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Bazı Suçlar ve Cezaları*

I. VATANA İHANET

O respeito a qualquer regra tem como pressuposto o reconhecimento da sua obrigatoriedade e da função reguladora para as relações (lógicas ou sociais), ainda mais em se considerando um contexto de jogos de regras, os quais se estruturam e se desenvolvem com base nelas. E uma vez que isso não se dá por determinação inata, mas por construção mediada pelas interações sociais, as intervenções da pesquisadora visaram contribuir nessa direção. Serão comentadas quatro situações ocorridas no primeiro semestre.

Uma forma de desrespeito às regras em uma situação de jogo é minimizar sua importância, acreditando ser possível prescindir delas. No primeiro trecho comentado a seguir, Vítor expressa uma atitude desse tipo. A intervenção de P1 teve como objetivo: socializar a questão colocada por Vítor para o resto do grupo, questionar sua consistência e, assim, destacar a importância da regra. A resposta do grupo indica que essa atitude não era unânime, perdendo sua força.

- Excerto 35:

P1: "Então hoje vamos retomar o Can-Can, mas, como faltaram alguns, achamos que dá para ficar com um grupo só".

Carlos: "Vamos!"

P1: "Antes, é legal nós relembrarmos as regras". E vai até a lousa.

Alguns reclamam: "Mas não precisa [...] a gente já jogou [...]"

P1: "Mas nós vimos que algumas não foram seguidas corretamente na última vez".

Vítor: "Mas a gente quer jogar [...] a gente não precisa de regras. Grupo continua falando junto.

P1 diz: "E será que dá mesmo para jogar sem regras, como falou o Vítor?" Fernando ri e concorda com Vítor (aparentemente tentando agitar o grupo). Robson e Wesley discordam, dizendo que sem regra não dá para jogar, pois cada um faz o que quer […]

E eles insistem: "Vamos, lá, pessoal! Tá muita bagunça!" E ele começa a dizer o valor da carta +1, colaborando com o que P1 pedira. Os outros acabam se concentrando na retomada das regras e, depois disso, começam a jogar mais calmos. (RO.8)

A falta de respeito a uma regra pode ocorrer devido a um erro de interpretação da mesma, ou a uma tentativa deliberada de burlá-la. No próximo exemplo, durante uma partida do Jogo Imagem & Ação, a pesquisadora verifica uma situação de aparente desrespeito a uma regra, na qual essa distinção não parece muito clara. Ela intervém questionando e confronta a posição de Carlos e de sua equipe. A primeira reação do grupo é atribuir à pesquisadora a responsabilidade pela solução da situação. Diante disso, ela socializa o problema e questiona o grupo, buscando implicá-lo com a busca de um encaminhamento para a situação. As duas equipes, após argumentarem, resolvem voltar a jogada e combinam que assim fariam em situações semelhantes. Essa atitude do grupo é bastante relevante, pois inclui uma regulação antecipatória de outros conflitos da mesma natureza.

- Excerto 36:

Carlos faz a mímica (todos riem). Faz gestos e sua equipe diz: "mijar, fazer xixi, “urinar”!" Carlos, diz: "Aí! Acertamos!"

P1 pega novamente a carta e diz: "Mais ou menos, Carlos, olha aqui: vai valer assim?" Ele insiste que sim, mas P1 diz que é preciso consultar o grupo e mostra que está escrito “urina”. Carlos insiste que vale. Os de sua equipe concordam. Júlio, da outra equipe, fica bravo e começam, todos, uma grande algazarra.

Fernando, Júlio, Carlos parecem querer ganhar a questão no ‘grito’, falando ao mesmo tempo. O grupo todo pressiona

P1, que diz: "Espera aí, gente! Eu não estou dizendo se valeu ou não: eu estou colocando para vocês discutirem. Faz parte desse jogo ter que decidir alguns impasses: faz parte da regra. E então, vai valer ou não?"

O grupo se divide, pois parte acha que valeria (a equipe de Carlos) e a outra, que não. Depois de alguns minutos, por fim, decidem voltar a jogada e que nas próximas, quando houver dúvida, farão o mesmo, ou seja, discutirão com o grupo todo. (RO.6)

A próxima cena, em outra partida do mesmo jogo, mostra uma situação efetiva de trapaça: um adolescente (Danilo), que deveria fazer a mímica, diz a palavra para um jogador de sua equipe. Júlio, integrante da outra equipe, e a pesquisadora percebem o que ele fez e o primeiro reclama para o resto do grupo. O adolescente nega o fato e ri da acusação feita contra ele. A pesquisadora sugere um encaminhamento, mas Fernando une-se a Danilo para agitar o grupo e sugere que ela estaria tentando favorecer a outra equipe. A ação seguinte da pesquisadora é ignorar o comentário acusatório, questionar e implicar todo o grupo com a questão: acaba prevalecendo a atitude de respeito à regra e o grupo decide por uma penalidade para a equipe que trapaceara, voltando a jogada e perdendo a vez.

- Excerto 37:

Num momento do jogo, Danilo assopra a palavra para a sua equipe. P1 e Júlio percebem e esse último o acusa. Danilo nega, mas fica rindo, de certa forma confirmando a acusação. P1 diz que viu o fato, que isso não era correto e achava que deveria passar a vez para a outra equipe.

Os integrantes da outra equipe concordaram e as da equipe de Danilo se agitam e começam a reclamar de P1 e Fernando sugere que ela estava roubando: "Você tá querendo ajudar a outra equipe! Tá roubando!"

P1 ignora o que ele diz e questiona a outra equipe sobre qual vai ser sua posição.

Vítor, Júlio e Lia começam a insistir para que a jogada seja anulada. (A equipe de Danilo, Fernando e Carlos parece querer tumultuar e desviar o foco de atenção, pois embora a tenham reclamado da atitude da pesquisadora, eles não sustentam uma argumentação em defesa de Danilo). O grupo acaba anulando a jogada e passa a vez para a outra equipe. (RO. 5)

O próximo exemplo apresenta uma situação de trapaça e desrespeito para com o material do jogo, envolvendo o mesmo adolescente. Danilo tenta trapacear no jogo escondendo cartas sobre a perna e, depois, dentro da calça, o que é notado pela pesquisadora e por mais um colega, que ri da situação. A pesquisadora intervém primeiramente buscando reprovar seu ato e implicá-lo diante dele. Busca, também, acolher o adolescente, identificando junto a ele uma forma de reparação do que fizera. Essas intervenções não obtêm o resultado esperado, e o adolescente mantém uma postura de negação do ocorrido.

- Excerto 38:

Grupo 1, formado por Danilo, Vítor, Júlio e Carlos insiste para P1 jogar o Can-Can com eles, um pedido que já aparecera desde a oficina anterior e ela aceita. Durante o jogo, Danilo fica testando os outros jogadores e tenta esconder cartas embaixo da perna, sentando sobre elas. Carlos e Vítor percebem e o reprovam, dizendo para ele segurá-las na mão (nesse jogo ganha quem fica primeiro sem cartas na mão). P1 observa a situação. Haviam combinado que quem terminasse as cartas, ficaria observando os outros terminarem. P1ganha e é seguida por Vítor, permanecendo Júlio, Carlos e Danilo.

De repente, Carlos começa a rir, falando para Danilo: "Meu, pára com isso! Tira essa carta daí!"

P1 vê quando Danilo retira três cartas que colocara dentro da calça e fala, em tom sério com ele: "Danilo, isso já é demais! Acho que você passou dos limites".

Júlio levanta e diz: "Cara, que nojo!"

E o jogo termina, com todos se levantando, com expressão de repulsa. P1 vai falar com Danilo, que mantém uma postura de negar o fato e rir, desafiando a autoridade da

pesquisadora. P1 fala que não foi só ela que viu, que aquele material não era dele e aquela atitude não era aceitável. Diz que na saída da oficina, conversarão sobre como resolver a situação.

[...]

Na saída, Danilo continua negando o que fizera, ou argumenta que aquilo não foi nada, que ele não estragou o material. P1 insiste que aquela não era uma forma de cuidado nem de respeito com o jogo alheio, e coloca uma solução que era ele fazer uma troca: levar um jogo novo, ficando com aquele para ele. Ele diz que não vai levar, que se P1 quer que ele saia das oficinas, é só falar. P1: "Você está distorcendo o que eu disse, Danilo, porque, ao contrário, eu acho que essa é uma forma de você continuar com outra postura, o que pode ser muito positivo e válido para a sua vida".

Ele repete que não vai trazer, então que vai sair. P1 insiste que a decisão de sair é dele, não dela, mas que a proposta era que ele continuasse, mas podendo reparar algo de errado que fizera. Ele persiste insistindo que não irá levar um jogo novo. (Na semana seguinte, Danilo não compareceu à oficina e mandou o jogo pela coordenadora pedagógica - a quem fora comunicado o ocorrido - dizendo que não voltaria às oficinas, o que de fato ocorreu). (RO. 9)

Nas oficinas seguintes o assunto repercutiu entre o restante do grupo, que se mostrou descrente de que Danilo levaria outro jogo, e não expressou reação em seu favor. Ao serem informados de que ele assim o fizera se surpreenderam, e todo o episódio foi debatido com o grupo no sentido de respeito ao universo coletivo do trabalho e das possibilidades de se reparar um erro.