• Sonuç bulunamadı

Sanal Zorbalık Kim Tarafından ve Nerede Yapılır

II. BÖLÜM

2.1. Kuramsal Bilgiler

2.1.3. İlişkisel Zorbalığın Yeni Yüzü: Sanal Zorbalık

2.1.3.4. Sanal Zorbalık Kim Tarafından ve Nerede Yapılır

Marina Silva é outra personagem nascida da conjuntura petista. Após uma larga trajetória no partido da estrela, ela anunciou em agosto de 2009 a sua saída, pois havia recebido um convite para disputar a presidência pelo PV. Com uma tranquilidade que lhe é característica, a ex-senadora desligou-se do PT após uma série de rusgas que culminaram no pedido de demissão do Ministério do Meio Ambiente. Sempre próxima dos temas verdes, a relação da ex-ministra dentro do Governo Lula havia se deteriorado em meados de 2007, por conta de atrasos na concessão de licenças ambientais por parte do Ibama68. Foi criticada por atrapalhar as obras de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento69, principalmente na construção das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira (RO) – cuja gestora mor era Dilma Rousseff. Marina, então, escreveu que a decisão de sair do Ministério decorria "das dificuldades que tenho enfrentado há algum tempo para dar prosseguimento à agenda ambiental federal." (CARNEIRO; TOURINHO, 2008). Em 19 agosto de 2009, ela anunciou a desfiliação do PT, acelerada pelo convite para concorrer ao Palácio do Planalto. Oito dias antes da decisão, a bancada do PT no Senado havia divulgado uma carta aberta desejando a permanência dela no partido, com o qual as trajetórias se confundiam70. A resposta, também em carta, foi de elogio ao partido e aos companheiros, diminuindo o tom em relação à carta de demissão do Ministério. De acordo com o texto de Marina Silva, ela buscava "continuar as semeaduras em outras searas"71.

A ode à então senadora não era sem motivo: com uma história de vida marcada pela superação e carreira sempre próxima do socioambientalismo, Marina Silva é respeitada internacionalmente, tendo recebido diversos prêmios ao longo da trajetória política. Após uma infância e adolescência com muitas dificuldades (por exemplo, perdeu a mãe com 15 anos, aprendeu a ler com 16, contraiu hepatite e malária diversas vezes – chegando a correr risco de morte) aproximou-se das Comunidades Eclesiais de Base e, em 1984, ajudou a fundar a Central Única dos Trabalhadores no Acre, com Chico Mendes como coordenador e ela como vice. Em 86 candidatou-se para deputada,

68 Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, ligado ao Ministério do Meio Ambiente.

69 Doravante PAC.

70 A carta pode ser lida no site do jornal O Estado de S.Paulo: PT divulga carta pedindo que Marina continue no partido. Política, ago. 2 Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,pt- divulga-carta-pedindo-que-marina-continue-no-partido,417200,0.htm. Acesso em: 2 dez. 2010.

114

teve expressiva votação no Acre, só que não conseguiu a vaga por conta do quociente eleitoral. Em 1990, entrou como deputada estadual petista e em 1994, com 36 anos, foi eleita a mais jovem senadora do país. Foi fartamente recompensada pela atuação ambiental: recebeu das Organizações das Nações Unidas (ONU) o prêmio "2007 Champions of the Earth" e foi citada em 2008 pelo jornal inglês The Guardian como uma das 50 pessoas que podem salvar o planeta – sendo estes dois os mais importantes dentre os mais de dez prêmios nacionais e internacionais com os quais já foi agraciada72. Em 2010, ficou em 32º lugar na lista dos 100 pensadores globais do mundo – dividindo espaço com demais líderes de partidos verdes da França (Cécile Duflot), Bélgica (Monica Frassoni) e Alemanha (Renate Künast)73, classificadas pela revista como participantes do Green mainstream. Sua principal ação enquanto ministra foi a estruturação do Plano de Ação para Prevenção e o Controle do Desmatamento da Amazônia Legal – a fim de combater o desmatamento desenfreado e reduzir as emissões de dióxido de carbono, plano este que deu certo e apresentou expressivos números desde a implantação.

De certa maneira, a aproximação entre o partido e a personalidade faz parte de um reflexo que Castells (2000, p.153) identifica ao analisar os movimentos sociais relacionados ao meio ambiente. Segundo o autor, esse quadro nasce com o partido verde na Alemanha, na década de 80. A política verde seria formada somente por pessoas que estivessem dispostas a acompanhar a realpolitik, tanto em prol do meio ambiente quanto de outras bandeiras da esquerda sócio-democrata europeia – afastando-se do que são tipos comuns de manifestação verde (protestos como o do Greenpeace são os mais visíveis e conhecidos, mas também existem os segmentos, como ecofeminismo e defesa do próprio espaço, que Castells chamou de "não no meu quintal"). Isso foi apontado no editorial da Folha de S.Paulo em 19 de outubro, no texto “Neutra”. Elogioso, o editorial apresentou uma candidata que, naquele momento, estava derrotada, mas era vencedora. Havia entrado neste paradoxo por conta das convicções tanto no discurso verde quanto no contexto religioso, o que lhe valeu a simpatia de grande parte do eleitorado. Manuel Castells afirmou que ainda está para despontar a relação entre movimentos locais de base popular e mobilizações em torno de uma justiça ambiental como forma embrionária de um projeto alternativo para as sociedades (CASTELLS, 2000, p.167). É o que aponta o editorial: só o tempo dirá como Marina pode reformular o conceito de

72 Vide Referências: Biografia (2010). 73 Vide Referências: Foreign Policy (2010).

115

desenvolvimento para, futuramente, demonstrar que é capaz de transcender as barreiras que a campanha de 2010 lhe havia imposto e se transformar em uma candidata de fato. Já o Estadão, no editorial “A implosão do Plebiscito”, em um elogio incontido, proclamou: “Mas, qualquer que tenha sido a importância do voto religioso para dar a Marina perde de 20 milhões de sufrágios (e outro tanto em porcentagem), ela foi a vencedora política do pleito” (O ESTADO DE S.PAULO, 2010, p.A3).

Diferente do que aconteceu com o primeiro movimento de aproximação entre ambientalistas e política quando, logo no início, foram obtidos diversos cargos, no Brasil, o PV nunca havia conquistado um peso significativo com cargos efetivos nas Eleições. O partido se define como um instrumento de ecologia política e segue os movimentos do fim da década de 1970. Apesar disso, chega a fazer concorrência somente trinta anos depois do início do movimento, quando se aproxima de uma política de carreira.

Como já apontamos, a tendência das eleições à presidência, de acordo com Azevedo (2006), é a polarização entre PSDB e PT. Isto também se refletiu no número de citações à Marina Silva. De acordo com nossos dados, das 65 citações diretas aos candidatos na Folha de S.Paulo doze se referiram a ela (ou 18,4%), enquanto no O Estado de S.Paulo Marina foi citada somente 9 vezes (de 62 citações aos candidatos, ou 14,51%). Para se ter um exemplo, a Folha não se deu ao trabalho de comentar a convenção partidária do PV – o que fez com relação a Dilma e Serra. A candidatura dela somente apareceu pela primeira vez, en passant, em 19 de junho – quando o jornal dedicou um editorial para analisar as candidaturas “nanicas” e citou os candidatos bem colocados nas pesquisas. Após isto, só voltaria à tona em 7 de julho em uma análise dos programas dos candidatos. Na Folha dois textos apresentaram melhor a candidata para os leitores. O primeiro, de 6 de setembro (editorial: “10% verde”) comentou a aposta dela em conquistar jovens com um discurso verde, mas que não estava dando certo, fazendo-a parar na casa dos 10% de intenções de voto. O editorial criticou o “partido débil” de Marina e a confusão que a noção de desenvolvimento sustentável tem em si, quando é tomada como um freio ao crescimento do país. Por fim, condescendente, o editorialista apostou que o discurso de Marina ainda não estava pronto para ser ouvido. Contudo, isso não seria "nada demais" para ela, citando os 16 anos em que ela havia ficado no Senado e governo sem ser ouvida.

Em 10 de julho o nome de Marina foi publicado novamente, no editorial “Leilão Distributivo”. No entanto, o tema era diverso: foi o primeiro e único editorial da Folha

116

que ligou diretamente os três candidatos à questão do Bolsa Família, programa de transferência de renda criado em 2002 por Lula, numa versão relida e ampliada de diversos programas implementados por FHC, incorporando o Bolsa Escola, o Cartão Alimentação, o Auxilio Gás e o Bolsa Alimentação. Segundo está disponível no site do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, eram em 2010 12.632.150 milhões de famílias que recebiam um repasse mensal de cerca de R$ 1.244.780.937,0074. O valor do benefício recebido pelas famílias variava entre R$ 22 a R$ 200, dependendo da renda familiar por pessoa (cujo limite é R$ 140), do número e da idade dos filhos. A figura ajuda a entender a evolução do programa em seis anos.

Figura 2 – Evolução de famílias atendidas pelo programa Bolsa Família - Brasil75

(SECRETARIA NACIONAL DE RENDA E CIDADANIA, 2012).

É imperativo ressaltar que o Bolsa Família não é um programa garantido constitucionalmente. Como o próprio nome diz, é meramente uma política de governo cuja essência é repassar dinheiro a pessoas cujas garantias constitucionais são ausentes ou falhas. Com passos ensaiados pelo governo de Fernando Henrique e ampliados por Lula, o Estado assumiu a responsabilidade de suprir as lacunas dele mesmo e conceder

117

os valores para as famílias mais pobres. Trata-se, evidentemente, de uma escolha política, notadamente voltada para a social democracia que abre mão de investir o mesmo valor, por exemplo, em infraestrutura.

No editorial da Folha, “Leilão Distributivo”, citado previamente, o tema Bolsa Família foi descrito como parte de tabu ou preconceito: do ponto de vista conservador tem-se a ideia de um prêmio de consolação. Do da esquerda, é visto como uma medida paliativa e não uma grande reforma. Porém, durante as manifestações dos candidatos sobre o assunto, as restrições desapareceram – informou o jornal. José Serra prometia duplicar o programa. Dilma Rousseff afirmou que o faria chegar para quem necessitava. Assim, os candidatos apelavam para um discurso de promessas impossíveis, dada a fina correlação que o Bolsa Família tem com o orçamento da União. De certeza, afirmou o texto, era o discurso de que:

Os dois pontos de vista serviram para que o termo "bolsa-esmola" viesse a ser utilizado para desqualificar a iniciativa, conforme fosse petista ou peessedebista a administração que a implementasse. O fato é que, na campanha, desaparecem as ressalvas de praxe (FOLHA DE S.PAULO, 2010, p.3).

Sobre o Bolsa Família os candidatos tinham poucas propostas claras, sem exceções. No entanto, a Folha preferiu desqualificar a de Marina Silva e não a dos outros candidatos. Na campanha, propôs tirar a qualidade de transferência de renda do Bolsa Família e transformá-lo em um programa de promoção econômica e social. O jornal classificou a ideia como "proposta duvidosa, pelos gastos envolvidos na criação de uma vasta camada funcional, facilmente instrumentalizável, de resto, para fins políticos". Além disso, o editorialista criticou como um "momento darwinista" infeliz ela haver dito que tinha o social no DNA.

Até o fim do primeiro turno, Marina Silva foi pouco citada por Estadão e Folha, quando questões religiosas assaltaram o pleito. Desse modo, podemos dizer que, até cruzar com Marina Silva, o PV era mais um na tertúlia partidária brasileira. A política em si tinha um nome maior que o do partido – porém, mesmo assim, foi mera espectadora para os editorialistas dos jornais paulistanos durante a primeira etapa da eleição 2010. Tanto que assuntos ambientais, notadamente ligados à candidata, eram tratados com quase nenhuma referência à acreana. Durante o tempo de nosso estudo, um novo Código Florestal foi aprovado e foram liberados números positivos indicando a queda do desmatamento. Marina foi só se tornar vedete após sair derrotada no primeiro

118

turno com expressivos números, levando a disputa presidencial ao segundo turno, o que lhe garantiu destaque breve. No entanto, a biografia política da candidata e seu partido pouco contaram para o jornalismo opinativo de Folha e Estadão.