada diante da imposição da audiência a um programa oficial. Por outro lado, é possível perceber matizes do discurso oficial no depoimento de D. A. C., quando interrogado sobre os comentários feitos na escola acerca de Getúlio Vargas:
(...) em 42 ou 43, houve a Consolidação das Leis do Trabalho. Foi falado, parece que foi uma revolução. Uma revolução trabalhista, pacífica. Uma revolução sem tiro, sem vítima. Não havia leis trabalhistas. O sujeito envelhecia e se não tivesse família para sustentá-lo tinha que pedir esmola. Hoje tem aposentadoria.
É oportuno destacar o sentido revolucionário atribuído pelo depoente à obra social do regime estadonovista, bem como o seu caráter pacífico, referenciando a propalada
democracia social. A eficiente propaganda política associada aos benefícios sociais cristalizou no imaginário político a representação de um ordenamento social no qual os direitos do trabalho transformaram-se em símbolo de justiça social. Assim, ocorre uma assimetria de ritmos dos direitos da cidadania, uma vez que os direitos civis e políticos foram suspensos. No entanto, os direitos do trabalho foram vinculados à ideia de cidadania79. Sem dúvida essa é uma das singularidades da cultura política nacionalista engendrada durante o Estado Novo, portanto, é compreensível a força dessa representação no imaginário político acerca do regime.
77 SALIBA, 2007, p.85-96.
78 A Hora do Brasil era um programa de rádio oficial, levado ao ar a partir de 1934, cuja finalidade era
trazer a informação jornalística diária, sobretudo do poder Executivo. A partir de 1938, sua transmissão tornou-se obrigatória em cadeia nacional por todas as transmissoras de rádio do País. Disponível em: < www.radiobras.gov.br>. Acesso em 10 dez. 2008.
79 GOMES, Ângela de Castro. O Estado Novo e a invenção do trabalhismo. In: Cidadania e direitos