II. BÖLÜM
3.3. Veri Toplama Araçları
Com menos envolvimento da polícia, porém mais aviltante ideologicamente foi a questão dos planos de governo dos candidatos. Durante a coleta do nosso corpus, por três vezes o tema apareceu tanto na Folha quanto no Estadão. Em geral, no momento em que os partidos inscrevem os candidatos que concorrerão ao Palácio do Planalto, também depositam no TSE os programas de governo. Dos três candidatos que analisamos, somente Marina Silva apresentou uma plataforma de campanha com 25 páginas, apontando as diretrizes de um possível governo verde. Nenhum dos jornais chegou a citar nos editoriais o texto do PV. Para os outros candidatos, a Folha de S.Paulo definiu bem, chamando o tema de papelão e papelada. Isso aponta para a direção indicada por Murilo César Soares (1995), para quem os programas e partidos se reduzem e abrem espaço para o candidato fazer voo solo94:
Na política contemporânea, como em Hollywood, instalou-se o starsystem, que tornou a vedete do filme mais importante que a obra cinematográfica. A
94 Citação inspirada em: SCHWARTZENBERG, Roger-Gérard. O Estado espetáculo. São Paulo-Rio de Janeiro. Difel, 1978.
146 estrela do partido obscurece o programa, reduzido a uma plataforma para sua promoção pessoal. A política se faz no singular: é a egopolítica (1995, p.52).
José Serra apresentou um texto com discursos dele feitos no "Encontro Nacional dos Partidos PSDB, DEM e PPS", em março de 2010 e na "Convenção Nacional do PSDB", em Salvador, quando foi indicado ao cargo presidencial. O jornal O Estado de S.Paulo não disse nada sobre o assunto, enquanto a Folha de S.Paulo foi sarcástica:
O TSE recebeu dois discursos de José Serra - no qual cabiam referências a Luís 14 e à necessidade de governar com "prioridades claras". Mesmo que não se saiba quais sejam. Ou melhor, sabe-se perfeitamente. Serão as mesmas dos demais: saúde, educação, segurança, o que mais disserem os marqueteiros, as pesquisas de opinião e o senso comum (FOLHA DE S.PAULO, 2010, p. A2)95.
Já Dilma Rousseff apresentou um programa que gerou críticas dos editorialistas. Este programa continha tópicos considerados radicais, entre as quais: o controle social dos meios de comunicação e o imposto sobre grandes fortunas (leitura da Folha) e controle da mídia; a facilitação da invasão de propriedades pelos sem-terra e a descriminalização do aborto (leitura do Estadão). Segundo os jornais, estas seriam teses aprovadas pelo Partido dos Trabalhadores, em fevereiro, no pré-lançamento da campanha dilmista. No dia 5 de março, faltando quinze minutos para o fim do prazo, advogados do PT substituíram o texto primeiro (com 17 páginas) por outro maior (24 páginas), porém com conteúdo moderado. A justificativa foi de que haviam sido trocados por engano.
Para a Folha, tanto Serra quanto Dilma se prestaram a um "papelão" diante do eleitor, uma vez que eles se diziam preparados, experientes e estavam em campanha não oficial há tempos, sendo que isso era um ultraje com o eleitor e, consequentemente, com a imprensa. Para o Estadão, mais crítico, os petistas usaram do subterfúgio do "se pegar-pegou" – apresentando um texto que agradasse aos filiados partidários mais radicais e depois o retirando para reduzir o prejuízo entre eleitores moderados.
O tema perdeu força durante o pleito e só voltou a ganhar as páginas dos jornais em meados de outubro, quando indicou as principais diretrizes de governo por meio de uma carta, batizada de "Os 13 compromissos programáticos de Dilma Rousseff para debate com a sociedade brasileira". O lançamento oficial aconteceu dia 25 de outubro. Para a Folha, nesse segundo (ou terceiro) programa de Dilma foram incluídas propostas
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tardias, tão inócuas quanto às anteriores ou as de José Serra. Novamente, o Estadão recriminou com mais afinco, apontando as contradições do texto:
Ali se fala em "expandir e fortalecer a democracia política, econômica e social" e garantir "irrestrita" liberdade de imprensa e de expressão. É o contrário do que está na plataforma eleitoral do PT e no texto do decreto que instituiu o 3.º Programa Nacional de Direitos Humanos (O ESTADO DE S.PAULO, 2010, p.A3).
Já o lançamento dos 13 compromissos, para o jornal, faz parte de um jogo de cena. O próprio conteúdo, afirma o jornal, nada mais é do que belas frases às quais ninguém em sã consciência se oporia, como "crescer mais, com expansão do emprego e da renda", "erradicar a pobreza absoluta". A carta de Dilma encontra ecos na "Carta ao povo brasileiro", lançada em junho de 2002, em que Lula garantia a estabilidade econômica e o rigor fiscal ao mercado financeiro e à sociedade. No entanto, a intertextualidade acaba aqui: aquela carta era para se fazer ouvida, enquanto esta nada mais é que um "amontoado de obviedades", sendo que o documento acabaria por só confirmar "a competência da companheirada de Lula na arte da engabelação que aprenderam com o chefe", como citou o editorial próximo do fim das Eleições, em 28 de outubro, denominado “À moda do PT” (O ESTADO DE S.PAULO, 2010, p.A3).
No fim, foi um personagem à parte que mostrou como os partidos encararam a questão do programa de governo na Eleição. O próprio assessor especial de política externa da Presidência da República – de acordo com editorial do Estadão – desdenhou o documento:
Mas a nota mais pitoresca do evento foi a participação de Marco Aurélio Garcia - cuja admiração incontida por Hugo Chávez, Evo Morales, Mahmoud Ahmadinejad e companhia diz o suficiente - ao desafiar os repórteres: "Fizemos uma opção muito clara por um documento sintético. Se você faz um documento muito longo os únicos que vão ler são vocês (sic), jornalistas, para tentar descobrir um probleminha aqui, outro ali. Se vocês quiserem outra coisa, criem um partido e façam diferente." Gente fina. (O ESTADO DE S.PAULO, 2010, p.A3).