A Lei nº 6.494/77 prevê a participação de estudantes de estabelecimentos de ensino superior e de ensino profissionalizante de nível médio ou supletivo em atividades profissionalizantes, tanto em entidades como em empresas. Esse tipo de atividade ligada a um acompanhamento teórico caracteriza o estágio. Como já foi dito, o estágio não cria vínculo empregatício e o estagiário poderá ou não receber bolsa. O adolescente somente poderá estagiar se estiver incluído em algum tipo de ensino teórico, profissionalizante.
Ao contrário da chamada Lei do Aprendizado (Lei nº 1.097/2000), que vimos há pouco, a Lei que regula os estágios traz poucas possibilidades de “equívoco” por parte do empregador. O que se vê freqüentemente é uma deturpação dessa relação profissional de treinamento de mão-de-obra com a intenção de baratear custos e burlar as relações de trabalho. Assim, são contratadas como estagiários pessoas que não irão exercer essas funções (algumas porque não estão em sistema formativo) ou de quem serão exigidas tarefas que excedem as previstas no cargo.
Fora da situação acima descrita (Lei nº 6.494/77), não há de se falar em estágio. Inclusive faz-se mister evitar nomenclaturas incabíveis, algumas detectadas em relatórios de entidades governamentais e não-governamentais pesquisadas anteriormente (COLARES e PAIVA: 2003), tais como experiência,
vivência, partilha etc.
3.8 Sobre o direito dos adolescentes ao trabalho e/ou a formação para o trabalho
Considero que o direito do adolescente de acesso ao mercado de trabalho deve ser visto como tal, nunca como um dever destes de trabalharem. Tal prudência justifica-se principalmente para que não se confiram foros extensíveis a
algo que se tem mostrado característico de países não-desenvolvidos ou em processo de desenvolvimento.
No caso brasileiro, o número de adolescentes que acorrem aos postos de trabalho ou ao sistema de aprendizado é, em sua maioria, composto por pessoas oriundas das camadas mais pobres da sociedade. Esse quadro se inverte, entretanto, no tocante ao sistema de estágios, visto que se exige maior qualificação e vinculação ao sistema educacional, para a ocupação de tais vagas.
Reputo, com amparo normativo, ético e teórico – dos que me precederam em estudos semelhantes – que:
I. Por Lei, é direito básico das crianças e adolescentes desenvolverem-se. Entendo que esse processo de desenvolvimento contempla além do acesso à alimentação, saúde e instrução, aspectos como acesso à alta cultura, lazer e relações de afeto;
II. É dever de todos contribuir para esse desenvolvimento da criança e do adolescente. Não só em questões como a mantença (geralmente assumida pela família, e em situações excepcionais pela comunidade ou Estado), mas também no tocante a exemplos de solidariedade e “urbanidade” a presença da comunidade e da sociedade se faz fundamental para a formação humana, notadamente nessa fase da vida.
III. O direito de trabalhar para os adolescentes é restrito. Antes de mais nada, o acesso ao trabalho coloca-se como um direito, mas subsumido, concomitantemente, às leis e regulamentos nacionais, bem como às normas internacionais.
No próximo capitulo terei a oportunidade de expor ao leitor algumas questões relativas ao trabalho do adolescente, sob as ópticas do senso comum, do Estado e das ONGs. Antecipando um pouco essa discussão, constato que:
a) Freqüentemente o senso comum considera natural que crianças e adolescentes de baixa renda trabalhem;
b) O Estado brasileiro tem desenvolvido ações normativo-sancionadoras de todas as formas de trabalho infantil e garantido o aprendizado, o estágio e o trabalho dos adolescentes (via Constituição Federal, Estatuto da Criança e do Adolescente e CLT) dentro de padrões internacionalmente aceitos;
c) Entre as ONGs e demais movimentos sociais não há homogeneidade acerca da matéria trabalho do adolescente, prevalecendo o entendimento nos termos legais.
Friso que colocar como questão genérica o ingresso dos adolescentes no mundo do trabalho é uma falácia, visto que os sujeitos dessa ação são aqueles em situação de vulnerabilidade social. De certa forma isso contraria o princípio do ECA de ser uma Lei geral – retomando pressupostos das normas menoristas que o antecederam. Por outro lado, não nego a necessidade de medidas que favoreçam os adolescentes que quiserem e/ou precisarem ingressar no mundo produtivo –, respeitados os seus direitos – para que adquiram as competências necessárias para essa tarefa.
Fazendo uma mediação entre as normas e as histórias de vida dos adolescentes trabalhadores brasileiros, observaremos que freqüentemente seu ingresso no mundo do trabalho se dá por uma porta transversal que simplesmente facilita a sua exploração como mão-de-obra barata. Via de regra, tal ingresso não ocorre nas formas de aprendizagem, estágio e emprego – que necessariamente possuem legislações e formatos jurídicos próprios. Entendo, e não faço disso novidade, que para vencer os limites da baixa cognição e/ou da exploração é preciso que: estimule-se a qualificação dessas pessoas em desenvolvimento (art. 69 do ECA); fiscalize-se quanto ao cumprimento dos deveres de quem os contrata (art. 67 e 94 do ECA; arts. 431, 439 e 461 da CLT), propicie-se estímulo à inserção daqueles que freqüentemente o mercado exclui e o Estado desrespeita (art. 66, 94, 120, 124 do
ECA): os portadores de deficiência, os desqualificados profissionalmente, os pouco letrados, os que estiverem em cumprimento de medidas sócio-educativas e os egressos.
Considero que foi de grande importância a alteração embutida na CLT via a Lei no 10.097/00, que modificou a redação do art. 430 da CLT, permitindo as entidades sem fins lucrativos oferecerem capacitação para os aprendizes, nas lacunas do sistema “S”. Porém, também considero que tal abertura deve ter atenção a outras questões, além das expressas na norma104. Refiro-me à atenção ao desenvolvimento da criatividade, criticidade e cidadania.
As revoluções tecnológicas têm contribuído para a geração de pessoas mais ágeis na operação de sistemas complexos, mas, freqüentemente, menos criativos para a resolução de questões do dia-a-dia ou afetas à subjetividade do conhecimento. Além disso, os que absorvem miscelâneas pasteurizadas como cultura têm dificuldade de sistematizar críticas. Sem a combinação desses dois fatores anteriores – criatividade e criticidade – é difícil alguém desenvolver cidadania.
Longe de querer produzir uma versão inovadora para o termo
cidadania, creio que as ONGs envolvidas na atividade de formar aprendizes têm uma
oportunidade de contribuir para torná-los pessoas capazes de compreender a sociedade como um fenômeno interativo, desenvolvendo posturas éticas em relação aos semelhantes e aos diferentes. Considero que, se as ONGs formarem excelentes aprendizes sem lhes terem propiciado a oportunidade de desenvolverem a criatividade, a criticidade e a cidadania, pouco terão contribuído para aprimorar esse instrumento de educação para o trabalho.
Quando se noticia que 45% dos brasileiros pretendem trabalhar em algo que lhes dê prazer depois de aposentados105, vê-se que a solução para melhorar os índices de qualidade de vida das populações mais pobres não pode residir, simplesmente, no acesso de seus adolescentes ao mundo do trabalho, visto que o
104 Atender ao art. 431, § 1º, da CLT, respeitar as proibições de atividades contidas na Portaria n. 20,
do MTE, SIT, no que se refere aos locais e serviços perigosos ou insalubres.
trabalho tem efeitos mais amplos do que a interferência na equação econômica da subsistência.
Por outro lado, hoje se fala muito em “empreendedorismo juvenil”. Sem dúvida alguma essa é uma expressão bonita, que vem sendo fomentada como forma de ação por governos e organizações da sociedade civil. Ocorre que não se pode perder de vista que a criação de negócios, quer sob a óptica da legislação comercial, quer sob a forma cooperativa, exige capacidade administrativa e capital. Desconsiderar esses fatores é estimular o crescimento dos índices de “quebradeira” que rondam os pequenos negócios administrados pelos adultos. Isso pode ser explicado pelo fato de que o motor do empreendedorismo está na relação oportunidade-ousadia. Segundo Luiz Carlos Barbosa, diretor técnico do SEBRAE/Nacional, no Brasil, existe 1,1 negócio por oportunidade para cada um por
necessidade106; em outras palavras, praticamente metade dos negócios do País não são planejados com foco na qualidade e eficiência, mas movidos pela necessidade de trabalhar – isso é um fator de risco muito elevado, para adultos, jovens e adolescentes.
Para tornar viável a criação e gerência de novos negócios é preciso mais do que conhecimento técnico em torno da atividade e boa vontade; exige-se conhecimento do mercado e das suas exigências legais e econômicas.
Como se vê, introduzir adolescentes no mercado de trabalho requer do poder público, das empresas e das ONGs conhecimento técnico e responsabilidade social. A presença de apenas um desses fatores desfalca a possibilidade de intervenção crítica capaz de corrigir percursos mascaradores da realidade.
IV AS ONGS E O TRABALHO DO ADOLESCENTE: UM “BALANÇO” POSSÍVEL
As ONGs brasileiras nem sempre estiveram tão envolvidas – direta ou indiretamente – nas problemáticas que dizem respeito à infância e à adolescência desassistida em nosso País.
Neste capítulo faço questão de chamar a atenção para esse percurso, a partir dos anos 1980, principalmente porque outrora essa era uma preocupação notadamente eclesial, e hoje congrega esforços de associações de moradores às grandes organizações da sociedade civil.
4.1 Retomando alguns pontos da discussão sobre ONGs e o trabalho infanto-