A rodovia dos Imigrantes afeta importantes ecossistemas. O traçado da pista ascendente, antes da sua construção, apresentava cobertura florestal contínua do reservatório da represa Billings até a Baixada Litorânea. A realização dessa obra causou significativos impactos ambientais.
Na época, apesar da existência de decretos estaduais, como a Reserva Estadual da Serra do Mar, do Rio Branco – Cubatão, dentre outros que incidiam
sobre a Serra do Mar, estes não possuíam mecanismos impeditivos para a execução do empreendimento e a supressão vegetal realizada. Assim, tais decretos não puderam impedir os grandes impactos ocorridos (Parecer Técnico CPRN/Daia 162/99 – Anexo A).
A própria Lei 4.771/65 (substituída posteriormente pelas leis 5.106/66, 5868/72, 5870/73 e 7803/89), que estabeleceu o Código Florestal, também dispunha de artigos referentes à proteção de ecossistemas que poderiam ter sido utilizados para disciplinar algumas ações durante a execução da pista ascendente. Na realidade, questões relacionadas à preservação de recursos naturais e manutenção da qualidade ambiental começaram a ser introduzidas no país, em meados da década de 1970, impulsionadas pelas discussões sobre o meio ambiente em nível mundial.
Somente, em 1977, após a conclusão da pista ascendente, foi criado o Parque Estadual da Serra do Mar (PESM), pelo Decreto 10.251/77. É do mesmo período a Lei 1.172/76, de Proteção de Mananciais, pela qual a bacia hidrográfica da represa Billings passa a ser classificada como importante manancial de água para abastecimento público da região metropolitana de São Paulo.
Desse modo, no desenvolvimento do projeto de construção da pista descendente da rodovia dos Imigrantes, o cenário foi totalmente distinto ao da primeira pista. A pista descendente insere-se, em quase sua integralidade, nos limites do PESM e também nas áreas de mangue. Seu planejamento esteve condicionado à observação dos aspectos restritivos, contidos nos instrumentos reguladores legais que incidem sobre a área afetada. Cabe salientar que, não obstante a existência de restrições específicas ao uso dessas áreas determinadas a partir desses instrumentos, há legislação que possibilita o uso dessas áreas. Pelo Decreto Federal 750/93 para a execução de obras, planos, atividades ou projetos, desde que de utilidade pública ou interesse social, pode, excepcionalmente, ocorrer a supressão de vegetação primária ou nos estágios avançado e médio de regeneração de Mata Atlântica, mediante a aprovação de estudo de impacto ambiental.
Além dos ecossistemas – Mata Atlântica e manguezais – os recursos hídricos constituem outro importante bem natural afetado pela rodovia dos Imigrantes. Quanto à proteção desses recursos, vários dispositivos jurídicos foram elaborados após o Decreto 8.468/76 (Quadro 3.2).
Dentre esses dispositivos merecem destaque a Resolução Conama 20/86, a Lei Estadual 9.034/94 e a Lei 9.866/97. A Resolução Conama 20/86 estabelece a classificação das águas, segundo seus usos preponderantes. A Lei 9.034/94 define a divisão do Estado de São Paulo em unidades de gerenciamento de recursos hídricos (UGRHI). Tal subdivisão propicia o disciplinamento do aproveitamento desse recurso natural no Estado, por meio de comitês e planos de gerenciamento. A Lei 9.866/97, por sua vez, tem como um de seus objetivos compatibilizar as ações de preservação dos mananciais de abastecimento e as de proteção do meio ambiente com o uso e ocupação do solo e o desenvolvimento socioeconômico. A pista descendente da rodovia dos Imigrantes está totalmente inserida na UGRHI 7 (Baixada Santista), fazendo contato, ao norte, com a UGRHI 6 (Alto Tietê)10 que engloba a área da represa Billings (Figura 3.6).
Figura 3.6 – Traçado da rodovia dos Imigrantes
(em azul) que atravessa as drenagens pertencentes às UGRHI 6 e UGRHI 7.
No traçado da rodovia dos Imigrantes, a sub-bacia do rio Cubatão é uma das principais da UGRHI 7, com área de drenagem de 175,55 km2. O rio Cubatão e todos os seus afluentes da margem direita até a confluência com o rio Pilões, outra sub- bacia relevante da área, são enquadrados como cursos d’água Classe 1 (conforme
10
As águas do Alto Tietê são revertidas à Baixada Santista, via canal de Pinheiros/reservatório Billings, para geração de energia elétrica na usina hidrelétrica Henry Borden, destinada ao abastecimento público e industrial em Cubatão.
Resolução Conama 20/86). Esses rios constituem-se, ainda, em importantes mananciais para abastecimento da Baixada Santista, sobretudo o rio Cubatão.
A Sabesp possui tomadas d’água nos rios Cubatão e Pilões para captação destinada ao provimento público. De acordo com SÃO PAULO (2003b), a sub-bacia do rio Cubatão enquadra-se como uma das mais críticas desta UGRHI, no tocante às conseqüências dos processos erosivos e de assoreamento, bem como de disponibilidade hídrica superficial.
O desenvolvimento do projeto e a condução das atividades de construção das obras da pista descendente da rodovia dos Imigrantes tiveram que respeitar os principais dispositivos legais no tocante à preservação e proteção dos recursos naturais (vegetação e hidrografia) locais, apresentados no Quadro 3.2.
O longo hiato de tempo – 22 anos – que separou a realização das duas primeiras pistas da rodovia dos Imigrantes, foi marcado por profundas mudanças globais, sobretudo pela conscientização ambiental e implementação de políticas com caráter de conservar e preservar os recursos naturais.
O projeto original da pista descendente havia sido concebido no final da década de 60. Na sua retomada, em meados da década de 80, teve que ser submetido a revisões devido ao aprendizado acumulado na execução das obras da primeira pista e ao desenvolvimento tecnológico, e, ainda, adequado à política ambiental recém- institucionalizada em nível nacional. As mudanças expressivas no cenário nacional, mormente as de cunho legal, foram decisivas para a discussão e inserção das condicionantes ambientais na escolha do traçado da nova pista.
O projeto foi considerado ambientalmente viável, em 1989, com a aprovação do EIA. Outro extenso intervalo de tempo – nove anos – transcorrido até sua efetiva retomada pela Concessionária Ecovias, inseriu o projeto em novo contexto com relação a questões técnicas, econômicas e ambientais. A execução da obra passou a ser de responsabilidade privada, suportada pelo financiamento de agências multilaterais internacionais. A tecnologia da construção civil e do controle ambiental desenvolveu-se e inovou-se. As técnicas de avaliação e de atenuação de impactos ambientais evoluíram nitidamente pela consolidação da política ambiental no país e atuação de organizações não-governamentais.
O processo de AIA da pista descendente da rodovia dos Imigrantes possui, desse modo, história bastante antiga e singular. Seu início remonta ao ano de 1988, em contexto de legislação ambiental recém-implementada no país, com a apresentação do EIA de um dos mais importantes projetos no Estado de São Paulo a afetar áreas legalmente protegidas e com restrições ambientais.
Esse panorama permite destacar as inter-relações travadas pelas variáveis técnicas e ambientais, na minimização dos impactos ambientais do projeto e da
construção da pista descendente, tendo como fio condutor o processo de AIA e ação de vários atores.