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3. HIRİSTİYANLIKTA SAKRAMENTLER

4.1. KİLİSE VE EVHARİSTİYA

A análise dos dados coletados foca as entrevistas realizadas, conforme definido no projeto de estudo de caso e devido as características deste instrumento, mais adequadas à investigação proposta, discutidas a seguir. Além disto, a riqueza dos relatos permitiu que grande parte das análises provenientes da observação direta e dos documentos coletados fossem ilustradas por trechos das entrevistas. Finalmente, o foco nas entrevistas deve-se ao fato de que este instrumento de coleta mostra-se mais adequado para a análise dos conceitos de intenção estratégica e identidade organizacional, operacionalizados como percepções dos membros sobre a organização. Conforme coloca Godoy (2006: p. 134 – grifos no original):

A entrevista semi-estruturada tem como objetivo principal compreender os significados que os entrevistados atribuem às questões e situações relativas ao tema de interesse. Neste caso a entrevista é utilizada para recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito, possibilitando ao investigador desenvolver uma ideia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspectos do mundo […] As entrevistas semi-estruturadas são adequadas quando o pesquisador deseja apreender a compreensão do mundo do entrevistado e as elaborações que ele usa para fundamentar suas opiniões e crenças.

Com base no conceito de polifonia de Bakhtin (2010; 2004), Godoi e Mattos (2006: p. 320) colocam ainda que durante a entrevista semi-estruturada “os entrevistados saberão ou tentarão se reinventar como personagens – não personagens sem autor, mas personagens cujo autor coletivo são as experiências culturais, cotidianas, os discursos que atravessam e ressoam, em suas vozes”. Deste modo, a entrevista apresenta-se como instrumento capaz de evidenciar as percepções dos membros sobre a organização, assim como os diversos discursos, ou “vozes”, que atravessam seus relatos, como o discurso oficial projetado pela alta direção, por exemplo. As observações feitas durante visitas à organização e durante as entrevistas foram registradas num diário de campo e utilizadas como subsídio para a análise documental e das entrevistas. Estas últimas são tratadas como uma conversação, conforme colocado por Godoi e Mattos (2006: p. 307): “a entrevista aberta é um construto comunicativo, uma forma de produção e interpretação da informação através da análise dos discursos, e não um simples registro do que falam os sujeitos”. Portanto, a análise é feita com base na premissa de que a entrevista é uma forma de conversação, gênero comunicativo caracterizado por Mattos (2006: p. 349) da seguinte forma:

Em tal interação linguística, não é possível ignorar o efeito da presença e das situações criadas por uma das partes (o “entrevistador”) sobre a expressão da outra (o “entrevistado”). E mais: há sempre um significado de ação para além do

significado temático da conversação. Os atores, principalmente o entrevistado, “fazem” ali muita coisa – e o sinalizam – enquanto articulam perguntas, respostas ou interferem nelas. Ora, é falso interpretar o que alguém “disse” sem se perguntar também o que, na ocasião, “deu a entender”, o que sinalizava para além do que dizia, enfim, o que também fazia ao responder tais e tais perguntas.15

Outro ponto importante é que na conversação, como em todo texto oral, as respostas, ou os temas tratados, não se apresentam de forma ordenada, surgindo às vezes “no começo, no meio ou no fim da entrevista, ou pode até ocorrer que, dada a sua natureza, fique nas entrelinhas” (MATTOS, 2006: p. 362). Deste modo, a argumentação construída pelo entrevistado sobre um determinado tema pode estar dispersa ao longo do texto, interrompida por digressões e retomada em trechos posteriores. Esta dispersão é tratada na análise com o objetivo de reconstruir o argumento do entrevistado, através dos conceitos de percurso semântico, ou seja, os caminhos que o entrevistado utiliza para construir seus argumentos, e de percurso temático, restrito à argumentação sobre um tema específico.

Finalmente, é preciso ressaltar que o pesquisador – entrevistador – inicia a interpretação durante a própria entrevista, utilizando-se desta reflexão inicial inclusive para conduzi-la. Assim, toda interpretação é uma reinterpretação e uma recriação, sendo fundamental que este processo seja guiado pelos objetivos de pesquisa – ao invés de distorcido por eles -, e produza evidências argumentativas – não se torne obra de ficção. Para tal, pode-se utilizar três métodos principais: análise do conteúdo, análise do discurso e análise da narrativa.

Normalmente, quando se fala da forma pela qual os textos devem ser interpretados na literatura em administração, diz-se uma grande inverdade: a análise de discurso e a análise de narrativa são apenas tipos de análise de conteúdo. Normalmente, a análise de conteúdo é um procedimento semiqualitativo que procura criar categorias tópicas sobre um texto a partir de uma forma de verificação de frequência de termos ou conceitos (BARDIN, 1977 [2011]). Esse está longe de ser um procedimento do entendimento das nuanças de um texto, quer seja um discurso, quer seja o seu caso particular: a narrativa. A análise da narrativa – e também a análise do discurso – procura entender o texto por sua totalidade, pela sua “grandeza”, partindo de suas peculiaridades. (ALVEZ; BLIKSTEIN, 2006: p. 417/8)

Pode-se acrescentar ainda que a análise do conteúdo (BARDIN, 2011) coloca pouca ênfase nos aspectos da entrevista tratados acima, principalmente sua concepção dialógica e pragmática, assim como retira o personagem do entrevistador da análise, como se ele não influenciasse o que foi dito, feito e dado a entender. Além disto, não considera a polifonia (BAKHTIN, 2010; 2004), ou seja, que todo discurso é, inevitavelmente, atravessado por outros discursos – consciente ou inconscientemente -, nem que “todo enunciado poderá ser

15 Esta citação baseia-se na filosofia de Ludwig Wittgenstein e na obra de Mikhail Bakhtin, um dos principais

lido em seu 'direito' ou em seu 'avesso' (ALVEZ; BLIKSTEIN, 2006: p. 420). Por sua vez, a análise do discurso permite que se vá além do manifesto, considerando a possibilidade de que “nem sempre o que as pessoas dizem é o que elas sentem e vivem” (GODOI, 2006: p. 384), justificando a escolha desta técnica de análise de texto, entre as demais, para as análises do presente trabalho.

Para compreender como é possível dizer algo mais do que se diz literalmente (enunciado), e identificar o sujeito no discurso (enunciação), há que apelar às informações de fundo, às informações mutuamente compartilhadas pelos interlocutores sobre os fatos, ou seja, considerar os elementos de um item constitutivo da interpretação: o contexto. O próprio fato de que o pesquisador se interesse pelo dimensão expressiva e pragmática exige a relação das propriedades do discurso com aspectos diferentes do contexto interacional ou estrutural em que o discurso foi produzido. Além disso, uma vez que não se trata, nas interpretações, de estabelecer uma clínica do texto, submetendo o discurso a interpretações de caráter estritamente psicanalítico, à revelia da existência de uma história de conversações anteriores e da presença do sujeito no momento da validação da interpretação, o

contexto organizacional passa a ser o principal referencial do investigador na prática

da interpretação. (GODOI, 2006: p. 385 – grifos ausentes no original)

Deste modo, a análise considera que todo enunciado é produzido em um contexto específico e formado por um diálogo com outros enunciados, explícitos ou implícitos, conscientes ou inconscientes, concordantes ou discordantes (BAKHTIN, 2010). No caso do presente trabalho, o contexto é a organização estudada e, também, o momento da entrevista em si, da conversação entre pesquisador e membro da organização. Os outros enunciados que atravessam e compõem a conversação são o discurso oficial (BAKHTIN, 2002) da organização, do departamento, da equipe e da profissão do entrevistado. Podem ainda existir outros, assim como não se pode desconsiderar o discurso acadêmico, teórico e de pesquisa que o entrevistador insere na conversação. Com relação ao discurso oficial é importante ressaltar que este permeia a fala de todos os entrevistados, pois se constitui em um discurso permitido pela organização – sua cultura, seus valores e também o discurso projetado por seus dirigentes – e de fácil acesso aos seus membros; restringido ainda pelo discurso, ou cultura, oficial da sociedade da qual estes membros fazem parte.

Portanto, as características da técnica de análise do discurso auxiliam o levantamento das percepções dos membros da organização sobre a intenção estratégica e a identidade organizacional, assim como permite reconhecer a tentativa de projeção de uma identidade, ou discurso oficial, por parte da alta direção. Do mesmo modo, com o apoio do diário de campo e da análise documental, pode-se verificar através das entrevistas como estas percepções manifestam-se no processo de formação da estratégia da empresa estudada.