Çok zen gin, her şey den müs tağ ni olan
ALLAH ZAMANSIZ VE MEKANSIZ OLARAK HER YERDEDİR
É possível constatar que as ONGs avançaram nas últimas duas décadas de um nível de pouca atenção à questão da infância trabalhadora para um patamar de compromisso com pressupostos éticos e de respeito a convenções internacionais sobre a matéria.
Por outro lado, a falácia da conciliação entre trabalho e escola continua sendo apresentada à sociedade como fácil de ser concretizada. Não há como um adolescente de baixa renda (mal alimentado, por vezes tendo que percorrer longas distâncias entre a casa e a escola e entre qualquer uma destas e o seu lugar de aprendizado ou trabalho) ter bons resultados educacionais sem um amplo acompanhamento nesse particular, que acaba sendo a sua tarefa mais difícil e mais fácil de ser abandonada ou simplesmente relegada a um nível inferior.
Percebo que ONGs, Estado e iniciativa privada têm expressado sua preocupação em reduzir a evasão escolar e estimular melhores resultados escolares dos adolescentes e jovens a que atendem, na perspectiva da profissionalização e/ou da colocação legal no mercado de trabalho, mas pouco será conseguido sem uma política de acompanhamento do desempenho escolar (inclusive mediante reforço escolar e visão integrada da escola à vida). Temo que em alguns casos a escolaridade possa ser mantida pelo adolescente apenas por que é condição indispensável para ter acesso a esses projetos profissionalizantes e/ou de inserção no mercado de trabalho, mas sem qualquer motivação por parte do educando para a formação escolar.
Veja-se que não defendo a opção entre a escola e o mundo do trabalho para todos os adolescentes, até porque essa opção não me pertence. Pessoalmente acho que os adolescentes deveriam ser preservados do mercado de trabalho (sendo apresentados a ele pela escola, família e instituições sociais representantes do capital e da força de trabalho – sindicatos e empresas), mas essa minha utopia se faz impossível na hora em que alguém precisa ingressar precocemente no mercado de trabalho para comer, vestir, divertir-se... viver.
Sendo assim, é melhor que não se mascare a existência de adolescentes como José John Lennon dos Santos, 14137. José conseguiu migrar, graças ao trabalho de uma ONG e do Estado, da condição de “catador de materiais recicláveis” [forma metafórica que esconde a condição daqueles que são levados a retirar o seu sustento do lixo alheio, que raramente está selecionado por materiais (papel, vidro, plástico etc.)], para a de artesão. Com isso, mais do que se cumpriu a Lei, ao se oportunizar o acesso de José a elementos de alta cultura (no seu caso, via música, dança e artesanato) e a uma possível ascensão social, se investiu na dignificação de sua passagem pela vida.
Manoel Messias Moreira da Silva, coordenador de Programa do Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS) e do Consórcio Social da Juventude, em Fortaleza e Região Metropolitana, argumenta que, em nosso País, as
ONGs vêm implementado, em parceria com governos, empresas e agências de cooperação internacional, projetos relevantes de inclusão social (SILVA, 2005).
Silva está correto, e mais do que os números levantados por projetos como o que ele coordena vêm em seu auxílio: a própria demanda dos adolescentes de baixa renda por postos de trabalho justifica a existência de ONGs com tal atenção social. Como veremos no capítulo seguinte, o mesmo tipo de demanda acode às Entidades de
Referência.
Mais do que uma imposição legal (art. 62 e seguintes do ECA), o acesso ao trabalho e à aprendizagem é uma questão de política pública. Hoje, creio que, para várias ONGs, ações voltadas para o mundo do trabalho e sua inter-relação com os adolescentes representam mais do que uma forma de garantir sua existência ou justificar-se perante à sociedade e parceiros locais e internacionais; possibilita-lhes interferir na construção de acessos dignos ao mundo do trabalho, bem como ao mercado de trabalho, para os adolescentes que atendem.
Numa leitura apaixonada, pela educação, pelos adolescentes e pelas ONGs – coisas consideradas, por alguns estudiosos, inadequadas a um pesquisador,
chego a crer que num futuro de médio prazo (duas décadas) as ONGs deverão deixar de desenvolver tal função social, se forem implementadas profundas mudanças na qualidade de vida do nosso povo. Mas tomem isso como um desejo (quase um delírio virtuoso), algo que pode ser descolado dessa tese para atender aos rigores da academia.
Isso se dá pelo fato de considerar que o lugar privilegiado das ONGs, como entidades da sociedade civil, não deve ser o de formar pessoas para o mercado de trabalho, (para isso já há uma larga estrutura instalada, talvez merecendo apenas ser revisada), mas o de contribuir para que possamos ler a vida e sua mudanças históricas. Nisso vejo um dos papéis educacionais mais relevantes dentre os empreendidos pelas ONGs.
V “EU QUERO TER DINHEIRO, SUCESSO E FAMA”[...]
Escolhi para título desse capítulo parte de uma frase recitada por uma das entrevistadas por Minayo (1999, p. 216), que fiz questão de citar no capitulo anterior. Com isso tento expressar que o que veremos a seguir é parte de um desejo escrito nas entranhas de um simbólico tão geral quanto culturalmente possível; a relação entre o ser e o ter.
Dividi o capítulo em três momentos. No primeiro, farei a exposição de informações obtidas acerca das entidades de referência (IDER e ELO AMIGO), objeto de entrevistas com seus dirigentes e membros (2004), observação participante em diversos momentos (2004 e 2005) e análise de documentos das entidades ou, no caso do ELO AMIGO, sobre elas. Nos momentos posteriores farei a crítica das informações recolhidas e apresentarei as minhas impressões sobre suas práticas.