Entrevistando os dirigentes do IDER pude inteirar-me dos seguintes dados:
a) a primeira experiência da entidade com o Curso de Energias Renováveis e Desenvolvimento Sustentável e Eletricidade Básica se deu no ano de 2002 (a mais numerosa, com trinta alunos, cinqüenta por cento de cada sexo);
b) o curso tem oito meses de duração e contempla conteúdos específicos de energias renováveis e eletricidade básica, além de discussões sobre desenvolvimento sustentável, bem como de debates sobre empreendedorismo, associativismo, cidadania e artes;
c) o objetivo básico do curso é promover a empregabilidade;
d) além das aulas teóricas e práticas a entidade realiza visitas às famílias dos alunos;
e) por turma ingressam cerca de vinte alunos, sob as seguintes condições: ter entre 16 e 24 anos; estar fazendo ou ter concluído recentemente o nível médio; morar
na região metropolitana de Fortaleza/CE; ser oriundo de escola pública; ser aprovado no exame de seleção promovido pela entidade;
f) após o término do curso, que conta com a chancela do CEFET/CE (Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará), a entidade continua mantendo contato com os “formados”, quer por meio de eventos periódicos (formação de novas turmas, firmação de novos contratos de apoio etc.), quer pela visita daqueles à sede do IDER. Por isso, em julho de 2004 a entidade sabia que cerca de setenta por cento dos formados na turma de 2002 estavam empregados – na área do curso ou em outras;
A inovação na experiência da ONG fez com que, ao término da primeira turma (2002), sessenta por certo dos formados tenham prosseguido no estudo, com a inclusão dos módulos de Formação Humana e Cidadania.
A turma de 2003, composta por vinte e sete alunos, com idade média entre 20 e 22 anos, contava com dois casados. Ao final do curso dezenove alunos conseguiram ser empregados, e em julho de 2004 (posto que continuaram sendo acompanhados) sabia-se que dezoito, dos dezenove ainda estavam empregados e dois outros haviam ingressado no mercado de trabalho formal. Seus trabalhos eram diversos, variando do ingresso no próprio IDER ou no programa Atelier da Juventude (do qual falei no capitulo anterior) à criação de uma ONG, e o exercício de atividades como garçom, cobrador (em empresa especializada no ramo) e Guarda Municipal (em Sobral/CE).
Acompanhei a fase final do curso realizado para a turma de 2004, tentando, tanto quanto possível a um personagem alienígena, integrar-me às atividades desenvolvidas com o grupo. Eram quinze rapazes e cinco moças (vide foto – ANEXO C – no convite de formatura da turma), selecionados de forma rigorosa entre os inscritos, que necessariamente deveriam advir da escola pública, demonstrar interesse para a área de conhecimento do curso, ter um perfil sócio-econômico de baixa renda, estar na faixa etária de 16 a 24 anos.
Ali assisti aulas ministradas sobre cidadania e associativismo. Participei de oficinas de arte (chegando até a produzir um sofrível quadrinho – APÊNDICE A). Lanchei com a turma e discuti o que eu fazia (tese) e o que eles faziam (ali e fora do IDER). Ao lado disso participei de discussões cujos focos iam desde a visita (então a ser feita) a um assentamento rural em Itapipoca às eleições municipais (de 2004).
Pude sentir que, por um lado, o curso estimulava-os com:
a) uma bolsa de estudos de cem reais por um turno (quase meio salário mínimo, há época), mais do que muitos pais conseguiriam por igual jornada;
b) uma titulação respeitável (de uma IFES – Instituição Federal de Ensino Superior);
c) a possibilidade de ingresso no mercado de trabalho.
Por outro lado, ao final da sua formação no IDER, eram emocionadas as falas dos participantes acerca do crescimento da auto-estima pela aprovação na seleção para o
Curso e pelos contatos que firmaram. De outra sorte, também falavam do
crescimento pessoal por terem tido a oportunidade de conviver com situações a partir das quais eram levados a dividir saberes, serem criativos e críticos.
Como já expressei, não alimento a impressão de que estava ali como um semelhante – até porque todos sabiam do motivo da minha presença e fui chamado em certo momento para discutir com a turma um tema ligado a minha tese, sob a órbita do Direito. Por outro lado, as motivações do meu objeto de estudo estavam ligadas principalmente ao papel das ONGs no fomento ou apoio à inclusão de adolescentes no mercado de trabalho, logo não havia prejuízo para o objetivo perseguido; ao contrário, as “coisas” se davam às claras.
Coma já foi dito, “minha turma” tinha vinte alunos, dos quais seis estavam empregados ou em regime de estágio. Dois já cursavam nível superior (em áreas não correlatas ao Curso).
Durante as aulas, nas conversas informais no “recreio”, quando fazíamos as “tarefas artísticas”, durante a minha palestra, nas caronas para os poucos que iam para um destino comum ao meu, na observação às falas finais (término do
Curso) pude constar que os alunos do IDER eram:
a) interativos – segundo o tema, a metodologia do expositor e a personalidade de cada aluno (p. ex.: Rogerson com o Prof. Rubenildo);
b) ora brincalhões, ora introvertidos – segundo a personalidade de cada um (p. ex.: Thiago versus Mauro);
c) seguidores de modismos – rapazes com cortes de cabelos ousados e brincos nas orelhas (p. ex.: George);
d) tão cheios de dúvidas vocabulares como qualquer grupo de alunos da sua faixa etária com parca atenção à leitura e à pesquisa (independente de classe social ou escola que freqüenta – p. ex.: Karine, Alisson, Leonardo etc.);
e) durante a Oficina de Arte da Profa. Teresa Portela, capazes de (com todas as limitações impostas a aqueles adolescentes de baixa renda):
x produzir arte, com prazer;
x desenhar em tela com tintas e informações novas sobre esse mundo desconhecido;
x liberar o humor (mesmo que ora debochado);
f) no tocante à minha exposição sobre Direitos Trabalhistas e o adolescente no Brasil:
x bem informados;
x conscientes do seu lugar no mundo do trabalho;
x atentos às dificuldades passadas por seus pais no mercado de trabalho;
g) na avaliação final do Curso:
x gratos pela oportunidade de ver o mundo com outras lentes – mais aperfeiçoadas e geralmente só conhecidas pelas classes sociais mais abastadas;
x mais seguros de suas potencialidades;
x capazes de auto-crítica [como dizer que: “Chegou ali egoísta e egocêntrico”(Alisson); “Chegou ali inacabado, em construção” (Lenilson); “Antes era insegura. Que embora ainda com medo se vê entusiasmada”(Leuda); “Tenho certeza de que vou ser um grande músico” (Rodrigo); “Cheguei todo destrambelhado, fuleragem. Quase no final do curso estou adquirindo forma”(George); “O IDER é um realizador de sonhos” (Rafael); “O IDER foi como um sopro no balão de minha vida”(Clessiane); “Antes eu desistia diante da pressão externa, hoje estou mais forte” (Ana Paula); “O mercado de trabalho para mim ainda é um monstro. Não tenho tantas qualificações e desconfio das minhas habilidades” (José Anderson) etc.].
Por outro lado, ficou claro que a equipe do IDER, assim como é capaz de estimular seus alunos a se descobrirem como pessoas em desenvolvimento, a brincar com o conhecimento adquirido, testar suas aptidões, também é capaz de aprovar os mais aptos e reprovar – por mais que lhes fosse incômodo – até mesmo os alunos atentos e interativos, mas que não foram bem sucedidos nos exames.