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Em relação à rotina diária, comentaremos exemplos de intervenções relativas aos três tempos das oficinas: Momento Inicial, Momento do Jogo, Momento Final.

Como descrito na Fundamentação metodológica, cada oficina estruturou-se em três tempos sucessivos: Momento Inicial, Momento do Jogo e Momento Final, com a duração média de 15, 60 e 15 minutos, respectivamente. No desenrolar do processo, houve ocasiões nas quais essa estrutura sofreu modificações, como mostram os exemplos comentados a seguir.

Em três ocasiões específicas o Momento Inicial teve sua duração bastante ampliada, atingindo entre 30 e 40 minutos. Na Oficina 8, ainda no primeiro semestre, após a interrupção de três semanas de greve da escola. E no segundo semestre: na Oficina 14, quando aconteceu conversa sobre saída de alguns adolescentes e nas Oficinas 16 e 17, antes e depois de uma

viagem45 que os adolescentes fizeram com a escola.

Na primeira ocasião mencionada, o tema que ocupou o centro da conversa foi o relato de brigas que haviam ocorrido naquela manhã, na escola. A pesquisadora observa e acolhe o movimento do grupo, questionando sua possível relação com o período de greve e como eles haviam experimentado aquele período. A resposta dos adolescentes parece confirmar que esse fato havia mobilizado o grupo.

- Excerto 6:

Júlio chega comentando de uma briga com um colega de classe: foi suspenso e não virá à escola no dia seguinte.

Vítor e Rafael concordam com Júlio, que revidou fisicamente uma provocação. Estão tensos, falando de várias situações de agressividade e Rafael comenta que também brigou.

Carlos chega alguns minutos depois e conta que brigou.

Júlio comenta: "Nossa, quem mais brigou hoje? Parece que todo mundo brigou, não fui só eu!"

Roberto pega a caixa do jogo Can-Can, coloca debaixo do braço e senta-se ao redor da mesa com os outros.

P1 chama o grupo para começarem: "Vamos lá, pessoal! Vamos sentar, vamos começar!" Demoram um pouco, recomeçam a falar das brigas que aconteceram.

P1 diz: "Então, o Júlio brigou, o Rafael, você também […] E você, Carlos?" Carlos: "Mais ou menos."

P1: "Por que será que está esse clima? Será que tem a ver com a interrupção por causa da greve?"

Júlio e Carlos reclamam bravos da greve, que não agüentam mais falar dela, que os professores chegam e ficam falando um monte de coisas.

E Carlos diz: "Eles não estão nem aí!"

E o grupo começa a contar o que fez nesse período, uns viajaram, outros trabalharam com a família, dormiram muito e fiaram no computador. (RO.8)

45 Todos os alunos do 8° ano da escola viajaram para a cidade de Santos, litoral paulista, como atividade

Na sequência da conversa, ao colocar para o grupo a mudança no calendário das oficinas, a reação de Júlio e do grupo indica satisfação com a proposta de reposição.

- Excerto 7:

P1 coloca o assunto do ajuste do calendário das oficinas: "Não sei vocês perceberam, olhando na folha de presença, que hoje seria o último encontro do semestre"

Júlio exclama surpreso: "Já?"

Robson diz que viu na folha de presença.

P1 continua: "Mas, em função dessa interrupção, eu e a Cláudia reorganizamos nossa agenda […]"

Júlio interrompe, brincando com certa ironia: "Não precisa fazer isso pela gente! […]" P1 continua: "E nós vamos propor mais duas oficinas, além do dia de hoje". Júlio comemora: "Oh! Legal!"

O grupo fica animado e concorda que as oficinas irão até 02 de julho. (RO.8)

Quanto à segunda ocasião, na Oficina 14, como o tema principal visou à decisão e aos motivos de cada um quanto à permanência nas oficinas, optamos para analisar as intervenções no item relativo à “responsabilidade pelas decisões”, mais adiante.

Por fim, apresentaremos abaixo dois trechos iniciais da oficina anterior (16) e da posterior (17) à viagem com a escola. Neles, as intervenções visaram acolher o movimento do grupo, oferecendo um espaço para que pudessem socializar suas experiências e, o que também parecia importante, sedimentar a confiança e a proximidade com as pesquisadoras, ao exporem assuntos afetivos pessoais.

- Excerto 8:

Júlio, Robson, Roberto e Vítor chegam juntos e vão pegar a lista de presença para assinar. P1 fala para Júlio escrever as justificativas das faltas.

Júlio: "Mas eu só faltei uma, que eu vim te avisar do trabalho". P1: "Calma, Júlio, não to querendo pegar no seu pé, Júlio". Robson lembra: "Mas você faltou duas mesmo […]"

Júlio: "É […] isso tá certo, faltei nas duas últimas". (Júlio mudou o corte de cabelo, mais adolescente, raspado do lado, e parece ter mudado um pouco a postura, diminuído o jeito mais infantil).

Júlio fala: "Eu faltei porque eu fui sair com meu pai […] Eu fui no shopping com ele, comprar pijama para mim. Comprei escova, perfume […]"

P1: "Ah, vocês vão ter a viajem de Estudo do Meio na semana que vem, não é?" Júlio: "É, para Santos".

Júlio está bastante empolgado e começa a contar que duas meninas chegaram para ele e disseram que vão ficar no quarto com ele.

Vítor ri do colega: "Aí, meu! Não pode! […]" Robson: "Viche! Que meninas são essas?"

Júlio: "É quente, meu, é quente, pode perguntar para ao Vítor que ele sabe […]" Robson: "Mas o que elas te falaram?"

Júlio: "Uma delas falou que tá afim de mim!" E, virando-se para Roberto (que já foi no ano anterior), pergunta: "Como é lá no hotel?" Roberto começa a descrever empolgado o hotel em que vão ficar e alguns locais que irão visitar. (RO.16)

- Excerto 9:

Roberto chega primeiro, alguns minutos antes do horário.

Júlio e Robson chegam juntos, dançando e cantando: "Bom dia professora como vai? Bom dia professora como vai?"

Vítor vem logo atrás.

P1 e P2 comentam: "Nossa , olha quanta animação!"

Sentam-se ao redor da mesa e P1 pergunta: "E aí, como foi a viagem?" Vítor: "Não sei […]

P1 brinca: "Sei lá, mil coisas! […] Roberto: "E aí, gostaram da piscina?" Júlio: "Nossa, mano, que delícia!" Robson: "Muito bom mesmo!"

Roberto: "Qual o número do quarto de vocês?" Júlio: "325".

P1: "Quantos ficavam em cada quarto?"

Vítor: "Tinha de 3 e de 4. Mas a melhor parte foi da praia! […]"

Júlio: "Foi não […]" (Vítor e Júlio estão enigmáticos, fazendo um mistério, mas, parece, querendo contar também, especialmente Vítor).

Vítor: "Se fomos? Foi na ponte que aconteceu… Vuuuuu! " Ele está sorridente, descontraído. Roberto: "Aposto que ele foi lá com a namorada […]

Vítor ri meio sem graça e comenta: "Ô, foi maravilhoso!"

P1: "Puxa, que romântico, Vítor! E para você, Robson, como foi?"

Ele está mais envergonhado e Júlio fala: "Nós ‘ficamos’ com umas minas, lá, muito loucas!" (RO.17)

O Momento do Jogo aconteceu em todas as oficinas, sofrendo redução em algumas devido ao prolongamento do Momento Inicial ou por conta da realização das atividades de avaliação (Oficinas 5, 9 e 17). Nestas ocasiões, conversava-se com os adolescentes e propunha-se estendê-lo, ocupando parcial ou integralmente o Momento Final (que por essa razão, não aconteceu em algumas oficinas). Essa mudança era bem recebida pelo grupo, que preferia a situação de jogo aos momentos de discussão, como expressam Carlos e Júlio, o que destacado pela pesquisadora.

- Excerto 10:

Como o Momento Inicial foi mais longo e foi feita a segunda atividade de avaliação escrita, P1 propõe que continuem jogando o Can-Can até o final do horário.

Roberto exclama: "Valeu! "

Carlos comenta: "Eh! A gente vai poder jogar mais! Não vai ter tanta falação hoje!" P1: "Então você prefere jogar, né, Carlos?"

Carlos: "Claro!"

E Júlio concorda: "É, jogar é muito mais legal!" (RO.9)

No último exemplo abaixo, além de ter-se prolongado o Momento do Jogo, ocorreu um prolongamento de alguns minutos no horário de saída. Após a pesquisadora comunicar o encerramento do horário, o próprio grupo solicita uma prorrogação para a pesquisadora. Ela observa que estavam de fato bastante envolvidos, acolhe sua colocação e implica o grupo na decisão (pois levaria a um atraso no horário da saída). Todos se animam e compartilham da decisão de ficarem alguns minutos mais, e a animação persiste durante a saída da sala.

- Excerto 11:

P1 consulta o relógio e fala: "O tempo já acabou, pessoal!"

Carlos faz um pedido: "vamos jogar só mais uma hoje, vai, Heloisa!" O grupo faz coro bem humorado: "Deixa! Deixa!"

P1: "Bom, então que tal vocês fazerem mais uma palavra? Poderia jogar as duas equipes junto".

Carlos: "Então, tá! Valeu!"

E já se levanta. Jorge e Danilo, também levantam, e todos se animam. P1: "Vocês escolhem quem vão mandar para fazer a mímica".

Escolhem Danilo e Amanda que fazem a mímica juntos. As duas equipes estão focadas e empenhadas em vencer, tornando bastante disputada a palavra.

Fernando é quem acaba acertando: “deixar cair”.

Todos saem comentando as últimas jogadas, num clima leve e descontraído. (RO.6)

Situações em que ocorreram intervenções para aumentar ou diminuir os três momentos da Rotina Diária

Momento Inicial Momento do Jogo Momento Final

Foi ampliado em três ocasiões: - Conversa sobre eventos ocorridos na escola

- Conversa sobre permanência nas oficinas

- Relatos da viagem realizada com a escola

Foi reduzido devido ao aumento do Momento Inicial e teve seu tempo ampliado em função da:

- Valorização do envolvimento no jogo

- Inclusão de sugestão dos sujeitos

Sofreu redução ou deixou de ocorrer em função da: - Ampliação do Momento do Jogo

Quadro 3: Lista de situações relacionadas à Rotina diária Fonte: Dados da pesquisa