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As teorias feministas serão apresentadas aqui de modo muito breve, no que nos servem de diálogo com a produção de corpos na contemporaneidade. Certamente não esgotaremos o tema e nem é nossa intenção, visto que o aprofundamento dessa temática requer um grau de expertise e investimento que não temos nem o fizemos. Por outro lado, um trabalho que discute o corpo e as problemáticas atuais de poder da mídia e do discurso médico não poderia se furtar a esse empreendimento, ainda que modesto.

Reflexo das mudanças, o feminismo é um discurso múltiplo, com várias tendências mesmo que apresente uma base comum pautada nas criticas aos modelos de opressão intelectual e de gênero. Para Narvaz e Koller (2006), o feminismo protesta contra a experiência masculina, que “tem sido privilegiada ao longo da história, enquanto a feminina, negligenciada e desvalorizada” (648). As feministas, ainda segundo as autoras, revelam que o poder sempre esteve do lado masculino, com a intenção clara de explorar e dominar as mulheres e seus corpos.

A crítica feminista, de modo geral, incidiu historicamente sobre a ciência, acusada de ideológica, sexista e racista. Os movimentos feministas que daí se desdobraram, diferenciaram-se tanto no tempo quanto nas propostas. Existem marcadamente três ondas de feminismos, numa problematização de si mesmo.

A primeira onda do feminismo aconteceu na virada do século XIX para o XX, portanto, durante as guerras, reivindicando direitos amplos na esfera social, do trabalho,

acesso ao voto, à educação, enfim, igualdade de direitos, especialmente na Inglaterra, França e Espanha. Havia a preocupação com a unidade e a semelhança, ou seja, tratava- se do feminismo da igualdade.

Segundo Rago (1996), uma das questões que o feminismo da primeira onda toma como ponto de critica, ainda que por toda a sua história tenha tido uma relação ambígua, é a psicanálise. Mesmo tendo sido elaborada revirando a “concepção iluminista de sujeito universal, consciente, na verdade é um pensamento que não questiona o fato desse sujeito universal ser europeu, branco, burguês e homem” (p.03). Sabemos que a ruptura epistemológica de Freud estava não nesses aspectos, mas no fato de questionar a organização psíquica e dar uma nova mirada ao sofrimento humano, além do fato de que há um desligamento do circuito biológico a tal ponto que torna a sexualidade instável e possibilita posicionamentos no campo da feminilidade ou da masculinidade, totalmente desligados da genitália, da anatomia.

A segunda onda, delimitada a partir dos anos 1960, manifestou-se com força nos Estados Unidos, onde as mulheres ainda reivindicavam direitos iguais e denunciando a opressão masculina. Na França, o relevo era para a produção. Voltava-se para destacar a negligencia dada a experiência feminina, apontando que homens e mulheres são distintos, dando aval às diferenças e à fragmentação. São os chamados

feminismos da diferença.

A terceira onda acontece desde os anos de 1980, com crítica à ciência e a introdução do paradigma da incerteza do conhecimento. A proposta é analisar a diferença, a alteridade, as diversidades no campo da subjetividade, especialmente as feministas francesas

influenciadas pelo pensamento pós-estruturalista que predominava na França, especialmente pelo pensamento de Michel Foucault e de Jacques Derrida, passam a enfatizar a questão da diferença, da subjetividade e da singularidade das experiências, concebendo que as subjetividades são construídas pelos discursos, em um campo que é sempre dialógico e intersubjetivo. Surge, assim, a terceira fase do feminismo. (NARVAZ E KOLLER, 2006, p.649)

Os conceitos de sexo e gênero são revisitados e novas construções são incorporadas, como as da performance. Revisa categorias de análise já consolidadas, como gênero, rompendo com a ideia de natureza e tornando-se uma categoria relacional e política, ou seja, muito mais complexa e aberta para as influências e efeitos do mundo e das relações humanas.

Sobre as influências do movimento feminista nas produções acadêmica, Rago (1998) coloca que o feminismo tem sido enfático nas criticas ao modelo dominante e, masculino, em fazer ciência, propondo outra forma de produção. Considerando as produções “histórica e cultural diferenciada da masculina, ao menos até o presente, uma experiência que várias já classificaram como das margens, da construção miúda, da gestão do detalhe” (p.03), como numa nova linguagem, um contradiscurso, na produção do conhecimento científico algo reverbera e se altera. De certo modo, é possível que identifiquemos esse movimento marginal em nosso trabalho quando nos propomos a levantar questões sobre o discurso médico e sua força ideológica nos confins da constituição do corpo.

Butler tem sido uma importante autora, na atualidade, por repensar o conceito de identidade feminina, numa visão critica e emancipatória. Segundo Rodrigues (2005), ela apontou para a inexistência desse sujeito que o feminismo quer apontar e fez uma critica radical ao modelo binário sexo/gênero.

Gênero tem sido explicado como sendo um conceito construído culturalmente, ao contrário de sexo que indica uma base orgânica e, portanto, geneticamente adquiridos. Foi em torno dessa querela que foram sendo construídas as teorizações em torno do lugar da mulher, da construção dos modelos femininos e mesmo da discussão do que é ser mulher e de como esse corpo feminino é confeccionado. Desnaturalizando o modelo comumente propagado e de forte enraizamento, que toma o corpo como frágil, tentador e localiza a mulher num campo de submissão esteve a serviço de ideologias masculinas para manter modelos. Rodrigues (2005) nos explica que “o principal embate de Butler foi com a premissa na qual se origina a distinção sexo/gênero: sexo é natural e gênero é construído. (p.179). A própria Butler (2010) no expõe suas idéias de rompimento dessa perspectiva de gênero posto que

Quando a “cultura” relevante que “constrói” o gênero é compreendida nos termos dessa lei ou conjunto de leis, tem-se a impressão de que o gênero é tão determinado e tão fixo quanto na formulação de que a biologia é o destino. Nesse caso, não a biologia, mas a cultura se torna o destino” (p. 26).

Assim, o que foi útil para protestar por alteração de um estado de coisas próprio a uma época, a partir dos anos de 1980 já era alvo de questionamentos. A autora diz que o gênero, por mais que pareça e permita um deslizamento muito maior, não é tão variável assim ao ponto de fugir dos cânones do minimamente convencional.

Ser mulher hoje, nesse contexto aqui discutido, onde as Barbies imperam com tanta força e geram desejos de ser menina com a imagem vinculada a esse ideal, revela um aprisionamento que Butler sublinha em sua critica ao gênero.

O corpo, para Butler (2010) é sempre uma construção, assim como os olhares sobre os corpos e a variedade de corpos, que constitui o domínio dos sujeitos com as marcas de gênero. Existem limites impostos às experiências corporais na medida em que as análises discursivas sobre o tema predefinem e pressupõem “as possibilidades de configurações imagináveis e realizáveis do gênero na cultura.” (p.28). A autora passa mesmo a questionar, de forma radical, se sexo e gênero são diferentes, pois talvez, na sua visão, sexo sempre foi gênero.

O gênero não deve decorrer de sexo, pois que há uma diferença que é arbitrária entre um e outro. Sexo não indica uma natureza, assim como gênero não garante a abertura que se pensou até então. O que parecia um grande salto na teoria feminista da primeira onda, defendendo uma identidade dada pelo gênero, agora torna-se obsoleta por pressupor a essência no gênero. Segundo Butler, “aceitar o sexo como um dado natural e o gênero como um dado construído, determinado culturalmente, seria aceitar também que o gênero expressaria uma essência do sujeito. (RODRIGUES, 2005, p. 180).

A frase conhecida de Beauvoir, a gente não nasce mulher, torna-se mulher, é discutida por Butler quando trata dos problemas de gênero e considera que essa afirmação é problemática. Desconstrói quando aponta que não é possível indicar que haja algo aí nessa proposição que assegure essência e substância, numa colagem de mulher à fêmea.

Desnaturalizando gênero, podemos indagar-nos com a autora a essência do sexo, idêntico a si mesmo. Por sua vez, gênero tende a ser uma imagem de enganos, pois inconstante, dependente dos contextos em que o corpo se insere. O que há são pontos de perspectivas, campos que se relativizam e se abrem para os efeitos. Assim, atribuir à mulher um jeito de ser, identidade, como ininterruptamente faz o saber científico, as teorias cerebrais, fixando homens de um lado e mulheres do outro12. A publicidade é outro campo que engendra identidades ao vender produtos e sonhos que colocam o sujeito numa determinada posição desejante, no lugar onde se identifica com

12 Nos diversos telejornais diários e semanais há sempre matérias que veiculam reportagens sobre as diferenças naturais entre os homens e as mulheres, desde seus cérebros, suas habilidades e sentimentos, apenas para darmos um exemplo. Certamente em busca, acharemos mais modelos que reforçam tanto a “natureza” dos corpos quanto à diferença que essa natureza produz.

certo grupo e, portanto, se localiza no campo do gênero. Butler (2010) nos adverte que a significação de ser mulher não deve ser dada pela fenomenologia. Isso é o mesmo que dizer que o fenômeno, aquilo que aparece no aparente, no imediato, no corpo com genitais, com seios fartos, não é idêntico à mulher, ainda que tenha se construído e consolidado assim. Assim, não é disso que se trata quando apontamos as marcas subjetivas.

Ainda no nosso contexto de análise das revistas de beleza, há consolidação da hegemonia pela lógica da naturalização. Mas se tomarmos mulher como termo processual, tal com a teoria feminista da terceira onda, trata-se de um devir e como tal, “um construir que não se pode dizer com acerto que tenha uma origem ou um fim”. (p.59).

Rompendo com a identidade, as coisas não são em si mesmas, mas se processam nas relações como efeitos de alteridade. Não há nada que esteja encoberto ou para ser revelado além das expressões de gênero e, portanto, a identidade é

performaticamente construída. Declarar, segundo a autora, que o gênero é construído, não é afirmar sua ilusão ou artificialidade, mas dizer que estão inseridos em uma hegemonia por meio de uma naturalização ao longo dos tempos apta e bem sucedida.

Quando fala de “mulheres” no plural, há uma tentativa de resgatar outras variáveis implicadas aí, como os cruzamentos de raça, etnia, idade, modos de vida, entre outros. Mesmo assim é fácil cair na cilada de mais uma vez fechar o que seria sempre abertura, possibilidades. Na critica a identidade, as teorias feministas são solicitadas a abandonar os sujeitos fixos e libertá-los, coerente com as pluralidades que as relações produzem. Essa visão radical que se volta para os sujeitos como efeitos que vão se construindo e gerando multifaces, performances, acaba por desdobrar-se no fortalecimento de outras possibilidades no campo da sexualidade.

Refletindo um pouco sobre as contribuições desses posicionamentos, com toda “evolução cientifica”, os corpo cada vez mais se fixam na anatomia. De forma reacionária, reforçam modelos de ser mulher. A menopausa, por exemplo, é um acontecimento fisiológico que parece explicar tudo: reduz o sujeito, retira a complexidade dos acontecimentos sociais, coloca o corpo feminino no lugar da velhice; outro exemplo é a tensão pré-menstrual, que liga o corpo aos hormônios, explicando e justificando comportamentos de agressividade; já a puberdade tem sido uma verdadeira crise clinicamente explicável. Fonte de transmissão de doenças, demarcação do

biológico e do geneticamente dado, o corpo feminino até poderia produzir loucura e a solução estaria, para os médicos, no resgate da natureza: a maternidade.

Perguntando-nos sobre o que as revistas produzem quando veiculam corpos de mulheres magras e belas, modelos de perfeição e idealização, apontamos para o cada vez mais explicito enrijecimento do belo nos lugares de padronização. Há definição do que é a mulher, de como ela deve se adornar para o olhar do outro, de que modo deve viver, se adietar, amar, existir.

A exceção, o precipitado, que aqui seriam as outras muitas formas de beleza, desencontradas entre si, mas em comum a ancoragem na manifestação estética humana, como a pele negra, as rugas de um tempo vivido contornando faces, os sinais escurecidos pelos longos banhos de mar sem protetor solar, os pés gastos pelas caminhadas na vida, os contornos avolumados de um corpo rechonchudo que apenas decidiu existir de determinada forma e não de outra, mesmo a própria condição de liberdade do corpo, tudo é apagado pelo que a autora nos aponta como a naturalização bem sucedida do que é ter e se manter mulher na dimensão estética e da saúde.

Contudo, precisamos apontar que se trata, quando a beleza é explicitada num dado modo nas revistas – mulheres jovens, magras, brancas – de produção, de construção e, portanto, de performance. É de certo corpo de mulher e não de outros – aquele autorizado simbolicamente por muitos veículos, sendo as revistas de beleza e boa forma mais um desses importantes artifícios de construção do belo – que reportam as imagens. Com isso, o saber médico é uma ideologia sólida, ancorada nas diferenças corporais entre homens e mulheres como exclusivo critério de identidade. Tanto que as matérias se direcionam para mulheres e, ainda, para um seguimento especifico de constituição do feminino.

6. CAPITULO IV: O CORPO EM CONFECÇÃO NA ENGREMAGEM