3. HIRİSTİYANLIKTA SAKRAMENTLER
1.5. YEDİ SAKRAMENT
1.5.1. Vaftiz
¿yo? Socialista, aunque con reservas doctrinarias frente al marxismo. No soy militante. Soy un francotirador político. ¿Porqué? Porque, en mi caso, me limitaria como escritor.
Mario Vargas Llosa.
Em meados da década de 1950, o escritor Mario Vargas Llosa filiou-se ao Partido Comunista peruano aos 18 anos de idade e, como afirmou, foi stalinista “em sua forma mais pura”. Mas cerca de um ano depois ele rompeu com o Partido por não concordar com o dogmatismo. Porém, permaneceu como simpatizante ainda por algum tempo, segundo ele, porque estava a favor de todas as organizações que lutavam contra as ditaduras e, ademais, um tempo depois, começou a Revolução Cubana. No Peru nos anos de 1950, os jovens universitários, envoltos com os problemas sociais, liam “obrigatoriamente” Karl Marx, Jean-Paul Sartre, Manuel González Prada e José Carlos Mariátegui. Na Universidade de San Marcos, “não era obrigatório lê-los para conhecê-los: estavam no ar, nos cafés”. Nessa época, Vargas Llosa pertencia a um grupo de universitários que lia e discutia Marx, cujas concepções sobre o materialismo histórico e a luta de classes havia influenciado muitos intelectuais peruanos. Além disso, os jovens intelectuais dos anos 50, como Vargas
Llosa, eram leitores entusiastas de Sartre e de seu ideal de compromisso do escritor, que passou a ser um lema de muitos na década de 1960.197
Em 1962, Vargas Llosa foi a Cuba durante a crise dos mísseis.198 De volta a Paris, onde morava desde 1960, publicou dois artigos no Le Monde, nos quais relatou o que viu na Ilha. No primeiro, En Cuba, país sitiado, narrou a reação dos cubanos ante o bloqueio imposto pelos EUA, pautada na ordem, na disciplina e na serenidade, características que, segundo ele, não eram constantes nos latino-americanos, menos ainda nos cubanos. O que mais o surpreendeu foi a atitude de Fidel Castro diante da crise. Quando ficaram visíveis certas divergências entre Cuba e a URSS, sobre a retirada dos foguetes atômicos, Fidel Castro “saiu pelas ruas a indagar aos transeuntes e aos estudantes” sobre qual posição tomar. Nesse artigo, Vargas Llosa afirmou ter entrevistado algumas “testemunhas do episódio”, que disseram a ele que os mísseis deviam permanecer na ilha, e, ao final da conversa, puseram-se a cantar: “Nikita, Nikita, lo que se da no se quita...” (Nikita, Nikita, o que se dá não se tira), mostrando claramente que os cubanos encaravam os momentos de tensão com bom humor e improvisavam canções com versos irônicos sobre a crise. Contudo, a presença contínua de aviões norte-americanos sobrevoando Cuba lhe causava uma angústia terrível. Por dois dias seguidos, viu “dois aviões Sabre voarem em pleno dia, a uns 300 metros de altura, sobre o Malecón, onde estavam instaladas várias baterias antiaéreas.” 199
No segundo artigo, Crónica de la revolución, Vargas Llosa evidenciou suas impressões sobre a Revolução Cubana, e, assim como Cortázar como veremos ,
197 WILLIAMS, Raymond L. Literatura y política: las coordenadas de la escritura de Mario Vargas Llosa. In:
VARGAS LLOSA, Mario. Literatura y política. Madri: Fondo de Cultura Económica de España, 2003, p. 24. 198
A partir de então viajou várias vezes a Cuba para participar do Conselho Editorial da revista Casa de las Américas. Foi membro do Conselho no período de 1965 a1971, quando este foi dissolvido.
depositou grande esperança na revolução e no socialismo, apontando-o como um sistema que poderia promover a justiça social e tirar os países latino-americanos do subdesenvolvimento. Nesse artigo, ele afirmou que a experiência cubana era uma forma concreta de socialismo que poderia ser uma realidade em países como os latino-americanos. Para ele, o socialismo cubano era profundamente singular, pois apresentava diferenças marcantes em relação aos países do bloco soviético. Isso poderia ter repercussões importantíssimas no futuro do socialismo mundial.200
Em Cuba, Vargas Llosa afirmou ter presenciado uma cena pouco comum: estava ele assistindo a uma sessão de cinema quando de repente ela foi interrompida para que surgisse na tela a imagem de Fidel Castro, intensamente ovacionada e aclamada pelo público. Quando relatou o acontecido para um amigo cubano, este lhe afirmou que tal cena era mais comum na Ilhado que ele imaginava, mas que não podia ser confundida com o culto à personalidade, pois este sempre vinha de cima como uma imposição e o carinho manifestado pelo público vinha de baixo. Ademais, esse carinho manifestava-se de maneira espetacular sempre que a Revolução estivesse correndo riscos. Vargas Llosa presenciou muitas outras “manifestações de carinho”:
Na noite em que Kennedy anunciou o bloqueio, todo mundo saiu gritando pelas ruas “Fidel, Fidel”; é a maneira de demonstrarem sua adesão à revolução. Poucos dias depois assisti a uma atuação no teatro García Lorca. Cada vez que desejavam inflamar o auditório, os oradores citavam o nome de Fidel, e imediatamente soavam estrondosos aplausos. Outro dia, numa “granja do povo” [...] perguntei ao administrador, um barbudo de Sierra Maestra que levava um escapulário ao pescoço: e se Fidel morresse, quem poderia substituí-lo à testa da revolução? “Ninguém respondeu ele imediatamente, mas se apressou a
acrescentar: , quer dizer, a revolução continuaria, mas não seria o mesmo, faltaria um não-sei-quê”.201
Segundo Vargas Llosa, esse sentimento fidelista da população se explicava pelo fato de que Fidel Castro era uma “unanimidade” em Cuba, o “aglutinante mais sólido com que o povo cubano contava, o fator que mantinha a coesão e o entusiasmo popular, os dois pilares da revolução”. Esse sentimento não poderia ser explicado apenas pela sua força simbólica, ou seja, pela “odisséia” que envolveu a trajetória de Fidel Castro do assalto ao quartel de Moncada à batalha em Sierra Maestra, mas principalmente pela relação que Fidel Castro estabelecia com o povo desde o momento em que se tornou o governante:
Esta relação se afasta de toda fórmula, de toda etiqueta, possui um caráter pessoal, amistoso. Isto se viu nos momentos críticos do bloqueio. Subitamente, o primeiro-ministro apareceu na Avenida 23 [...] Congregou os transeuntes à sua volta e começou a interrogá-los. “Vamos ver, você dizia a um , o que pensa do bloqueio? Segundo você os foguetes devem ou não sair de Cuba? E no dia seguinte apresentou-se da mesma maneira inesperada nos pátios da universidade para dialogar com os universitários sobre os problemas do momento. Deste modo, o homem da rua sente-se diretamente vinculado às responsabilidades do Estado, consultado pessoalmente por Fidel em cada passo importante da revolução.202
Depois de proclamar a unanimidade e o carisma de Fidel Castro, Vargas Llosa afirmou que não pretendia negar os problemas da Revolução Cubana. Pelo contrário, ele percebia através da imprensa, do rádio e das publicações, que existia em “Cuba um empenho oficial para doutrinar as massas”. Além do que, as Ediciones Sociales de Moscou circulavam profusamente na ilha e, no discurso, todos os dirigentes da Revolução proclamavam-se marxistas ortodoxos. No entanto, isso não deu origem a um “dirigismo político excludente”, pois nas livrarias de Havana havia publicações “trotskistas e
201 Ibidem, p. 30. 202 Ibidem, p. 31.
anarquistas expostas nas vitrinas”, não existindo uma “censura destinada a preservar a pureza ideológica das publicações”, como ocorria em outras “democracias populares”, como, por exemplo, na União Soviética. Dessa forma,
há pouco apareceu em Havana um ensaio pitoresco e inverossímil intitulado El espiritismo y la santeria a luz del marxismo. Uma vendedora de barraca recomendou-me o livro com as seguintes palavras: “é um ensaio muito interessante, companheiro, de um materialista esotérico”.203
Com essa citação, Vargas Llosa quis mostrar que o reconhecimento do marxismo como filosofia oficial da revolução não impedia, pelo menos naquele momento, “a existência de outras correntes ideológicas”, e que estas podiam expressar-se livremente em Cuba (até mesmo o “materialismo esotérico”). Segundo ele, em Cuba ainda não havia uma estética oficial na arte e na literatura:
Enquanto estive em Havana, o Conselho Nacional de Cultura (onde está um dos melhores escritores contemporâneos de língua espanhola, Alejo Carpentier) patrocinava uma retrospectiva do surrealista Wilfredo Lam e uma exposição coletiva de pintores jovens, todos abstracionistas. Nas publicações literárias, rendia-se homenagem a William Faulkner, elogiava-se Saint-John Perse [...] e discutia-se apaixonadamente os romancistas objetivos. A influência de Sartre é inegável em três dos melhores escritores jovens de Cuba: Ambrosio Fornet, Edmundo Desnoes e Jaime Saruski.204
O governo revolucionário, segundo Vargas Llosa, tinha total prudência no que se referia à liberdade editorial. Isso podia ser exemplificado, para sua grande surpresa, nos stands espalhados pelas ruas, nos quais eram exibidos todos os tipos de livros pornográficos. O que, a seu juízo, era pelo menos insólito, pois em qualquer cidade do mundo os livros dessa natureza eram vendidos na semiclandestinidade, tais como: o Kama- sutra, o Ananga-ranga, Gamiani, de Musset; Os diálogos, de Aretino etc. Um amigo búlgaro que o acompanhava, além de surpreso, ficou colérico: “isto é um escândalo dizia
203 Ibidem, p. 32. Grifos nossos. 204 Ibidem, p. 32.
ele. Deveriam proibir este comércio! Socialismo e erotismo são incompatíveis.” Vargas Llosa então explicou-lhe que, antes da Revolução, Cuba “não somente um quintal dos norte-americanos, como também o paraíso da pornografia; dezenas de editoras se dedicavam a exportar para o mundo de língua espanhola este tipo de literatura”. Com o advento da Revolução essas editoras deixaram de existir, mas os livros que ficaram na ilha continuaram a circular livremente.205
Um dirigente cubano, por sua vez, explicou a Vargas Llosa que este tipo de comércio iria desaparecer com o tempo: “as raízes do mal foram cortadas; os ramos e as folhas secar-se-ão por si mesmos”. O mesmo aconteceria com a prostituição e a mendicância. De acordo com o dirigente cubano, Havana era a cidade que, proporcionalmente, tinha mais prostitutas e mendigos em todo o mundo, mas que o governo estava resolvendo ambos os problemas, sem qualquer medida coercitiva ou violenta: “em vez de proibir a prostituição, o governo fez uma oferta às mulheres que se entregavam a essa atividade: ensinar-lhes um ofício; enquanto seguiam os cursos, a revolução encarregava-se de oferecer alimentação às suas famílias”. Desde então praticamente a “prostituição desapareceu de Cuba”.206
A Revolução Cubana foi, para Vargas Llosa, a única revolução socialista em que o partido da revolução foi criado posteriormente à revolução propriamente dita, ou seja, a luta revolucionária no início não envolveu um partido político, mas foi conduzida por um movimento guerrilheiro, o MR26 de julho, com uma ideologia liberal e humanista bastante vaga. Assim, a revolução foi “determinando sua doutrina política e econômica na prática, no próprio exercício do poder”. Isso explica, em parte, porque, no início, a revolução
205 Ibidem, p. 33.
contou com o apoio de agrupamentos e movimentos de ideologia conservadora. Vargas Llosa queria mostrar que a vanguarda da revolução foi o movimento armado MR26 de julho e que no seu início a Revolução não podia ser qualificada de marxista-leninista. A aproximação com o marxismo-leninismo teria ocorrido na medida em que as agressões, “abertas ou encobertas”, dos EUA se intensificaram.207 Por conta disso, “os jovens barbudos se radicalizavam e, decididos a salvar a revolução de qualquer modo para livrar Cuba da asfixia econômica, na qual Washington pretendia mergulhá-la, viam-se mais subordinados à ajuda da URSS”.
Para Vargas Llosa, houve uma tentativa de um setor do Partido Socialista Popular de controlar a Revolução, com o intuito de colocar “em mãos de um grupo os cargos-chave do Estado”.208 O que, a seu ver, não era nenhuma novidade, pois Fidel Castro já havia
207 De acordo com Moniz Bandeira, poucos dias antes do discurso em que Castro se proclamou marxista
leninista, um jornalista do The New York Times perguntou ao líder soviético Kruchev “se ele considerava Cuba socialista e ele respondera: ‘Até o ponto que nós sabemos, Castro não é membro do partido comunista’. Com efeito, em conformidade com a ortodoxia, só um partido comunista poderia realizar uma revolução socialista, e como este não fora o caso de Cuba, tornava-se difícil para os dirigentes reconhecer como tal a transformação que lá se operava. Este impedimento Blas Roca, Escalante e outros velhos militantes do PSP perceberam, em Moscou, e transmitiram sua opinião, quando voltaram a Cuba, vislumbrando [...] uma oportunidade de empolgar o novo partido, o governo e o Estado cubano. Alternativa, portanto, não restaria a Castro, se quisesse maior auxílio econômico e militar da URSS, proclamar-se marxista-leninista, antes de tornar-se primeiro-secretário do PURS, para o qual dera o primeiro passo com a criação das ORI.” BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel. A Revolução Cubana e a América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, p. 352.
208 VARGAS LLOSA, Mario. Contra viento y marea I, p. 33-34. O Partido Comunista de Cuba foi fundado
em 1925, sob liderança de Julio A. Mella. Em 1944, passou a se chamar Partido Socialista Popular (PSP). Em 1962, o PSP foi dissolvido nas Organizações Revolucionárias Integradas (ORI), dirigidas pelo comunista Aníbal Escalante. Nesse mesmo ano, foi criado o Partido Unido da Revolução Socialista de Cuba (PURSC), que em 1965 se constituiu no atual Partido Comunista de Cuba. Essas mudanças respondiam em grande medida ao claro objetivo do governo revolucionário de eliminar as diferenças ideológicas e políticas que haviam integrado o amplo espectro da oposição ao governo de Fulgencio Batista. Além de atender, naquele momento, um fim geopolítico, assegurando uma aliança com a URSS, que protegeria Cuba caso os EUA tentassem intervir novamente na ilha. A via armada para o socialismo, preconizada pelos cubanos, constituía- se em uma divergência com a URSS, que, desde 1956, com a divulgação dos crimes de Stalin no XX Congresso do PCUS, defendia a via pacífica para o socialismo. Nesse sentido, o Partido Socialista Popular pouco participou do processo revolucionário antes da tomada do poder em 1959. Para Moniz Bandeira, os comunistas cubanos, como afirmou o próprio Blas Roca, “levaram tempo para perceber as perspectivas que a revolução lhes abria e entraram, tarde e debilmente, como força política, na luta contra Batista. O estreitamento das relações de Castro com os velhos comunistas somente ocorreu após a vitória da revolução, dado que o PSP era a única das forças que possuía quadros capacitados e uma estrutura de organização sólida,
reconhecido essa estratégia do PSP quando proferiu um discurso contra Aníbal Escalante em 1962.209 Nesse sentido, Vargas Llosa acreditava que a luta contra o sectarismo tinha sido efetivada na ilha e que pelo menos a constituição de um partido único da revolução estava sendo feita “de uma maneira excepcional”, já que “aparentemente tratava-se de criar um partido de homens exemplares”, pois:
Os núcleos dos candidatos ao partido são selecionados por centros de trabalho, em assembléias públicas, nas quais participa a totalidade dos empregados e operários da empresa. Os “operários exemplares”, isto é, aqueles que se destacaram na produção, e que foram designados como tais pelos companheiros, são de fato candidatos a membro do partido, salvo decisão sua em contrário. Mas e isto é o excepcional em tais assembléias os trabalhadores podem fazer críticas, votando inclusive pela nomeação de determinados candidatos. De certa forma, todo membro do partido único deve ser sacramentado pela massa. Em seu discurso, Fidel Castro havia insistido em que o partido da revolução devia ser “a vanguarda dos trabalhadores”.210
Em Crónica de la revolución, Vargas Llosa deixou bem claro que a revolução estava solidamente estabelecida em Cuba e que seu término só poderia levar-se a cabo mediante uma invasão direta e maciça dos EUA. Concluiu o artigo afirmando que o reconhecimento do marxismo como filosofia oficial da Revolução Cubana não impedia, pelo menos naquele momento, a existência de outras correntes ideológicas, pois qualquer indivíduo podia expressar-se livremente na ilha.Vargas Llosa foi um defensor fervoroso de Fidel Castro em princípios dos anos sessenta. Inclusive, depois de uma forte discussão com
coesa e disciplinada [...]. A Castro, ainda que sempre conservasse a posição de líder máximo, alternativa não restou senão depender mais e mais dos velhos comunistas, na medida em que Cuba passara a respaldar-se, internacionalmente, na URSS. E a importância do PSP assim exacerbou-se, tornando-o a principal força política e, juntamente com o Exército Rebelde, um dos dois pilares do regime”. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel, p. 377.
209 O conflito entre Fidel Castro e os comunistas cubanos se intensificou quando os membros do PSP voltaram
do XXI Congresso do PCUS (1961), momento em que intensificaram os esforços para ter uma participação mais intensiva e efetiva na organização do Estado. A partir de então, Fidel Castro tomou algumas medidas para isolar alguns membros do PSP, principalmente Aníbal Escalante, homem de confiança da URSS em Cuba, acusado de tentar substituir Fidel Castro na direção do processo revolucionário e de ser sectário e dogmático. Aníbal Escalante foi então afastado do cargo de Secretário das ORI e substituído por Fidel Castro, como primeiro secretário, e Raúl Castro, como segundo secretário.
um amigo boliviano, este lhe teria dito: “tu és intratável quando se trata de Cuba ou Flaubert”.211
Em várias ocasiões, Vargas Llosa fez questão de deixar bem claro que sua adesão ao socialismo não era de modo algum dogmática. Em uma entrevista concedida a Günter W. Lorenz, em 1969, ele afirmou que a sua admiração e seu entusiasmo pela Revolução Cubana não o impediam de reconhecer certos aspectos do socialismo que considerava deficientes ou criticáveis, como, por exemplo, a falta de liberdade de expressão. Por isso, ele aspirava que o socialismo (ou os socialistas) na América Latina aproveitasse a experiência histórica e não incorresse nos erros, equívocos e nos absurdos que cometeu o stalinismo no campo cultural. Ambicionava para o seu país e para a América Latina um socialismo que não somente os emancipasse do imperialismo, mas que os libertasse “das oligarquias parasitárias”, que entregasse “as terras a quem trabalhasse nelas” e coletivizasse “os meios de produção, mas que também admitisse a liberdade de imprensa e a oposição política organizada”. Vargas Llosa admitiu que “liberdade de imprensa” e “oposição política” eram valores de origem burguesa, mas eram “indubitavelmente as melhores armas com que contava um povo para fiscalizar seus governantes e impedir os abusos do poder.”212
A identificação de Vargas Llosa com a Revolução Cubana na década de sessenta levou-o a fazer declarações nas quais a colocava como um estímulo eficaz para os demais países latino-americanos. Considerava a Revolução Cubana como o acontecimento histórico mais importante que ocorreu na América Latina depois dos movimentos pela
211 Apud WILLIAMS, Raymond L. Literatura y política: as coordenadas de la escritura de Mario Vargas
Llosa., p. 29.
212 VARGAS LLOSA, Mario apud LORENZ, Günter W. Diálogo com a América Latina: panorama de uma
independência no século XIX. A experiência cubana abria “o processo da segunda independência latino-americana, uma independência econômica”, já que a primeira, aquela do século XIX, foi mais teórica e política do que econômica. Essa segunda emancipação significava o fim da tutela do imperialismo norte-americano e abria “uma nova época histórica para a América Latina.” Por essas razões ele proclamou estar absolutamente identificado com os ideais da Revolução Cubana e do socialismo:
Creio, de maneira geral, que mais do que o fidelismo se pode dizer que é o socialismo provavelmente a única salvação existente para os males sócio-econômicos da América Latina; isto é, a América Latina somente pode superar o terrível anacronismo de suas estruturas sociais, sua prostração econômica, sua dependência de monopólios e interesses estrangeiros, através do socialismo, e nesse sentido, sendo Cuba o primeiro país socialista da América, Cuba é uma espécie de estímulo ou
exemplo para essa segunda emancipação do continente.213
A palavra estímulo não deve ser confundida com um modelo rigoroso a ser seguido. Vargas Llosa tinha plena consciência de que muitos países latino-americanos não tinham as mesmas condições encontradas em Cuba. Daí resultava que o modelo cubano não poderia