3. ÇALIŞMA RAPORU
3.5. TOPLANTILAR – SÖYLEŞİLER – ZİYARETLER
Durante o processo de criação, cada exercício ou ação realizados no espaço cumpre seu papel determinador na construção de um arcabouço de ações e ou qualidades de energia para os atores. Ao me relacionar, como diretor, com este material, já não numa fase de apropriação dos atores dos exercícios, não ainda em aprendizado, mas sim de conscientização deles a partir de suas potencialidades começo então a perceber como estas energias, ritmos e corporalidades são já nossa cena em florescência, em apresentação primeira, se expondo. Explorar estas questões no discurso e na construção do espetáculo mostrando aos atores em como quero/penso em utilizá-las em cena, é um jeito de adequar nossas descobertas conjuntas para a cena.
Du Sarto Relatório 38 do Diário de Bordo do espetáculo Habemus Corpus
A sala de ensaio onde trabalhamos grande parte de nossos encontros tinha a seguinte formatação:
Medidas: Sla de ensaio com chão de madeira; pouca luz (luzes comuns, brancas, divididas aleatoriamente pelo teto da sala), janelas sem ventilação e com vidraças fixas. Algumas vezes portas abertas, outras vezes fechadas, de acordo com a sensa- ção e energia que eu gostaria que os atores expressassem/exercitassem.
A princípio, pude perceber em nossos processos, por exemplo, que uma luz mais branda ou uma penumbra podia trazer aos/as atores/atrizes um comportamento mais intimista e individualizado em seu fazer, voltando-os/as para seu centro de energia pessoal de modo muito concentrado e revelando uma ação cênica particular, não par- tilhada com os outros/outras atores/atrizes em cena.
Percebi, também, que com as portas da sala de ensaio abertas, permitindo a entrada de um pouco de luz solar, o grupo manifestava qualidades de ação mais despertas e partilhadas durante a criação, relação contrária a obtida com o exemplo dado acima. De fato, quando eu desejava uma energia mais densa no corpo dos atores, envolvida com uma investigação mais introspectiva, trabalhávamos com as portas fechadas e com as luzes em penumbra. Junto disso, colocava-me disposto a conduzir o trabalho de maneira mais suave e íntima.
Por outro lado, se a ideia era trabalhar a corporalidade dos atores para uma energia mais ativa e potente, acendia mais luzes pelo espaço e deixávamos circular mais ar e luz pelas portas. Nesta condução, eu utilizava um comando mais enérgico. E, desta forma, a energia dos (das) atores (atrizes) se fazia mais potente através da ressignifi- cação daquele espaço e de suas estruturas espaciais organizadas de modo diferente.
Dos exercícios propostos por mim no espaço de ensaio, nasce à cria- ção processual; e da criação, nascem às ações que comporão as ce- nas de nosso produto cênico através de meu olhar e das escolhas que faremos para compor. Assim, o processo que estamos criando se dá a partir do encadeamento de cada fase construída até seu transformar estas fases em expressividade composta, parra ser levada a público. (Sarto, Du. Diário de Bordo, Relatório 38, Habemus Corpus, UFOP, data: 08/08/2015).
Outra percepção minha deste espaço de ensaio foi a de que, certa vez, o espaço da sala de ensaio usual e cotidiano não estava contribuindo qualitativamente para o tra- balho criativo dos/das atores/atrizes em uma atividade física que realizávamos cha- mada Corrida dos ventos.
Esta, dava-se da seguinte maneira: os atores e as atrizes realizavam uma corrida estabelecida a partir de sopros de ar, criados propositalmente por eles/elas em sua coluna, e que tinham como objetivo reverberar em todo o corpo, auxiliando-os a se deslocarem até ao ápice de uma corrida, trazendo, por fim, uma potente energia cor- poral.
Esta atividade fez parte de todo nosso processo de criação e, por isso, pesquisamos sua execução intensamente, tanto de modo individual como coletivo. A prática se mos- trava ligada tanto à sensação de liberdade ao correr doas/das atores/atrizes e sentir o vento bater em seus corpos livremente – imagem trazida por um dos atores a mim –, quanto à imagem poética de uma “idealização de um correr atrás da vida, ao ex- tremo, correr sempre em frente, correr como forma para estar vivo”.
Ao perceber que o espaço (sala de ensaio usual e suas limitações) proposto por mim para a realização desta atividade àquela não estava contribuindo satisfatoriamente para o nosso criar em processo e, principalmente, com a ação dos/das atores/atrizes ao realizá-la, resolvi propor que transferíssemos um de nossos ensaios para um es- paço ao ar livre e onde existisse uma constante corrente de ar.
Diante disso, elegi uma praça plana situada acima de um relevo de morro e com uma bela paisagem ao entorno para que pudesse nos trazer ao máximo a sensação de expansão do espaço de nossos corpos. Envolvidos com o vento que circulava livre à nossa volta, produzíamos novas descobertas a partir daqueles corpos em ação na- quele novo espaço de ensaio. Além da Corrida do Vento, realizamos muitas outras atividades ao ar livre.
Posteriormente, quando voltamos a fazer estes mesmos processos físicos e criativos em sala de ensaio, pude perceber que a presença e o pulsar, compreendidos, apre- endidos e expressados pelos corpos dos atores e das atrizes no espaço externo, e àquela relação com o vento livre, foram transmutados de maneira simples e natural para a sala de ensaio fechada.
Trago novamente uma percepção de Araújo de seu trabalho como diretor encenador, voltada para a relação espaço/ator, a qual acredito ser útil para esta nossa reflexão.
O espaço afeta a interpretação, ao proporcionar ao ator uma situação atmosférica e objetual específica, diferente daquela construída ceno- graficamente. (...) “a entrada no local escolhido pode ser extrema- mente inibidora para os intérpretes, fazendo-se necessária a criação de estratégias para superação dessa timidez, tais como exercícios e improvisações direcionados. Por outro lado, esse elemento desestabi-
lizador que o lugar “inusitado” provoca, pode também ser aproveitado
a favor das interpretações (ARAÚJO, 2002, p. 136).
Após a transformação do espaço de ensaio e suas readequações, percebi o quanto elas foram necessárias e úteis ao trabalho criativo e à potencialização das energias presentes nas experiências vividas.
Assim, por vezes alimentava este redescobrir das ações já estabelecidas em ensaios anteriores. E, sempre que necessário, proporcionava experimentações e vivências conduzidas fora da sala de ensaio habitual. Começamos, eles/elas e eu, sucessiva- mente, a descobrir novas possibilidades de exploração e reconstrução do espaço co- mum da sala de ensaio em que criávamos.
Ainda em favor de manter esta vivacidade da experiência dos corpos obtida ao ar livre, por vezes requisitava aos/as atores/atrizes que as Corridas do vento fossem executa- das nos corredores extensos e circulares entre as salas do prédio em que ensaiáva- mos.
Através dessa nova possibilidade de exploração espacial pudemos adquirir uma ener- gia corporal estendida, presente, e em busca de mais e mais liberdade espacial para o correr livre, que mesmo quando o era não em espaços variados e externos, locali- zava-se de maneira expressiva da mesma forma dentro do primeiro espaço de traba- lho, ou seja, a sala fechada.
Várias foram nossas experiências na tentativa de dar abertura às sensações e às pos- sibilidades trazidas pelo ato de correr em espaços mais amplos. Posteriormente, esta energia sempre era reconduzida por mim para a sala de ensaio fechada com o intuito de energizar, ressignificando aquele espaço de ensaio utilizado cotidianamente, rees- tabelecendo com isso dada atmosfera energética, a fim de corroborar com a criação.