A primeira vez em que a bolandeira aparece no filme, logo em seu começo, explicita a constituição geral desta estrutura imprescindível aos engenhos de outrora. A câmera, posicionada sobre a bolandeira, registrando imagens do alto e em um plano relativamente aberto, enfatiza ainda mais a idéia de expressar a generalidade dos elementos que a compõe. No registro é possível ver dois bois, presos por meio de uma canga, movimentando-se em trajetória circular com o objetivo de girar as polias da bolandeira que, por sua vez, são responsáveis pela moagem da cana-de-açúcar. Ainda é possível ver, entre as frestas das polias e das estacas que formam este “carrossel medieval” (Roteiro apud Butcher & Muller, 2002), a presença do homem: é ele que tange os bois, incita-os na sua trajetória; é ele que introduz a cana no sistema de engrenagens para a moagem; e é ele que traz os feixes de cana novos que são deitados sob um solo de tons pastéis e avermelhados que dão contorno ao “terreiro” ou à “capoeira” dos domicílios rurais.
Homem, boi e cana – nesta cena gravada externamente e ainda de dia (o que oportuniza, sobremaneira, a observação do ambiente em que a bolandeira se inscreve) – estabelecem uma relação quase simbiótica: o homem põe a cana nas engrenagens que, moída pela força dos bois, se tornará rapadura e será vendida no comércio local. Homem, boi e cana, assim, relacionam-se no sentido de prover a subsistência material deste mesmo homem. Entretanto, essa relação de complementaridade que se estabelece no uso da bolandeira, não é regra em todo o sertão: boi e cana de açúcar rivalizam, ao longo da história do Brasil, enquanto atividades econômicas.
FIGURA 1- A bolandeira
O processo de povoamento do interior nordestino pautou-se, de acordo com Vieira Júnior (2004, p.24), num movimento econômico e social que teve como base a lavoura canavieira. Segundo o autor,
O paulatino crescimento da produção agrícola exportadora no Brasil, em especial nas regiões litorâneas da Bahia e de Pernambuco, que se intensificou no século XVI, aumentou a necessidade de terras para o plantio e exploração da cana-de-açúcar. Do Rio Grande do Norte até Maceió, passando pelo Recôncavo baiano (com seus solos férteis e rios navegáveis) o açúcar deixava sua marca no solo e no aumento populacional.
Desse modo, é diante da necessidade de se dilatar o espaço para a produção agrícola que o sertão – concebido, primeiramente, com o significado de “lugar longe do litoral” ou de “grande vazio inculto e desabitado” (VIEIRA JÚNIOR, 2004) – passa a ser povoado.
Todavia, é importante sublinhar que tal processo de povoamento não se fez isento de conflitos. A terra necessária à expansão agrícola é também a terra pleiteada pelos criadores de gado, que já haviam saído da Zona da Mata, açucareira
por excelência52, à procura de novos terrenos para suas criações, como pode ser percebido chamando, novamente, Vieira Júnior (2004, p.24) ao diálogo:
A agricultura exportadora – que carecia de grandes quantidades de terra, poderia encontrar no criatório de gado, normalmente voltado para o abastecimento dos engenhos e das vilas, um incipiente rival na utilização e monopólio da terra. Essa rivalidade merecia uma especial atenção, principalmente por ser a pecuária extensiva praticada na América portuguesa, onde o gado é deixado à lei da natureza, e por isso necessitava de uma vastidão de pastos e de recursos hídricos mínimos, além do sal como suplementos alimentar.
Encerrados em um mesmo território, a pecuária e a plantação de cana de açúcar, apesar de em alguns momentos operarem sob uma lógica de complementaridade53, estabeleciam proximidade fértil em possibilidades de conflitos, pois “muitas vezes esses rebanhos chegavam a devorar lavouras de feijão e arroz, ou o broto da cana em fase de crescimento” (VIEIRA JÚNIOR, 2004, p.24).
Este conflito, que se apresenta em um Brasil ainda colônia, talvez possa ser considerado o estopim da querela entre os Breves e os Ferreiras. Mas Walter Salles não localiza sua obra no ano de 1910? Pode perguntar o leitor. O filme Abril Despedaçado, de fato, é localizado em 1910, contudo uma observação atenta das falas do menino Pacu e de seu pai, o patriarca Breves, revela mais, como pode ser visto no roteiro do filme (ROTEIRO apud Butcher & Muller, 2002, p.193):
MENINO [em off] O pai é que toca os boi pra rodar a bolandeira. No tempo de vô, os escravo é que fazia o serviço todo. Agora é nós mesmo. ... PAI Presta atenção, menino. Teu avô, teus tio, o teu irmão mais velho, eles tudo morreram pela nossa honra e por esta terra.
A partir da interpretação das duas falas, é possível notar que o conflito não se origina no ano em que o filme se passa. Talvez seja possível, ainda com base na interpretação das falas e na especulação do tempo que separa uma geração de
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Buscando o tipo de solo mais fértil, os engenhos alastravam-se por grande parte do território da Zona da Mata, aproveitando-se também da proximidade desta região com o litoral: aqueles que tinham fazendas de açúcar próximas ao litoral levavam vantagens no que diz respeito ao escoamento da produção, na competição do mercado exportador o mar aparecia como uma via privilegiada. No processo de interiorização do açúcar, a água ainda figura como elemento central para o sucesso, agora são os rios que se apresentam como uma excelente possibilidade de rota para o escoamento.
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Os engenhos, como visto na cena de ADF acima descrita, também precisavam de bois “enquanto força motora no movimento das moendas ou no transporte das cargas açucareiras, além, é claro, para a subsistência alimentar de seus moradores” (VIEIRA JÚNIOR, 2004, p. 25). Por outro lado, o incremento populacional possibilitado pelo açúcar – no que diz respeito à produção e ao transporte do açúcar – garantia um bom mercado consumidor para a pecuária.
outra, dizer que o conflito tem sua gênese num tempo passado, que pode guardar certa proximidade com o tipo de estrutura econômica e social presente no Brasil Colônia. E isso se admitirmos que o conflito se originou à época do avô do menino (como não há nenhuma frase assertiva também é possível que a briga tenha tido sua gênese num tempo ainda mais remoto).
Breves e Ferreiras, portanto, tem a posse e a manipulação de terras como ponto de discórdia, como o elemento gerador da briga entre as famílias. Nos alicerces econômicos, materializa-se a citada disputa entre pecuária e açúcar: Os Breves são plantadores de cana e os Ferreiras são pecuaristas, a terra é o espaço que não foi dividido e, sim, tomado. E é esta primeira afronta, a tomada de terras por parte de uma das famílias, que põe a roda da vingança para girar:
MENINO [em off] Pra chegar nos Ferreira, Tonho vai pisar em chão que já foi nosso.
... MENINO [em off] Os Ferreira tomaram, e nós tomamos dos Ferreira... Agora é deles de novo. Foi assim que começou a briga. Pai diz que é olho por olho. (ROTEIRO apud Butcher & Muller, 2002, p. 196).
Um texto escrito pelo roteirista do filme, Sérgio Machado, e publicado no livro de Butcher & Muller (2002), pode ser ainda mais claro sobre os motivos que levaram os Breves e os Ferreira a se tornarem rivais. Ainda que fictício, não tendo sido incorporado ao projeto final de Abril Despedaçado, é notório o papel central que a terra ocupa na trama desde suas fases iniciais:
UMA POSSÍVEL HISTÓRIA DO CONFLITO ENTRE OS BREVES E OS FERREIRA
Os Ferreira e os Breves chegaram à região dos Inhamuns – área seca e montanhosa no sudoeste do Ceará, fronteira com o Piauí – na segunda metade do século XVIII. Os Ferreira vieram do norte do Ceará, região do Sobral, e s Breves de Pernambuco e da Paraíba.
Os Breves tiveram seu apogeu no início do século XVIII, quando eram os maiores produtores de cana-de-açúcar da região e comandaram o comércio e a distribuição de rapadura e aguardente.
Os Ferreira sempre tiveram a pecuária como sua principal atividade. E também cultivaram um grande interesse pela política.
A partir de meados do século XVIII, as duas famílias controlavam praticamente sozinhas toda a região: a política, a justiça, o comércio. Naquela época, eram comuns os casamentos entre os membros dos dois clãs.
Na primeira década do século XIX, iniciaram-se pequenas querelas entre os Ferreira, que precisavam expandir suas terras para pastagem, e os Breves, que não podiam abrir mão dos baixios e das terras próximas ao rios, as únicas apropriadas para o cultivo da cana.
O clima entre as duas famílias ficou mais tenso depois da seca de 1816, quando os Ferreira perderam várias cabeças de gado por falta d´água. Uma discussão sobre demarcações de terra, relativa à colocação de uma cerca detonou o confronto que já era iminente.
A terra é a base material do conflito, é a partir desta disputa por espaço físico para expansão de atividades econômicas que o ciclo de assassinatos entre as duas famílias se projeta. A violência, assim, apresenta-se como instrumento de mediação ou de resolução de conflitos: é a partir de um assassinato que a perturbação do equilíbrio entre as duas famílias, provocada pela tomada de terras, é estabelecido. Entretanto, um assassinato gera, irremediavelmente, outro. No afã de resgatar o equilíbrio perdido, as duas famílias alternam um direito de matança, de cobrança de sangue, que é regido por um código, por um padrão de moralidade que abarca todos os habitantes de Riacho das Almas.